Hipocrisia, por favor

outubro 28, 2014

Há mais de um, ano a revista inglesa The Economist disse que, se Dilma Rousseff não demitisse seu ministro da Fazenda, não seria reeleita.

Custou muito dedo no olho e todo tipo de golpe baixo, mas Dilma conseguiu desmentir a profecia.

A economia chegou ao fim de 2014 em um estado lastimável. O déficit público está muito maior que o previsto (mesmo sem descontar a maquiagem de Arno Augustin, secretário do Tesouro), a inflação estourou o teto da meta (apesar dos controles artificiais, como o do preço da energia) e o crescimento da economia é negativo (já há dois trimestres).

A dúvida é: para estabilizar a economia, o governo terá o mesmo desprendimento que teve para fazer campanha eleitoral?

Durante a campanha, Dilma insistiu em que a economia estava bem: a inflação estava sob controle e não era preciso fazer grandes mudanças. Repetir isso hoje equivale a expulsar investidores e recomendar às empresas que fechem suas portas – pois a economia vai seguir ladeira abaixo.

Graças à falta de limites do marqueteiro João Santana, o vaticínio da Economist não se cumpriu. Mas ele pode ser renovado: se não mudar rapidamente a política econômica, Dilma não fará seu sucessor em 2018 – nem que seja Lula, nem que contrate dois João Santana.

A economia está degenerando cada vez mais rápido.

Resta saber se Dilma terá – para ajustar a economia – a mesma falta de pudor que teve na campanha. Se terá cara dura para dar independência ao Banco Central – depois de ir pessoalmente à TV dizer que isso seria “criar um quarto poder na República” -, se terá a hipocrisia necessária para chamar um sósia de Armínio Fraga para o Ministério da Fazenda, se fará o ajuste fiscal que nunca, nos quatro anos de seu governo, chegou perto de fazer.

Seus eleitores a perdoarão. Perdoaram imediatamente as barbaridades da campanha. Seus eleitores são seus. Mas, se a economia afundar, alguns deixarão de ser.

Vamos ver se – pelo menos para se manter no poder – Dilma será capaz de trocar os preconceitos ideológicos de sua política econômica por hipocrisia pragmática à moda de Luis Inácio.

Sarcófago da política industrial. A pirâmide, contratada com financiamento do BNDES, não ficou pronta.

Sarcófago da política industrial. A pirâmide, contratada com financiamento do BNDES, não ficou pronta.

O mal contra o mal

outubro 21, 2014

É estranho, mas foi Platão – o primeiro filósofo avesso à democracia – o responsável pela primeira crítica contundente aos marqueteiros.

Não, não havia marqueteiros na época de Platão, mas havia sofistas – os avós dos marqueteiros.

Para os sofistas, não fazia muita diferença como o mundo era: tudo era discurso e, organizando bem o discurso, era possível ‘provar’ qualquer coisa.

Platão, em um bom livro chamado Górgias, desmonta a tese dos sofistas. Resumindo muito, com seu método curioso de fazer o interlocutor (Górgias) cair em contradição, ele vai ‘provando’ que há teorias que descrevem o mundo melhor do que outras – e que usar a teoria errada pode levar a resultados ruins.

Mas o curioso é que Platão consegue isso não com métodos científicos ou experiências práticas: ele consegue com retórica. Ele é um sofista melhor que o mestre dos sofistas. Por sorte, dessa vez, está defendendo a teoria certa.

Pensei nisso hoje quando passei pelo Largo da Carioca e não tive como desviar do barulho das caixas de som com música de campanha nem dos sujeitos com grandes bandeira do PT quase em frente ao Edifício Avenida Central.

A maior parte da população está insatisfeita com a direção que o país tomou. Os protestos do ano passado deixaram isso claro.

A pergunta é: os marqueteiros do governo conseguirão convencer os eleitores de que o mundo não é como eles vêem nas ruas (é como o filme que vêem na TV)? A propaganda vai falar mais alto que a impressão direta que as pessoas têm do que está em volta?

Bom, há muitos casos ao longo da História…

Espero que os marqueteiros da oposição trabalhem direito.

Socrates, o democrata. Muito melhor que Platão.

Socrates, o democrata. Muito melhor que Platão.

Esta eleição para presidente – como a de quatro anos atrás – é uma espécie de plebiscito: boa parte dos eleitores decide entre votar contra ou a favor do governo. Para eles, não importa tanto quem é o candidato da oposição: vão votar contra ou a favor de manter a política atual.

O problema – sempre há um problema – é que dessa vez a economia está bem pior do que em 2010 ou em 2006. O resultado disso é que, no primeiro turno, a maior parte dos eleitores votou em candidatos de oposição, votou contra o governo.

Para evitar que a oposição vença, restou a João Santana – o marqueteiro do governo – tentar tirar o tom de plebiscito das eleições. E ele vai fazer isso tentando mostrar que o candidato da oposição é ainda pior do que Dilma Rousseff.

Quer dizer: o mundo perfeito da propaganda de Dilma (o país bem fotografado e iluminado em que tudo funciona) não está sendo suficiente para convencer o eleitor: não define o plebiscito a favor do governo. João Santana já se convenceu disso.

Aécio e seus assessores vão tentar manter o tom de plebiscito: vão lembrar a inflação – maior que o reajuste de salário de funcionários públicos, por exemplo – vão lembrar seu peso no bolso dos mais pobres. Esse é o caminho mais promissor para Aécio: apostar na insatisfação com o governo, ser o anti-Dilma.

Mas, como o primeiro turno da eleição deixou claro, campanha negativa funciona. Funcionou contra Marina e pode funcionar contra Aécio. Para não apanhar, ele vai bater também. Mas, com isso, fica em uma posição bem menos confortável, pois o melhor para ele é o plebiscito Mudar x Manter.

A semana que vem será longa – e a propaganda política, violenta.

Mesmo assustado com o debate do SBT, eleitor promete não votar nulo.

Mesmo assustado com o debate do SBT, eleitor promete não votar nulo.

É  desalentador ver Geraldo Alckmin reeleito no primeiro turno em São Paulo, ver Renan Calheiros Filho eleito em Alagoas (manutenção de clã no poder também é uma espécie de reeleição) e ver Fernando Collor reeleito senador.

Mas ainda há tempo para lembrar da época de revolta (ano passado), para parar de reeleger os políticos que mandaram a tropa de choque espancar manifestantes. No Rio de Janeiro, você ainda pode não reeleger o governador Pezão (que mandou a tropa atrás dos professores em greve) e  pode não reeleger Dilma (que só teve 23% dos votos de Brasília, de quem vê de perto o que ela faz).

Eu sei: Crivella e Aécio Neves não são exatamente candidatos ideais – e não são dignos do voto do mais moderado adepto de passeatas.

São dois conservadores. Mas Dilma e Pezão também são. E conservar conservadores é simplesmente além do limite. Não posso premiar a presidente que mandou o Exército e a Força Nacional de Segurança para espancar manifestantes na Copa. Não posso premiar o governador que quer empurrar um teleférico para a Rocinha (em vez do saneamento básico que todos concordam que é o necessário).

Troco dois conservadores por outros dois – que, pelo menos, vão demorar um pouco para montar novos esquemas, para poder nomear amigos para o Tribunal de Contas e para se sentir a vontade para atropelar garantias individuais básicas. Troco porque ficar muito tempo na cadeira corrompe, poque é preciso trocar os governantes de tempos em tempos.

Nunca achei que seria capaz de votar num bispo da Igreja Universal para governador, ou em um latifundiário que persegue os repórteres que ousam escrever sobre sua vida privada. Mas – fazer o quê? – votar em alguém cujo slogan é “para continuar a mudança” é simplesmente hipocrisia demais para mim.

Ânimo eleitoral: trocar é o menos pior.

Ânimo eleitoral: trocar é o menos pior.