Longe do queijo

agosto 1, 2018

A foto é autoexplicativa: foi tirada hoje em um supermercado Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

Ok, podem dizer que é um queijo pesado, de seis quilos. Mas pense nele em termos de horas de trabalho. Uma pessoa que ganha salário mínimo trabalharia duas semanas, quer dizer, 80 horas (se não trabalhar aos sábados) para poder pagar por essa preciosidade.

O que faz um queijo custar meio salário mínimo?

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Podem dizer que é um caso extremo: o queijo mais caro da loja, para consumo só do 1% (que nem olha para a etiqueta quando compra). Mas, olhando para o lado, topei com este outro, que não vou nem comentar:

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Cadê o TSE?

julho 23, 2018

Abaixo, os altos de página do Globo e Folha, exatamente como estão nos respectivos sites, agora, às 22h de domingo, dia 22 de julho.

A desproporção do espaço dado a Bolsonaro não é de hoje. Os jornais nunca deram um décimo desse espaço para Marina Silva. Nem para Geraldo Alckmin dão todo esse espaço.

Não adianta dizer que é para falar mal. Foi falando mal – e dando um espaço grátis impressionante em suas capas e programas de TV – que a imprensa americana ajudou a eleger Donald Trump.

Não havia uma lei sobre igualdade de espaço para candidatos na imprensa em tempos de eleição?

globo

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A defesa dos herdeiros

julho 18, 2018

– E nós, os bilionários, os herdeiros de grandes empresas? Quem irá nos defender?

– Eu!

– Eu!

– Eu!

Ontem, Marcos Lisboa, ex-secretário de política econômica (governo Lula), ex-diretor da FGV e atual presidente do Insper, se juntou ao coro.

Em um debate na sede do jornal Valor Econômico, Lisboa declarou: “Tributação de dividendos, de herança é vender terreno na lua. O grande impacto de justiça social da política pública não é via tributação é via gasto público”.

Caro doutor Lisboa, uma coisa não exclui a outra. Pesquisadores do nível de Thomas Piketty e Gabriel Zucman já produziram toneladas de estudos empíricos (com ótimas bases de dados) sobre os efeitos da concentração de renda e patrimônio (e sobre como a tributação de heranças e a tributação progressiva de renda é necessária para lidar com o problema). Falar em “terreno na lua” não descarta automaticamente tudo que já foi escrito.

Depois de fazer o lobby dos herdeiros e dos donos e diretores de grandes empresas  (que não pagam imposto sobre dividendos nem sobre bônus anuais), Lisboa atacou quem defende qualquer outro grupo: “O grande desafio hoje é que não se quer comprar brigas com as corporações”, disse, se referindo a funcionários públicos e “seguimentos do setor privado”.

Sobre ajuste fiscal na pauta dos candidatos à presidência, disse: “Estou surpreso com a superficialidade do debate”.

Superficial é fazer críticas genéricas a funcionários públicos ganhando muito mais do que eles para fazer a mesma coisa que um professor universitário faz (só que em uma universidade privada…).

A discussão seria mais simples se o debate fosse feito entre técnicos que não fizessem lobby disfarçado para um grupo específico.

Eu sei: é difícil. Depois de mais de cinco décadas implementando e defendendo abertamente políticas pró-FIESP, Delfim Netto até hoje é apresentado como “economista” e não como “lobista da Fiesp”.

É difícil identificar quem propõe políticas porque têm evidências sólidas de que funcionam e quem apenas foi contratado para dar verniz acadêmico a um lobby bem financiado. Mas quando a pessoa chega ao ponto de dizer que “tributar herança é vender terreno na lua”, aí, pelo menos, dá para ver que é lobby explícito mesmo.

Queria ver debates melhores no Valor. Onde estão os técnicos que não são lobistas? (Desiludidos em pequenas salinhas em universidades e órgãos públicos ou publicando artigos em revistas acadêmicas que o grande público não lê. Estão longe da imprensa – que não consegue ou não quer saber saber quem é quem.)

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Em tempos de Copa do Mundo, vale a pena desencavar o trecho abaixo, um dos meus favoritos, que usei no primeiro post deste blog, mais de 10 anos atrás.

Ele é do Folhas inúteis, um dos livros anos 20 de Aldous Huxley:

“Fazer dos esportistas profissionais  e disputadores de prêmios  heróis efêmeros já é bastante mau; mas querer imortalizar-lhes a fama é certamente indicativo de profunda vulgaridade e degradação. Tal como a turba romana, as turbas de nossas modernas capitais deleitam-se com esportes e exercícios que elas próprias não praticam; mas, de qualquer maneira, a fama dos nossos esportistas dura apenas alguns dias após seus triunfos. Não gravamos suas efígies em mármore para que atravessem centenas de gerações. Gravamo-las em polpa de madeira, que é quase o mesmo que gravá-las na água. É reconfortante pensar que por volta de 2100 todo o nosso jornalismo, a literatura e a filosofia estarão reduzidos a pó.”

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(Mal) gravado em neon.

É quase consenso que, sem a crise econômica, nenhuma pedalada fiscal teria derrubado o Governo Dilma. Foi a mistura de inflação em alta, recessão interminável e insistência na heterodoxia econômica que fez os apoiadores do governo desistirem dele.

No entanto, até hoje, os criadores da política econômica de Dilma escrevem em jornais como se fossem perfeitos inocentes. Luciano Coutinho escreve o Valor como se nunca tivesse presidido o BNDES. Nelson Barbosa, ex-Ministro do Planejamento e da Fazenda, escreve na Folha e deixa claro que não se arrepende das políticas que implantou.

Eles fariam tudo de novo. É por isso que tanta gente continuará fugindo do “programa econômico” do PT: o partido parece não ter entendido por que o país quebrou.

Li, há alguns meses, uma entrevista com o guru heterodoxo Ha-Joon Chang, um economista sul coreano que conseguiu espaço no cenário internacional escrevendo livros pró-protecionismo e pró-subsídios a grandes empresas.

Lembro que o repórter perguntou alguma coisa sobre haver espaço para políticas de esquerda como a dele. Com toda a candura, Ha-Joon Chang respondeu que, na Coréia e no Japão, suas propostas são consideradas de direita.

Não é à toa: elas são mesmo. Dar dinheiro público e crédito subsidiado para grandes empresas não é de esquerda nem aqui nem na Coréia do Sul. Protecionismo para a Anfavea e isenções fiscais para a Fiesp são políticas que nunca foram de esquerda. No entanto, foi isso que Mantega, Barbosa, Coutinho e afins fizeram.

Enquanto defender isso, enquanto defender transferências de dinheiro público para as maiores empresas do país, o PT não poderá dizer que é de esquerda. Ele será apenas uma versão mais populista do PMDB.

Se os caciques do PT fossem um pouco mais espertos, expulsariam os economistas heterodoxos do partido e defenderiam uma política econômica à Thomas Piketty (mesmo que fosse só para agradar a platéia, mesmo que fosse só para catar uns votos de esquerda de verdade).

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Encontro nacional de bodes expiatórios: criando justificativas para repetir a Nova Matriz Macroeconômica em 2019.

Humor involuntário

abril 8, 2018

É difícil competir com os economistas quando o assunto é humor (o involuntário, é claro). Este texto publicado na Folha de S. Paulo de hoje por um analista da FGV defende – sem nenhum constrangimento – que, para tributar mais os mais ricos, é preciso REDUZIR os impostos sobre as empresas. Isso: reduzir.

Depois, ele propõe aumentar as alíquotas do Simples, pagas pelos pequenos empresários (aqueles cujas firmas têm expectativa de vida de uns dois anos) e, para arrematar, diz que é difícil falar em reduzir impostos dos ricos porque no Brasil a classe média é rica.

Aí a ofensa foi feia: a concentração de patrimônio no Brasil é uma das maiores do mundo. Desculpe, mas a classe média não é rica aqui não.

O nó retórico de Samuel Pessoa, o autor do texto, é confundir renda e patrimônio. Renda é quanto você ganha, patrimônio, o que você tem. Um é fluxo, o outro, estoque.

Rico é quem tem patrimônio. Uma pessoa que conseguiu um salário maior ou uma transferência de renda em um ano não é rica. Ao mesmo tempo, donos de imóveis e empresas bem avaliadas, mesmo que tenham prejuízo e um ano qualquer, são ricos, porque riqueza é patrimônio.

O patrimônio no Brasil é muito mais concentrado que a renda, e a concentração de renda é subdimencionada. Só agora, com dados do Imposto de Renda Pessoa Física (analisados à Piketty) estamos começando a medir melhor a renda das faixas mais altas e – por tabela – nossa concentração de renda.

Dizer que quem ganha mais de 23 mil no país está no grupo dos mais bem pagos (como faz Pessoa) é tentar arregimentar para a defesa da Fiesp os funcionários mais bem pagos das empresas e do governo – e é um discurso ofensivo.

Vamos falar sobre tributação de patrimônio e sobre tributação da renda do capital e não sobre salários. Se misturar essas discussões for a base do discurso conservador na próxima eleição, até eu, que tenho horror a economistas heterodoxos, sou capaz de votar em alguém de extrema esquerda, só para não ter que ouvir pérolas pró-Fiesp como essa.

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Portas fechadas para os pequenos.

Está de graça, na amazon, Bibliofilia, uma história de amor peculiar entre um estudante de letras com preferências literárias estranhas e uma estudante de matemática ambiciosa e sem muitas restrições éticas.

A amazon limita o período em que os livros podem ficar de graça lá. Este fica até o dia 7/2.

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Detalhe da porta – Auguste Rodin.

 

 

Editei a versão impressa de meu livro no site da amazon. Ficou bonitinha. É a mesma história estranha que já estava disponível para kindle sobre economistas entrando na faculdade e descobrindo as bizarrices teóricas (para depois as cometer na prática, no trabalho).

Mas, impresso, o texto ficou mais bonito (com capa fosca em PB e papel creme).

Para quem quiser ler coisas sérias sobre economia, quase recomendo este mini curso de Contas Nacionais que tiver que preparar para o trabalho. E, para quem quiser coisas rápidas e curiosas, há este post sobre o Fenômeno de Will Rogers – que escrevi no blog sobre literatura.

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Pavão econômico azul.

PS.: A versão impressa do livro só pode ser pedida pelos sites da amazon EUA ou de alguns países da Europa. Defini o preço no mínimo permitido, quer dizer: o frete é mais caro que o livro…

Não tenho a mais vaga ideia do que está acontecendo com a política brasileira. Esperava que houvesse protestos nas ruas contra o governo e não há (não entendo como). Esperava que houvesse uma oposição forte e sonora, com um discurso bem amarrado, nomes ministeriáveis e propostas claras. Mas não há nada disso.

A oposição, pelo menos a que tenho visto, se divide entre deterministas históricos, tipo PSOL (que leram Marx e até hoje acreditam que o mundo caminha inexoravelmente para o comunismo) e fanáticos religiosos autoritários.

Os fanáticos merecem alguns parágrafos à parte.  Eles têm mais votos que o PSOL e são capazes de aprovar propostas como a do extermínio em massa de mulheres em clínicas clandestinas (que seria o efeito de proibir o aborto em todo e qualquer caso, como conseguiram aprovar em uma comissão no Senado).

O mais votado deles, Jair Bolsonaro, admite que não têm propostas para a economia (o que é, no mínimo, constrangedor para um candidato declarado à presidência). Bolsonaro quer ser eleito para perseguir minorias e defender o conservadorismo sem máscaras.

Ele, pelo menos, não finge que é liberal.

O que Bolsonaro defende pode ser resumido como a volta aos anos 50 – com todos os preconceitos e idiossincrasias da época.

Em seu comunicado à imprensa se desculpando por não falar sobre economia, o candidato terminou com um “Deus acima de tudo”, que pode ser traduzido como: “os evangélicos e católicos mais fanáticos votarão em mim independentemente do que eu proponha para a economia”.

Em um estado oficialmente laico – e em crise econômica – isso é mais que constrangedor.

Há Lula: a mistura de pragmatismo amoral e corrupção que já conhecemos. Mas uma boa parte dos analistas diz que ele tem votos o bastante para ir para o segundo turno e rejeição o bastante para perder o segundo turno. Isso se não for preso antes.

Há Dória, Hulk e outros PSDBistas que tentam se descolar de Aécio e de sua mala de dinheiro. Mas esse caso é perdido: a mala de dinheiro de Aécio é igual à de Temer na gravação do dono da JBS: é o fundo do poço.

Mala de dinheiro é uma espécie de Supertrunfo da corrupção: nada a ultrapassa, não dá para discutir, não há desculpa ou perdão possível.

E, no meio de corruptos descarados (Aécio), deterministas do século XIX (PSOL e similares), pregadores avessos aos direitos civis (Bolsonaro), corruptos sem mala mas com um telhado de vidro assustador (Lula) e oportunistas que se esforçam para esconder quem os apóia (Dória e Hulk) temos que escolher um candidato?

Por que diabos não aparece um bom leitor de Piketty com uma equipe de técnicos respeitável e propostas claras (e diferentes da agenda conservadora – que é sim impopular) para disputar as eleições?

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Votar num desses? Ainda há tempo para aparecer alguém razoável…

 PS.: A Folha de S. Paulo de hoje diz que Bolsonaro está adotando um discurso econômico liberal, em reuniões com investidores. Se antes, com todos os preconceitos, ele podia pelo menos dizer que era sincero, agora, nem isso.

Quando comecei, não achei que fosse escrever um livro adolescente. Nem que ele fosse ter três narradores – ou que eles seriam incapazes de concordar sobre qualquer coisa.

Mas, no fim, foi isso que saiu: a história de três estudantes tentando entender como o mundo funciona (e atingindo uns aos outros com objetos contundentes no caminho).

Inscrevi o texto no prêmio Kindle de literatura. Pelas regras da Amazon, não posso deixa-lo de graça muito tempo no site. Ele ficará de graça por lá até o dia 9/11. Depois, voltará a custar R$2.

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Grafiti no cenário do conto.

O poder deve ser mesmo muito bom. Afinal, por que outro motivo um senhor de 77 anos, com artérias entupidas e grande potencial para se aposentar, se agarraria a ele a ponto de – para ficar mais 14 meses sentado no palácio – reintroduzir o trabalho escravo no país.

Porque cortar a fiscalização e depois avisar para todo mundo equivale a fazer exatamente isso (“Ó, pode fazer que não tem mais fiscal. Agora só levando a polícia até o interior da fazenda do ministro, tirando fotos, anotando nomes e, bom, não vai ter mais lista suja com nome de quem fizer…”).

Por que alguém promove uma barbaridade dessas em torca de alguns votos no processo a que responde no Congresso?

Não que ele ainda tenha alguma biografia para defender. Mas isso é abaixo do fundo do poço. É a barbárie batendo à porta.

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Até o dia 8 de agosto, vai estar de graça, no site da amazon, o livro que inscrevi no Prêmio Kindle de Literatura.

O site não permite que os livros sejam anunciados de graça por mais de cinco dias (de 4/8 a 8/8). Depois disso, então, o livro passará a custar R$ 1,99.

O livro conta a história de três estudantes de economia – do dia do trote na faculdade até os empregos no mercado.

A personagem mais curiosa é Patrícia, que, vendo os projetos assustadores da consultoria onde trabalha e as coincidências estranhas que acontecem à sua volta, se convence de que seu chefe é o diabo em pessoa.

Tentei implicar democraticamente com todas as escolas de pensamento econômico. Mas a parte mais divertida do texto é a do chefe diabólico que, pragmático, não parece seguir escola nenhuma.

O livro pode ser baixado para kindle, ipad e afins (e também lido na tela do computador) a partir da página neste link.

Feito em casa.

É difícil defender redução de direitos trabalhistas e previdenciários ao mesmo tempo em que se defende a manutenção de isenções fiscais e de descontos de imposto para as maiores empresas do país.

O pato amarelo da Fiesp é isso: é a defesa – explícita e meio enfeitada – das reduções de imposto que alguma das maiores empresas do país conseguiram no apagar das luzes do primeiro governo Dilma.

Por que preservar a Fiesp e cortar direitos de futuros aposentados?

Eu sei: a tendência do déficit da previdência é crescer à medida que a população envelhece e, para que não fique explosivo, vai ser preciso mudar as regras. As mudanças de regras, na prática, só farão alguma diferença no longo prazo.

Eu sei também que é preciso discutir que mudanças fazer, que aumentar a idade mínima é razoável (porque as pessoas estão vivendo mais), mas aumentar o tempo mínimo de contribuição é regressivo, porque pune as pessoas que não conseguem ficar muitas décadas em empregos com carteira assinada: pune os mais frágeis.

Então, não dá para aprovar qualquer coisa.

Mas a reforma seria mais palatável se, ao mesmo tempo em que se cortam direitos previdenciários fixados em lei para a população, se cortassem as isenções tributárias concedidas em ano eleitoral a empresas que estão longe de precisar de caridade do Tesouro Nacional.

Se é para fazer as cosias direito, vamos começar assando o pato amarelo?

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Pato do imperador: assado no Egito, em 5.000 AC.

O PIB é pop

junho 9, 2017

Há toda uma geração de economistas que não leu Adam Smith – e que também não sabe o que é PIB.

Smith se encaixa na definição de clássico: é o autor que todo mundo cita e ninguém conhece direito.

Com o PIB é parecido: alguns odeiam, outros usam como denominador em um monte de contas, mas pouca gente sabe bem o que ele é.

Só para registro: ele é uma medida de geração de renda. O PIB não é “a soma de tudo que é produzido”, não é “a medida da riqueza do país” e muito menos “a soma das riquezas produzidas”.

Ele pode ser calculado de três maneiras diferentes (mas todas dão o mesmo resultado) e, ao longo do tempo, virou uma espécie de denominador universal para números grandes: o consumo, os impostos e até o valor dos empréstimos do BNDES são apresentados como percentual do PIB.

Nem sempre a divisão de alguma coisa pelo PIB faz sentido, mas ela normalmente dá uma ideia de ordem de grandeza.

Bom, para tentar explicar a um grupo ainda não muito definido de alunos o que é o PIB e como ele é calculado, preparei  o texto neste link (que não custa deixar aberto a quem se interessar). O texto vem com várias tabelas ilustrativas, com os dados das últimas contas nacionais anuais que o IBGE publicou.

Além de falar do PIB anual, o texto mostra um pouco das contas que levam ao PIB trimestral, objeto de culto em consultorias e em áreas de pesquisa de bancos.

Há um capítulo também (é pequeno) sobre contas de meio ambiente e um sobre classificações e definições (para quem sofre de insônia).

Se alguém ler até o fim, por favor, escreva avisando.

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Pavão: classificado como parte da Agropecuária.

PS. O curioso é que várias definições das contas nacionais já apareciam no Riqueza das Nações, de Adam Smith. Algumas, como a formação de capital (investimento), já aparecem até com o nome que ficou nas contas nacionais.

Concentração de renda

maio 28, 2017

Vivemos em uma boa época para quem estuda crises econômicas e recessões violentas. Basta dar uma volta pela rua para ver os seus efeitos: as placas de Vendo e Alugo nas janelas, os mendigos em número cada vez maior…

Mas além dos efeitos óbvios da crise, há alguns surpreendentes. Um deles é o aumento da concentração de renda e seus efeitos sobre o comércio. O que vender em época de queda acumulada de 9% do PIB (desde o segundo trimestre de 2014)? Quem tem dinheiro para comprar? O que essas pessoas querem?

A resposta está em uma loja recém aberta no Edifício Avenida Central, no Centro do Rio. A loja, no térreo (em um bom ponto), vende bonecos decorativos para adultos.

A crise, como também dá para ver a olho nu, é assimétrica: deixa milhões de pessoas sem emprego e renda, mas mal faz cócegas em alguns outros. O 1% mais rico pode gastar R$ 1.176 em um boneco do Coringa ou R$ 3.000 em um do Robocop (o mais caro que vi na loja).

Obra de arte?

Para os menos abastados, bonecos de desenho animado japonês por R$ 700.

Dourados: só para quem não vê os pedintes nas esquinas.

Economia da saúde

abril 29, 2017

A gestão atual do Ministério da Saúde entrará para a História por sua criatividade sem limites.

Hoje pude ver de perto essa inovação curiosa que é a campanha de vacinação sem vacinas.

É simples: você chega ao posto de saúde e descobre que as vacinas acabaram antes das oito horas da manhã, logo que o posto abriu.

– É para febre amarela? Tem que chegar às 7h – me disse uma mãe de criança com o filho no colo. – Em Botafogo também já acabou.

Segui com minha filha para a Cinelândia, onde eu mesmo tomei a vacina há alguns anos. Lá, o segurança do posto de vacinação foi ainda mais claro:

– A gente só recebe 20 doses por dia. O melhor é agendar a aplicação.

Mas não era uma campanha de vacinação? Agendar no meio de uma campanha?

O verão já acabou e anda há tempo até os mosquitos voltarem a ser um dos grandes terrores cariocas. Mas mandar as pessoas aos postos de saúde sem ter vacinas para aplicar não parece o exemplo de gestão que o atual ministro prometeu quando recebeu o Ministério Saúde em troca dos votos da bancada do PP no Congresso…

Injeção? Vacina? Programa de saúde pública? Só pagando, na clínica particular. Vai um plano de saúde popular sem cobertura de internação também?

Sair do Rio de Janeiro ajuda a pôr a cidade em perspectiva. Em outros lugares, há bons imóveis anunciados por R$ 150 mil. Na Zonal Sul do Rio, eles custam quase um milhão.

Com os aluguéis é a mesma coisa: muito mais altos no Rio.

Os preços dos serviços privados são mais altos e a prestação de serviços públicos está mais decadente no Rio. Os funcionários do Estado estão com os salários atrasados, as unidades de pronto atendimento de saúde estão com seus contratos (caros) precisando de revisão e a universidade do estado só não fechou as portas porque professores e alunos toparam trabalhar em condições ruins para universidade não fechar de vez.

Ficou caro e ruim viver no Rio. O Estado vai passar as próximas décadas pagando dívidas como a do metrô (assumida para pagar quase R$ 10 bilhões à Odebrecht e Associados). O município também tem dívidas olímpicas a pagar…

Que empresa com alguma capacidade de escolha abriria filiais ou novos negócios nessa  cidade cara e pouco funcional?

A alta de preços e a destruição dos serviços públicos,  então, sinalizam baixo crescimento à frete. E, com ele, virão menos trabalho, menos impostos, menos serviços públicos e uma espiral de decadência.

A saúde pública é um dos maiores exemplos. O atendimento básico – que deveria ser municipal – é feito pelo Estado, em unidades privadas terceirizadas contratadas sem licitação a preços, no mínimo, discutíveis (essas são as UPAs).

Por falta de caixa, o governo cortou os repasses a algumas UPAs, que cortaram o atendimento aos doentes. Há quem defenda que as UPAs deviam mesmo ser fechadas, mas antes é preciso saber o que pôr no  lugar.

Que empresa ou família vai querer se instalar em um lugar em que a saúde pública  é assim, os planos de saúde são caros e a rede hospitalar privada está sobrecarregada?

Sair do Rio é, cada vez mais, a opção para recém formados, aposentados e qualquer um que tenha uma oferta de trabalho ou fonte de renda fora de lá. É o que escuto cada vez mais, das pessoas mais diferentes.

E, de fato, a vida é mais tranquila fora do Rio. Fora de lá, não é preciso ouvir um governador que atrasa salários dizer que quer expandir o metrô até o Recreio dos Bandeirantes.

Se as coisas continuarem desse jeito, os que não forem expulsos da cidade pela crise econômica serão expulsos pelos insultos de Pezão e Associados.

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Urubu em Jurerê: fugindo do Rio de Janeiro.

Gambiarra economics

março 18, 2017

Os remendos, as soluções de curto prazo com objetivos muito específicos, os subsídios, as taxas  juros especiais, os regimes tributários diferenciados, tudo isso faz parte de um modelo teórico heterodoxo que pode ser chamado – com muita precisão – de Teoria endógena da aplicação sequencial de gabiarras ou, como diriam os ingleses, gambiarra economics.

Um dos maiores consensos teóricos a respeito da economia da gambiarra é que ela é uma política de curto prazo: não resiste por períodos de mais de um ou dois anos:

” A gambiarra arrebenta”, já disse um de seus defensores, em voz baixa, em uma sala escura, sem gravadores ou câmeras ligados.

Os incentivos específicos, então, são apenas agrados a amigos. Quem os recebe sabe que eles não vão durar (mas os aceita assim mesmo, afinal, é descortês recusar presentes).

Quando as gabiarras arrebentam, em geral, vem o dilúvio. Os problemas que elas remendavam já cresceram o bastante para estoura-las e a crise vem pior do que parecia possível antes da adoção da política da gambiarra.

O dilúvio, no entanto, atinge com mais força quem estava perto da barragem. Nesse momento, os mais bem informados (ou bem relacionados) já terão fugido ou feito hedge de gambiarra no mercado financeiro.

Os responsáveis pela adoção da política, normalmente, voltam para a academia ou para alguma empresa amiga e imitam Luis XVI, dizendo sorridentes:

“Depois de mim, o dilúvio.”

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A crise bate à porta, entra e fica.

A grande ideia da carreira de Adam Smith não foi a de que a divisão do trabalho aumenta a produtividade. Também não foi a de que, movidas pelo interesse próprio (e respeitando algumas regras, como não matar, não fazer cartel etc.), as pessoas trabalham umas para as outras e organizam o trabalho de forma eficiente.

A ideia que me faz classificar Smith como gênio também não tem nada a ver com o equilíbrio de mercado, com as pessoas querendo produzir mais e consumir menos de um produto quando seu preço sobe.

Gosto dessas ideias e sei que, como quase todas, elas são uma descrição do que Smith observou visitando fábricas e estudando séries de dados (como as dos preços da prata, no capítulo mais extenuante do Riqueza das nações). Muito disso já era intuído pelos empresários da época, mas foi organizado, digerido e posto no papel por Smith.

Mas sua grande ideia, a que o tornou conhecido ainda no século XVIII – e que até hoje é lida sem muitas inclusões, exceções e refinamentos – tem a ver com como as pessoas vêem a si mesmas  e às outras, tem a ver com até que ponto sentem empatia com o sofrimento alheio e como é irritante quando não sentem.

Thomas Piketty, em seu livro sobre concentração de renda e patrimônio, lembra que, apesar de seu alto nível de renda, os Estados Unidos nunca desenvolveram um sistema de bem estar social similar aos sistemas europeus. Os EUA não têm nem ao menos um sistema de saúde pública.

Para Piketty, eles não criaram um estado de bem estar social porque são racistas. Parte da população, mesmo sendo pobre, vota contra o aumento da segurança social e a garantia de atendimento médico para excluir outra parte – com a qual não sente empatia. Eles literalmente não estão nem aí para o sofrimento alheio (sofrimento com a falta de hospital ou de apoio social básico).

E quando a concentração de renda aumenta, essa falta de empatia ganha ares de crueldade.

Um nível alto de desigualdade faz com que algumas pessoas tenham boas reservas/sobras enquanto outras não conseguem o bastante para o básico. As pessoas que não têm o básico ficarão ansiosas para conseguir mais dinheiro. Mas boa parte dos possíveis contratantes está na parte mais rica da população.

A imagem do bilionário praticamente comprando pessoas para satisfazer seus caprichos mais estranhos foi a que saiu do relatório (com informações até agora não comprovadas) sobre o novo presidente dos EUA publicado pelo site Buzzfieed.

Se Trump foi eleito porque parte do eleitorado estava insatisfeita com a estagnação de sua renda nos últimos anos, seu perfil concentrador promete que esse problema não vai ser resolvido: teremos mais concentração de renda e mais estagnação para as classes média e baixa nos EUA. Ah, e sem saúde pública ou benefícios sociais. Afinal, mesmo já tendo pedido falência várias vezes, Trump não tem empatia com esse bando de perdedores pobres (que o elegeram).

É estranho que Adam Smith – vendido pelos conservadores como um defensor de que o egoísmo é o motor da economia – seja, na prática, um delicado observador da solidariedade (e da falta de de solidariedade) entre os homens.

Mas é preocupante que, depois de séculos contando com o egoísmo como  motor da economia, tenhamos chegado a um ponto em que a falta de empatia com o sofrimento alheio seja o determinante da mudança política em muitos países.

Se as novas políticas sociais e econômicas forem criadas com esse desprezo total pelo que os outros sentem, aumentaremos ainda mais o sofrimento e a insatisfação a nossa volta.

Nos tempos da tecnologia de informação e dos níveis de renda (total) mais altos já registrados, condenamos pessoas a sofrerem por não poder pagar um médico (e por nosso governo ter sucateado o SUS).

Tenho dificuldade em entender porque parece ter havido uma onda conservadora em tantos lugares. No Brasil, houve uma grande decepção com a esquerda (que o PT engoliu e depois afundou). Mas na Inglaterra? nos Estados Unidos? Sim, havia insatisfação por lá. Mas por que ela foi canalizada nessa direção? Por que não virou pressão por mais serviços públicos? Por que o discurso do imigrante como bode expiatório emplacou?

Eu sei, há o problema do medo. O combustível de quase todo conservador é o medo. Medo de perder o que tem, principalmente. Em tempos de mudança, como a que vem com a migração dos sírios para a Europa, muitos conservadores ficam com medo de perder espaço.

É horrível. Itália, Alemanha e tantos outros países europeus enviaram emigrantes, aos milhões, para todo o mundo nos séculos XIX e XX (quando enfrentaram guerras e crises econômicas). E agora, parte de sua população é fortemente contra receber gente de países em guerra ou em crise.

A falta de empatia, como diria Smith, cria um problema sério para a forma como as sociedades se organizam.

A dúvida é se, apesar de toda a tecnologia e de todo o desenvolvimento econômico que conseguimos nos últimos 300 anos, a falta de empatia e as políticas concentradoras que ela tenta impor terão força para nos levar a uma guerra de todos contra todos, para nos levar a um  período em que políticas toscas desmoralizam os governos e as pessoas não vêem mais para onde correr.

Estamos tomando o rumo do aumento da pobreza? Isso vai ser bem digerido pelas pessoas que votaram nos conservadores achando que eles trariam alguma melhora? E depois, quando a insatisfação aumentar, o que vai acontecer?

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De volta à idade das trevas?

Contos de graça no natal

dezembro 23, 2016

Está de graça, na Amazon, o livro que incluí no site, em setembro, para disputar um prêmio de literatura (que não ganhei). O site da Amazon não permite que os livros fiquem de graça mais de cinco dias. O livro está de graça, então, neste link, entre 24 e 28 de dezembro. Depois disso, volta a custar R$ 2,00.

O texto é a história de amor entre uma estudante de matemática sem escrúpulos e um estudante de letras sem dinheiro.

Além disso, juntei em PDF (em um formato que cabe em telas pequenas, como a do kindle), meus contos do fundo da gaveta. Eles são razoavelmente engraçados e ficarão de graça, em PDF, para sempre.

Se a Amazon continuar com zero hits, o texto de lá também vai acabar aqui, em PDF. Achei que, na Amazon, o texto seria mais marquetado ou teria mais visibilidade que no meu próprio blog. Ilusão, é claro.

Já me disseram que, se quiser ser lido, tenho que criar um perfil no Facebook. Mas ler e escrever contos é o oposto de ler perfis e abobrinhas rotineiras (ou é minha antipatia por redes sociais que realmente me impede de fazer isso).

Para quem quiser, então, boa leitura.

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Ovelha caçada por Murakami que gostou dos contos (a ovelha, não o escritor).