Ajuda aos piratas

fevereiro 25, 2013

cochranAs patentes foram inventadas na Inglaterra, na época da Revolução Industrial.

A ideia era garantir ao inventor de qualquer coisa o direito de colher os benefícios de sua invenção. Com as patentes, mais pessoas poderiam se dedicar a criar coisas novas em vez de ter que trabalhar do jeito de sempre para garantir o pão de cada dia. Com elas, bolar tecnologias novas valia mais a pena.

Com os direitos autorais foi parecido. Mais gente podia se dedicar a escrever – podia pensar em viver (ou ganhar uns trocados) com isso.

Os editores de livro também tinham um papel nessa história: formatar e distribuir os livros.

O curioso é que isso mudou muito de uns tempos para cá. Formatar e distribuir ficou barato (graças aos programas de edição e à internet) e muitos editores passaram a se dedicar ao trabalho oposto ao que tinham: o que fazem hoje é, em vez de difundir, travar, impedir o acesso a livros e artigos acadêmicos pela internet.

Eles policiam sites e fazem o possível para garantir aos herdeiros de um bom acadêmico o direito de ganhar uns trocados vendendo por mais de R$ 300 cada cópia de Sampling Techniques, ótimo livro de estatística publicado nos anos 50 (e reeditado nos 70).

Desnecessário dizer que o objetivo de patentes e direitos autorais não era bem esse. A ideia era estimular a produção, não restringir o acesso.

A primeira edição de Sampling Techniques tem mais de 50 anos. O autor, William G. Cochran, morreu  há mais de 30 – e dificilmente concordaria com um preço desses (autores gostam de ser lidos). Se o livro custasse R$ 50 eu nem diria nada, mas US$ 162,49 é uma péssima piada.

Depois as editoras se espantam por as pessoas piratearem PDFs.

A propósito: como os herdeiros do autor estão contrariando o espírito (embora não a letra) da lei, os piratas podem deixar de lado qualquer sentimento de culpa: não é eticamente errado combater um abuso de monopólio. E sim, mais de R$ 300 por um livro anos 50 é abuso.

Se alguém, por acaso, encontrar um PDF deste, por favor…

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O laboratório de Dilma

fevereiro 19, 2013

As experiências heterodoxas da presidente Dilma com a economia estão começando a ter resultado.

Infelizmente, não são os resultados que ela esperava.

A hipótese de que repetir as políticas do general Geisel poderia dar certo desta vez está, então, testada e refutada.

O problema é que Dilma ainda não se convenceu dos resultados da experiência e incumbiu seu elfo de estimação de aumentar a dose de desencontro cambial e subsídio via BNDES (dois dos principais ingredientes da fórmula).

Para ter certeza de que uma coisa não funciona mesmo, é normal testar muitas vezes – para ver se o que deu errado não foi alguma “coisa externa” à formula.

Pena que o custo de tentar mais uma vez seja destroçar a economia nacional.

É uma experiência cara a da Dra. Dilma.

Ela poderia ter evitado a repetição extra se adotasse uma visão mais ampla da experiência que está fazendo.

Henri Poicaré, um dos maiores nomes da ciência do século passado, costumava dizer que, muitas vezes, a ciência progride por conseguir chamar pelo mesmo nome coisas diferentes.

O exemplo de caricatura é o de petróleo, eletricidade, luz do sol, biomassa e vento, que podem ser mais bem compreendidos quando chamados – todos eles – de energia.

Bom, o que Dilma está fazendo agora não é só política heterodoxa ou câmbio controlado ou intervencionismo. O que ela está fazendo é algo que quase todos os governos da história do País fizeram – e que sempre deu errado. O que ela está fazendo se chama empurrar com a barriga.

Em vez de fazer um ajuste agora para conter a inflação e ter uma economia estável no futuro, Dilma prefere adiar, esperar para ver, só para não sofrer com os efeitos de curto prazo de uma alta de juros ou de uma valorização do câmbio. O que Dilma está fazendo se chama preferência pelo curto prazo.

O efeito desse tipo de política – testado dezenas de vezes – é inflação alta no longo prazo.

Teatro de Lego - experiência com baixo custo - e resultados melhores que os da política econômica.

Teatro de Lego: experiência com baixo custo – e resultados melhores que os da economia.

Watts: o anti-Freakonomics

fevereiro 12, 2013

O livreiro não sabia classificar o livro. Ou achou que ele ia vender mais ali, em destaque no meio da loja. Mas fiquei assutado em ver o livro novo de Duncan Watts na seção de auto-ajuda.

Watts é um físico que virou sociólogo: dava aula de sociologia na Universidade de Columbia antes de ir para a área de pesquisa do Yahoo!. Ele é um dos principais pesquisadores na área de formação de redes (sociais ou não). Mas seu livro de “auto-ajuda” só começa a falar em redes depois dos primeiros 20% (estou lendo a versão digital, sem número de páginas…).

Ele começa batendo com força na ideia de senso comum. Para ele, usar o “bom senso” para questões macro – que têm muito pouco a ver com nosso dia-a-dia – é no mínimo temerário.

Para ilustrar algumas temeridades do senso comum, ele dá o exemplo de um estudo feito com soldados americanos depois da guerra. O texto do estudo apresenta várias conclusões, como a de que pessoas de origem rural se adaptam melhor ao Exército. O leitor do texto imediatamente pensa: “claro, a vida no campo é mais dura. Normal que alguém do campo se adapte melhor ao trabalho pesado do Exército”. Todas as conclusões do estudo parecem meio óbvias, a ponto de logo o leitor começar a pensar: “Gastaram milhares de dólares para chegar a essas conclusões? Se tivessem me perguntado, eu teria respondido isso.”

Mas aí vem a maldade do autor do estudo. As conclusões do estudo eram exatamente o contrário das apresentadas. O curioso é que as conclusões verdadeiras também pareciam óbvias depois de apresentadas. Por exemplo: pessoas da cidade – mais acostumadas com estresse, hierarquia e afins – se adaptam melhor ao Exército. Óbvio.

Daí o título do livro de Watts: Tudo é óbvio, uma vez que você saiba a resposta.

Mas a melhor parte do livro (até agora, ainda estou no meio) é a em que ele bate nos modelos racionalistas de teoria econômica. Watts é uma espécie de anti-Levitt (o economista do Freakonomics). Para ele, os incentivos e punições pregados pelos economistas tradicionais são simplificações que podem ter resultados completamente imprevistos.

O problema é que as pessoas estão longe de ser tão racionais como os modelos econômicos supõem. E essa parte do texto lista uma coleção de estudos de psicologia com o tipo de incongruência que cometemos no dia-a-dia (que faz corar qualquer sujeito que se julgue mais ou menos racional).

São coisas como preferir um produto barato e um pouco pior a um caro e melhor (mas “mudar de preferência” se na propaganda dos produtos houver também um terceiro: tão bom quanto o caro, mas muito mais caro). Coisas como se deixar influenciar pela música da loja na hora de escolher produtos ou por números (aleatórios) que se viu há pouco tempo na hora de avaliar preços. E todas elas vêm de estudos sobre psicologia cognitiva – cheios de testes com cobaias –  mostrando que, bom, a gente não se comporta como a teoria econômica supõe (sem testar) que a gente se comporta.

Quer dizer: não dá para confiar demais nos modelos que partem dessas hipóteses.

“O problema é que (…) [nesse tipo de explicação] instintivamente enfatizamos custos e benefícios acessíveis à nossa consciência como os associados a motivações, preferências e credos – o tipo de fator que predomina nos modelos racionalistas dos cientistas sociais”, diz Watts.

Watts descreve uma experiência que fazia com seus alunos: falava para eles pensarem em dois países: A e B. Em um deles, 12% da população se registrava como doadora de órgãos, no outro, 99,9% era doadora. O que fazia com que essa diferença surgisse?

Os alunos então propunham as teorias mais diferentes: o nível de religiosidade da população, a qualidade dos serviços de saúde, uma cultura mais individualista, uma frequência maior de acidentes etc.

Os alunos então eram informados que os índices de registro como doador de órgãos eram reais e se aplicavam à Alemanha e à Áustria.

Afinal, o que havia de tão diferente entre Alemanha e Áustria? Bom, na Áustria, o default, na hora de tirar documentos é a opção “doador de órgãos”, na Alemanha não. Lá você tem que dizer que quer ser doador.

Uma coisa trivial, que nenhum dos estudantes de nenhuma das turmas de Watts jamais chutou, era a explicação para a diferença.

E nesse caso, o ponto era só mostrar que o mundo é mais complicado do que  economistas e modeladores supõem. Quando o comportamento humano entra no meio, a coisa fica bem pior. O livro tem um capítulo divertido sobre políticas de incentivo supersimplificadoras – como os bônus atrelados à valorização das ações de uma empresa. Afinal, os executivos trabalhariam pior com bônus menores? Trabalhariam menos? Dariam voltas na empresa? O que – em um comportamento complexo, relacionado a uma infinidade de estímulos – muda com o pagamento de bônus?

Mas a parte que me deixou mais feliz com o livro até agora foi uma pela qual muita gente vai passar direto (mas que merece ser lida com calma). É a parte sobre o que os sociólogos chamam de “problema macro-micro”.

“O problema, resumindo muito, é que os resultados que os sociólogos querem explicar são intrinsecamente ‘macro’, por natureza, o que quer dizer que envolvem um grande número de pessoas (…) E todos esses resultados são conduzidos por ‘micro’ decisões de indivíduos humanos que estão fazendo o tipo de escolha que discuti no capítulo anterior [sobre o que afeta as decisões das pessoas além da racionalidade].”

Os modelos econômicos se desviam desse problema supondo que existe um “agente representativo”, uma espécie de sujeito médio que determina o comportamento da multidão. O problema é que cada um dos agentes reais decide pelos motivos mais diferentes e todos eles trocam figurinhas – influenciando-se uns aos outros. Os resultados dessa interação são muito pouco previsíveis.

O exemplo de Watts é um estudo dele e de outros autores sobre formação de preferências. Os pesquisadores montaram um site de download de músicas de bandas desconhecidas. O site só podia ser acessado por uma rede social cujos administradores eles conheciam. Quem acessava o site podia baixar as músicas e ranquea-las, de acordo com suas preferências.

A maldade do estudo é que, quem acessava o site de downloads era alocado em um de cinco grupos independentes – em que os rankings eram separados. Em quatro grupos era possível ver o ranking estabelecido até então a partir dos votos de quem já estava no grupo. No quinto grupo, era preciso votar sem ver em quem as outras pessoas tinham votado.

O resultado foram rankings muito diferentes, pois a música que começava bem em um grupo tendia a ter mais downloads e mais votos. O quinto grupo foi usado como controle, para ter uma ideia de como seria um ranking sem a influência de opiniões externas.

O irritante é que muita coisa no mundo real tem a ver com esse tipo de interação – e isso não aparece nos modelos econômicos agregados. O que você quer explicar é justamente o que você não vê quando usa o tal “agente representativo” ou quando agrega os dados.

Se isso dá um certo desânimo quanto à teoria econômica que existe hoje, faz pensar também nas coisas divertidas que ainda podem ser descobertas (principalmente agora, quando é possível usar a internet para estudos como o de Watts, sobre interações e influências).

Se não ajudarem a entender como as pessoas são, esses estudos vão pelo menos ajudar a entender como se influenciam umas às outras – o que já é bastante coisa.

Árvore complexa, em um mundo complicado.

Árvore complexa, em um mundo complicado.

O mal aos pouquinhos

fevereiro 6, 2013

A frase mais famosa de Maquiavel é aquela sobre o bem e o mal. O bem, segundo ele, deve ser feito aos poucos, o mal, de uma vez.

Fazer o mal aos poucos é pedir para ser odiado pelo público. É o pior dos mundos para um político.

É por isso, provavelmente, que a inflação é um veneno tão eficiente contra a popularidade do governo. Ela é o caso extremo de mal aos pouquinhos.

Todos os dias, o pobre consumidor vê algum preço subir: pode ser o cafezinho, pode ser o aluguel, pode ser o plano de saúde, pode ser a gasolina. Todo dia ele é lembrado de que está ficando mais pobre.

E a culpa, não há dúvida: é do governo.

E nesse caso é mesmo. É o fim da política econômica que está trazendo a inflação de volta. A inflação era controlada por uma política de metas (juros), câmbio flutuante e déficit sob controle nas contas públicas (também conhecido como superávit primário). O governo abandonou as três coisas. Não deveria ficar surpreso com a alta dos preços.

Também não deve ficar surpreso com o horror dos eleitores, que virá, cedo ou tarde.

O nível baixo de desemprego tem segurado a popularidade de Dilma & cia. Mas, para ficar nos chavões: ganhar, para depois perder, é pior que não ganhar. A renda cresceu – para agora ser engolida pela inflação. E engolida aos pouquinhos, do jeito mais doloroso.

Vítimas do mal feito aos poucos. Santiago, Chile, Museu de Belas Artes.

Vítimas do mal feito aos poucos. Santiago, Chile, Museu de Belas Artes.