O PIB é pop

junho 9, 2017

Há toda uma geração de economistas que não leu Adam Smith – e que também não sabe o que é PIB.

Smith se encaixa na definição de clássico: é o autor que todo mundo cita e ninguém conhece direito.

Com o PIB é parecido: alguns odeiam, outros usam como denominador em um monte de contas, mas pouca gente sabe bem o que ele é.

Só para registro: ele é uma medida de geração de renda. O PIB não é “a soma de tudo que é produzido”, não é “a medida da riqueza do país” e muito menos “a soma das riquezas produzidas”.

Ele pode ser calculado de três maneiras diferentes (mas todas dão o mesmo resultado) e, ao longo do tempo, virou uma espécie de denominador universal para números grandes: o consumo, os impostos e até o valor dos empréstimos do BNDES são apresentados como percentual do PIB.

Nem sempre a divisão de alguma coisa pelo PIB faz sentido, mas ela normalmente dá uma ideia de ordem de grandeza.

Bom, para tentar explicar a um grupo ainda não muito definido de alunos o que é o PIB e como ele é calculado, preparei  o texto neste link (que não custa deixar aberto a quem se interessar). O texto vem com várias tabelas ilustrativas, com os dados das últimas contas nacionais anuais que o IBGE publicou.

Além de falar do PIB anual, o texto mostra um pouco das contas que levam ao PIB trimestral, objeto de culto em consultorias e em áreas de pesquisa de bancos.

Há um capítulo também (é pequeno) sobre contas de meio ambiente e um sobre classificações e definições (para quem sofre de insônia).

Se alguém ler até o fim, por favor, escreva avisando.

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Pavão: classificado como parte da Agropecuária.

PS. O curioso é que várias definições das contas nacionais já apareciam no Riqueza das Nações, de Adam Smith. Algumas, como a formação de capital (investimento), já aparecem até com o nome que ficou nas contas nacionais.

Concentração de renda

maio 28, 2017

Vivemos em uma boa época para quem estuda crises econômicas e recessões violentas. Basta dar uma volta pela rua para ver os seus efeitos: as placas de Vendo e Alugo nas janelas, os mendigos em número cada vez maior…

Mas além dos efeitos óbvios da crise, há alguns surpreendentes. Um deles é o aumento da concentração de renda e seus efeitos sobre o comércio. O que vender em época de queda acumulada de 9% do PIB (desde o segundo trimestre de 2014)? Quem tem dinheiro para comprar? O que essas pessoas querem?

A resposta está em uma loja recém aberta no Edifício Avenida Central, no Centro do Rio. A loja, no térreo (em um bom ponto), vende bonecos decorativos para adultos.

A crise, como também dá para ver a olho nu, é assimétrica: deixa milhões de pessoas sem emprego e renda, mas mal faz cócegas em alguns outros. O 1% mais rico pode gastar R$ 1.176 em um boneco do Coringa ou R$ 3.000 em um do Robocop (o mais caro que vi na loja).

Obra de arte?

Para os menos abastados, bonecos de desenho animado japonês por R$ 700.

Dourados: só para quem não vê os pedintes nas esquinas.

Economia da saúde

abril 29, 2017

A gestão atual do Ministério da Saúde entrará para a História por sua criatividade sem limites.

Hoje pude ver de perto essa inovação curiosa que é a campanha de vacinação sem vacinas.

É simples: você chega ao posto de saúde e descobre que as vacinas acabaram antes das oito horas da manhã, logo que o posto abriu.

– É para febre amarela? Tem que chegar às 7h – me disse uma mãe de criança com o filho no colo. – Em Botafogo também já acabou.

Segui com minha filha para a Cinelândia, onde eu mesmo tomei a vacina há alguns anos. Lá, o segurança do posto de vacinação foi ainda mais claro:

– A gente só recebe 20 doses por dia. O melhor é agendar a aplicação.

Mas não era uma campanha de vacinação? Agendar no meio de uma campanha?

O verão já acabou e anda há tempo até os mosquitos voltarem a ser um dos grandes terrores cariocas. Mas mandar as pessoas aos postos de saúde sem ter vacinas para aplicar não parece o exemplo de gestão que o atual ministro prometeu quando recebeu o Ministério Saúde em troca dos votos da bancada do PP no Congresso…

Injeção? Vacina? Programa de saúde pública? Só pagando, na clínica particular. Vai um plano de saúde popular sem cobertura de internação também?

Sair do Rio de Janeiro ajuda a pôr a cidade em perspectiva. Em outros lugares, há bons imóveis anunciados por R$ 150 mil. Na Zonal Sul do Rio, eles custam quase um milhão.

Com os aluguéis é a mesma coisa: muito mais altos no Rio.

Os preços dos serviços privados são mais altos e a prestação de serviços públicos está mais decadente no Rio. Os funcionários do Estado estão com os salários atrasados, as unidades de pronto atendimento de saúde estão com seus contratos (caros) precisando de revisão e a universidade do estado só não fechou as portas porque professores e alunos toparam trabalhar em condições ruins para universidade não fechar de vez.

Ficou caro e ruim viver no Rio. O Estado vai passar as próximas décadas pagando dívidas como a do metrô (assumida para pagar quase R$ 10 bilhões à Odebrecht e Associados). O município também tem dívidas olímpicas a pagar…

Que empresa com alguma capacidade de escolha abriria filiais ou novos negócios nessa  cidade cara e pouco funcional?

A alta de preços e a destruição dos serviços públicos,  então, sinalizam baixo crescimento à frete. E, com ele, virão menos trabalho, menos impostos, menos serviços públicos e uma espiral de decadência.

A saúde pública é um dos maiores exemplos. O atendimento básico – que deveria ser municipal – é feito pelo Estado, em unidades privadas terceirizadas contratadas sem licitação a preços, no mínimo, discutíveis (essas são as UPAs).

Por falta de caixa, o governo cortou os repasses a algumas UPAs, que cortaram o atendimento aos doentes. Há quem defenda que as UPAs deviam mesmo ser fechadas, mas antes é preciso saber o que pôr no  lugar.

Que empresa ou família vai querer se instalar em um lugar em que a saúde pública  é assim, os planos de saúde são caros e a rede hospitalar privada está sobrecarregada?

Sair do Rio é, cada vez mais, a opção para recém formados, aposentados e qualquer um que tenha uma oferta de trabalho ou fonte de renda fora de lá. É o que escuto cada vez mais, das pessoas mais diferentes.

E, de fato, a vida é mais tranquila fora do Rio. Fora de lá, não é preciso ouvir um governador que atrasa salários dizer que quer expandir o metrô até o Recreio dos Bandeirantes.

Se as coisas continuarem desse jeito, os que não forem expulsos da cidade pela crise econômica serão expulsos pelos insultos de Pezão e Associados.

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Urubu em Jurerê: fugindo do Rio de Janeiro.

Gambiarra economics

março 18, 2017

Os remendos, as soluções de curto prazo com objetivos muito específicos, os subsídios, as taxas  juros especiais, os regimes tributários diferenciados, tudo isso faz parte de um modelo teórico heterodoxo que pode ser chamado – com muita precisão – de Teoria endógena da aplicação sequencial de gabiarras ou, como diriam os ingleses, gambiarra economics.

Um dos maiores consensos teóricos a respeito da economia da gambiarra é que ela é uma política de curto prazo: não resiste por períodos de mais de um ou dois anos:

” A gambiarra arrebenta”, já disse um de seus defensores, em voz baixa, em uma sala escura, sem gravadores ou câmeras ligados.

Os incentivos específicos, então, são apenas agrados a amigos. Quem os recebe sabe que eles não vão durar (mas os aceita assim mesmo, afinal, é descortês recusar presentes).

Quando as gabiarras arrebentam, em geral, vem o dilúvio. Os problemas que elas remendavam já cresceram o bastante para estoura-las e a crise vem pior do que parecia possível antes da adoção da política da gambiarra.

O dilúvio, no entanto, atinge com mais força quem estava perto da barragem. Nesse momento, os mais bem informados (ou bem relacionados) já terão fugido ou feito hedge de gambiarra no mercado financeiro.

Os responsáveis pela adoção da política, normalmente, voltam para a academia ou para alguma empresa amiga e imitam Luis XVI, dizendo sorridentes:

“Depois de mim, o dilúvio.”

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A crise bate à porta, entra e fica.

A grande ideia da carreira de Adam Smith não foi a de que a divisão do trabalho aumenta a produtividade. Também não foi a de que, movidas pelo interesse próprio (e respeitando algumas regras, como não matar, não fazer cartel etc.), as pessoas trabalham umas para as outras e organizam o trabalho de forma eficiente.

A ideia que me faz classificar Smith como gênio também não tem nada a ver com o equilíbrio de mercado, com as pessoas querendo produzir mais e consumir menos de um produto quando seu preço sobe.

Gosto dessas ideias e sei que, como quase todas, elas são uma descrição do que Smith observou visitando fábricas e estudando séries de dados (como as dos preços da prata, no capítulo mais extenuante do Riqueza das nações). Muito disso já era intuído pelos empresários da época, mas foi organizado, digerido e posto no papel por Smith.

Mas sua grande ideia, a que o tornou conhecido ainda no século XVIII – e que até hoje é lida sem muitas inclusões, exceções e refinamentos – tem a ver com como as pessoas vêem a si mesmas  e às outras, tem a ver com até que ponto sentem empatia com o sofrimento alheio e como é irritante quando não sentem.

Thomas Piketty, em seu livro sobre concentração de renda e patrimônio, lembra que, apesar de seu alto nível de renda, os Estados Unidos nunca desenvolveram um sistema de bem estar social similar aos sistemas europeus. Os EUA não têm nem ao menos um sistema de saúde pública.

Para Piketty, eles não criaram um estado de bem estar social porque são racistas. Parte da população, mesmo sendo pobre, vota contra o aumento da segurança social e a garantia de atendimento médico para excluir outra parte – com a qual não sente empatia. Eles literalmente não estão nem aí para o sofrimento alheio (sofrimento com a falta de hospital ou de apoio social básico).

E quando a concentração de renda aumenta, essa falta de empatia ganha ares de crueldade.

Um nível alto de desigualdade faz com que algumas pessoas tenham boas reservas/sobras enquanto outras não conseguem o bastante para o básico. As pessoas que não têm o básico ficarão ansiosas para conseguir mais dinheiro. Mas boa parte dos possíveis contratantes está na parte mais rica da população.

A imagem do bilionário praticamente comprando pessoas para satisfazer seus caprichos mais estranhos foi a que saiu do relatório (com informações até agora não comprovadas) sobre o novo presidente dos EUA publicado pelo site Buzzfieed.

Se Trump foi eleito porque parte do eleitorado estava insatisfeita com a estagnação de sua renda nos últimos anos, seu perfil concentrador promete que esse problema não vai ser resolvido: teremos mais concentração de renda e mais estagnação para as classes média e baixa nos EUA. Ah, e sem saúde pública ou benefícios sociais. Afinal, mesmo já tendo pedido falência várias vezes, Trump não tem empatia com esse bando de perdedores pobres (que o elegeram).

É estranho que Adam Smith – vendido pelos conservadores como um defensor de que o egoísmo é o motor da economia – seja, na prática, um delicado observador da solidariedade (e da falta de de solidariedade) entre os homens.

Mas é preocupante que, depois de séculos contando com o egoísmo como  motor da economia, tenhamos chegado a um ponto em que a falta de empatia com o sofrimento alheio seja o determinante da mudança política em muitos países.

Se as novas políticas sociais e econômicas forem criadas com esse desprezo total pelo que os outros sentem, aumentaremos ainda mais o sofrimento e a insatisfação a nossa volta.

Nos tempos da tecnologia de informação e dos níveis de renda (total) mais altos já registrados, condenamos pessoas a sofrerem por não poder pagar um médico (e por nosso governo ter sucateado o SUS).

Tenho dificuldade em entender porque parece ter havido uma onda conservadora em tantos lugares. No Brasil, houve uma grande decepção com a esquerda (que o PT engoliu e depois afundou). Mas na Inglaterra? nos Estados Unidos? Sim, havia insatisfação por lá. Mas por que ela foi canalizada nessa direção? Por que não virou pressão por mais serviços públicos? Por que o discurso do imigrante como bode expiatório emplacou?

Eu sei, há o problema do medo. O combustível de quase todo conservador é o medo. Medo de perder o que tem, principalmente. Em tempos de mudança, como a que vem com a migração dos sírios para a Europa, muitos conservadores ficam com medo de perder espaço.

É horrível. Itália, Alemanha e tantos outros países europeus enviaram emigrantes, aos milhões, para todo o mundo nos séculos XIX e XX (quando enfrentaram guerras e crises econômicas). E agora, parte de sua população é fortemente contra receber gente de países em guerra ou em crise.

A falta de empatia, como diria Smith, cria um problema sério para a forma como as sociedades se organizam.

A dúvida é se, apesar de toda a tecnologia e de todo o desenvolvimento econômico que conseguimos nos últimos 300 anos, a falta de empatia e as políticas concentradoras que ela tenta impor terão força para nos levar a uma guerra de todos contra todos, para nos levar a um  período em que políticas toscas desmoralizam os governos e as pessoas não vêem mais para onde correr.

Estamos tomando o rumo do aumento da pobreza? Isso vai ser bem digerido pelas pessoas que votaram nos conservadores achando que eles trariam alguma melhora? E depois, quando a insatisfação aumentar, o que vai acontecer?

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De volta à idade das trevas?

Contos de graça no natal

dezembro 23, 2016

Está de graça, na Amazon, o livro que incluí no site, em setembro, para disputar um prêmio de literatura (que não ganhei). O site da Amazon não permite que os livros fiquem de graça mais de cinco dias. O livro está de graça, então, neste link, entre 24 e 28 de dezembro. Depois disso, volta a custar R$ 2,00.

O texto é a história de amor entre uma estudante de matemática sem escrúpulos e um estudante de letras sem dinheiro.

Além disso, juntei em PDF (em um formato que cabe em telas pequenas, como a do kindle), meus contos do fundo da gaveta. Eles são razoavelmente engraçados e ficarão de graça, em PDF, para sempre.

Se a Amazon continuar com zero hits, o texto de lá também vai acabar aqui, em PDF. Achei que, na Amazon, o texto seria mais marquetado ou teria mais visibilidade que no meu próprio blog. Ilusão, é claro.

Já me disseram que, se quiser ser lido, tenho que criar um perfil no Facebook. Mas ler e escrever contos é o oposto de ler perfis e abobrinhas rotineiras (ou é minha antipatia por redes sociais que realmente me impede de fazer isso).

Para quem quiser, então, boa leitura.

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Ovelha caçada por Murakami que gostou dos contos (a ovelha, não o escritor).

Encontrei o trecho abaixo lá pelo meio da Teoria dos Sentimentos Morais, primeiro livro de Adam Smith, publicado em 1759. O trecho é a melhor descrição que encontrei até agora para o ressentimento que parece mover a onda conservadora pela qual estamos passando.

Pela descrição, a impressão que fica é que o ressentimento não vai passar tão cedo.

“O propósito mais almejado pelo ressentimento não é tanto fazer com que nosso inimigo, por sua vez, também sinta dor, mas fazê-lo saber que a sente por causa de sua conduta passada, fazê-lo arrepender-se dessa conduta e perceber que a pessoa que ofendeu não merece ser tratada daquela maneira. O que mais nos enraivece no homem que nos ofende ou insulta é a pouca conta em que parece nos ter, a preferência insensata que dá a si mesmo em detrimento de nós, e o absurdo amor de si que o faz imaginar que outras pessoas podem a qualquer momento se sacrificar por seus caprichos ou humor.”

Não acho que os políticos religiosos e aristocráticos que estão sendo eleitos sejam as pessoas mais habilitadas para diminuir esse ressentimento. Pelo contrário, eles têm potencial para aumentá-lo.

Resta saber como o público vai reagir quando os problemas que esperava resolver crescerem mais em vez de diminuir.

Peru de natal preventivamente ressentido.

Peru de natal preventivamente ressentido.

 

Estudar o fim do mundo

novembro 25, 2016

Passo pelos repórteres acampados no caminho de casa e descubro que sou vizinho do ex-governador Anthony Garotinho (solto esta semana após pagamento de fiança).

Em casa, descubro que a água foi cortada por conta da lenta manutenção da Cedae.

A renda da família está menor graças ao governador Pezão – que parcelou em sete vezes o salário do funcionalismo estadual.

Diante da derrocada (que todos já esperávamos para o pós-Olimpíadas), começo a pensar em largar tudo e ir estudar.

Mas um ex-professor, que encontrei no aeroporto outro dia, traçou um cenário ruim aí também:

“Os centros de excelência”, ele disse, “estão preocupados em publicar artigos em revistas no exterior”. Diante da minha expressão de dúvida, ele continuou: “Os incentivos são para isso, para produzir coisas acadêmicas, teóricas, que sejam aceitas por revistas de fora. Essas coisas práticas que você quer estudar, dificilmente alguém nos principais cursos de economia aceitaria te orientar nisso. Não é algo que renda uma publicação na American Economic Review“.

Quer dizer: o mundo está acabando e até para estudar o fim do mundo é preciso bater de frente com algum incentivo distorcido…

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Vaca cuja tese sobre a queda do muro de Berlim foi recusada na FGV.

– O senhor pretende desviar o dinheiro da prefeitura, pretende usar a verba de publicidade para financiar as suas próprias revistas ou as de seus amigos?

– Pretendo sim. A prefeitura agora vai pôr muitos anúncios na Caviar Lifestile, a revista mais cara do meu grupo, como o nome deixa claro.

Bom, a pergunta não foi assim – e a resposta, muito menos. Mas há alguns momentos em que é importante conhecer a definição clássica de hipocrisia: a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.

Explicando bem: mesmo que um político pretenda desviar dinheiro público para suas empresas ele tem que dizer, enfaticamente, que não vai fazer isso de jeito nenhum. É hipócrita, mas não fazer isso é ofender abertamente o público.

As respostas “não costumo comentar sob hipóteses” e “essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário” não são boas.

A pergunta da repórter foi:

Julia Duailibi: “O que o senhor acha de usar recursos da publicidade da prefeitura para investir em revisas do estilo da Caviar Lifestile? 

João Doria : “Nunca teve isso. Você quer dizer hipoteticamente?”

Duailibi:”Hipoteticamente: uma revista com o perfil da Caviar Lifestile, se batesse lá na porta da secretaria de comunicação e pedisse recursos para publicidade. O senhor acha que recursos públicos poderiam ser usados para esse tipo de publicação?”

Doria: “Julia, eu não costumo comentar sob hipóteses. Essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário.”

A repórter, vendo a derrapada do entrevistado, lhe deu outra chance:

Duailibi: “O senhor pode fazer um exercício intelectual, assim, pensando hipoteticamente…”

Doria: “Eu agradeço, mas fique com o seu exercício você mesma.”

Duailibi: “É de uma pessoa da plateia essa pergunta.”

Doria, virando-se para a plateia: “Também agradeço.”

Duailibi: “Uma boa pergunta.”

Doria, para a plateia: “Não precisa se apresentar mas guarde para você o exercício.”

A entrevista completa, em vídeo, está no site da revista Piaui. O trecho acima vai do segundo 55:11 ao 56:06.

Não acompanho de perto a política local de São Paulo. Nunca tinha visto uma entrevista longa com João Doria. Não tinha opinião formada sobre ele. Agora tenho.

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Pinguim piauiense na plateia se ofende com resposta de Doria.

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Luz (fraca) no fim?

Lembro de meus posts de 2011 sobre o recém empossado governo Dilma. Minha impressão, na época, era de que o maior problema da presidente era a incompreensão do que acontecia na economia: o problema era mais burrice que maldade.

A esperança – eu pensava na época – era o debate. Se os problemas da economia fossem discutidos de forma clara e aberta, talvez se pudesse pôr a política econômica na direção certa.

Bom, eu errei em apostar no debate como solução para mudar os rumos do governo Dilma. O debate nunca aconteceu: o governo não estava interessado em ouvir críticas (por mais construtivas pudessem ser).

Votando aos dias de hoje: Michel Temer parecia, até agora, menos arrogante que a antecessora (o que era motivo de esperança). Mas a reforma educacional por decreto (literalmente por decreto) começou a me convencer de que talvez, de novo, eu estivesse sendo muito otimista.

O teto para as despesas federais, apresentado com pouco debate, também não é um a boa notícia.

Sim, o orçamento está completamente estourado e é preciso fazer cortes significativos. Mas não se corta por decreto. Não funciona assim. Apesar do discurso de que “a saúde será preservada” a proposta continua sendo reduzir a despesa per capita do governo com saúde ao longo dos próximos 20 anos.

Corrigir os gastos com saúde só pela inflação (quando a população cresce) é diminuir o gasto por pessoa ao longo do tempo.

Na saúde, o item em que é menos difícil cortar é a prevenção (é menos difícil que cortar o atendimento das pessoas que esperam na fila e protestam contra a falta de médico). O problema é que é mais destrutivo. Nós vimos isso com os surtos de Zika e Chicungunha no início do ano.

Cortar gastos com saúde pode sair incrivelmente caro – e a despesa extra virá com o carimbo de despesa emergencial, com preço superfaturado e dispensa de licitação…

A solução – mais uma vez – é discutir a sério o corte antes de fazê-lo. É discutir ouvindo as propostas de quem critica (e não dando um desconto no primeiro ano para servir de manchete n’O Globo e reduzindo o gasto per capita nos outros 19 anos do pacote).

Se quiser ser melhor que a antecessora, Temer não apenas terá que fazer cortes – o que ela sempre se recusou a fazer – terá que conversar e ouvir os críticos. Meireles e companhia terão que ouvir os críticos. Eles são bons economistas mas não entendem nada de saúde pública: têm que ouvir para avaliar direito o potencial destrutivo do que estão propondo.

Arrogância e desconhecimento – Dilma já provou – podem ser mais destrutivos que más intenções.

Vale a pena tentar não repetir os erros da presidente cassada.

 

As portas estão fechadas

setembro 21, 2016

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Nas ciências sociais é muito comum que as conclusões venham antes das provas, que venham antes até do início do estudo.

O clássico nesse campo é Karl Marx, que escreveu um panfleto cheio de conclusões (O manifesto comunista) e depois passou anos redigindo três volumes para deduzir, garantir, dar certeza de que o futuro seria exatamente como o panfleto previa.

Marx não foi o único. Uma legião de lobistas defende, todos os dias, as idéias mais viesadas e mal fundamentadas que se pode imaginar. Assim como Marx – que, curiosamente, era financiado por um industrial alemão (Engels) – muitos deles recebem dinheiro de grandes empresas. Outros estão confortavelmente instalados em cargos vitalícios na academia. E boa parte afirma ser capaz de prever o futuro, ou, pelo menos, de entender como a economia funciona.

Marx não devia aparecer nas prateleiras de economia nas livrarias. Estaria melhor classificado em ciência política ou história da filosofia (mas, talvez, políticos e filósofos discordem…).

De qualquer forma, ele tem mais a ver com a defesa de grupos de interesse que com a tentativa de entender como a produção se organiza e como a renda circula pela sociedade.

A dificuldade em perceber isso e a herança estranha que é ter sido obrigado a ler Marx nos primeiros períodos de faculdade mantêm as velhas idéias do filósofo-profeta em circulação nas universidades de todos os cantos do mundo.

Elas são pouco eficazes, as ideias de Marx. Quando chegaram ao poder, os marxistas russos não sabiam o que fazer (Lênin escreveu um livro sobre isso….), mas as ideias se mantêm circulando apesar disso.

A queda do muro de Berlim, em 1989, devia te-las enterrado de vez, não só por mostrar que as pessoas estavam presas do lado de lá do muro (que queriam sair e não podiam), mas por mostrar que a profecia marxista sobre o futuro não tinha se realizado.

Marx era essencialmente um profeta. Seus textos afirmam poder dizer como o futuro seria. Era esse o seu diferencial. Os reformistas bem intencionados, ele chamava de utópicos. Ele não. Não estava propondo melhoras: estava prevendo o desenrolar inexorável da História.

Bom, o futuro é bem menos previsível do que ele imaginava – como qualquer empresário falido já teve o desprazer de descobrir.

A sobrevida das ideias do velho Marx tem dois efeitos colaterais desagradáveis (além de servir de desculpara para ditadores na Coréia do Norte e em ilhas obscuras): ela dá discurso a políticos populistas e atormenta estudantes que poderiam estudar outras coisas (mas fazem matérias obrigatórias com velhinhos dogmáticos).

Marx, se vivesse hoje, seria publicitário. Seu maior mérito foi criar bordões e frases de efeito eficientes: frases que convencem rápido, mesmo que sejam mal fundamentadas ou, no fundo, não digam nada, enfim: frases publicitárias.

Essa herança propagandista foi o que os partidos populistas souberam usar melhor. Nada muito contra. Eles têm todo o direito de alardear velhos e novos slogans com pouco conteúdo.

O que lamento é  o espaço que ocupam – que poderia ser ocupado, até pelas mesmas pessoas, com ideias que descrevessem a realidade de forma um pouco mais precisa.

Ninguém sabe exatamente como o mundo funciona. Mas já temos alguma ideia de como ele não funciona. Temos alguma ideia do que é um delírio e produz catástrofes sociais e do que parece ter alguma chance de dar certo.

O segundo efeito colateral – o efeito sobre os universitários quase indefesos – é seletivo. Para a maior parte deles, as leituras d’O Capital, são um estorvo e as matérias obrigatórias, rapidamente esquecidas. O efeito é só a perda de tempo, esforço e dinheiro. Mas, para uma pequena parte dos alunos (talvez os mais ingênuos ou os maliciosos com interesse em virar acadêmicos com a benção de seus professores), as aulas realmente afetam o que dizem e até o que pensam. É uma deformação que pode levar anos  para ser corrigida – se algum dia for.

Não acho que deviam proibir cursos populistas. Seria usar autoritarismo contra autoritarismo – e o autoritarismo nunca deve ser usado.

A solução é argumentar, conversar, pôr as ideias à prova.

É preciso ter paciência, pois enquanto discutimos, continuaremos vendo grandes delírios sendo cometidos e defendidos por gente que cresceu ouvindo “proletários uni-vos” em uma economia que é basicamente de serviços. Gente que cresceu em uma economia onde o tal proletariado é uma expressão antiga, que não descreve mais os funcionários de fábricas. Hoje, nas fábricas – contrariando as previsões de Marx sobre a piora nas condições de trabalho – há turnos e expediente bem definidos, férias, décimo terceiro e seguro desemprego.

Não é difícil imaginar uma dedicada estudante de primeiro período de Ciências Sociais, ou de História ou de Jornalismo perdendo horas para preparar um trabalho de dezenas de páginas sobre a “teoria do valor-trabalho” e acreditando que o valor do que ela escreve é dado pelo tempo que passa produzindo o texto: que o preço das coisas depende do número de horas usadas para produzi-las.

– Bom, se você encontrar alguém disposto a pagar o que quer que seja por esse texto… – rebateria um colega de turma menos ideológico.

A estudante ficaria triste por um minuto e, logo, começaria a pensar na injustiça do mundo e em como é difícil ter reconhecimento pelo esforço que fazemos.

Bom, é difícil mesmo. Mas isso não significa que suas 20 páginas descrevendo uma teoria antiga (e completamente errada) tenham algum valor.

A estudante – vamos chama-la de Célia – vai se juntar a outros colegas no Centro Acadêmico da faculdade. Mas logo vai perceber que a principal função do Centro Acadêmico é organizar festas (pois há muita demanda por festas na faculdade).

As festas ajudam a financiar viagens para encontros nacionais de estudantes – que também são festas, mas com gente de mais lugares.

Desiludida com o movimento estudantil, Célia vai procurar o partido político que acha mais simpático. Vamos chama-lo de Partido do Sol para Todos.

Mas logo ela vai perceber que o Partido do Sol não segue os preceitos do velho Marx, não acredita na vinda inexorável do comunismo (pois essa hipótese já foi refutada pelos fatos). O que os solares fazem é propor políticas (boas ou ruins) que acham que vão melhorar a vida das pessoas. Na prática, eles não são muito diferentes de um partido social-democrata.

Mas, quando ela diz isso a um representante do partido, sua reação é violenta:

– Não é verdade! Nós não somos como eles, não nos misturamos como eles!

Célia se espanta por o Partido do Sol votar quase sempre com o Partido dos Oligarcas Locais mas odiar o Partido Social Democrata (com quem o Partido da Ogra Defenestrada, aliado do Partido do Sol, disputa espaço em São Paulo).

Enjoada, e achando que tudo aquilo não passa de uma disputa por cargos e verbas, Célia deixa o partido solar e tenta se concentrar apenas em seu curso de jornalismo na UERJ.

Depois de alguns anos de estágio em jornais que se dizem liberais – mas fazem seus funcionários virarem noites nas sextas-feiras para fechar a edição de domingo – ela consegue um emprego na TV Planeta, canal conservador que paga salários um pouco mais altos que a média (e promete bons salários para quem chegar a cargos de chefia).

Em quatro ou cinco anos de TV Planeta, Célia já terá feito a transição de marxista radical para conservadora assustada.

Ela agora vai ter medo da violência urbana – que noticiou nos primeiros três anos como repórter de TV – vai defender a o aumento do número de policiais nas ruas e condenar os “baderneiros” que fazem protestos pedindo melhores serviços públicos.

A transição de uma ideologia simples para o medo de mudanças simples (o conservadorismo) é fácil porque, em geral, é feita sem muitas discussões: é como uma conversão religiosa, uma mudança de credo.

De um dogmatismo a outro, dá para ir sem passar pela liberdade de opinião ou pela defesa do direito dos outros de defenderem suas opiniões erradas.

Se o marxismo desemboca em regimes totalitários, o conservadorismo extremo faz a mesma coisa, pois nada como um pouco de repressão para impedir mudanças indesejadas e “manter as pessoas nos seus lugares”.

O que me assusta nisso tudo é a falta de debate, o excesso de convicção de conservadores assustados (e agressivos) e ideólogos empedernidos (e desatualizados).

Não há liberais. Não há ninguém que se proponha a discutir e a ouvir. Os que posam como liberais quase sempre são conservadores disfarçados, envergonhados por defender a manutenção de uma situação tão ruim…

Os conservadores em países pobres têm esse dilema: conservar “isso que está aí”? Mas eles, em geral, estão satisfeitos desse jeito e têm medo de ficar pior se as coisas mudarem.

Podiam discutir melhor o que mudar em vez de comemorarem a repressão a protestos de rua.

A impressão geral é de que falta debate, falta disposição das pessoas para admitir que podem estar erradas, que podem aprender alguma coisa ouvindo o que as outras pessoas pensam.

Vamos afundar por conta de uma mistura destrutiva de burrice e arrogância ideológica (antes, arrogância à Dilma, agora a arrogância de ministros nomeados para pilhar recursos sem ter que discutir projetos com ninguém. Discutir para quê?).

É curioso que se tomem decisões erradas porque todos acham que estão certos (até os corruptos, até os lobistas em pele de ideólogos…).

 

Ministros nomeados por qualquer motivo que não adotar boas políticas para suas áreas tomarão decisões destrutivas. A boa política (para educação, saúde ou mesmo para a pesca) não surge como um subproduto involuntário a partir da busca esbaforida por outros objetivos.

O problema é que o governo federal já admite que seus ministros não foram nomeados por conta do que pensam ou da política que propõem para cada pasta: foram nomeados para conseguir votos no Congresso. Não se deve então esperar que administrem suas pastas pensando no acesso da população a boas escolas e hospitais. Eles administrarão para dar aos congressistas alguma espécie de contrapartida por seu apoio ao governo.

Às vezes, a perspectiva de ter uma gestão curta em um ministério com muitos recursos pode induzir o ocupante do cargo a pedir contrapartidas muito altas de fornecedores (entregues diretamente aos congressistas), como indica esta nota d’O Globo sobre o ministro da Saúde Ricardo Barros.

Desse jeito, o governo Temer vai ter base parlamentar. Só não terá gestão executiva (e poderá ser ainda mais corrupto que o anterior).

Preferia que o Executivo se preocupasse em gerir a máquina administrativa em vez de apenas conseguir “apoios” do Legislativo. Depois de aprovar a reforma da Previdência (que tem mesmo que ser aprovada), espero que revejam algumas dessas concessões de ministérios (e que o estrago feito até lá não seja grande demais…).

Mas estou sendo otimista – e o que se viu até agora não devia inspirar otimismo.

Concessões “porteira fechada” desse tipo podem ser muito destrutivas. Um ministério não é um capitania imperial para ser concedido a quem quer que seja.

Em troca dos votos do PP, de Ricardo Barros, vão destruir o sistema público de saúde? Vão aumentar o custo dos seus insumos e, assim, diminuir sua capacidade de atender pacientes? Dilma fez isso (e defendia na TV o superfaturado Farmácia Popular) mas, pela grita dos fornecedores, Barros parece estar indo com muita sede ao pote…

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Primo do Pato amarelo: já instalado na Esplanada dos Ministérios.

O Globo x Temer

agosto 28, 2016

Na matéria de capa da edição de hoje de O Globo, uma fonte (identificada apenas como “auxiliar de Temer”) diz que, aprovado o impeachment de Dilma, o governo apresentará uma pauta que inclui “PPPs (parcerias público privadas) para esgotos, penitenciárias, hospitais e creches, comprando vagas para as crianças.”

Um turista desavisado que lesse a matéria poderia achar que o jornal é dirigido por petistas e que eles apostam em uma última tentativa de manter Dima no poder – assustando os senadores para que votem contra Temer no julgamento do impeachment esta semana.

Além do timing horrível para esse tipo de manchete (que não traz novos apoios e afasta parte dos que se tem), o conteúdo do texto assusta. Concessões de serviços públicos para empresas de saúde estão tendo que ser revistas no Rio de Janeiro. Aqui, o Ministério Público investiga se os contratos com hospitais e UPAs administrados por empresas privadas foram feitos a preços razoáveis. O próprio governo estadual admite que terá que rever alguns desses contratos pois, pelo preço com que foram feitos, é difícil mantê-los.

A crítica às UPAs não é à qualidade dos serviços: é ao custo com que é oferecido. E, justo na hora em que se fala em cortar custos, alguém (não ficou claro quem) aparece com a bandeira da privatização da saúde.

Países liberais como a Inglaterra têm sistemas de saúde basicamente públicos. Há motivos para isso. Nos anos 60, o Nobel de economia Kenneth Arrow já escrevia artigos sobre como a saúde é uma área diferente onde as leis da oferta e da procura não funcionam do mesmo modo como em um mercado de sabão em pó, por exemplo.

Na saúde privada, quem escolhe o produto ou tratamento (médico) não é quem o consome (paciente) e também não é quem o paga (plano de saúde). Isso cria incentivos distorcidos na hora de escolher que remédio comprar ou que tratamento receber. Ninguém mais compara custos e benefícios porque os custos são do plano, ou do paciente (considerando também o sofrimento como custo) e o médico pode receber pressão do hospital onde trabalha para pedir mais exames ou mais avaliações. Enfim, há décadas se sabe que a expressão “oferta e demanda” não resolve os problemas na área de saúde.

No caso das creches é pior ainda. O que a frase na matéria dá a entender é que o governo quer ressuscitar uma velha ideia de Milton Friedman. Para Friedman, o governo poderia privatizar as escolas e oferecer vouchers para os pais com um valor fixo que eles usariam para pagar ou complementar o pagamento de mensalidades. Quem tivesse mais dinheiro, obviamente, usaria o voucher só como complemento.

A ideia é tão ruim que nem os EUA, terra de Friedman, a adotaram. O maior problema (de novo) é que ela deixa de lado os custos. A proposta de Friedman parte do preconceito de que a escola pública é ruim e propõe troca-la por escolas privadas (sem perguntar quanto custaria isso ou se seria realmente eficiente). Mais uma vez: nos EUA, onde a ideia surgiu, o ensino básico é praticamente todo público.

Sobre presídios privados, os EUA os implantaram – e estão revendo o programa para reduzir aos poucos sua participação no total de presídios. Não foi a solução que eles esperavam (como a própria matéria d‘O Globo deixa claro).

Por último, a fonte oculta d’O Globo usou uma expressão que sempre me dá calafrios: Parceria Público-Privada. Um ex-presidente do Banco Central da Índia, o ultra-ortodoxo professor Raghuram Rajan, escreveu um livro em que  aponta como esse tipo de coisa serve só para transferir dinheiro público para o setor privado. Pelo que me lembro do livro, ele deixa claro que a produção pode ser feita no setor público ou em empresas privadas. Modelos híbridos dão problema, fragilizam o sistema e ajudam a montar grandes crises como a de 2008, que ele analisa no livro.

Espero que a matéria de capa tenha sido só mais um balão de ensaio de lobistas tentando plantar seus projetos no meio da agenda do governo. Como projeto político, essas ideias não têm apoio de muita gente. E como agenda econômica, elas são simplesmente inviáveis (não há mais o que transferir para concessionários amigos: o dinheiro acabou).

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Um pequeno bode na sala?

 

 

Huxley em Olímpia

agosto 7, 2016

“É como se seus nomes fossem escrito em água”. A frase é de Aldous Huxley, não me lembro se do Contraponto ou do Folhas inúteis. Nos últimos dias, ela me vem à cabeça o tempo todo.

Sempre que vejo um atleta chorando ou dando pulos de alegria olímpica, na TV, penso em Huxley.

Alguém certamente já disse que é perigoso acreditar na própria propaganda. Mas estamos fazendo isso (eu mesmo não sou exceção). Estamos extasiados com imagens meio hipnóticas de gente correndo e pulando, de fogos de artifício e de cantores conhecidos.

Mas isso vai passar. A suave narcose olímpica vai durar um mês. Depois, vamos ficar com listas de nomes escritos em placares digitais (o que é quase o mesmo que escreve-los na água) e os mesmos problemas que tínhamos antes (e talvez mais alguns).

Difícil não pensar que os bilhões gastos em propaganda e entretenimento não pudessem ter um uso mais duradouro. Difícil não pensar nas dívidas que o governo assume para bancar os jogos.

Já ouvi de um governista que, sem os jogos, não teriam esticado o metrô até a Barra.

Nada contra o metrô, muito pelo contrário. Mas, se o critério para alocação de verba for esse (tem para evento, não tem para atender a população), estamos perdidos desde já.

A olimpíada vai criar boas externalidades: vai juntar as pessoas e talvez até esfriar os ânimos. Mas não se pode analisar nada olhando só para os benefícios. O mesmo recurso, usado em outras áreas, não seria mais proveitoso para a população? Se tivessem gastado em coisas básicas como saúde e educação, o resultado não seria melhor?

Não é uma crítica inútil. Por hora, vamos continuar hipnotizados diante da TV. Mas, no futuro, por favor, vamos tentar criar alguma coisa melhor do que emoções rápidas que não deixam traço.

 

PS.: O texto de Huxley é do Folhas inúteis. É o terceiro parágrafo neste link.

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Para o brejo?

A partir do dia 27 deste mês, quem estampar placas com palavras como “ouro”, “vitória” ou mesmo “Rio”, no Rio de Janeiro pode ser preso por até 1 ano segundo uma lei especial criada para atender ao Comitê Olímpico Internacional publicada há dois meses.

Para usar essas e outras 759 expressões registradas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, só pagando patrocínio ao COI.

Os detalhes estão na matéria neste link.

Não dá nem vontade de ver os jogos na TV. A vitória, o ouro e mesmo a cidade (já ficou claro) são do comitê de Genebra.

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Difícil de engolir.

 

A lei de Contra-Say

junho 19, 2016

Um dos argumentos teóricos favoritos dos autores da política econômica do governo Dilma pode ser chamado, sem muita controvérsia, de Lei de Contra-Say.

A Lei de Say original, proposta pelo economista francês Jean Baptise Say no século XIX, dizia, resumidamente, que a oferta cria sua própria demanda. Quer dizer: ao produzir, as pessoas geravam a renda que seria usada para comprar o que foi produzido.

A Grande Depressão, nos anos 30, enterrou a Lei de Say. Havia produção mas, com a demanda fraca, ela encalhava em pilhas de estoques.

A produção não gera necessariamente demanda pelo que foi produzido. Isso é mais ou menos consenso entre os economistas hoje. Em períodos conturbados, pessoas e empresas podem preferir guardar uma parte maior de sua renda – em vez de consumi-la ou de investir em produção. Em situações de crise de demanda (como nos anos 30), vale a pena que o governo incentive a demanda. Até aqui, tudo bem.

Mas os teóricos do governo Dilma deram um passo além: para eles, a demanda gerava sua própria oferta – em uma versão invertida da Lei de Say. Bastaria estimular a demanda e surgiria produção para atendê-la.

Em depressões econômicas, com fábricas fechadas e desemprego em massa, o estímulo à demanda pode sim levar a uma retomada na oferta (pois o conhecimento específico, a estrutura física e os trabalhadores já estão lá prontos para voltar a produzir). Em períodos normais, estímulos fortes à demanda levam apenas a aumentos de preços – como se pode ler em qualquer manual de macroeconomia.

Negando o manual, os teóricos do governo transformaram a população do país em cobaia involuntária de uma experiência fadada ao  fracasso. É claro que a inflação subiu. É claro que empresas e donos de ativos, vendo aquela política temerária ser implantada, não só não investiram como tentaram colher ganhos de curto prazo subindo preços.

Tudo isso era previsível. A única coisa surpreendente é que um governo com ambições  políticas de longo prazo tenha comprado o discurso de lobistas com um horizonte de tempo curto. O surpreendente é que o governo tenha acreditado na cascata acadêmica da Lei de Contra-Say.

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Contra-Say: A solução é construir pirâmides, esfinges e obras olímpicas.

Há empresas esvaziando seus estoques. A queda na produção de bens parece ter sido maior que a queda no consumo desses bens, quer dizer: há sinais de que haverá compradores se as fábricas aumentarem a produção.

O gráfico abaixo mostra a variação de estoques (acumulada a cada 4 trimestres para não ter sazonalidade) e a variação nominal do PIB de 4 trimestres sobre os 4 trimestres imediatamente anteriores.

Além de mostrar que há uma correlação razoável entre as duas variáveis, ele mostra também que a variação de estoques tem sido negativa, quer dizer: aparentemente há mais demanda que oferta no mercado de bens (os serviços são outra história).

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Com estoques caindo, as empresas, em algum momento, poderão se movimentar para repô-los (ou não vão conseguir atender à demanda).

A boa correlação entre as duas séries me fez tentar projetar a variação de estoques a partir da série do PIB. O resultado é a linha cinza no gráfico. Ela também é uma boa notícia: indica que os estoques estão caindo mais rápido do que se pode projetar a partir da variação nominal da renda (a variação do PIB nominal).

Com estoques caindo rápido, há estímulo para que a produção de bens volte a crescer logo.

É, pelo menos, alguma luz lá pelo meio do túnel…

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PS.: Sobre o gráfico acima, usei diferenças em reais para o PIB em vez de taxas de crescimento em percentual. Na série do PIB, os valores em milhões de reais correntes de cada período foram divididos por 10 (para a linha não ficar muito longe da linha da variação de estoques, facilitando a comparação).

A projeção em cinza foi feita com uma regressão simples, de mínimos quadrados.

Os dados originais estão na planilha de “Valores correntes”, no site do IBGE, neste link.

Saúde x Pato amarelo

junho 17, 2016

– Não há despesa órfã no Brasil.

Ouvi essa frase do então ministro Pedro Malan em um seminário no BNDES, em 2002. Malan sabia o que estava dizendo. Segundo ele, quando tentava cortar qualquer gasto, surgiam logo os pais, padrinhos e afins da despesa para defendê-la como a um filho querido.

Cotar é difícil. Alguns cortes, paradoxalmente, aumentam a despesa e não devem ser feitos. Cortar gastos no combate a mosquitos claramente aumenta a despesa (ou as mortes por doenças ligadas a eles). Cortar merenda escolar também não é recomendável.

Sim, há onde cortar. O governo aluga uma infinidade de andares e prédios e salas e é dono de outras tantas – vazias ou sub-utilizadas. A gestão de patrimônio do governo federal é temerária, há muito tempo.

Mas cortar esses gastos dá trabalho (embora não dependa de votos no Congresso). Da saúde não vão conseguir cortar muito. O Brasil gastam menos de 4% do PIB com saúde pública: é muito menos que a média da OECD (e a média da OECD, em % do PIB, é calculada como percentual de PIBs per capita bem maiores que o nosso). O gasto com educação pública é de 4,4% do PIB: pouco também. Não recomendo cortar.

Além de saúde e educação, o governo gasta 10,8% do PIB com o resto da administração pública, aí incluídos Legislativo, Judiciário, Defesa e segurança pública. Dá para cortar alguns gastos, mas não para espremer tudo que o governo quer/precisa.

Mas como passamos desses cerca de 20% do PIB para um gasto bem acima da carga tributária – de 33% do PIB? Faltou somar as transferências. Só com a previdência gastamos cerca de 15% do PIB (bem mais que toda a despesa com saúde e educação juntas). Com os juros da dívida gastamos mais que com saúde pública…

Mas os juros também não caem por decreto (e, com o crescimento da dívida pública, o total de gasto com juros cresce proporcionalmente…).

Bom, o fato é que, comparado ao de outros países,  o gasto com serviços públicos não é dos maiores aqui. As transferências são hoje tão grandes ou maiores que as despesas com serviços.

Para equilibrar receitas e despesas, o governo quer reduzir transferências como as aposentadorias. Isso não se faz de um dia para o outro. Mas vai ser feito, em alguma medida.

Há espaço também para aumentar alguns impostos. A alíquota mais alta do Imposto de Renda no Brasil é bem mais baixa que sua equivalente em quase todo o mundo civilizado. Ela pode ser aumentada. E se a Federação das Indústrias de São Paulo vier dizer que não quer pagar o pato, sinto, mas estamos no fundo do poço, entre outros motivos, por conta das políticas que a FIESP defendeu (como a redução populista da conta de luz, o protecionismo alfandegário amantegado e a redução forçada dos juros em 2012). Além disso, é muito razoável que as empresas mais ricas do país arquem com parte do ajuste.

O que não pode é aparecer no jornal defendendo que o pato seja pago pelos usuários do SUS. Para grande parte da população – a que depende da saúde pública – o calote na dívida federal e o inferno inflacionário são preferíveis à falta de hospitais no curto prazo.

Para quem se recente da falta de qualificação da mão de obra e da baixa produtividade do Brasil, cortar na educação também não é uma alternativa.

O que fazer então? Mudar os critérios para aposentadoria, melhorar a gestão do patrimônio federal, cortar isenções tributárias como as da Lei Rouanet  e melhorar a administração onde for possível.

(E, claro, mandar o resto da conta para a FIESP. Eles merecem pagar o pato.)

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– Não se preocupem: a verba da grande pirâmide não será cortada!

Pequenas expectativas

junho 8, 2016

Somos adaptativos: quando chove, achamos que vai continuar chovendo. Quando faz sol, nossa impressão é que haverá sol no dia seguinte. Na maior parte dos casos, dá certo: acertamos a previsão. Talvez por isso – por um processo de seleção natural de animais/pessoas adaptativos – esse jeito de formular expectativas seja tão natural para nós.

Talvez por isso, em épocas prósperas, todos esperem por prosperidade eterna e, em épocas de crise, a sensação seja de que o poço não tem fundo.

Mas a decadência econômica alguma hora vai acabar. Não dá para dizer bem quando, mas dá para dizer que vai. A máxima de que nada dura para sempre se aplica às crises. A crise vai acabar também porque os prejuízos que causa estão começando a empurrar empresários, políticos e organizações de todos os tipos a fazer mudanças (às vezes até mudanças que envolvam perdas de curto prazo).

A sensação continua sendo de crise sem luz no fim do túnel. Já houve crises que duraram décadas e desembocaram em regimes totalitários. Houve também crises curtas que ajudaram a despejar governantes totalitários. Cada crise tem seus traços específicos. Por isso – expectativas adaptativas à parte – não dá para ter muita ideia de quando a atual vai acabar (mesmo sabendo que, alguma hora, vai).

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“A crise já acabou?”