Segue o seco

setembro 26, 2009

Muita gente não entende, até hoje, como milhões de pessoas seguiram líderes como Hitler, Stalin e Mao. Ou mesmo como algumas dezenas seguiram figuras como Charles Manson e David Koresh. Curiosamente, porém, ninguém se espanta que 1 milhão de usuários de internet sigam o apresentador Luciano Huck no Twitter. Sim, aquele Luciano Huck que desfiou sua revolta, em artigo na Folha de S. Paulo, depois de ter o Rolex roubado, mas que nunca exibiu semelhante indignação em relação à miséria, à desigualdade, aos privilégios, à corrupção ou à situação da saúde pública. Aquele Luciano Huck que se acha o suprassumo da responsabilidade social porque (supostamente) paga seus impostos em dia. Aquele Luciano Huck que, semanalmente, submete cidadãos de baixa renda a pressões intensas e testes de laboratório, em troca de um presente financiado por patrocinadores, como se fosse um gesto magnânimo de caridade.

O fato é que, pela primeira vez, um brasileiro alcança 1 milhão de seguidores no Twitter.

Além disso, e por incrível que pareça, a modelo Letícia Birkheuer passou parte deste sábado tomando banho de sol com amigos na praia de Ipanema.

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De cartas e bancos

setembro 25, 2009

Carteiros e bancários estão simultaneamente em greve esta semana. As reivindicações, justas ou não, são bem parecidas: reajuste, demandas relativas à participação nos lucros, melhoria das condições de trabalho e contratações. A imprensa faz a cobertura de sempre, acompanhando as negociações, monitorando a adesão, registrando os transtornos ao resto da população e tentando esclarecer as dúvidas práticas decorrentes da paralisação.

De um aspecto, porém, não se fala, nem nos jornais, nem nas rodinhas de conversa: em larga medida, a greve, para essas duas categorias em particular, é um tiro no pé.

Além do governo e do patronato, carteiros e bancários enfrentam um inimigo cruel, conhecido vulgarmente como alternativa. E talvez não exista melhor exemplo, por unir as duas frentes, que o boleto bancário. Comumente recebido pelo correio, pode, em muitos casos, ser impresso nos sites das empresas e bancos. Um dia figura popular nas filas das agências bancárias, tornou-se, aos poucos, mais afeito à praticidade das caixas eletrônicas e do internet banking.

A greve, nesse contexto, só incentiva os resistentes ao meio eletrônico a abandonar de vez os caminhos tradicionais. E, quanto mais gente migrar para a internet e o autoatendimento, menos força terão as categorias profissionais e mais absurdas serão reivindicações como a contratação de mais empregados.

Talvez seja uma realidade cruel. Mas não menos real por isso.

Nicolas Sarkozy – marido de Carla Bruni e também presidente da França – está tentando se transformar em um populista latino americano. Seguindo o padrão Lula, ele não sai da TV. E fala sobre tudo, de crise econômica a recomendações estatísticas.

É nessa parte que começa a se parecer com o casal Kirshner, que governa a Argentina. Sem poder intervir no INSEE, o IBGE francês, como os Kirshners fizeram no INDEC, Sarko encomendou a um grupo de marqueteiros uma crítica ao PIB como medida de referência para a economia.

O grupo de marqueteiros internacionais, comandado por Joseph Stiglitz, produziu o tal estudo e, desde então, não para de dar entrevistas e escrever na imprensa.

Uma das melhores abobrinhas nesses textos é a referência a uma medida de Felicidade Nacional Bruta, concebida no Butão (no Himalaia) para servir como indicador econômico. As matérias e artigos sobre o estudo da “Comissão Stigliz” combatem um inimigo inexistente, dizem que o PIB não pode ser usado como indicador de felicidade ou bem estar social. É verdade, não pode mesmo. Mas ninguém disse que podia. O PIB é um indicador de atividade econômica.

A “Comissão Stuglitz” então recomenda o uso de outros indicadores que já fazem parte do Sistema de Contas Nacionais – como a renda disponível das das famílias – como aproximação melhor para medidas de bem estar. Recomenda também o uso do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – que usa dados como expectativa de vida como proxy para a qualidade de vida em regiões específicas.

Até aí nada de novo. O assustador em algumas reportagens é saber que a idéia de encomendar o estudo foi do redator de discursos de Sarkozy que, aparentemente, queria números mais bonitos para pôr em seus textos.

Não é uma boa hora para mudar formas de cálculo ou fazer malabarismos com números. A Argentina vai demorar décadas para se recuperar da perda de credibilidade que o INDEC sofreu com a intervenção do governo.

E, publicidade à parte, as Contas Nacionais têm que ser feitas de acordo com manuais da ONU e – no caso da França – com regulamentações da União Européia. Sarkozy pode não gostar, pode querer obrigar o instituto de estatística a inventar outros indicadores, mas não vai conseguir fugir dos efeitos da crise (e de algumas políticas populistas da França). Eles estarão visíveis por muito tempo no PIB padrão do velho e bom Sistema de Contas Nacionais.

Se fosse mais esperto e tivesse mais amor à propria credibilidade, Sarkozy gastaria mais tempo com Carla Bruni e menos dando pitaco no que deve fazer o instituto de estatística da França.

Carla Bruni, enfastiada, espera fim do discurso populista sobre as estatísticas na França

Carla Bruni, enfastiada, espera o fim do discurso de seu marido sobre as estatísticas na França

Medo dos vinte

setembro 5, 2009

Recessão nos EUA e uma gripe devastadora capaz de matar milhares de pessoas em todo o mundo. A História tem mesmo tendência a se repetir como farsa? Estamos vivendo uma versão menos séria dos anos 20 (do século passado)?

Nossa gripe fez muito barulho mas não chegou aos pés da gripe espanhola. Foi uma gripe para inglês ver – ou para dar matéria para pauteiros pouco criativos. E nossa crise econômica mundial (também nascida nos EUA) dá sinais de que pode acabar antes do fim do ano.

O mundo ficou mais estável? O caos não é mais o que era antigamente?

Bom, é melhor não tripudiar, porque as causas da crise ainda estão aí e o fantasma dos anos 20 ainda dá medo.

Relogio asteca,  Cidade do México, Museu de Antropologia, 2009.

Relogio asteca, Cidade do México, Museu de Antropologia, 2009.