Certezas medievais

dezembro 10, 2018

As religiões não cresceram e se espalharam pelo mundo apenas por ter uma explicação simples (e consoladora) para as grandes questões da humanidade. Elas eram, são, um alívio para as angústias e incertezas de todos os dias. Talvez por isso, épocas de crise sejam épocas de aumento da religiosidade.

Mas os religiosos, os líderes religiosos, nem sempre reagem bem a toda a confiança e esperança que seus seguidores depositam neles. Confiança tem a ver com poder e poder, não custa lembrar, corrompe. Não precisa ser corrupção monetária. Às vezes basta o excesso de auto-confiança para fazer um bom estrago: basta o  excesso de convicção.

Aristóteles, o grande filósofo grego, confiava plenamente em que a pedra mais pesada cairia mais rápido que a pedra leve. E, por séculos, gerações de acadêmicos confiaram nessa descrição de como as pedras caiam. Passamos a Idade Média toda assim, seguindo confiantes o que estava escrito nos textos do sábio Aristóteles.

Até que veio Galileu e fez o teste. Jogando as pedrinhas do alto da torre, Galileu nos deu o que acabou sendo chamado de Método científico. E, com o método, vieram as revoluções na física, na química, na medicina e onde mais alguém se propusesse a testar as hipóteses em vez de apenas aceita-las como dogmas.

Tudo isso é para dizer que os religiosos – cada vez mais seguidos e cada vez mais confiantes em seus dogmas – poderiam ser um pouco mais cautelosos. De onde afinal tiram as suas certezas? Por que confiam tanto nelas a ponto de tentar impô-las aos outros? Eles pensam no estrago que podem fazer se estiverem errados?

Não é porque alguém escreveu um livro séculos atrás, ou porque alguém o interpretou de alguma forma outro dia, que se deve impor leis de cunho religioso a ninguém.

Os cientistas não têm certezas (por isso testam suas hipóteses), por que deveríamos confiar às cegas nas certezas dos líderes religiosos? Nada contra a religião, mas o líder religioso que faz campanha contra um tema qualquer tem preparo, tem estudo, tem o mínimo de autoquestionamento necessário para falar em nome dos fiéis (ou em nome de Deus)?

O mundo é um lugar complexo, delicado e cheio de sutilezas. E, quanto mais complicado fica, mais os dogmas duros, impostos a ferro e fogo, produzem estragos em vez de melhoras.

Se os lideres religiosos dogmáticos tiverem maioria no Congresso, vai ser preciso conter alguns para que não nos levem de volta aos anos 50 – ou aos tempos da Inquisição.

Não é com dogmas medievais que vamos resolver problema nenhum.

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De volta à moda?

 

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Livro de graça na Amazon

novembro 20, 2018

Está de graça, na Amazon, o livro que escrevi para o Prêmio Kindle de Literatura do ano passado (que não ganhei).

O livro é a história de uma estudante de economia que, depois de participar de uma boa quantidade de projetos e situações surreais na empresa onde trabalha, se convence de que vendeu seu tempo ao diabo.

Ela não é exatamente a bondade em pessoa, mas se assusta quando se dá conta do que está fazendo.

A versão grátis do livro é para kindle (e também pode ser lida em celulares, tablets e computadores).

Para quem preferir, há uma versão impressa – com capa fosca e papel creme – que atende a todos os caprichos de quem gosta do bom e velho livro em papel.

A versão impressa, no entanto, ainda não está a venda no site da Amazon Brasil. Na Amazon EUA, neste link, o livro pode ser comprado por US$ 4,95 (+ frete).

O site da Amazon só deixa a versão kindle com preço zero por cinco dias, quer dizer, até o dia 24/11.

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Não é o Harry Potter (mas vale a pena).

Ter voz, e saber usar, faz toda a diferença. Ninguém mostra isso melhor do que J.K. Rowling, a autora de Harry Potter.

Rowling, roteirista de Animais fantásticos: os crimes de Grindenwald, produziu a melhor imagem até agora do que é um fascista. Seu Grindenwald é sedutor e fala em “liberdade para nós” e em fazer coisas (às vezes violentas) “por um bem maior”. Com um discurso envolvente, ele consegue atrair para o seu lado alguns dos principais personagens do filme.

O “nós contra eles”, o “eles são os violentos”, o “não odeio os não-mágicos (sempre haverá necessidade de animais de carga)” são o retrato dos movimentos políticos que estão ganhando corpo em vários países hoje em dia. E Rowling não deixa passar.

Ex-funcionária do departamento africano da Anistia Internacional em Londres, ela conheceu muitas vítimas de regimes totalitários e sabe, em detalhe, como os ditadores seduzem e vendem seu peixe (ao mesmo tempo em que são bizarramente violentos com quem se arrisca a discordar).

O filme se passa no começo do século XX. Grindenwald é a versão bruxo de Hitler, falando em “sangues puros” como o outro falava em “raça superior”. Mas não é só isso: seu discurso é também o discurso aristocrático, a ideia de que uma pequena parte da população é superior por direito e o resto, “animais de carga”.

O começo do filme é perfeitamente mediano e sem sal: pontilhado de referências à Escola de Hogwarts e a personagens secundários dos livros de Harry Potter. A parte impressionante, perto do fim, é Grindenwald discursando para uma platéia lotada – onde uma personagem que poderia ter o noivo morto em um regime à Grindenwald se deixa seduzir por seus argumentos.

E, no meio de um discurso fascista cheio de eufemismos, Johnny Depp/Grindenwald, com um bigodinho repulsivo e uma cara pálida como gelo, grita em tom desvairado: “Odeio Paris!”,  quebrando a tensão na única cena que  faz o público rir, por um segundo.

Na sequência, ele tenta destruir Paris e o filme volta às cenas de ação em 3D.

É estranho ver filmes para criança no século XXI.

Mas é bom que eles sejam feitos assim.

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Grindenwald – em defesa dos bruxos de bem.

Tenho lembrado com muita frequência do início de 3.000 dias no Bunker, do jornalista Guilherme Fiuza. Os dois parágrafos abaixo são do começo do primeiro capítulo:

“O desafio de ir para o governo e comandar a economia nacional era apetitoso e assustador. Apetitoso porque seu plano estava pronto na cabeça e não havia, no partido recém-chegado ao poder, ninguém com metade de sua capacidade de enfrentar aquela crise sem precedentes; assustador porque o viés autoritário do novo governo ficava cada vez mais claro – sendo que, visto bem de perto, deixava à mostra, nítida, a semente totalitária.

“Seria um conflito delicado, em qualquer tempo ou lugar, entre aspirações profissionais e convicções pessoais. Mas no caso do economista alemão Hjalmar Schacht, o dilema continha um complicador: o convite para fazer parte do governo vinha do primeiro-ministro Adolf Hitler.”

Schacht tinha sido o responsável por parar a hiperinflação alemã, dez anos antes. Agora, era chamado para tirar a Alemanha da Grande Depressão. Se soubesse, com certeza, como a história iria se desenrolar, teria preferido deixar a depressão seguir e o governo cair. Talvez até pudesse participar do governo seguinte.

Como lembra Fiuza, “Schacht disse sim a Hitler e tirou seu país da Depressão. Depois, por efeitos diretos e colaterais de sua participação no governo nazista, passou boa parte do resto de sua vida na prisão.”

Aceitar um cargo de primeiro escalão em um governo autoritário é uma decisão que não se toma com leveza.

E, como estamos no Brasil, há alguns complicadores a mais. Nosso laboratório de políticas econômicas voluntaristas, a Argentina, mais uma vez saiu na frente e adotou um programa econômico pró-empresários antes de nós. Mas Mauricio Macri, o presidente pró-empresas de lá, acabou descobrindo na prática que a Argentina não é para principiantes.

A inflação continua alta, a moeda se desvaloriza aos saltos e o crescimento da economia parece, cada vez mais, um sonho distante. O problema é que não basta dizer “pronto: acabou o governo intervencionista, somos pró-mercado” e esperar que tudo se resolva. Os problemas do mundo real são complicados.

Isso tudo é para dizer que não faço ideia de quem vai aceitar participar do novo governo. Durante a campanha eleitoral (quase) todos os economistas mais conhecidos escreveram colunas e artigos declarando sua oposição ao candidato que acabou eleito. Não espero ver o nome de nenhum deles no primeiro ou segundo escalão. E, caso escolham algum principiante, como a ministra da Fazenda de Collor, 28 anos atrás, a crise pode aumentar rapidamente.

Se encontrarem um Hjalmar Schacht, a crise deve apenas demorar mais para se consolidar.

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Crise – Centro Municipal de Artes Calouste Gulbenkian.

A discussão é uma prova de respeito.

Quando você discute, quando você argumenta com uma pessoa, isso quer dizer que o que ela pensa faz diferença para você (e que, por mais assustadores que sejam os pontos de vista dela, você não a considera um caso perdido).

Essa eleição tem sido especialmente horrível por mostrar como pessoas próximas podem dar tão pouco valor a coisas como diretos humanos básicos, como podem apoiar discursos de ódio a minorias como se fossem coisas normais.

Conversando com vários deles, quando falo nessas coisas básicas (não matar, não mandar a polícia matar, não torturar, não prender a oposição) eles reagem dizendo que isso é só discurso, que seu candidato não vai fazer o que diz que vai fazer.

É complicado votar em alguém porque ele não vai fazer o que diz que vai fazer…

Mas o complicado mesmo é confiar em que ele não vai fazer. Porque, com apoio do Exército, dá para fazer muitas coisas que presidentes comuns não têm como fazer.

E se a intimidação de repórteres é um bom indicador de como anda o respeito às regras do jogo em um país, os primeiros sinais dados pelo candidato ultraconservador não são bons.

Mais da metade dos colunistas de jornal têm repetido isso. Se uma “pessoa de bem” é uma que respeita as regras, acho que todas as “pessoas de bem” têm feito campanha contra o candidato conservador – e, no entanto, ele está na frente nas pesquisas.

Ao longo da história, políticos com discurso agressivo e preconceituoso foram eleitos em muitos países. E vários cumpriram suas promessas. A Europa, dos anos 20 aos anos 40 teve muitos casos assim.

Não há porque acreditar que um candidato não vai fazer o que – há anos – diz que vai fazer. Principalmente se ele tiver meios (Exército) e apoio popular (votos).

O que eu quero dizer, meus amigos conservadores, é que votar por raiva de um partido acreditando que o outro não vai ser o que promete é uma aposta, no mínimo, temerária.

Prometo morder o primeiro que entrar aqui. Não acredita?

Encontrei ontem, por acidente, uma das últimas gravações de Dolores O’Riordan –  lançada mês passado, em versão single, pelos Cranberries que sobraram.

Bem melhor que todas as tentativas de retorno dos Cranberries, Íosa (é esse o nome da música) lembra as gravações mais fortes da banda, nos anos 90.

Completamente incompreensível, a música foi composta em gaélico que, talvez por influência de William Butler Yates, Dolores falava.

A versão traduzida (que catei no google) é um texto religioso, mas perfeitamente desesperado.

Lembro de ver placas em gaélico em Dublin. Acho que os irlandeses fazem isso por uma espécie orgulhosa de anti-colonialismo, fazem para implicar com os ingleses.

O único sujeito que eu já tinha visto publicar de verdade na língua dos celtas tinha sido Yates.

Não, nunca li nada em gaélico. Foi em inglês mesmo que li meu verso favorito, o Prayer for my daughter, talvez o melhor texto que existe para se ler em tempos de ódio e fúria indiscriminados.

Abaixo, um trecho do dito:

(...)
My mind, because the minds that I have loved,
The sort of beauty that I have approved,
Prosper but little, has dried up of late,
Yet knows that to be choked with hate
May well be of all evil chances chief.
If there’s no hatred in a mind
Assault and battery of the wind
Can never tear the linnet from the leaf.

W.B.Yates

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Dublin, em dia de nuvens carregadas.

 

Frango depenado?

outubro 12, 2018

A extrema direita está voltando. Não sou eu quem está dizendo, está no último livro da ex-secretária de Estado americana Madeleine Albright, Fascism – a warning.

O livro descreve a ascensão dos regimes fascistas na Europa, nos anos 20 e 30 e, em seguida, apresenta alguns traços que governos atuais têm em comum com eles. Da Coréia dos Kim à Hungria de Victor Orban,  Albright traça um panorama, no mínimo, preocupante.

O trecho mais assustador do livro é a reprodução de um comentário de Benito Mussulini, o inventor do fascismo. Segundo ele, é preciso depenar a galinha pena por pena. E foi isso que os fascistas fizeram na Itália, na Alemanha e em boa parte da Europa: eles foram ocupando o poder e reprimindo a oposição passo a passo, até ter poder absoluto (e o equivalente moral de poder absoluto, como diria Lord Acton).

Talvez o mais assustador seja pensar que o cenário de fundo hoje é parecido com o daquela época: insatisfação social, descrença na política e mudança nos meios de comunicação.

Sim, os fascistas dos anos 30 foram primorosos em usar os novos meios da época (cinema, rádio etc.) para se promover.

Hoje, o exemplo de livro texto de uso dos novos meios para política é o caso da Cambridge Analitica. A empresa analisava perfis de Facebook e direcionava notícias falsas para os mais sensíveis a essas notícias.

Eles fizeram isso na eleição de Donlad Trump e na votação do Brexit, contratados pelo lado ultra-conservador.

Loucos querendo poder sempre houve. O complicado é quando eles começam a ter meios para conseguir.

Eu sei, não é só o uso da internet, não é só a insatisfação geral, não é só o direcionamento de notícias falsas para os mais crédulos. Mas tudo isso é parte da explicação para o ressurgimento da direita raivosa aqui, na Turquia, na Hungria e até nos EUA de Donald Trump.

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Fugir? Para onde?

Não matarás

outubro 12, 2018

Não sou religioso. Mas sempre levei a sério o sexto mandamento, o não matarás. É um principio básico de civilização: não dá para viver com muita gente por perto sem ele.

Ele é também um sinal de honestidade e humildade: nenhuma certeza, nenhuma convicção, nenhum rolex de ouro vale a vida de uma pessoa.

Mas me espanta ver religiosos (dos mais diversos credos) deixando de lado o não matarás. Eles idolatram um político que diz justamente: “Matarei!” e diz também: “A polícia matará” e diz: “Eu defendo valores cristãos”.

Não, não defende.

E se o não matarás – além de lei enviada por Deus – é também um princípio básico de civilização, então…

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Morte – México, Museu de Antropologia.

De volta à selva?

outubro 10, 2018

Darwin não tem culpa. Ele só descreveu o processo, não inventou o que aconteceu conosco. E o que aconteceu foi bom: conseguimos criar cidades, normas éticas, maneiras de viver muito melhores que as dos primeiros humanos (que tinham que caçar e, eventualmente, fugir de leões para sobreviver).

Só que nosso corpo não mudou muito desde o surgimento do primeiro homo sapiens. Nossos instintos e reações básicas são os de um caçador (e, eventualmente, de caça em potencial). Sentimos raiva e medo. E isso nos ajudaria a atacar ou a fugir de um animal selvagem – mas atrapalha muito quando vivemos em uma cidade densa esbarrando (tão educadamente quanto possível) em nossos vizinhos.

Ao longo dos séculos, no entanto, temos conseguido (em alguma medida) controlar nossos instintos mais apavorados e agressivos.

Há períodos, é claro, em que é mais difícil. Mas se adotarmos o padrão de comportamento da selva, acabaremos voltando para ela. Voltaremos a uma vida que o filósofo Thomas Hobbes chamou de estado natural – e descreveu como “solitária, pobre, sórdida, bruta e curta”.

Precisamos respirar fundo e, educadamente, falar. Falar até com os humanos mais detestáveis, porque, fora da selva, rugir, pular em pescoços ou sair atirando não vai resolver problema nenhum.

Na cidade, na civilização, no mundo do auto-controle, temos mais ferramentas para lidar com qualquer problema. E, ao longo da História, já saímos de várias crises de formas civilizadas. Temos a capacidade física de fazer isso (não só a de replicar os primeiros homo sapiens). A dúvida é se vamos fazer ou não.

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Respirem profunda e lentamente.

4% para a saúde

setembro 7, 2018

O governo gasta, com saúde pública, menos de 4% do PIB: 3,9% (incluindo hospitais militares, hospitais universitários e medicamentos distribuídos – e o SUS inteiro, claro).

É um pouco irritante ver candidatos e assessores de candidatos citarem números errados para tentar vender seus programas. Paulo Guedes, candidato a czar econômico de um dos candidatos a presidente, disse, em entrevista ao jornal El País, que o governo gasta 5% do PIB com saúde e 6% com educação. Seria pouco se fosse isso, especialmente com saúde, mas é menos ainda.

Custa usar o número certo?

O site do IBGE tem, além do PIB, o consumo do governo: o gasto do governo para produzir serviços públicos e para comprar os bens serviços que põe a disposição do público (como os serviços de santas casas conveniadas ao SUS). Com saúde o governo gasta 3,9% do PIB, com educação, 4,8%.

Quem gosta de comparações internacionais pode ver no site da OECD quanto os países com bons níveis de educação e saúde gastam com cada um (o dado de gasto com saúde no Brasil, no site da OECD, está defasado, parece ainda menor do que é).

Candidatos, discutam com os números certos.

Só para registro: o consumo do governo, em 2017, foi equivalente a 20,0% do PIB. Quer dizer: além dos menos de 9% gastos com educação e saúde, o governo gastou 11% do PIB com segurança, legislativo, judiciário, regulação, defesa e tudo mais que o governo produz. De novo, não é muito comparando a outros países, não justifica políticas que cortam a prestação de serviço público para economizar recursos.

O governo gasta mais de 40% do PIB, mas a maior parte disso não é gasta com serviço público é gasta com transferências (juros, aposentadorias, pensões, programas assistenciais e afins): é dinheiro redistribuído.

Para falar em corte de gastos, é preciso deixar absolutamente claro com o que se gasta.

Com saúde e educação, o governo gasta pouco, devia gastar mais.

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Temas espinhentos?

 

Nos Estados Unidos, a imprensa dava uma atenção desproporcional a Donald Trump antes das eleições porque os delírios que produzia em frente à câmera davam audiência. No Brasil, isso não devia ser possível. Primeiro porque há regras sobre proporção de exposição de candidatos nos noticiários, segundo porque algumas coisas simplesmente não podem ser ditas impunemente na imprensa.

Fazer apologia a crimes – em especial a crimes hediondos como tortura, homicídio e estupro – é crime. Mas, se um candidato comete esse crime, os jornais daqui ficam felizes em estampar a declaração no alto da página.

Dado o espaço para seu nome ser lembrado por todos os eleitores, o candidato, depois, discretamente, diz que foi mal interpretado e não responde a processo por apologia.

Duas coisas são especialmente estranhas nessa história. A primeira é haver eleitores dispostos a votar em um candidato que (supostamente em nome da lei e ordem) defende que policiais e outros agentes do Estado possam cometer execuções sumárias, um candidato que homenageia publicamente torturadores. Para deixar claro: votam em um candidato que defende o crime hediondo.

A segunda é que a imprensa não dá destaque (como deu a Trump nos EUA) porque as declarações do candidato dão audiência. Ela dá destaque até quando não há declarações que dão audiência. Hoje, domingo 26 de agosto, o único nome em manchete no alto do site da Folha de S. Paulo é o desse candidato. Não há nada sobre Marina, nada sobre Ciro Gomes. Há uma foto de Alkmin (sem seu nome na manchete) e um vídeo (!) sobre o candidato que mais aparece nos jornais, com a chamada: “Bolsonaro desfila em Barretos a cavalo e é chamado de mito”.

Isso não é jornalismo. Isso é propaganda política. Eu deixaria de ler a Folha de S. Paulo se só ela estivesse fazendo isso, Mas, como os outros grandes jornais também estão fazendo… Não dá para deixar de ler todos.

A imprensa brasileira é conservadora, eu sei, mas isso não é conservadorismo, isso é o elogio do crime, crime cometido por agentes do Estado (o que deve contar como agravante). Como conseguem defender (sim a exposição maior que a dos outros candidatos é uma defesa, é propaganda), como conseguem dormir à noite fazendo esse tipo de coisa?

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Topo da página da Folha de S. Paulo, domingo, 26/8.

 

Estado de S. Paulo, mesmo dia, também no topo da página. Ainda mais explícito.

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Valor Econômico, topo da página, mesmo dia.

Longe do queijo

agosto 1, 2018

A foto é autoexplicativa: foi tirada hoje em um supermercado Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

Ok, podem dizer que é um queijo pesado, de seis quilos. Mas pense nele em termos de horas de trabalho. Uma pessoa que ganha salário mínimo trabalharia duas semanas, quer dizer, 80 horas (se não trabalhar aos sábados) para poder pagar por essa preciosidade.

O que faz um queijo custar meio salário mínimo?

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Podem dizer que é um caso extremo: o queijo mais caro da loja, para consumo só do 1% (que nem olha para a etiqueta quando compra). Mas, olhando para o lado, topei com este outro, que não vou nem comentar:

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Cadê o TSE?

julho 23, 2018

Abaixo, os altos de página do Globo e Folha, exatamente como estão nos respectivos sites, agora, às 22h de domingo, dia 22 de julho.

A desproporção do espaço dado a Bolsonaro não é de hoje. Os jornais nunca deram um décimo desse espaço para Marina Silva. Nem para Geraldo Alckmin dão todo esse espaço.

Não adianta dizer que é para falar mal. Foi falando mal – e dando um espaço grátis impressionante em suas capas e programas de TV – que a imprensa americana ajudou a eleger Donald Trump.

Não havia uma lei sobre igualdade de espaço para candidatos na imprensa em tempos de eleição?

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A defesa dos herdeiros

julho 18, 2018

– E nós, os bilionários, os herdeiros de grandes empresas? Quem irá nos defender?

– Eu!

– Eu!

– Eu!

Ontem, Marcos Lisboa, ex-secretário de política econômica (governo Lula), ex-diretor da FGV e atual presidente do Insper, se juntou ao coro.

Em um debate na sede do jornal Valor Econômico, Lisboa declarou: “Tributação de dividendos, de herança é vender terreno na lua. O grande impacto de justiça social da política pública não é via tributação é via gasto público”.

Caro doutor Lisboa, uma coisa não exclui a outra. Pesquisadores do nível de Thomas Piketty e Gabriel Zucman já produziram toneladas de estudos empíricos (com ótimas bases de dados) sobre os efeitos da concentração de renda e patrimônio (e sobre como a tributação de heranças e a tributação progressiva de renda é necessária para lidar com o problema). Falar em “terreno na lua” não descarta automaticamente tudo que já foi escrito.

Depois de fazer o lobby dos herdeiros e dos donos e diretores de grandes empresas  (que não pagam imposto sobre dividendos nem sobre bônus anuais), Lisboa atacou quem defende qualquer outro grupo: “O grande desafio hoje é que não se quer comprar brigas com as corporações”, disse, se referindo a funcionários públicos e “seguimentos do setor privado”.

Sobre ajuste fiscal na pauta dos candidatos à presidência, disse: “Estou surpreso com a superficialidade do debate”.

Superficial é fazer críticas genéricas a funcionários públicos ganhando muito mais do que eles para fazer a mesma coisa que um professor universitário faz (só que em uma universidade privada…).

A discussão seria mais simples se o debate fosse feito entre técnicos que não fizessem lobby disfarçado para um grupo específico.

Eu sei: é difícil. Depois de mais de cinco décadas implementando e defendendo abertamente políticas pró-FIESP, Delfim Netto até hoje é apresentado como “economista” e não como “lobista da Fiesp”.

É difícil identificar quem propõe políticas porque têm evidências sólidas de que funcionam e quem apenas foi contratado para dar verniz acadêmico a um lobby bem financiado. Mas quando a pessoa chega ao ponto de dizer que “tributar herança é vender terreno na lua”, aí, pelo menos, dá para ver que é lobby explícito mesmo.

Queria ver debates melhores no Valor. Onde estão os técnicos que não são lobistas? (Desiludidos em pequenas salinhas em universidades e órgãos públicos ou publicando artigos em revistas acadêmicas que o grande público não lê. Estão longe da imprensa – que não consegue ou não quer saber saber quem é quem.)

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Em tempos de Copa do Mundo, vale a pena desencavar o trecho abaixo, um dos meus favoritos, que usei no primeiro post deste blog, mais de 10 anos atrás.

Ele é do Folhas inúteis, um dos livros anos 20 de Aldous Huxley:

“Fazer dos esportistas profissionais  e disputadores de prêmios  heróis efêmeros já é bastante mau; mas querer imortalizar-lhes a fama é certamente indicativo de profunda vulgaridade e degradação. Tal como a turba romana, as turbas de nossas modernas capitais deleitam-se com esportes e exercícios que elas próprias não praticam; mas, de qualquer maneira, a fama dos nossos esportistas dura apenas alguns dias após seus triunfos. Não gravamos suas efígies em mármore para que atravessem centenas de gerações. Gravamo-las em polpa de madeira, que é quase o mesmo que gravá-las na água. É reconfortante pensar que por volta de 2100 todo o nosso jornalismo, a literatura e a filosofia estarão reduzidos a pó.”

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(Mal) gravado em neon.

É quase consenso que, sem a crise econômica, nenhuma pedalada fiscal teria derrubado o Governo Dilma. Foi a mistura de inflação em alta, recessão interminável e insistência na heterodoxia econômica que fez os apoiadores do governo desistirem dele.

No entanto, até hoje, os criadores da política econômica de Dilma escrevem em jornais como se fossem perfeitos inocentes. Luciano Coutinho escreve o Valor como se nunca tivesse presidido o BNDES. Nelson Barbosa, ex-Ministro do Planejamento e da Fazenda, escreve na Folha e deixa claro que não se arrepende das políticas que implantou.

Eles fariam tudo de novo. É por isso que tanta gente continuará fugindo do “programa econômico” do PT: o partido parece não ter entendido por que o país quebrou.

Li, há alguns meses, uma entrevista com o guru heterodoxo Ha-Joon Chang, um economista sul coreano que conseguiu espaço no cenário internacional escrevendo livros pró-protecionismo e pró-subsídios a grandes empresas.

Lembro que o repórter perguntou alguma coisa sobre haver espaço para políticas de esquerda como a dele. Com toda a candura, Ha-Joon Chang respondeu que, na Coréia e no Japão, suas propostas são consideradas de direita.

Não é à toa: elas são mesmo. Dar dinheiro público e crédito subsidiado para grandes empresas não é de esquerda nem aqui nem na Coréia do Sul. Protecionismo para a Anfavea e isenções fiscais para a Fiesp são políticas que nunca foram de esquerda. No entanto, foi isso que Mantega, Barbosa, Coutinho e afins fizeram.

Enquanto defender isso, enquanto defender transferências de dinheiro público para as maiores empresas do país, o PT não poderá dizer que é de esquerda. Ele será apenas uma versão mais populista do PMDB.

Se os caciques do PT fossem um pouco mais espertos, expulsariam os economistas heterodoxos do partido e defenderiam uma política econômica à Thomas Piketty (mesmo que fosse só para agradar a platéia, mesmo que fosse só para catar uns votos de esquerda de verdade).

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Encontro nacional de bodes expiatórios: criando justificativas para repetir a Nova Matriz Macroeconômica em 2019.

Humor involuntário

abril 8, 2018

É difícil competir com os economistas quando o assunto é humor (o involuntário, é claro). Este texto publicado na Folha de S. Paulo de hoje por um analista da FGV defende – sem nenhum constrangimento – que, para tributar mais os mais ricos, é preciso REDUZIR os impostos sobre as empresas. Isso: reduzir.

Depois, ele propõe aumentar as alíquotas do Simples, pagas pelos pequenos empresários (aqueles cujas firmas têm expectativa de vida de uns dois anos) e, para arrematar, diz que é difícil falar em reduzir impostos dos ricos porque no Brasil a classe média é rica.

Aí a ofensa foi feia: a concentração de patrimônio no Brasil é uma das maiores do mundo. Desculpe, mas a classe média não é rica aqui não.

O nó retórico de Samuel Pessoa, o autor do texto, é confundir renda e patrimônio. Renda é quanto você ganha, patrimônio, o que você tem. Um é fluxo, o outro, estoque.

Rico é quem tem patrimônio. Uma pessoa que conseguiu um salário maior ou uma transferência de renda em um ano não é rica. Ao mesmo tempo, donos de imóveis e empresas bem avaliadas, mesmo que tenham prejuízo e um ano qualquer, são ricos, porque riqueza é patrimônio.

O patrimônio no Brasil é muito mais concentrado que a renda, e a concentração de renda é subdimencionada. Só agora, com dados do Imposto de Renda Pessoa Física (analisados à Piketty) estamos começando a medir melhor a renda das faixas mais altas e – por tabela – nossa concentração de renda.

Dizer que quem ganha mais de 23 mil no país está no grupo dos mais bem pagos (como faz Pessoa) é tentar arregimentar para a defesa da Fiesp os funcionários mais bem pagos das empresas e do governo – e é um discurso ofensivo.

Vamos falar sobre tributação de patrimônio e sobre tributação da renda do capital e não sobre salários. Se misturar essas discussões for a base do discurso conservador na próxima eleição, até eu, que tenho horror a economistas heterodoxos, sou capaz de votar em alguém de extrema esquerda, só para não ter que ouvir pérolas pró-Fiesp como essa.

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Portas fechadas para os pequenos.

Está de graça, na amazon, Bibliofilia, uma história de amor peculiar entre um estudante de letras com preferências literárias estranhas e uma estudante de matemática ambiciosa e sem muitas restrições éticas.

A amazon limita o período em que os livros podem ficar de graça lá. Este fica até o dia 7/2.

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Detalhe da porta – Auguste Rodin.

 

 

Editei a versão impressa de meu livro no site da amazon. Ficou bonitinha. É a mesma história estranha que já estava disponível para kindle sobre economistas entrando na faculdade e descobrindo as bizarrices teóricas (para depois as cometer na prática, no trabalho).

Mas, impresso, o texto ficou mais bonito (com capa fosca em PB e papel creme).

Para quem quiser ler coisas sérias sobre economia, quase recomendo este mini curso de Contas Nacionais que tive que preparar para o trabalho. E, para quem quiser coisas rápidas e curiosas, há este post sobre o Fenômeno de Will Rogers – que escrevi no blog sobre literatura.

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Pavão econômico azul.

PS.: A versão impressa do livro só pode ser pedida pelos sites da amazon EUA ou de alguns países da Europa. Defini o preço no mínimo permitido, quer dizer: o frete é mais caro que o livro…

Não tenho a mais vaga ideia do que está acontecendo com a política brasileira. Esperava que houvesse protestos nas ruas contra o governo e não há (não entendo como). Esperava que houvesse uma oposição forte e sonora, com um discurso bem amarrado, nomes ministeriáveis e propostas claras. Mas não há nada disso.

A oposição, pelo menos a que tenho visto, se divide entre deterministas históricos, tipo PSOL (que leram Marx e até hoje acreditam que o mundo caminha inexoravelmente para o comunismo) e fanáticos religiosos autoritários.

Os fanáticos merecem alguns parágrafos à parte.  Eles têm mais votos que o PSOL e são capazes de aprovar propostas como a do extermínio em massa de mulheres em clínicas clandestinas (que seria o efeito de proibir o aborto em todo e qualquer caso, como conseguiram aprovar em uma comissão no Senado).

O mais votado deles, Jair Bolsonaro, admite que não têm propostas para a economia (o que é, no mínimo, constrangedor para um candidato declarado à presidência). Bolsonaro quer ser eleito para perseguir minorias e defender o conservadorismo sem máscaras.

Ele, pelo menos, não finge que é liberal.

O que Bolsonaro defende pode ser resumido como a volta aos anos 50 – com todos os preconceitos e idiossincrasias da época.

Em seu comunicado à imprensa se desculpando por não falar sobre economia, o candidato terminou com um “Deus acima de tudo”, que pode ser traduzido como: “os evangélicos e católicos mais fanáticos votarão em mim independentemente do que eu proponha para a economia”.

Em um estado oficialmente laico – e em crise econômica – isso é mais que constrangedor.

Há Lula: a mistura de pragmatismo amoral e corrupção que já conhecemos. Mas uma boa parte dos analistas diz que ele tem votos o bastante para ir para o segundo turno e rejeição o bastante para perder o segundo turno. Isso se não for preso antes.

Há Dória, Hulk e outros PSDBistas que tentam se descolar de Aécio e de sua mala de dinheiro. Mas esse caso é perdido: a mala de dinheiro de Aécio é igual à de Temer na gravação do dono da JBS: é o fundo do poço.

Mala de dinheiro é uma espécie de Supertrunfo da corrupção: nada a ultrapassa, não dá para discutir, não há desculpa ou perdão possível.

E, no meio de corruptos descarados (Aécio), deterministas do século XIX (PSOL e similares), pregadores avessos aos direitos civis (Bolsonaro), corruptos sem mala mas com um telhado de vidro assustador (Lula) e oportunistas que se esforçam para esconder quem os apóia (Dória e Hulk) temos que escolher um candidato?

Por que diabos não aparece um bom leitor de Piketty com uma equipe de técnicos respeitável e propostas claras (e diferentes da agenda conservadora – que é sim impopular) para disputar as eleições?

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Votar num desses? Ainda há tempo para aparecer alguém razoável…

 PS.: A Folha de S. Paulo de hoje diz que Bolsonaro está adotando um discurso econômico liberal, em reuniões com investidores. Se antes, com todos os preconceitos, ele podia pelo menos dizer que era sincero, agora, nem isso.