Economia da saúde

abril 29, 2017

A gestão atual do Ministério da Saúde entrará para a História por sua criatividade sem limites.

Hoje pude ver de perto essa inovação curiosa que é a campanha de vacinação sem vacinas.

É simples: você chega ao posto de saúde e descobre que as vacinas acabaram antes das oito horas da manhã, logo que o posto abriu.

– É para febre amarela? Tem que chegar às 7h – me disse uma mãe de criança com o filho no colo. – Em Botafogo também já acabou.

Segui com minha filha para a Cinelândia, onde eu mesmo tomei a vacina há alguns anos. Lá, o segurança do posto de vacinação foi ainda mais claro:

– A gente só recebe 20 doses por dia. O melhor é agendar a aplicação.

Mas não era uma campanha de vacinação? Agendar no meio de uma campanha?

O verão já acabou e anda há tempo até os mosquitos voltarem a ser um dos grandes terrores cariocas. Mas mandar as pessoas aos postos de saúde sem ter vacinas para aplicar não parece o exemplo de gestão que o atual ministro prometeu quando recebeu o Ministério Saúde em troca dos votos da bancada do PP no Congresso…

Injeção? Vacina? Programa de saúde pública? Só pagando, na clínica particular. Vai um plano de saúde popular sem cobertura de internação também?

A grande ideia da carreira de Adam Smith não foi a de que a divisão do trabalho aumenta a produtividade. Também não foi a de que, movidas pelo interesse próprio (e respeitando algumas regras, como não matar, não fazer cartel etc.), as pessoas trabalham umas para as outras e organizam o trabalho de forma eficiente.

A ideia que me faz classificar Smith como gênio também não tem nada a ver com o equilíbrio de mercado, com as pessoas querendo produzir mais e consumir menos de um produto quando seu preço sobe.

Gosto dessas ideias e sei que, como quase todas, elas são uma descrição do que Smith observou visitando fábricas e estudando séries de dados (como as dos preços da prata, no capítulo mais extenuante do Riqueza das nações). Muito disso já era intuído pelos empresários da época, mas foi organizado, digerido e posto no papel por Smith.

Mas sua grande ideia, a que o tornou conhecido ainda no século XVIII – e que até hoje é lida sem muitas inclusões, exceções e refinamentos – tem a ver com como as pessoas vêem a si mesmas  e às outras, tem a ver com até que ponto sentem empatia com o sofrimento alheio e como é irritante quando não sentem.

Thomas Piketty, em seu livro sobre concentração de renda e patrimônio, lembra que, apesar de seu alto nível de renda, os Estados Unidos nunca desenvolveram um sistema de bem estar social similar aos sistemas europeus. Os EUA não têm nem ao menos um sistema de saúde pública.

Para Piketty, eles não criaram um estado de bem estar social porque são racistas. Parte da população, mesmo sendo pobre, vota contra o aumento da segurança social e a garantia de atendimento médico para excluir outra parte – com a qual não sente empatia. Eles literalmente não estão nem aí para o sofrimento alheio (sofrimento com a falta de hospital ou de apoio social básico).

E quando a concentração de renda aumenta, essa falta de empatia ganha ares de crueldade.

Um nível alto de desigualdade faz com que algumas pessoas tenham boas reservas/sobras enquanto outras não conseguem o bastante para o básico. As pessoas que não têm o básico ficarão ansiosas para conseguir mais dinheiro. Mas boa parte dos possíveis contratantes está na parte mais rica da população.

A imagem do bilionário praticamente comprando pessoas para satisfazer seus caprichos mais estranhos foi a que saiu do relatório (com informações até agora não comprovadas) sobre o novo presidente dos EUA publicado pelo site Buzzfieed.

Se Trump foi eleito porque parte do eleitorado estava insatisfeita com a estagnação de sua renda nos últimos anos, seu perfil concentrador promete que esse problema não vai ser resolvido: teremos mais concentração de renda e mais estagnação para as classes média e baixa nos EUA. Ah, e sem saúde pública ou benefícios sociais. Afinal, mesmo já tendo pedido falência várias vezes, Trump não tem empatia com esse bando de perdedores pobres (que o elegeram).

É estranho que Adam Smith – vendido pelos conservadores como um defensor de que o egoísmo é o motor da economia – seja, na prática, um delicado observador da solidariedade (e da falta de de solidariedade) entre os homens.

Mas é preocupante que, depois de séculos contando com o egoísmo como  motor da economia, tenhamos chegado a um ponto em que a falta de empatia com o sofrimento alheio seja o determinante da mudança política em muitos países.

Se as novas políticas sociais e econômicas forem criadas com esse desprezo total pelo que os outros sentem, aumentaremos ainda mais o sofrimento e a insatisfação a nossa volta.

Nos tempos da tecnologia de informação e dos níveis de renda (total) mais altos já registrados, condenamos pessoas a sofrerem por não poder pagar um médico (e por nosso governo ter sucateado o SUS).

Tenho dificuldade em entender porque parece ter havido uma onda conservadora em tantos lugares. No Brasil, houve uma grande decepção com a esquerda (que o PT engoliu e depois afundou). Mas na Inglaterra? nos Estados Unidos? Sim, havia insatisfação por lá. Mas por que ela foi canalizada nessa direção? Por que não virou pressão por mais serviços públicos? Por que o discurso do imigrante como bode expiatório emplacou?

Eu sei, há o problema do medo. O combustível de quase todo conservador é o medo. Medo de perder o que tem, principalmente. Em tempos de mudança, como a que vem com a migração dos sírios para a Europa, muitos conservadores ficam com medo de perder espaço.

É horrível. Itália, Alemanha e tantos outros países europeus enviaram emigrantes, aos milhões, para todo o mundo nos séculos XIX e XX (quando enfrentaram guerras e crises econômicas). E agora, parte de sua população é fortemente contra receber gente de países em guerra ou em crise.

A falta de empatia, como diria Smith, cria um problema sério para a forma como as sociedades se organizam.

A dúvida é se, apesar de toda a tecnologia e de todo o desenvolvimento econômico que conseguimos nos últimos 300 anos, a falta de empatia e as políticas concentradoras que ela tenta impor terão força para nos levar a uma guerra de todos contra todos, para nos levar a um  período em que políticas toscas desmoralizam os governos e as pessoas não vêem mais para onde correr.

Estamos tomando o rumo do aumento da pobreza? Isso vai ser bem digerido pelas pessoas que votaram nos conservadores achando que eles trariam alguma melhora? E depois, quando a insatisfação aumentar, o que vai acontecer?

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De volta à idade das trevas?

Encontrei o trecho abaixo lá pelo meio da Teoria dos Sentimentos Morais, primeiro livro de Adam Smith, publicado em 1759. O trecho é a melhor descrição que encontrei até agora para o ressentimento que parece mover a onda conservadora pela qual estamos passando.

Pela descrição, a impressão que fica é que o ressentimento não vai passar tão cedo.

“O propósito mais almejado pelo ressentimento não é tanto fazer com que nosso inimigo, por sua vez, também sinta dor, mas fazê-lo saber que a sente por causa de sua conduta passada, fazê-lo arrepender-se dessa conduta e perceber que a pessoa que ofendeu não merece ser tratada daquela maneira. O que mais nos enraivece no homem que nos ofende ou insulta é a pouca conta em que parece nos ter, a preferência insensata que dá a si mesmo em detrimento de nós, e o absurdo amor de si que o faz imaginar que outras pessoas podem a qualquer momento se sacrificar por seus caprichos ou humor.”

Não acho que os políticos religiosos e aristocráticos que estão sendo eleitos sejam as pessoas mais habilitadas para diminuir esse ressentimento. Pelo contrário, eles têm potencial para aumentá-lo.

Resta saber como o público vai reagir quando os problemas que esperava resolver crescerem mais em vez de diminuir.

Peru de natal preventivamente ressentido.

Peru de natal preventivamente ressentido.

 

A lei de Contra-Say

junho 19, 2016

Um dos argumentos teóricos favoritos dos autores da política econômica do governo Dilma pode ser chamado, sem muita controvérsia, de Lei de Contra-Say.

A Lei de Say original, proposta pelo economista francês Jean Baptise Say no século XIX, dizia, resumidamente, que a oferta cria sua própria demanda. Quer dizer: ao produzir, as pessoas geravam a renda que seria usada para comprar o que foi produzido.

A Grande Depressão, nos anos 30, enterrou a Lei de Say. Havia produção mas, com a demanda fraca, ela encalhava em pilhas de estoques.

A produção não gera necessariamente demanda pelo que foi produzido. Isso é mais ou menos consenso entre os economistas hoje. Em períodos conturbados, pessoas e empresas podem preferir guardar uma parte maior de sua renda – em vez de consumi-la ou de investir em produção. Em situações de crise de demanda (como nos anos 30), vale a pena que o governo incentive a demanda. Até aqui, tudo bem.

Mas os teóricos do governo Dilma deram um passo além: para eles, a demanda gerava sua própria oferta – em uma versão invertida da Lei de Say. Bastaria estimular a demanda e surgiria produção para atendê-la.

Em depressões econômicas, com fábricas fechadas e desemprego em massa, o estímulo à demanda pode sim levar a uma retomada na oferta (pois o conhecimento específico, a estrutura física e os trabalhadores já estão lá prontos para voltar a produzir). Em períodos normais, estímulos fortes à demanda levam apenas a aumentos de preços – como se pode ler em qualquer manual de macroeconomia.

Negando o manual, os teóricos do governo transformaram a população do país em cobaia involuntária de uma experiência fadada ao  fracasso. É claro que a inflação subiu. É claro que empresas e donos de ativos, vendo aquela política temerária ser implantada, não só não investiram como tentaram colher ganhos de curto prazo subindo preços.

Tudo isso era previsível. A única coisa surpreendente é que um governo com ambições  políticas de longo prazo tenha comprado o discurso de lobistas com um horizonte de tempo curto. O surpreendente é que o governo tenha acreditado na cascata acadêmica da Lei de Contra-Say.

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Contra-Say: A solução é construir pirâmides, esfinges e obras olímpicas.

Há empresas esvaziando seus estoques. A queda na produção de bens parece ter sido maior que a queda no consumo desses bens, quer dizer: há sinais de que haverá compradores se as fábricas aumentarem a produção.

O gráfico abaixo mostra a variação de estoques (acumulada a cada 4 trimestres para não ter sazonalidade) e a variação nominal do PIB de 4 trimestres sobre os 4 trimestres imediatamente anteriores.

Além de mostrar que há uma correlação razoável entre as duas variáveis, ele mostra também que a variação de estoques tem sido negativa, quer dizer: aparentemente há mais demanda que oferta no mercado de bens (os serviços são outra história).

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Com estoques caindo, as empresas, em algum momento, poderão se movimentar para repô-los (ou não vão conseguir atender à demanda).

A boa correlação entre as duas séries me fez tentar projetar a variação de estoques a partir da série do PIB. O resultado é a linha cinza no gráfico. Ela também é uma boa notícia: indica que os estoques estão caindo mais rápido do que se pode projetar a partir da variação nominal da renda (a variação do PIB nominal).

Com estoques caindo rápido, há estímulo para que a produção de bens volte a crescer logo.

É, pelo menos, alguma luz lá pelo meio do túnel…

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PS.: Sobre o gráfico acima, usei diferenças em reais para o PIB em vez de taxas de crescimento em percentual. Na série do PIB, os valores em milhões de reais correntes de cada período foram divididos por 10 (para a linha não ficar muito longe da linha da variação de estoques, facilitando a comparação).

A projeção em cinza foi feita com uma regressão simples, de mínimos quadrados.

Os dados originais estão na planilha de “Valores correntes”, no site do IBGE, neste link.

Saúde x Pato amarelo

junho 17, 2016

– Não há despesa órfã no Brasil.

Ouvi essa frase do então ministro Pedro Malan em um seminário no BNDES, em 2002. Malan sabia o que estava dizendo. Segundo ele, quando tentava cortar qualquer gasto, surgiam logo os pais, padrinhos e afins da despesa para defendê-la como a um filho querido.

Cotar é difícil. Alguns cortes, paradoxalmente, aumentam a despesa e não devem ser feitos. Cortar gastos no combate a mosquitos claramente aumenta a despesa (ou as mortes por doenças ligadas a eles). Cortar merenda escolar também não é recomendável.

Sim, há onde cortar. O governo aluga uma infinidade de andares e prédios e salas e é dono de outras tantas – vazias ou sub-utilizadas. A gestão de patrimônio do governo federal é temerária, há muito tempo.

Mas cortar esses gastos dá trabalho (embora não dependa de votos no Congresso). Da saúde não vão conseguir cortar muito. O Brasil gastam menos de 4% do PIB com saúde pública: é muito menos que a média da OECD (e a média da OECD, em % do PIB, é calculada como percentual de PIBs per capita bem maiores que o nosso). O gasto com educação pública é de 4,4% do PIB: pouco também. Não recomendo cortar.

Além de saúde e educação, o governo gasta 10,8% do PIB com o resto da administração pública, aí incluídos Legislativo, Judiciário, Defesa e segurança pública. Dá para cortar alguns gastos, mas não para espremer tudo que o governo quer/precisa.

Mas como passamos desses cerca de 20% do PIB para um gasto bem acima da carga tributária – de 33% do PIB? Faltou somar as transferências. Só com a previdência gastamos cerca de 15% do PIB (bem mais que toda a despesa com saúde e educação juntas). Com os juros da dívida gastamos mais que com saúde pública…

Mas os juros também não caem por decreto (e, com o crescimento da dívida pública, o total de gasto com juros cresce proporcionalmente…).

Bom, o fato é que, comparado ao de outros países,  o gasto com serviços públicos não é dos maiores aqui. As transferências são hoje tão grandes ou maiores que as despesas com serviços.

Para equilibrar receitas e despesas, o governo quer reduzir transferências como as aposentadorias. Isso não se faz de um dia para o outro. Mas vai ser feito, em alguma medida.

Há espaço também para aumentar alguns impostos. A alíquota mais alta do Imposto de Renda no Brasil é bem mais baixa que sua equivalente em quase todo o mundo civilizado. Ela pode ser aumentada. E se a Federação das Indústrias de São Paulo vier dizer que não quer pagar o pato, sinto, mas estamos no fundo do poço, entre outros motivos, por conta das políticas que a FIESP defendeu (como a redução populista da conta de luz, o protecionismo alfandegário amantegado e a redução forçada dos juros em 2012). Além disso, é muito razoável que as empresas mais ricas do país arquem com parte do ajuste.

O que não pode é aparecer no jornal defendendo que o pato seja pago pelos usuários do SUS. Para grande parte da população – a que depende da saúde pública – o calote na dívida federal e o inferno inflacionário são preferíveis à falta de hospitais no curto prazo.

Para quem se recente da falta de qualificação da mão de obra e da baixa produtividade do Brasil, cortar na educação também não é uma alternativa.

O que fazer então? Mudar os critérios para aposentadoria, melhorar a gestão do patrimônio federal, cortar isenções tributárias como as da Lei Rouanet  e melhorar a administração onde for possível.

(E, claro, mandar o resto da conta para a FIESP. Eles merecem pagar o pato.)

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– Não se preocupem: a verba da grande pirâmide não será cortada!

Pequenas expectativas

junho 8, 2016

Somos adaptativos: quando chove, achamos que vai continuar chovendo. Quando faz sol, nossa impressão é que haverá sol no dia seguinte. Na maior parte dos casos, dá certo: acertamos a previsão. Talvez por isso – por um processo de seleção natural de animais/pessoas adaptativos – esse jeito de formular expectativas seja tão natural para nós.

Talvez por isso, em épocas prósperas, todos esperem por prosperidade eterna e, em épocas de crise, a sensação seja de que o poço não tem fundo.

Mas a decadência econômica alguma hora vai acabar. Não dá para dizer bem quando, mas dá para dizer que vai. A máxima de que nada dura para sempre se aplica às crises. A crise vai acabar também porque os prejuízos que causa estão começando a empurrar empresários, políticos e organizações de todos os tipos a fazer mudanças (às vezes até mudanças que envolvam perdas de curto prazo).

A sensação continua sendo de crise sem luz no fim do túnel. Já houve crises que duraram décadas e desembocaram em regimes totalitários. Houve também crises curtas que ajudaram a despejar governantes totalitários. Cada crise tem seus traços específicos. Por isso – expectativas adaptativas à parte – não dá para ter muita ideia de quando a atual vai acabar (mesmo sabendo que, alguma hora, vai).

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“A crise já acabou?”

Na votação do impeachment na Câmara, os deputados de partidos aliados (PC do B e PSOL) deram um show à parte com seus discursos inflamados “contra o golpe”. Era estranho vê-los se expor desse jeito em nome de uma causa perdida (e incrivelmente impopular).

Não custa lembrar: Dilma já tinha índices de rejeição que deixariam até Collor constrangido.

Então por quê? Por que o desgaste para a própria imagem? Por que o PSOL, que tentou por alguns anos se apresentar como “oposição de esquerda”, defendeu Dilma com mais estardalhaço que o partido dela?

Esta semana, vimos um bloco bastante compacto de atores e cantores fazer a mesma coisa: se expor ao vexame de defender a rainha de copas, a destruidora da economia, em nome de… em nome de que mesmo?

Não parece haver chance de Dilma voltar ao poder. Mas os petistas ainda podem ter um ou outro voto na eleição para vereador. Então é realmente estranho o jeito como o partido parece arregimentar seus anexos para pular no abismo da rejeição pública.

Não entendo o que alguém ganha transformando Caetano Veloso em um lobista da burocracia de um Ministério da Cultura ressuscitado. Não entendo por que, um Jean Wyllys, que tinha uma boa plataforma política e um bom eleitorado, se expõe a perder o apoio de todas as pessoas que votaram nele e que têm alguma noção de economia.

Os antigos governistas parecem perdidos, ou desesperados.

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Aristocracia decadente?

 

Com um cocar branco, cantando de graça entre os pilotis do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, Caetano Veloso se transformou em uma versão musical de Leonardo Picciani – ex-líder do PMDB na Câmara dos deputados e hoje ministro dos Esportes.

Caetano fez com Michel Temer, o mesmo que Picciani fez com Dilma Rousseff: exigiu dele  um ministério. Não era para ele pessoalmente: era para o grupinho de que faz parte.

Ser o PMDB do PMDB é uma coisa estranha. Mas se, em algum momento, Caetano perceber que se transformou nisso, vai, provavelmente fazer uma piada e fingir que não notou. Afinal, ele é hoje uma pessoa que exige espaço na burocracia oficial: ele é o PMDB do PMDB (e é melhor não admitir uma coisa dessas).

Temer, como bom articulador político, cedeu e recriou o Ministério da Cultura: um custo baixo para tirar o discurso da oposição musical.

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PMDB, Honoré Daumier.

Ainda estou esperando para ver como será o governo Temer. Mas me espantou ver a defesa enfática (e involuntária) do novo governo feita por atores, cantores e compositores.

Não, eles não mudaram de lado. Caetano e cia continuam oficialmente contra. Mas, se a pior coisa que têm para reclamar é que Temer transformou o Ministério da Cultura em secretaria, então as coisas não podem estar tão mal.

O Brasil sempre foi um país cheio de problemas, com saúde pública ruim, educação pública idem, corrupção, concentração de renda etc.. Se agora os artistas se unem para denunciar uma mudança burocrática em um mistério quase sem verba, é porque o resto deve estar indo bem (ou porque eles não têm ideia do que estão fazendo).

L' adieu, Camille Claudel esculpida por Auguste Rodin após sua separação.

L’ adieu, Camille Claudel esculpida por Auguste Rodin após sua separação.

 

 

É difícil ser conservador em um país ineficiente, com desigualdades respeitáveis e com barreiras antigas para estudar e produzir. É difícil ser conservador quando se acha que as coisas não estão bem. Ainda assim, sempre houve conservadores: latifundiários, integrantes da Fiesp, herdeiros, sempre houve alguém satisfeito e disposto a lutar pela manutenção do satatus quo.

O curioso da crise atual é que, com inflação alta, depressão econômica, desemprego crescente e total falta de perspectiva para a economia, é ainda mais difícil ser conservador, é ainda mais difícil defender a manutenção do status quo. Mas, no meio do caos, surgem novos conservadores.

Eles defendem a manutenção do governo que criou a política econômica atual, defendem o uso da ultra-fisiologia para manter a presidente no cargo (embora haja prova de crimes em suas gestões). Em suma, eles defendem, com veemência, o status quo.

Alguns fazem isso pelo mesmo motivo que os velhos herdeiros faziam: porque se beneficiam diretamente dessa gestão. Alguns recebem financiamentos chancelados pelo Ministério da Cultura, outros têm empresas contratadas por este governo – e ainda têm contas a receber.

Os mais curiosos são os que só seguem a manada, os que repetem que defendem a legalidade (não dizem que defendem a presidente). Mas o que eles querem é conservar o governo, independentemente de legalidade ou de decadência econômica. Eles lutam para manter uma situação que implica em crise e decadência para milhões de pessoas. E fazem isso porque seguem a publicidade oficial transmitida até via Facebook.

PT e cia não têm um projeto econômico para implantar. Não dá nem para dizer que “enfiam as mãos na lama” por uma boa causa, como tentou argumentar um ator conhecido ainda nos tempos de Lula I. Eles querem apenas manter “tudo isso que está aí” (como diria um Ciro Gomes de outros tempos).

Contra eles, que venham todos os insatisfeitos, os que não aguentam mais a má gestão da economia, os que se revoltam com o atraso dos salários, os que se assustam com a má alocação de verbas, os que torcem o nariz para a soberba presidencial.

Contra eles, que venha a maioria.

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Pato egípcio que faraós conservadores obrigavam a população a pagar.

 

O governo e a defesa Lindt

março 26, 2016

Véspera de páscoa no Botafogo Praia Shopping: uma fila de consumidores espera para pagar seus ovos de chocolate Lindt na loja da marca no terceiro piso. Pergunto à vendedora da loja em frente:

– É a primeira vez que eles têm fila?

– Não – ela responde, como se a fila para comprar chocolates de luxo importados fosse uma coisa normal.

Quatro pisos abaixo, no subsolo, onde ficam as Lojas Americanas, centenas de ovos continuavam pendurados em estruturas de madeira e plástico montadas especialmente para a páscoa.

Os ovos das Lojas Americanas estavam caros (mas nem de longe tinham preços de Lindt). Alguns custavam mais de R$ 30. Um ovo Lacta de 230 gramas custava R$ 17,90, com desconto de 10% sobre o preço riscado na etiqueta: R$ 19,90.

Uma barra de chocolate do mesmo tipo, na mesma loja, saia por R$ 5,90 (barra de 150 gramas).

Os ovos das Americanas vão encalhar. Com uma boa quantidade de caixas registadoras funcionando, a loja estava sem fila. Um piso acima, na Cacau Brasil, o estoque já estava todo vendido, as vitrines tinham pouca coisa a mostra.

Os chocolates de grife foram disputados. Os mais baratos não: estavam caros para o público a quem se destinavam.

É um exemplo de caricatura, eu sei, uma amostra pequena e viesada, mas ajuda a entender porque o governo ainda tem defensores na classe média alta. Para muita gente, não existe crise: o PIB caindo 4% e a inflação de mais de 11% no ano passado não as incomodam de verdade, não afetam suas rotinas.

Para os comedores de Lindt, o país não está em crise. Por isso, alguns deles não se sentem constrangidos em defender o status quo atual.

Isso vai mudar. Não por causa dos comedores de ovo Lacta, ou das pessoas que nem pensam em ovo de chocolate: vai mudar porque os comedores de Lindt do PMDB entenderam que a situação é insustentável, que é melhor mudar de barco antes que o governo se aproxime ainda mais do calote na dívida pública (da qual muitos comedores de Lindt são credores).

Mas, que o PMDB queira mudar de lado, era fácil prever. O que entendi hoje é por que uma parte da classe média alta não muda: ela continua comprando ovos de chocolate Lindt, mesmo que eles sejam obtidos graças à contratações via Lei Rouanet ou a contratos associados a empréstimos subsidiados do BNDES (há também os que simplesmente acreditam na propaganda política, sem ganhar nada com isso. São os piores esses últimos, mesmo que comam Lindt).

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O atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, anunciou esta semana que o governo deve ter um déficit de quase R$ 100 bilhões este ano, sem contar as despesas com juros.

Como ainda estamos em março – e, este ano, o governo tem revisto as projeções de déficit para mais a cada mês – é difícil prever onde a conta vai parar.

Mantendo esse ritmo de crescimento, a dívida pode se tornar maior que o PIB já em 2019.

Uma dívida maior quer dizer mais despesas com juros sobre a dívida. Uma dívida de quase 100% do PIB – com taxas de juros brasileiras – simplesmente não é sustentável. Ela pode levar ao calote ou à monetização da dívida (hiperinflação).

Mas o pior não é ver o governo chutar o balde do endividamento, é ver o ministro da Fazenda dizer que faz isso de propósito, para “reaquecer a economia”.

O Brasil tem um regime de câmbio flutuante. Com câmbio flutuante, os gastos do governo têm pouca capacidade de estimular a demanda. Com câmbio flutuante, quem estimula a demanda (para gerar crescimento ou inflação) é a taxa de juros: é a política monetária.

Ou o ministro da Fazenda esqueceu o básico de macroeconomia ou está sendo pouco sincero em até em suas declarações mais estranhas.

A economia não está parada por falta de déficits públicos, está parada porque empresas e famílias não querem correr riscos ou assumir compromissos em um ambiente instável como o atual.

O aumento da dívida pública em ritmo insustentável contribui para aumentar os riscos e frear ainda mais o investimento privado.

O gasto a mais, anunciado por Barbosa, vai produzir mais dívida e mais gasto com juros, vai ter o efeito oposto do anunciado.

Se o ministro for esperar a volta do crescimento da economia para cortar gastos, vai esperar para sempre (ou até ser defenestrado).

Lagarto sorridente

Dragão da crise.

Quando o governo congelou os preços da gasolina, do diesel, da energia elétrica e do dólar, houve poucas reclamações do público.

Alguns congelamentos foram feitos com estardalhaço (como  o da energia, que teve anúncio da presidente em rede nacional), outros foram feitos de forma discreta, como o do câmbio, que foi segurado pelo Banco Central com vendas de títulos no mercado futuro.

Passada a eleição de 2014, foi preciso descongelar os preços. Como, além das famílias, as empresas também usam energia e combustível, como vários produtos são cotados em dólar ou diretamente importados, o efeito do descongelamento foi amplo.

Mas a parte mais complicada do processo veio depois. No Brasil, quase tudo, de tarifas públicas a aluguéis, é indexado. Quando a inflação sobe, todos querem repor a perda de poder aquisitivo reajustando seus preços de acordo com a inflação passada. Por isso, depois que a inflação sobe é difícil fazê-la cair novamente.

As ferramentas tradicionais para segura-la são as políticas fiscal (gastos do governo) e monetária (taxa de juros). E é nessa hora que dá para ver a maldade (ou a total incompetência) da gestão mantega no Ministério da Fazenda. O governo, até 2014, estimulou o consumo de todas as formas possíveis, “gastou por conta” de formas novas e em escalas inéditas. O resultado é que não pode mais aumentar suas despesas para estimular a economia. Na verdade o governo têm que conte-las para segurar a inflação. Mas conter despesa (fazer política fiscal) é difícil.

Com a economia em recessão, a arrecadação cai e o governo assume (mesmo sem querer) o papel de impulsionador da inflação. O problema é que a diferença entre o que o governo gasta e o que arrecada – o impulso fiscal, como o chamava Joaquim Levy – se amplia e se consolida. Quer dizer: hoje, com uma diferença de cerca de 10% do PIB entre suas receitas e despesas, o governo estimula, em vez de conter, a demanda: ele pede emprestado para gastar. Empurrando a demanda, o governo estimula a inflação.

Já não bastasse a inércia dos reajustes automáticos, ainda temos a política fiscal jogando contra. E, pior, temos um grupo de economistas no governo que acha que é melhor esperar a crise passar e a arrecadação crescer para, só aí, resolver o problema fiscal.

Do outro lado da mesa, economistas de fora do governo dizem que é melhor primeiro segurar a inflação para depois voltar a crescer.

É que segurar a inflação é difícil. Mesmo com uma recessão como não se via desde Collor, a inflação continua acima de 10% ao ano. Se não for contida, ela pode, sim, voltar ao padrão dos anos 80.

A inércia – o reajuste de passagens de ônibus e metrô, de contas de luz, gás, telefone e internet – mantém a inflação em 10%. E qualquer novo choque, como uma alta do câmbio, pode puxa-la para cima, para se estabelecer em um patamar ainda mais alto.

Por isso é preciso fazer política fiscal (cortar gasto público), conter logo o monstro antes que volte ao que era há 25 anos, nos tempos de Collor.

O curioso é que economistas heterodoxos reclamem do baixo crescimento da economia e peçam estímulos para o consumo. Se estimularmos o consumo agora, o dragão acordará para valer. É a recessão que o está segurando na caverna.

Um ajuste fiscal forte provocaria uma recessão ainda maior, no curto prazo, para depois – com os preços estabilizados – permitir a queda dos juros, a estabilidade do câmbio e a retomada da economia.

Mas “queda maior no curto prazo” é uma expressão abominada pelos heterodoxo-eleitoreiros. Eles a evitam, mesmo que, ao impedir uma queda de 5% no PIB, acabem ficando com várias de 4%…    

No fim, o ajuste de preços relativos será feito via inflação, corroendo a renda de quem não tem como reajustar o preço do que vende (os assalariados). A perda de renda real fará com que reduzam o consumo e, lentamente, isso conterá os reajustes de preços. Os beneficiários de concessões do governo continuarão com seus benefícios e reajustes de tarifas – e o ajuste da economia demorará vários anos, em vez de um ou dois.

O governo sabe disso. E prefere fazer assim.

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– Vai: descongela aí!

Merguho em espiral

março 4, 2016

Há alguns anos um amigo me mostrou um gráfico de ciclo econômico – quase igual a ilustração abaixo – em uma matéria do New York Times.

O eixo horizontal do gráfico tem o crescimento (ou queda) da economia em cada trimestre e o eixo vertical tem o desvio do crescimento em relação a uma tendência de longo prazo.

Quando a economia está caindo e ainda por cima está abaixo da tendência de longo prazo (no canto esquerdo do gráfico, embaixo), ela está em crise. Quando está abaixo da tendência, mas crescendo, está saindo da crise – e assim por diante:

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A matéria do Times mostrava que, na época, a economia dos Estados Unidos estava começando a sair da crise de 2008-2009.

Fazendo o gráfico com os dados do Brasil, divulgados ontem pelo IBGE, dá para ver que as coisas por aqui não estão bem. O gráfico abaixo tem os dados do crescimento do PIB a cada trimestre, na série com ajuste sazonal. Para definir o desvio em relação à tendência usei o crescimento médio dos 20 trimestres anteriores como tendência:

ciclo2009 PIB

O investimento parece ainda pior. Os números no eixo do gráfico são maiores (para mais e para menos):

ciclo2009 FBCF

Mas, desânimos à parte, os gráficos ajudam as mostrar que as economias têm mesmo ciclos – embora não dê para ter ideia de quando o nosso vai virar para cima.

Por último, o gráfico do consumo das famílias:

ciclo2009 CFF

A prisão do marqueteiro João Santana e a chance de que leve à cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff mostraram que os investidores estrangeiros, afinal, não são loucos por trazer dinheiro para cá.

É uma aposta arriscada, realmente especulativa. Uma aposta que depende da política e do Judiciário e não de analises macroeconômicas ou de mercado. Se depender só da análise macro, é melhor ficar longe daqui. Afinal, a falta de horizonte na economia já faz os analistas falarem em calote, hiperinflação e em outras criaturas que não vemos desde o governo Collor.

Mas, se o Tribunal Superior Eleitoral cassar a chapa Dilma/Temer e um novo governo for eleito este ano ou no próximo, quem trouxe dinheiro para o Brasil (apesar da falta de horizonte que temos hoje) vai ter feito um excelente negócio.

Com a melhora nas perspectivas da economia, o real pode se valorizar e as empresas compradas na bacia das almas também podem se valorizar (em reais).

Como há excesso de liquidez em muitos países (taxas de juros próximas ou até abaixo de zero), faz sentido pôr uma parte dos recursos em apostas arriscadas como empresas brasileiras (uma parte pequena do total). Apostar no Brasil é coisa para especuladores com aplicações muito diversificadas: para investidores de grande porte. Não é o tipo de aplicação em que se põe a poupança para a aposentadoria.

Hoje, a chance de a chapa Dilma/Temer ser cassada é, paradoxalmente, a única justificativa razoável para o dólar não disparar. Como o governo pode cair, ainda é possível ganhar dinheiro com investimentos de longo prazo no Brasil. E, se ainda há chance de ganhar dinheiro, os investidores não saem correndo do país (o que ajuda a manter o dólar em R$ 4 e evita que a inflação dispare).

Aparentemente, a gestão de Nelson Barbosa na economia só consegue se manter sem produzir uma corrida ao dólar porque pode acabar de repente.

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Especuladores de olhos azuis, atacados por Lula em 2009, evitam que o dólar chegue a R$ 5.

Já era quase meia noite quando o ministro saiu de sua sala. O carro com motorista o esperava na garagem. Ele seguiu tranquilo para casa, sem pensar muito em ajustes fiscais ou altas de preços.

Três quarteirões antes de chegar, a correia de transmissão arrebentou – fazendo o motor quebrar irremediavelmente.

O ministro saltou do carro e deixou seu motorista a espera do reboque. Foi a pé para casa.

Mas, no meio do caminho, viu um bode. Não: era uma cabra, uma cabra notívaga pastando em um terreno baldio.

Longe, um relógio bateu meia noite e Barbosa, o ministro, ouviu ao seu lado uma voz cavernosa dizer:

– Boa madrugada, ministro.

Era Nelson, ou melhor, o fantasma de Nelson Rodrigues.

Branco, quase transparente, Nelson não seria como os repórteres do Planalto. Com ele, o ministro teria que falar a verdade ou, pelo menos, teria que ser sincero.

Então, tendo como testemunha apenas a cabra vadia que comia a paisagem, começou a entrevista:

Nelson: Ministro, todos os analistas de bancos e consultorias dizem que o governo tem que fazer um ajuste nas despesas, tem que fazer a despesa caber na receita para o país voltar a crescer. O senhor vai fazer isso?

Barbosa: Não. Acho que os analistas estão errados. A economia está em crise e, enquanto durar a crise, vou deixar a despesa solta. Vamos ter déficit de mais de 10% do PIB este ano, contando as despesas com juros e as com salários e materiais.

N: Então a crise não vai passar?

B: Alguma hora ela passa. Aí a arrecadação vai voltar a crescer e equilibramos a receita e a despesa.

N: Mas, e se o senhor estiver errado e a dívida pública disparar antes de o país voltar a crescer? O país vai dar calote? Vai imprimir dinheiro para pagar as contas?

B: Eu não estou errado.

N: Mas, só por hipótese: e se as coisas não acontecerem como o senhor espera?

B: Sim, aí teremos que ligar a impressora e trazer a hiperinflação de volta para conseguir fechar as contas. Mas há muitos estágios antes de chegar a esse extremo. Há tempo de mudar o curso se eu achar que estamos na direção errada.

N: Quais estágios?

B: Há o do ajuste inflacionário. Já estamos um pouco nele. Há dois anos não damos reajuste aos servidores. Isso diminui nossa despesa em termos reais. Também cortamos a verba que pagava os serviços de limpeza terceirizados de universidades e vamos reduzir a verba da saúde (que é indexada à receita de impostos). Enfim, há uma redução de despesa também. Podemos aprofundar um pouco isso se precisar.

N: Então há um ajuste fiscal?

B: Não. Quando há déficit público isso quer dizer que o governo está empurrando a demanda para cima (em vez de  fazer o ajuste para segurar a inflação). Aqui no Brasil temos déficit público: acreditamos em animar a demanda com o caixa do governo.

N: Mas o senhor apareceu na TV dizendo que ia fazer o ajuste fiscal.

B: Isso é só para enrolar os ortodoxos. Não acredito em ajustes de longo prazo na oferta, acredito em ajustes de curto prazo na demanda: é isso que sei fazer. Acredito que temos que estimular a demanda (pois surgirá oferta para atende-la).

N: Há mais algum razão para não fazer o ajuste fiscal, além de suas opções religiosas?

B: Sim. Estamos em um ano eleitoral. Não posso cortar todas as obras do PAC. As construtoras ficariam furiosas. Não é assim que as coisas funcionam. E, vamos ser claros, não dá para fazer reforma na previdência em ano de eleição. Os deputados do PT que querem ser prefeitos me matariam (ou, pior, votariam contra no Congresso).

N: Então sua equipe está apenas empurrando a política econômica com a barriga?

B: Estamos dizendo que faremos o que nossos críticos acham necessário. Isso nos poupa de críticas mais duras e nos dá mais tempo para esperar que a crise passe. Você pode chamar isso de empurrar com a barriga se quiser.

N: Mas esses críticos dizem que a crise não vai passar se o governo não fizer o ajuste fiscal, que a ameaça de uma dívida pública explosiva é o que mais deixa os investidores com medo de investir.

B: É, eles dizem isso. Mas estão errados. Vamos insistir com os financiamentos do BNDES e com o estímulo ao consumo e a economia vai retomar o crescimento, mesmo que, para isso, a inflação tenha que subir mais um pouco.

N: A inflação não vai convergir para a meta?

B: Não. Não acredito em meta de inflação. O governo Dilma nunca tentou cumprir a meta, nem vai tentar. Acho inflação um problema secundário.

N: Mas a renda dos trabalhadores está encolhendo por causa dela.

B: Quando os nossos estímulos fizerem a economia se recuperar, a renda crescerá novamente.

N: Esses estímulos são os da tal Nova matriz, que o primeiro governo Dilma adotou?

B: Sim, a ideia é basicamente a mesma: juros subsidiados para alguns grupos de empresas, Banco Central sob controle e expansão fiscal.

N: Mas não foi isso que provocou essa crise?

B: Em parte. A queda do preço do minério de ferro e de alguns produtos agrícolas que o Brasil exporta também atrapalhou.

N: Por que o senhor acha que, dessa vez, vai funcionar?

B: Nós temos o apoio da presidente, temos recursos para implantar essa política e não temos muito apoio político para fazer diferente. Além disso, fazer diferente teria um custo político alto.

N: Manter a crise também tem um custo alto.

B: Acho que nossa Nova matriz rediviva vai funcionar. Ela é o projeto da minha vida! Se não funcionar, retomo meu antigo emprego na UFRJ e deixo algum desses ortodoxos tentar arrumar a bagunça em 2019.

E, dizendo isso, o ministro virou as costas para o entrevistador (e para a cabra, que também o observava) e foi atender o celular. Era a presidente.

– Não, presidenta – disse, com o rosto colado ao iPhone – não se preocupe: está tudo sob controle.

A cabra arreganhou os lábios em uma espécie de sorriso e Nelson sumiu no ar, voltando para o purgatório dos cronistas.

O ministro seguiu para casa, sem pensar muito em coisas como inflação e contenção de gastos.

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Lhama diurna – que não testemunhou a entrevista.

Nada contra a nova alíquota do imposto sobre sorvetes e chocolates: 5%. Mas, até recentemente, a assessoria de propaganda do governo conseguia impedi-lo de produzir manchetes tão antipáticas quanto essa.

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Chocolate: o calmante favorito dos atingidos por crises econômicas.

Zé Colmeia, o urso de desenho animado, está voando em seu planador-roubador-de-cestas-de-pique-nique para salvar o parque. É a primeira vez que voa e a namorada do guarda Belo grita para ele: “Não lute contra o vento Zé Colmeia!”.

É estranho tirar recomendações de administração de um filme de Zé Colmeia. Mas, hoje, é o melhor que posso fazer.

Para lutar contra o vento é preciso ter um bom projeto e ser grande, tipo ser o governo federal. Para quem é pessoa física ou empresa pequena, vale a recomendação da namorada do guarda.

Quem foi contra o vento na velha União Soviética, ou mesmo nos tempos de inflação alta no Brasil, morreu ou faliu muito rapidamente.

Mas, se isso vale para os pequenos, não vale para o governo. Do governo se espera alguma capacidade de influenciar os ventos (nem que seja só os monetários, fiscais ou, vá lá, as expectativas de quem está em volta).

Quando o governo segue o vento (e o vento é ruim), ele deixa de fazer as coisas difíceis (tipo reformas fiscais e administrativas) e cede a todo tipo de pressão.

Acho que continuaremos vendo isso por muitos meses: um governo fraco que se ajusta via inflação (porque esse é o jeito mais fácil para ele).

Os gastos públicos não serão cortados, serão erodidos pela falta de reajuste dos servidores. Os serviços vão piorar pelo corte de terceirizados e da verba de manutenção. A insegurança vai crescer – tanto a econômica (desemprego, não renovação de contratos, queda de renda) quanto a física (mais roubos e assaltos).

E o governo, diante de tudo isso, seguirá a recomendação da namorada do guarda Belo: irá para onde os ventos o levarem.

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Cacto decorativo – e espinhento.

Patrimônio, riqueza, ativos, chame como quiser. Eles estão a venda. Basta andar pelo centro de qualquer grande cidade do país para ver as placas de “vendo” nas lojas fechadas, basta andar nos bairros residenciais e ver as placas nos apartamentos.

Em cidades de veraneio, o surto de “vendo” e “alugo” nos portões das casas é ainda maior.

Ações, cotas de empresas e afins despencaram de preço. O índice de bolsa de São Paulo caiu mais de 13% em 2015. Se descontarmos a inflação, dá mais de 23% de queda. Isso depois de já ter caído em 2014.

Quer dizer: os donos de casas, lojas e participações em empresas estão vendendo o que podem.

E há quem possa comprar. As aplicações em títulos públicos pós-fixados e indexados ao câmbio não perderam valor (esses últimos realmente ganharam). Ao mesmo tempo, para quem é de fora do país, a alta do dólar aqui fez tudo ficar bem mais barato.

Mas, por que as pessoas não vendem seus títulos públicos e compram os apartamentos anunciados? Por que os estrangeiros não vêm aqui atrás de todas essas ações com preços tão mais baixos.

Por vários motivos. O primeiro é que esses ativos (casas, lojas, fábricas) são usados para produzir – e produzir aqui é difícil. O segundo é que deixar o dinheiro em renda fixa (aqui ou no exterior) é muito mais seguro do que comprar ações da Vale ou da Petrobrás. O terceiro é que, em épocas de crise, é bom ter ativos com liquidez, como títulos de dívida do governo, que não são difíceis de vender se você precisar de dinheiro rápido. O quarto é que não há perspectiva de que a crise econômica vá passar tão cedo, então, por muito tempo a oferta de ativos vai crescer mais que a demanda – e seu preço vai continuar em queda.

Sim, se os donos de apartamentos tivessem expectativas racionais (do tipo que o economista Robert Lucas até hoje acha que tem) eles diminuiriam o preço dos imóveis a venda até equilibrar o mercado imobiliário novamente.

Mas isso não vai acontecer. As expectativas se adaptam lentamente às mudanças da economia.

A queda de preços, então, será lenta (e longa).

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Imóveis deteriorados, Cidade baixa, Salvador – sem preço.