Adestramento de minions ou, o que é desonestidade intelectual

Quando duas pessoas conversam ou discutem há, quase sempre, o pressuposto de que uma está ouvindo o que a outra diz. Mais do que isso: há a hipótese de que cada uma quer entender o que a outra diz.

Se não for assim, não é uma conversa, é uma tentativa de vender peixe estragado, de empurrar alguma coisa apesar dos argumentos em contrário.

Nos últimos meses, muitas pessoas que conheço, de quem gosto, têm feito isso. Começo a discutir e, em algum momento, elas param, dizem que não querem ouvir – e algumas já me chamaram de esquerdista (para registro: eu sou um liberal, um dos poucos que não é conservador disfarçado: liberal mesmo).

Mas fui salvo da ignorância (quem diria?!) por Arthur Weintraub, irmão do novo ministro da Educação. Em um vídeo excelente da Cúpula Conservadora das Américas (evento organizado por um dos filhos do atual presidente), Weintraub disse que “Quando um comunista ou socialista chegar para você com ‘nhoim nhoim’, você pega e manda ele para aquele lugar. Xinga. Faça o que o professor Olavo fala. Xinga”.

Ele resumiu a fórmula para matar o diálogo, para isolar os minions conservadores de qualquer ideia razoável: “quando alguém tentar te explicar porque nada do que esse governo faz é minimamente razoável, xingue-o, mande-o para longe, mantenha-se burro.”

É muito difícil ser conservador em um país onde é quase consenso que as coisas não vão bem (conservar o quê?). Então, o que alguém pode dizer em uma cúpula conservadora? “Tapem seus ouvidos, não escutem argumento nenhum, continuem andando direitinho atrás do pastor!”

Ok. Entendi. Mas se os minions estão bem adestrados para fugir de qualquer debate ou discussão racional, o que fazer?

Um amigo meu, nos tempos de faculdade, costumava dizer que “com democratas a gente conversa, em fascistas, taca pedra”. Não sei. Não sou bom nesse negócio de pedra: não sei fazer isso. Só sei conversar.

“Mas eles não vão ouvir”, argumentaria meu amigo de faculdade. Então que tomem decisões erradas e se afundem com elas. Os fatos, pelo menos, não adianta xingar. Eles não se ofendem.

E o fato é que a economia não está bem (desemprego alto, inflação subindo, investimento baixo, déficit fiscal, expectativas em queda…), a administração pública também vai mal (uma mistura de inexperiência e incapacidade administrativa com vontade de adotar políticas sem sentido) e a parte menos tosca dos minions já está começando a notar (vide pesquisas de opinião sobre o governo).

Talvez só os fatos convençam os minions. Mas não vai ser muito rápido. Eles só vão destampar os ouvidos (e os olhos) quando a água já tiver coberto seus narizes. É o meu melhor palpite sobre o que vai acontecer nos próximos meses.

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Não adianta vir com nhoim nhoim: você não vai me convencer de que isso é uma xícara de café, seu #*%#@&!!!

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Tudo que você sempre quis saber sobre o PIB (mas tinha medo de perguntar)

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À venda, na Amazon.

Quando eu trabalhava calculando o PIB, uma das muitas coisas que eu (e a equipe das contas nacionais) não sabia era: o que dar para os novos funcionários lerem quando eles chegavam lá.

Os relatórios metodológicos e manuais tradicionais são inacreditavelmente chatos, são muito burocráticos. Então – enquanto preparava um curso sobre o PIB e os conceitos das contas nacionais – pensei em resolver logo os dois problemas: apresentar o básico que um analista precisa saber sobre o PIB e criar um livro curto e direto, sem muitas firulas, para servir de introdução ao tema.

O resultado – graças às facilidades de publicação da Amazon – é este livro, que está à venda em formato kindle no site da Amazon.

Editei também uma versão em papel em formato pocket (que ainda não consegui deixar disponível no site da Amazon Brasil). Ela pode ser comprada por este link.

A versão impressa – em papel pólen, leve e (modestamente) muito bem editada – também serve como presente para estudantes de economia. Eles têm sempre uma matéria obrigatória de contas nacionais na faculdade e, agora, já podem ler alguma coisa simples e interessante sobre o tema.

Para os não economistas, o livro serve para desfazer os mitos sobre o PIB – como o de que é uma medida de riqueza (não é, é de geração de renda). Como número mais pop da economia, o PIB é citado por muitas pessoas, mas a maior parte delas não sabe muito bem o que ele mede.

Só o constrangimento salva

O novo governo começou com brados contra o politicamente correto e declarações desmentidas sobre política econômica. A única coisa mais ou menos consistente nele – desde a campanha eleitoral – é a parte sobre valores: há meses o eleito prega a volta aos anos 50. Nessa época, declarações racistas, homofóbicas e sexistas eram motivo de risos alegres, sem constrangimentos.

Eu sei, sempre é possível destruir coisas e correr de volta para a Idade das Trevas. Mas tenho dúvidas sobre se, depois de minimamente entender que o preconceito não é uma coisa boa, os eleitores do eleito conseguirão voltar às piadas preconceituosas sem sentimento de culpa.

Minha dúvida é a seguinte: é psicologicamente possível, para cada eleitor em particular, retroceder na escala do politicamente correto?

Para o bem ou para o mal, essa dúvida será tirada. Vamos ver, nos próximos meses, se os sujeitos que se sentiam tolhidos pelo politicamente correto podem voltar a discriminar pessoas sem serem responsabilizados ou sem, de alguma forma, perceberem que estão do lado do crime (sim, discriminação é crime).

Se é uma guerra cultural o que vem por aí, um dos lados já pode começar sabendo que está errado. Por mais que pastores e ministros(as) digam que estão fazendo o bem, as ovelhas saberão. Quem já passeou fora da caverna não consegue voltar a viver no escuro.

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Ovelhas de Platão ouvindo o discurso de posse.

Mas e quem nunca saiu da caverna? É muita gente? Eles não se sentirão constrangidos? Vai ser tipo Persépolis?

Para estudantes de economia e para quem quer saber o que é o PIB

A Amazon não cresce à toa. É, provavelmente, a única editora que fica fustigando as pessoas a escrever e publicar. Semana passada, recebi um e-mail de seu serviço de publicação (kindle direct publishing) sobre sua nova ferramenta de edição (que torna mais fácil formatar textos com tabelas e gráficos).

Formatei então o pequeno manual que fiz para um curso de contas nacionais. A versão impressa ficou com 100 páginas em formato pocket. A versão kindle ficou com 4352KB – o que quer que isso signifique. Deve ser o único livro de contas nacionais de bolso.

Ele tem o básico – e tenta desfazer os mitos sobre o PIB. O PIB não é uma medida de riqueza (é de renda), o PIB não mede produção (mede valor adicionado), o PIB não foi feito para medir bem estar social (para isso, há outros indicadores), o PIB não é ruim (há quem diga que é, mas medir a renda não é ruim, é produzir informação).

Incluí no texto dois boxes com códigos de R usados para fazer o ajuste dos dados do PIB trimestral ao anual e para fazer ajuste sazonal (do jeito que é feito nas Contas nacionais). Para quem é estudante de economia, as definições e tabelas com exemplos devem ser a parte mais útil do texto. Para quem só quer não repetir as besteiras que todo mundo diz sobre o PIB, os três primeiros capítulos já são mais que o suficiente.

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Mudança de governo, editoras em crise e o retorno de Mary Poppins

Na cena clássica de Grande Hotel, o personagem principal grita com o dono da empresa onde trabalha dizendo: “se nós tratássemos as pequenas coisas com metade da burrice com que vocês tratam as grandes, [isso aqui já tinha afundado há muito tempo]”.

O filme, de 1932, é um daqueles que não envelhecem. Lembrei dele vendo O retorno de Mary Poppins, filme sem roteiro que aposta nas férias escolares e no nome Mary Poppins para nos empurrar uma sequência mal amarrada de cenas musicais.

A produção é cara, a fotografia é ótima, as pequenas coisas estão bem, mas o filme não tem roteiro. Não é que eu vá esquecer a história em dois dias: não há uma história para esquecer.

Decisões grandes – como que história filmar – são tomadas sabe-se lá com que critério. E – não consigo evitar o clichê – as consequências vêm depois.

Hoje o cinema está cheio (férias e sequência com nome conhecido), mas não dá para enrolar todo mundo o tempo todo (desculpem o segundo clichê).

Outro dia li a carta do presidente da Cia. das Letras falando sobre a crise das livrarias no Brasil. São vários problemas: a crise econômica bate com mais força nos produtos que não são de primeira necessidade (livros), há concorrência de pdfs gratuitos que podem ser lidos em qualquer celular, há menos tempo para tudo agora que as pessoas passam horas no Facebook e em similares… Há até quem ache que fixando os preços (proibindo descontos) e evitando a concorrência entre livrarias vai acabar com a crise.

Lendo a carta, não pude deixar de pensar no problema que os editores sempre esquecem: faltam escritores. A Cia. das Letras é uma que ainda se esforça, mas tente lembrar que editora lançou e apoiou – com propaganda e divulgação – mais de meia dúzia de bons novos escritores brasileiros nos últimos 10 anos?

Quando pensamos em literatura brasileira contemporânea, os nomes que nos vêm à cabeça são todos do século passado: Fernando Sabino, Rubem Fonseca, Jorge Amado, Paulo Coelho! Até escritores mais novos, como Patrícia Melo e José Roberto Torero foram lançados no século passado. Daniel Galera e Daniel Pellizzari? Também lançados nos anos 90.

Ou este é um século em que ninguém escreve nada no Brasil ou a editoras não estão fazendo sua parte no processo (encontrar, editar e marquetar livros dos novos autores).  Desculpem, mas se tratássemos as pequenas coisas do jeito que elas tratam seu trabalho…

O terceiro caso em que essa frase me tem vindo à cabeça o tempo todo é o da infindável quantidade de matérias sobre os futuros ministros, sobre o futuro governo federal. Eu digo infindável porque o tema é manchete quase todos os dias – enquanto não faço ideia de quem serão os secretários estaduais do Rio ou de Minas (em São Paulo sei que chamaram alguns ex-ministros).

A falta de cuidado com que os nomes são escolhidos, a falta de delicadeza com que a imprensa marqueta o futuro governo, tudo isso me faz pensar: “se nós tratássemos as pequenas coisas com metade da burrice com que tratam as grandes [isso aqui já tinha afundado há muito tempo]”.

Bom, talvez já tenha fundado.

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Certezas medievais

As religiões não cresceram e se espalharam pelo mundo apenas por ter uma explicação simples (e consoladora) para as grandes questões da humanidade. Elas eram, são, um alívio para as angústias e incertezas de todos os dias. Talvez por isso, épocas de crise sejam épocas de aumento da religiosidade.

Mas os religiosos, os líderes religiosos, nem sempre reagem bem a toda a confiança e esperança que seus seguidores depositam neles. Confiança tem a ver com poder e poder, não custa lembrar, corrompe. Não precisa ser corrupção monetária. Às vezes basta o excesso de auto-confiança para fazer um bom estrago: basta o  excesso de convicção.

Aristóteles, o grande filósofo grego, confiava plenamente em que a pedra mais pesada cairia mais rápido que a pedra leve. E, por séculos, gerações de acadêmicos confiaram nessa descrição de como as pedras caiam. Passamos a Idade Média toda assim, seguindo confiantes o que estava escrito nos textos do sábio Aristóteles.

Até que veio Galileu e fez o teste. Jogando as pedrinhas do alto da torre, Galileu nos deu o que acabou sendo chamado de Método científico. E, com o método, vieram as revoluções na física, na química, na medicina e onde mais alguém se propusesse a testar as hipóteses em vez de apenas aceita-las como dogmas.

Tudo isso é para dizer que os religiosos – cada vez mais seguidos e cada vez mais confiantes em seus dogmas – poderiam ser um pouco mais cautelosos. De onde afinal tiram as suas certezas? Por que confiam tanto nelas a ponto de tentar impô-las aos outros? Eles pensam no estrago que podem fazer se estiverem errados?

Não é porque alguém escreveu um livro séculos atrás, ou porque alguém o interpretou de alguma forma outro dia, que se deve impor leis de cunho religioso a ninguém.

Os cientistas não têm certezas (por isso testam suas hipóteses), por que deveríamos confiar às cegas nas certezas dos líderes religiosos? Nada contra a religião, mas o líder religioso que faz campanha contra um tema qualquer tem preparo, tem estudo, tem o mínimo de autoquestionamento necessário para falar em nome dos fiéis (ou em nome de Deus)?

O mundo é um lugar complexo, delicado e cheio de sutilezas. E, quanto mais complicado fica, mais os dogmas duros, impostos a ferro e fogo, produzem estragos em vez de melhoras.

Se os lideres religiosos dogmáticos tiverem maioria no Congresso, vai ser preciso conter alguns para que não nos levem de volta aos anos 50 – ou aos tempos da Inquisição.

Não é com dogmas medievais que vamos resolver problema nenhum.

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De volta à moda?

 

Como alguns economistas ficam maus?

Como alguns economistas ficam maus?

A dúvida não é por quê, mas como: o que acontece com eles para querer reduzir as pensões de viúvas e órfãos ou para pensarem em baixar para R$ 400 o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) de boa parte dos velhinhos sem dinheiro que hoje têm direito a ele?

Este romance é a história de uma economista assim.

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Prática, mais do que teoria.