Metodologia 101

Nas ciências exatas ou nas biomédicas, ignorar um problema faz com que não se consiga o resultado que se quer ou que se tenha efeitos colaterais indesejados. Nas ciências humanas não: é possível ignorar todo tipo de ideia contrária às suas sem efeitos colaterais sobre o que se quer dizer.

Filósofos conservadores podem ignorar Karl Popper, economistas supply-siders podem ignorar a ideia de demanda e macroeconomistas em geral podem passar reto pela discussão sobre agregação de dados.

Os mecanismos de busca por referências bibliográficas mostram artigos para incluir em pesquisas. Mas não mostram o que não pode – de forma alguma – ser excluído. Autores que publicaram antes de tudo ser feito digitalmente ou que escreveram em uma língua diferente do inglês podem ser deixados de lado quase sem sentimento de culpa. Os revisores não vão notar e as publicações seguirão se acumulando e deixando para trás uma crítica necessária ou um campo de pesquisa importante.

Na melhor das hipóteses, foi isso que aconteceu com o Teorema de Nataf. O teorema prova que grande parte do que os economistas fazem está simplesmente errado (mas a maior parte dos economistas nunca ouviu falar do artigo em que a derivação do teorema foi apresentada).

Problemas de agregação de dados impedem o uso de variáveis agregadas em regressões como as do Modelo de Solow ou as do Modelo de Metas de Inflação. No entanto, dezenas de artigos sobre esses temas continuam saindo todos os anos, alegremente ignorando que seus resultados podem ter imprecisões graves.

Se os efeitos das propostas dos economistas viessem rapidamente – como os das decisões de um cirurgião ou as de um projetista de equipamentos eletrônicos – talvez fosse mais difícil deixar de lado a crítica na hora de criar modelos e artigos que, pretensamente, ajudam a entender como o mundo funciona.

leitora

Estou feliz com meus autores de sempre. Não preciso de mais nada!

 

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Desminionizamento

O santo graal da política hoje, aquilo que todas as pessoas minimamente preocupadas com o destino do mundo procuram, é o processo de desminionizamento. Descoberto o processo, será possível fazer com que uma grande quantidade de pessoas concorde (novamente) que a tortura é uma coisa que não deve acontecer nunca, com ninguém, que o Estado não deve matar pessoas nem perseguir minorias e que crimes de Estado não farão do mundo um lugar melhor, pelo contrário.

O método deve envolver figuras ou (preferencialmente) vídeos, pois os mínions são muito resistentes a textos e são capazes de ignorar completamente argumentos apresentados oralmente por um interlocutor de carne e osso.

Se o processo funcionar, o ex-mínion se tornará capaz de dizer coisas como: “a apologia da tortura é crime, como alguém pode fazer uma coisa dessas?”, ou: “não sei como apoiei essa bizarrice, mas é melhor admitir que estava errado do que insistir nesse absurdo” ou ainda: “não faz sentido apoiar políticos preconceituosos que defendem a execução de bodes expiatórios”.

Alguns acadêmicos dizem que o minionismo tem a ver com a incapacidade dos mínions de se colocar no lugar de outras pessoas. Ele seria uma espécie de aristocratismo de pobre (ou de rico mesmo, em alguns casos). O método desminionizador, então, poderia criar imagens do mínion sendo torturado na frente de um presidente que ri e diz: “Vou te contar como ele morreu” ou imagens da família do mínion sob a mira de policiais acompanhados por um presidente que, de novo,  ri e diz: “Vão morrer como baratas!

Mas talvez nem assim o mínion consiga se pôr no lugar das pessoas transformadas em bodes expiatórios por políticos populistas. Nos EUA, já há mínions promovendo massacres de latinos em cidades na fronteira enquanto o presidente local diz que deputados negros devem “voltar para os lugares infestados de crimes de onde vieram“.

Aqui, estamos copiando o modelo – e nossos mínions já são tão ou mais resolutos que os deles. A defesa do extermínio está no twitter e na boca dos presidentes. E não é a primeira vez na História que chefes de estado defendem o assassinato de parte da população.

É preciso impedir que isso evolua, é preciso tirar o apoio popular desses políticos. Por isso digo que o desminionizamento é o santo graal da política. Ele é nossa única esperança.

Espero que alguém descubra logo o processo. Os mínions da minha família continuam ignorando todos os meus argumentos. É como falar com as paredes.

Mínion, eu?

PS. Nem todos os apoiadores do governo são mínions. Mas os que não são são piores ainda. Eles têm mais clareza sobre o que estão fazendo…

Paulo Guedes, o nosso Andrew Mellon

O banqueiro Andrew Mellon (dono do Banco Mellon e da Union Trust Company) era secretário do Tesouro dos EUA em 1929 quando a crise econômica de lá começou. Se a Grande Depressão tem um pai, ele se chama Andrew Mellon. O secretário do Tesouro é o equivalente americano ao ministro da Economia. Quando o presidente Herbert Hoover perguntou a seu ministro o que fazer para lidar com a crise, Mellon respondeu:

– Liquide os salários, liquide as ações, liquide os agricultores, liquide os imóveis. Isso vai purgar a podridão do sistema. Custos e padrões de vida altos vão diminuir. As pessoas vão trabalhar mais, viver uma vida mais moral. Os valores serão ajustados e as pessoas empreendedoras recolherão os destroços de pessoas menos competentes.

E assim, o conservador republicano Andrew Mellon transformou uma recessão mais ou menos comum na Grande Depressão, que fez o PIB americano despencar e o desemprego chegar a 24,9% da força de trabalho em 1933.

Mellon já tinha implementado o corte de impostos para as pessoas com renda mais alta na gestão anterior à de Hoover, já era um defensor ardoroso do equilíbrio orçamentário e, durante a Depressão, foi contra a intervenção do governo na economia.

Mas tudo isso é para dizer que banqueiros também erram conta. Erram contas grandes, às vezes. Guedes, o atual ministro da economia, está fazendo igual a Mellon, está fingindo que a demanda não é um problema. Para ser justo com Mellon, vale a pena lembrar que, nos anos 20 do século passado, os economistas sabiam pouco sobre como a demanda afeta a atividade econômica. Só nos anos 30, Maynard Keynes apareceu com a ideia – hoje óbvia – de que, se ninguém tiver dinheiro para comprar, ninguém vai vender, se ninguém vender, ninguém vai produzir e assim a economia vai desacelerar até chegar ao nível de subsistência (ou abaixo dele).

As hordas de desempregados vagando pelos Estados Unidos nos anos 30 só diminuíram depois que Franklin Roosevelt aumentou o consumo do governo de novo. E só acabaram depois da Segunda Guerra Mundial (que funcionou como política de aumento de demanda…).

O Brasil hoje está parando porque o governo corta gastos, as famílias cortam gastos e, nesse cenário, as empresas não vão se arriscar a investir. Guedes e seus assessores mantêm o discurso: menos aposentadoria, menos salário para os funcionários públicos (sem reposição da inflação), menos funcionários públicos (sem reposição dos aposentados), menos verba de custeio e menos serviços prestados pelo governo. Se o governo não compra nem contrata e as famílias não têm perspectiva de ter aumento de renda (desemprego em 13%), quem vai consumir?

Um dos efeitos curiosos dessa política é a queda de preços dos ativos (“liquide as ações, liquide os imóveis”). É por causa dela que digo que os banqueiros erram conta. Não espero que eles se preocupem com o desemprego ou com os professores e médicos com salário real em queda. Mas esperava que eles quisessem preservar o valor de suas empresas: das cervejarias e universidades de que são donos.

Com uma perspectiva ruim para o consumo no futuro, o lucro esperado das empresas cai. Com menos receita futura, cai o valor presente das empresas (que é estimado em modelos de fluxo de caixa descontado).

Assim, a política de desprezo pela demanda de Gudes/Mellon empobrece os bilionários. Não que os deixe pobres – longe disso – mas os faz perder dinheiro, os faz perder a coisa que mais amam. Não sei como continuam apoiando o ministro. Acho que alguns já não apoiam.

crise

La Miseria, Ernesto Concha, Santiago, Chile.

As editoras brasileiras não estão em crise, elas acabaram

A crise dos livros no Brasil vem de bem antes de as redes Saraiva e Cultura pedirem recuperação judicial. As vendas de livros já vinham caindo desde 2014. Os dados do IBGE sobre preços de livros (IPCA) e volume de vendas (Contas Nacionais) mostram que o volume caiu apesar de os preços terem subido bem menos que a média do itens do IPCA desde o início da crise. Mas a crise pode não ser só de demanda.

O papel das livrarias é vender livros, o das editoras, criar livros para serem vendidos. E, há alguns anos, elas pararam de fazer isso. Sem livros novos para vender, as livrarias mostram em suas vitrines apenas velhos autores reeditados e traduções: nada que venda muito. Quando pensamos em autores brasileiros, vêm à cabeça nomes como Paulo Coelho, Rubem Fonseca, Jorge Amado, Fernando Sabino, autores do século passado.

Mesmo a safra mais nova de autores – como José Roberto Torero, Daniel Galera, Daniel Pellizzari ou Patrícia Melo – foi lançada no século passado. Não há autores novos. Quanto um Jorge Amado representava das vendas quando era um autor novo? E um Fernando Sabino? Mas não há novos Sabinos.

E não há novos autores porque as editoras não querem lança-los. Não dá muito trabalho ir aos sites da Sextante,  ou da 34 Letras e ver que, explicita e declaradamente, elas não recebem originais. A Sextante recomenda que novos autores contratem um agente literário e diz que isso “é bom para o mercado”. A 34 Letras diz, em negrito, que: “A partir de 2017 não avaliaremos originais encaminhados sem solicitação prévia da editora”.

Editoras tradicionais como a Nova Fronteira/Ediouro não têm referências a envio de originais em seus sites. Fui à sede do grupo, no centro do Rio, onde a atendente me disse: “no momento não estamos recebendo originais”. “E no momento deve durar até quando?”, perguntei.

As editoras Globo, L&PM, Rocco e Arqueiro também não têm referências a envio de originais em seus sites – e não responderam aos e-mails sobre como envia-los. Intrinseca, Planeta e Boi Tempo têm mensagens sobre não receber originais. A Tinta da China “não se compromete a responder a quem envie originais não solicitados”.

A Editora Record (dona dos selos Bertrand Brasil,  José OlympioPaz e Terra, Civilização Brasileira, Verus e Difel) recebe originais, mas também não se compromete a dar qualquer tipo de resposta. Originais que não interessem à editora serão descartados, sem ao menos uma carta de recusa. Não há prazo para avaliar o original:  “não é possível estipular prazo para avaliação e a editora não emite parecer do material recebido”. É alguma coisa como “manda aí, mas não é para esperar nada”. Ainda é melhor que a Penguin-Random House-Cia das Letras. Depois de comprar concorrentes como Objetiva, Alfaguara e Suma (que, vendidos, não recebem mais originais) a Cia das Letras adotou como política ofender os possíveis novos autores. Os originais são aceitos apenas em dois meses por ano e “originais enviados fora do período estabelecido não serão avaliados”. Mais do que isso: “os autores que submeterem suas obras dessa maneira receberão uma resposta por e-mail num prazo mínimo de seis meses. As obras recusadas não serão comentadas, e o material será destruído”.

O negrito é deles e os seis meses são o prazo mínimo, não o máximo.

Tudo isso, segundo eles, porque a Penguin-Random House-Cia das Letras “dispõe de uma pequena equipe para avaliar os originais recebidos”. Tá bom: não lança livro, não vende. Quer dizer, vende traduções e autores antigos. Achei curioso quando, no fim do ano passado, um dos sócios da editora divulgou uma carta conclamando as pessoas a comprarem livros para salvar livrarias e editoras da crise. Prezado: não é assim que se resolve o problema.

Podem dizer que as editoras encolheram por causa da queda na demanda por livros ou que a demanda caiu porque as editoras têm menos lançamentos que tenham a ver com o que acontece hoje no país. Uma coisa não exclui a outra. Na prática, elas se reforçam. Pode ser que as pessoas estejam lendo menos livros (e mais blogs e twitter raivoso e facebook), pode ser que as gerações mais novas sejam mais impacientes, muitas coisas podem ser. Mas, de um jeito ou de outro, não lançar novos autores nacionais é ruim para as vendas.

A saída, para os novos autores, tem sido a publicação independente, que aumentou com o uso de ferramentas como o kindle direct publishing, da Amazon. Mas isso é curioso porque acaba sendo uma especie de uberização dos escritores. Os custos de revisão, editoração e até de fazer a foto da capa passam para o autor e a venda do livro é feita através de um grande site, a Amazon, que ganha uma comissão por isso.

Se fosse só isso, tudo bem. Mas o site não dá para os livros a visibilidade que uma editora daria: não os põe na vitrine da livraria por onde as pessoas passam no caminho para o trabalho. E a divulgação – mesmo que o o autor tente faze-la – não será igual à de uma editora (que tem departamento de marketing e assessoria de imprensa).

Um press release enviado por um autor independente para um caderno de cultura de jornal não vai lhe render sequer uma notinha na coluna mais obscura do caderno. O jornal continuará fazendo matérias sobre a última tradução lançada por uma grande editora ou reciclando o milésimo texto sobre Machado de Assis ou Clarice Lispector (que nem eu vou ler).

O horizonte é ruim para o surgimento de livros originais e de novos autores no país. Para lançar o meu, segundo a Sextante, eu deveria contratar um agente literário. Não tenho experiência nisso: não conheço agentes nem editores. É como contratar um advogado para ganhar uma causa? Publica quem tiver o melhor agente? Não há um processo imparcial e aberto para análise de originais? As grandes editoras não têm recursos para lançar autores? Então, desculpe, elas não são grandes editoras, são casas de replicação, tradutoras de luxo, empresas avessas demais a qualquer tipo de risco (tipo os fundos de renda fixa).

O Brasil não tem uma crise no mercado editorial: não tem nem mercado editoral. Tempos estranhos…

potter

O que resta é reler Harry Potter…

 

Problema econômico + ideia fixa de ministro = depressão

Os inventores da Nova matriz macroeconômica, no Governo Dilma, viam crises de demanda para onde quer que olhassem. Mesmo com a inflação chegando a 10% ao ano, eles insistiam em que era preciso estimular o consumo, pois faltava demanda.

O resultado foi, primeiro, inflação, depois,  uma longa recessão da qual talvez ainda não tenhamos saído.

Mas Paulo Guedes e sua equipe não são melhores. A crise de demanda agora está lá, finalmente é real, mas eles se recusam a olhar para ela. A economia não cresce, há capacidade ociosa nas empresas e desemprego alto. Mas a resposta de Guedes & associados é corte de gastos públicos e redução da renda futura das famílias (fim dos concursos públicos e dos reajustes de funcionários públicos, corte de aposentadorias  e de despesas do governo, corte de bolsas em faculdades e de qualquer projeto público em que consigam pensar, até o do Censo populacional).

Guedes, tão ideológico quando Guido Mantega, acha que só o lado da oferta existe – e aprofunda a crise de demanda com sua ideologia de ataque a tudo que for público.

Só para registro: quem derrubou Dilma Rousseff não foi a pedalada fiscal ou a “conspiração da direita”, quem a derrubou foi, principalmente, a crise econômica. Com Collor não foi diferente.

Guedes é hoje, então, a única pessoa no país com potencial para derrubar o governo (no médio prazo). Talvez essa seja sua única virtude. A dúvida é quanto estrago ele e seus colegas supply siders vão fazer até lá.

Ovelha conservadora anti-keynesiana.

Ovelha conservadora anti-keynesiana convicta.

PS. Sobre superavits fiscais, com a economia estagnada, eles vão demorar muito pra voltar. E quanto mais cortarem…

 

Cuidado com governos que acreditam na própria propaganda

Acreditar é um verbo quase proibido aos jornalistas. “O ministro acredita que…”. Não: o repórter não tem como saber se o ministro acredita ou só está dizendo que acredita. E faz diferença.

Pensei nisso vendo o Boletim do fim do mundo, de Bruno Torturra, ontem, no youtube. Torturra descreve Sergio Moro, Deltan Dallagnol e cia como pessoas que acreditam no que estão fazendo: que acreditam que não há problema em atropelar ritos e processos jurídicos se for “por um bem maior”. E, pior, segundo ele, boa parte dos admiradores de Moro e cia também acredita nisso: em uma espécie bastante agressiva de “os fins justificam os meios”.

Esses admiradores radicais não deixarão de seguir Moro só porque ele violou alguns princípios básicos do Judiciário. Eles até ficam felizes por ele ter violado.

O atual presidente – que aposta em acirrar os ânimos como se ainda estivesse em campanha – condecorou Moro com a Ordem do mérito naval dois dias depois do vazamento com as  instruções e dicas do então juiz à promotoria em um caso que julgava.

No mesmo dia, o governo federal exonerou todos os integrantes do órgão responsável por prevenir e combater a prática de tortura. E decretou que o órgão funcionará apenas com trabalhadores voluntários…

Tento enxergar alguma lógica nesse tipo de medida (que, além dos efeitos destrutivos diretos, aumentam o desgaste com o Congresso e com parte da população) e não consigo. Não faz sentido. A não ser que eles realmente acreditem que é melhor viver em um mundo onde se atropelam os ritos jurídicos e onde se estimula (em vez de reprimir) a prática de tortura. Eu sei, eles dizem esse tipo de coisa desde antes das eleições. Mas podia haver alguma diferença entre o que o que eles alardeavam e em que acreditavam.

Mas não. Parece que eles são mesmo sinceros.

A alternativa era serem cínicos e, entre fanáticos e cínicos, prefiro mil vezes os cínicos: são menos destrutivos.

As grandes tragédias, os grandes genocídios, perseguições e horrores da história da humanidade foram cometidos por pessoas que – até onde dá para dizer – eram muito convictas: eram gente que se comportava de acordo com o que alardeava em sua propaganda.

Não tem a menor chance de isso acabar bem.

aero

Quais são as saídas?

Arrastado para dentro de um filme de zumbis

Nunca tive paciência para filmes de zumbi. São muito inexpressivos, os zumbis. Em geral só dizem “cééerebro” e tentam morder a cabeça mais próxima. Mas o filme (ou, pior, o longo seriado) de zumbis virou a melhor imagem para o que tenho visto em reuniões de família nos últimos tempos.

– Seu tio me disse que vai ter uma passeata do PT quarta-feira…- começou um parente próximo hoje.

– Passeata de estudantes. Eu não voto no PT e vou à passeata.

– Mas isso é coisa de…

– Agora cortaram a verba da faculdade onde eu estudo: 40% da verba de custeio.

– Estavam gastando com bobagens.

– É o dinheiro da conta de luz, da água, da limpeza das salas.

– É de cursos que são…

-Eu estudo engenharia! Cortaram bolsas de estudo do doutorado em Engenharia! E mesmo que fosse outra matéria…

O mais irritante é a sensação de estar falando com uma parede – ou com um zumbi – que, depois de meses vendo coisas surreais acontecerem em volta, só consegue registrar o que um outro parente o manda pelo whatsapp.

Já falei que é um governo ligado à milicia, já falei que legislam para armar milícia, já falei que querem pagar menos que o salário mínimo para velhinhos que recebem o benefício da Lei de Assistência Social (LOAS). Nada adianta.

Nos filmes de zumbi, não há como deszumbizar o zumbi. Uma vez zumbi, sempre zumbi. Na nossa hecatombe tupiniquim, ficamos na esperança de que os parentes próximos alguma hora enxerguem o óbvio e continuamos o diálogo (não chega a ser um diálogo, continuamos trocando monólogos com eles).

As estatísticas dizem que há sim casos de deszumbizamento, que o apoio ao governo caiu desde a eleição. Mas ainda há muitos zumbis. Os da minha família estão longe de voltar ao normal. E o mais irritante é que isso me faz acha-los muito menos racionais do que eu costumava achar. Me faz não conseguir confiar nas suas avaliações sobre nada.

É uma forma bastante ruim de desmoralização, ser visto como menos que um zumbi de filme.

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Pinguim empalhado – Museu Nacional, 2016 – reduzido a pó no apocalipse carioca. A equipe do museu (destruído por um incêndio) não tem verbas suficientes para analisar os escombros do prédio (ele faz parte da UFRJ, que teve o orçamento cortado).