Para estudantes de economia e para quem quer saber o que é o PIB

A Amazon não cresce à toa. É, provavelmente, a única editora que fica fustigando as pessoas a escrever e publicar. Semana passada, recebi um e-mail de seu serviço de publicação (kindle direct publishing) sobre sua nova ferramenta de edição (que torna mais fácil formatar textos com tabelas e gráficos).

Formatei então o pequeno manual que fiz para um curso de contas nacionais. A versão impressa ficou com 100 páginas em formato pocket. A versão kindle ficou com 4352KB – o que quer que isso signifique. Deve ser o único livro de contas nacionais de bolso.

Ele tem o básico – e tenta desfazer os mitos sobre o PIB. O PIB não é uma medida de riqueza (é de renda), o PIB não mede produção (mede valor adicionado), o PIB não foi feito para medir bem estar social (para isso, há outros indicadores), o PIB não é ruim (há quem diga que é, mas medir a renda não é ruim, é produzir informação).

Incluí no texto dois boxes com códigos de R usados para fazer o ajuste dos dados do PIB trimestral ao anual e para fazer ajuste sazonal (do jeito que é feito nas Contas nacionais). Para quem é estudante de economia, as definições e tabelas com exemplos devem ser a parte mais útil do texto. Para quem só quer não repetir as besteiras que todo mundo diz sobre o PIB, os três primeiros capítulos já são mais que o suficiente.

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Mudança de governo, editoras em crise e o retorno de Mary Poppins

Na cena clássica de Grande Hotel, o personagem principal grita com o dono da empresa onde trabalha dizendo: “se nós tratássemos as pequenas coisas com metade da burrice com que vocês tratam as grandes, [isso aqui já tinha afundado há muito tempo]”.

O filme, de 1932, é um daqueles que não envelhecem. Lembrei dele vendo O retorno de Mary Poppins, filme sem roteiro que aposta nas férias escolares e no nome Mary Poppins para nos empurrar uma sequência mal amarrada de cenas musicais.

A produção é cara, a fotografia é ótima, as pequenas coisas estão bem, mas o filme não tem roteiro. Não é que eu vá esquecer a história em dois dias: não há uma história para esquecer.

Decisões grandes – como que história filmar – são tomadas sabe-se lá com que critério. E – não consigo evitar o clichê – as consequências vêm depois.

Hoje o cinema está cheio (férias e sequência com nome conhecido), mas não dá para enrolar todo mundo o tempo todo (desculpem o segundo clichê).

Outro dia li a carta do presidente da Cia. das Letras falando sobre a crise das livrarias no Brasil. São vários problemas: a crise econômica bate com mais força nos produtos que não são de primeira necessidade (livros), há concorrência de pdfs gratuitos que podem ser lidos em qualquer celular, há menos tempo para tudo agora que as pessoas passam horas no Facebook e em similares… Há até quem ache que fixando os preços (proibindo descontos) e evitando a concorrência entre livrarias vai acabar com a crise.

Lendo a carta, não pude deixar de pensar no problema que os editores sempre esquecem: faltam escritores. A Cia. das Letras é uma que ainda se esforça, mas tente lembrar que editora lançou e apoiou – com propaganda e divulgação – mais de meia dúzia de bons novos escritores brasileiros nos últimos 10 anos?

Quando pensamos em literatura brasileira contemporânea, os nomes que nos vêm à cabeça são todos do século passado: Fernando Sabino, Rubem Fonseca, Jorge Amado, Paulo Coelho! Até escritores mais novos, como Patrícia Melo e José Roberto Torero foram lançados no século passado. Daniel Galera e Daniel Pellizzari? Também lançados nos anos 90.

Ou este é um século em que ninguém escreve nada no Brasil ou a editoras não estão fazendo sua parte no processo (encontrar, editar e marquetar livros dos novos autores).  Desculpem, mas se tratássemos as pequenas coisas do jeito que elas tratam seu trabalho…

O terceiro caso em que essa frase me tem vindo à cabeça o tempo todo é o da infindável quantidade de matérias sobre os futuros ministros, sobre o futuro governo federal. Eu digo infindável porque o tema é manchete quase todos os dias – enquanto não faço ideia de quem serão os secretários estaduais do Rio ou de Minas (em São Paulo sei que chamaram alguns ex-ministros).

A falta de cuidado com que os nomes são escolhidos, a falta de delicadeza com que a imprensa marqueta o futuro governo, tudo isso me faz pensar: “se nós tratássemos as pequenas coisas com metade da burrice com que tratam as grandes [isso aqui já tinha afundado há muito tempo]”.

Bom, talvez já tenha fundado.

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Certezas medievais

As religiões não cresceram e se espalharam pelo mundo apenas por ter uma explicação simples (e consoladora) para as grandes questões da humanidade. Elas eram, são, um alívio para as angústias e incertezas de todos os dias. Talvez por isso, épocas de crise sejam épocas de aumento da religiosidade.

Mas os religiosos, os líderes religiosos, nem sempre reagem bem a toda a confiança e esperança que seus seguidores depositam neles. Confiança tem a ver com poder e poder, não custa lembrar, corrompe. Não precisa ser corrupção monetária. Às vezes basta o excesso de auto-confiança para fazer um bom estrago: basta o  excesso de convicção.

Aristóteles, o grande filósofo grego, confiava plenamente em que a pedra mais pesada cairia mais rápido que a pedra leve. E, por séculos, gerações de acadêmicos confiaram nessa descrição de como as pedras caiam. Passamos a Idade Média toda assim, seguindo confiantes o que estava escrito nos textos do sábio Aristóteles.

Até que veio Galileu e fez o teste. Jogando as pedrinhas do alto da torre, Galileu nos deu o que acabou sendo chamado de Método científico. E, com o método, vieram as revoluções na física, na química, na medicina e onde mais alguém se propusesse a testar as hipóteses em vez de apenas aceita-las como dogmas.

Tudo isso é para dizer que os religiosos – cada vez mais seguidos e cada vez mais confiantes em seus dogmas – poderiam ser um pouco mais cautelosos. De onde afinal tiram as suas certezas? Por que confiam tanto nelas a ponto de tentar impô-las aos outros? Eles pensam no estrago que podem fazer se estiverem errados?

Não é porque alguém escreveu um livro séculos atrás, ou porque alguém o interpretou de alguma forma outro dia, que se deve impor leis de cunho religioso a ninguém.

Os cientistas não têm certezas (por isso testam suas hipóteses), por que deveríamos confiar às cegas nas certezas dos líderes religiosos? Nada contra a religião, mas o líder religioso que faz campanha contra um tema qualquer tem preparo, tem estudo, tem o mínimo de autoquestionamento necessário para falar em nome dos fiéis (ou em nome de Deus)?

O mundo é um lugar complexo, delicado e cheio de sutilezas. E, quanto mais complicado fica, mais os dogmas duros, impostos a ferro e fogo, produzem estragos em vez de melhoras.

Se os lideres religiosos dogmáticos tiverem maioria no Congresso, vai ser preciso conter alguns para que não nos levem de volta aos anos 50 – ou aos tempos da Inquisição.

Não é com dogmas medievais que vamos resolver problema nenhum.

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De volta à moda?