Os acadêmicos que tentavam justificar a política econômica do primeiro governo Dilma diziam que bastava estimular a demanda e as empresas tratariam de produzir mais para atender ao aumento na procura.

Agora que a experiência (para não falar na velha teoria ortodoxa) já deixou claro que não é bem assim, vale a pena fazer uma necrópsia da política de Dilma I para ver o que se pode aprender com ela sobre a economia brasileira.

A primeira coisa é: quando o governo estimula artificialmente a demanda, todo mundo entende que ele está fazendo isso. Algumas pessoas pegam carona (sopram bolhas de ativos e aumentam preços em geral) mas ninguém faz planos de longo prazo para não perder dinheiro quando o efeito do estímulo temporário passar.

A segunda coisa, mais específica de economia brasileira, é: aumentar a oferta é difícil, mesmo quando se quer. É só ver as estatísticas sobre fechamento de empresas, o nó burocrático e fiscal para manter uma e a paranóia da contínua mudança nas regras do jogo para entender por que – mesmo quando os grandes produtores não querem arriscar – os pequenos só se dão mal por aqui.

A terceira coisa – e a única de que eu realmente gosto – é: não basta ser amigo do rei, mesmo que, em alguns ramos, isso pareça necessário. As montadoras de automóveis eram amigas do ministro mantega, as construtoras, amigas de diretores da Petrobras e aquele ex-bilionário falido – quando queria vender ações ou pedir empréstimos – posava ao lado do então governador Sergio Cabral e da presidente Rousseff para mostrar que tinha influência e seria favorecido nos negócios pelos amigos. A amizade é necessária, mas não suficiente.

O resumo da história é que não dá para fazer a economia brasileira crescer só inflando a demanda. Enquanto não resolverem os problemas de verdade (a burocracia monstro, a péssima qualidade do ensino, os amigos do rei que atropelam qualquer tentativa de concorrência), não adianta dar empurrõezinhos imprimindo moeda ou aumentando o gasto público.

Ver a presidente na TV falando em “pátria educadora” é ver o mesmo discurso de sempre.

Na mesma semana, ela cortou o orçamento do Ministério da Educação.

Os problemas de verdade não vão ser resolvidos – e, tão cedo, a economia não vai voltar a crescer.

Se forçar a demanda para cima só produziu inflação, para frear a inflação o remédio é forçar a demanda para baixo. E, nessa hora, os empresários têm certeza: não adianta investir, a economia vai fazer água por uns dois anos pelo menos.

Nesse período, a inflação vai comer a renda real das famílias, os juros dos endividados vão subir, os gastos do governo vão ter que cair (menos compras, menos contratados, menos reajuste dos funcionários públicos pela inflação) e as famílias vão pagar a conta apertando o cinto.

Depois dos dois anos, sem os problemas de verdade resolvidos, continuaremos crescendo pouco – apesar do velho discurso sobre o “grande potencial do Brasil”, sobre como nossa renda per capita é só 20% da americana e como isso indica espaço para crescer. Para quem diz isso, recomendo visitar uma escola pública no Rio de Janeiro (nem precisa ir até o Maranhão), ou, pior, recomendo abrir um negócio.

Isso: empreenda, abra um negócio, veja como é grande o potencial do Brasil. Lembre de contratar alguns contadores para acompanhar as mudanças fiscais no setor em que você trabalha – e mais alguns funcionários para dar conta da gincana burocrática de todos os meses (alvarás, fiscalizações etc.). Se der, faça uma doação eleitoral para o próximo prefeito ou governador e, se com toda essa despesa, você ainda conseguir produzir alguma coisa a um preço decente, parabéns: não conheço ninguém tão eficiente quanto você.

Qualidade da educação: o Brasil tem zero Prêmios Nobel, diferente do Chile, Argentina, Colômbia, Peru...

Qualidade da educação: o Brasil tem zero Prêmios Nobel, diferente de Chile, Argentina, Colômbia, Peru…

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Vaca faraônica.

Vaca egípcia cíclica.

Há doze anos, o faraó Luís Inácio sonhou com sete vacas gordas e sete vacas magras.

Era o início de 2003 e o faraó entendeu que os sete anos seguintes – de 2004 a 2010 – seriam de fartura e os outros sete – de 2011 a 2017 – seriam de escassez.

Em vez de poupar nos anos fartos, como faria um faraó vitalício, Luís Inácio tratou de aproveitar a bonança e vender a imagem de bom administrador.

Para sucedê-lo nos anos de crise, o faraó indicou uma mulher sem 10% da malícia de Cleópatra – certo de que o contraste o favoreceria.

O resumo da história é: até 2018 não dá para esperar muita coisa.

O que o futuro nos reserva.

O que o futuro nos reserva.

Aos bajuladores, os cargos

janeiro 13, 2015

Gilberto Kassab implodiu o Democratas – e ganhou o Ministério das Cidades. Cid Gomes, abandonou o PSB de Eduardo Campos para apoiar a reeleição de Dilma – e ganhou o Ministério da Educação.  Pepe Vargas, Miguel Roseto e Aloísio Mercadante são conhecidos em Brasília como os submissos: “os meninos de Dilma”. Mais três ministérios.

A lenda sobre Eike Batista é que não gostava de más notícias, gritava com quem as trazia e distribuía bônus milionários para os diretores que diziam que tudo ia bem. O resultado – no caso dele – é conhecido.

No caso de Dilma, além da inflação e do descontrole do gasto público (que deve ser corrigido este ano – apesar do discurso oficial) a política de premiar os bajuladores tem rendido mais um problema: níveis surreais de bajulação pública, coisas tão estranhas que – se fossem feitas pela oposição – seriam consideradas ofensivas e renderiam discursos revoltados do líder do governo no Congresso.

A imagem abaixo – que já saiu em sites de jornais – é do perfil oficial de Dilma Rousseff no Facebook. É melhor que o trabalho da maior parte dos chargistas brasileiros. Se eu quisesse caricaturar o jeitão estalinista dos cartazes eleitorais e a falta de pudor dos marqueteiros do governo, não conseguiria fazer nada melhor do que isso. É a bajulação levada ao paroxismo.

Para salvar o Brasil dela mesma!

Para salvar o Brasil dela mesma.

O consumo é mais estável que a renda. Ensinam isso na faculdade de economia. Para mim, pelo menos, foi em uma aula de macro 4, quando vi gráficos com o consumo das famílias e com sua poupança ao longo do tempo.

O consumo é suave: acelera ou desacelera aos poucos. A poupança varia de um jeito mais brusco. E faz sentido. Quando a renda cai, as pessoas tentam manter seu padrão de consumo e fazem isso queimando as economias (ou pedindo empréstimos). A queda do consumo é mais lenta que a da renda – e quem absorve a diferença é a poupança.

Se tudo acontecer como os analistas estão projetando, teremos um ano de inflação alta e crescimento pífio.

Com a inflação comendo o salário, muitas pessoas vão queimar suas economias. Outras vão simplesmente parar de guardar (guardar o quê?).

Eu sei, a alta dos juros estimula a poupança. Ela faz as pessoas pensarem três vezes antes de pegar financiamentos para comprar casas ou carros –  mas elas continuam comprando arroz e feijão.

Azar das montadoras de carros – que já começaram a demitir – e das construtoras e das imobiliárias e de quem comprou casa achando que o preço ia subir.

O tal ajuste contracionista – que arruma as contas públicas e segura a inflação – acaba então sendo feito muito em cima do investimento. Sem poupança, não há dinheiro para investir. E, se houver algum, é melhor emprestar para o governo – que paga juros cada vez mais altos.

Não, eu não tenho uma receita melhor.

Repetindo o coro dos analistas: vai ser um ano ruim – e vai ser difícil economizar.

PS. Já li uma boa leva de textos sobre por que os brasileiros poupam tão pouco. Eduardo Giannetti – assessor econômico da candidata Marina Silva – escreveu um livro sobre isso (e artigos sobre como é difícil ter crescimento econômico sem poupança).

Mas não me lembro de ter visto muita gente falar sobre como é difícil poupar quando o aluguel sobe de preço todo ano, quando até o cafezinho sobe de preço o tempo todo. Com inflação alta, é melhor consumir logo, antes que o preço suba (não, eu não vou aplicar o dinheiro do cafezinho em títulos da dívida pública).

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Margaret Thatcher, a ortodoxa – estátua protegida por caixa de vidro.