O futuro é incerto e falar qualquer coisa sobre ele é – quase sempre – pedir para ser desmentido pelos fatos.

Mas, às vezes, em horas bastante inesperadas, vemos ou ouvimos alguma coisa que muda nossa expectativa sobre o futuro – geralmente para pior.

A frase abaixo eu ouvi de um analista de banco há algumas semanas – e ela é mais significativa do que parece à primeira vista:

– O índice de reajuste dos planos é um índice de valor. Não é um índice de preços.

Para traduzir o que ele estava dizendo, é importante lembrar que há índices de preços (que medem quanto o preço de um produto ou de um grupo de produtos muda ao longo do tempo), há índices de volume (que medem a variação da quantidade ou do volume negociado de algum bem ou serviço) e há índices de valor, que combinam as duas coisas.

Quer dizer: os índices de valor mostram – como o nome indica – quando o valor de alguma coisa variou, seja porque o preço subiu seja porque a quantidade negociada foi maior.

Não conferi no site da ANS, mas acredito no analista. Meu plano de saúde subiu mais de 10% este ano (e outro tanto ano passado). Tudo indica que ele vai sempre subir mais que a inflação: afinal, é um índice de valor.

Os planos, pelo jeito, conseguiram repassar para os clientes o aumento no uso dos serviços. Quer dizer: se o número médio de consultas ou exames por cliente crescer, eles podem repassar isso aos seus filiados.

O primeiro resultado disso é que eles não têm nenhum estímulo para controlar seus próprios custos: afinal, vai ser tudo repassado.

O segundo resultado é que o peso dos planos no orçamento das famílias, nesse ritmo, vai crescer até sufoca-las. Afinal, a maior parte dos salários mal acompanha a inflação (e os planos de saúde vão sempre subir mais do que ela).

Uma aumento quatro pontos percentuais acima da inflação pode não assustar tanto em um ano. Mas, se for assim todo ano, em 30 anos serão 224% de aumento acima da inflação (1,04 elevado a 30 menos 1).

Meu breve delírio sobre o futuro, quando ouvi o analista, tinha muitos zeros e muitos cifrões:  o plano de saúde básico vai subir e ainda vão me empurrar o aumento por mudança de faixa etária.

A educação de crianças também tem subido acima da inflação média – e a qualidade dos serviços públicos nessas áreas é uma propaganda incisiva das alternativas privadas de saúde e educação.

É curioso ver o governo discutindo como aumentar a eficiência da economia enquanto os custos de manutenção das despesas tradicionais da classe média têm perspectivas tão sombrias. (Vale sempre a ressalva: estamos falando da classe média, não da classe média da Secretaria de Assuntos Estratégicos, que tem renda de R$ 291 per capita).

A renda do trabalho está aumentando, eu sei. Os planos de saúde também sabem, os donos de apartamentos para alugar também e os de escolas também.

A concorrência nessas áreas está longe de ser a dos modelos de concorrência perfeita dos livros de economia.

O curioso é que, quando a gente olha para frente e vê custos cada vez mais altos para produzir aqui, conclui que é melhor investir em outros lugares – onde a renda futura esteja menos comprometida. É melhor investir na China, na Índia, em algum lugar onde a futura alta de preços (e custos) não pareça tão garantida.

Depois não entendem porque o investimento é baixo no Brasil.

(Ah, claro, com pouco investimento, a oferta de bens e serviços cresce pouco e, com a demanda crescendo, esses bens e serviços sobem de preço. O futuro vai ser caro).

Marquesa em tela de Van Dyck, de 1623: “O futuro é para poucos”.

Procura-se uma criada

novembro 10, 2012

A complexa comparação da contratação de uma empregada doméstica à compra de um carro esportivo (Camaro) já ganhou a internet. A autora da façanha, a presidente do Sindicato dos Empregadores Domésticos do Estado de São Paulo (Sedesp), Margareth Carbinato, é conhecida pela defesa enfática dessa classe oprimida – os patrões -, mas nunca tinha se saído com argumento tão tocante, como o reproduzido pela Folha de S. Paulo:

“O que adianta ter um Camaro amarelo e não ter condições de mantê-lo. Não adianta conceder direitos trabalhistas se não houver empregador que sustente essa situação”, explica.

O alerta da patroa se deve à tramitação, na Câmara dos Deputados, da PEC 478/2010, que estende aos empregados domésticos todos os direitos assegurados aos demais trabalhadores urbanos e rurais. Hoje, como se sabe, empregado doméstico não tem direito a jornada de trabalho máxima (44 horas semanais), hora extra, adicional noturno e FGTS obrigatório.

Segundo a advogada, a aprovação da PEC elevará radicalmente o custo de se manter uma empregada doméstica, o que resultará em desemprego e informalidade. Isso porque, tal qual o Camaro, a empregada poderá até ser “adquirida”, mas poucos patrões terão os meios para mantê-la.

Causídica que é, Margareth se debruçou sobre a Constituição e a CLT para calcular o tamanho do estrago provocado pela eventual promulgação da emenda constitucional, concluindo que manter uma empregada doméstica custará no mínimo R$ 3.430 por mês, incluídos os encargos. [Veja o cálculo completo em carta aberta, datada de julho, no site do Sedesp.]

Data maxima venia, a conta da advogada é equivocada, pois pressupõe, por exemplo, que todas as horas a mais passadas no local de trabalho serão consideradas horas extras – o que, se aprovada a proposta, será objeto de regulamentação específica.

O mais interessante, porém, é o dado inicial dos cálculos. Com base no atual salário mínimo (R$ 622), a presidente do Sedesp chegou a uma remuneração por hora, numa jornada de 44 horas semanais, de R$ 2,84. Sim, dois reais e oitenta e quatro centavos.

A hora técnica de trabalho de um advogado, por sua vez, não sai por menos de R$ 219,30, segundo tabela da OAB-SP.

Complexidade, responsabilidade e escolaridade à parte, é razoável que na sétima maior economia do mundo ainda se considere normal que uma categoria profissional ganhe 77 vezes mais que a outra, talvez sob o pretexto de cada país ter sua própria realidade?

É mesmo necessário estudar direito constitucional e trabalhista para perceber que há algo de errado em considerar um direito adquirido poder dispor de uma empregada doméstica por pouco mais do que um saco de balas por hora?

Até o início do século 20 ainda se viam em jornais brasileiros anúncios do seguinte tipo:

“Precisa-se de uma criada de cor preta, que cozinhe e lave, na rua tal”

Por outro lado, até 2010, não havia Camaros à venda no Brasil.

Hoje o país tem 7 milhões de empregados domésticos e 3 mil Camaros em circulação.

Como se vê, muita coisa mudou. Algumas, muito; outras, nem tanto.

Os economistas têm um velho chavão que resume como as crises econômicas devem ser tratadas: se o choque é permanente, se ajuste, se é temporário, financie (peça empréstimos e segure a demanda durante a crise).

O problema , então, é dizer em que tipo de crise estamos. Se o choque for permanente, então os alemães terão razão e o único jeito para a Europa vai ser apertar o cinto. Se for temporário, essa política de aperto só tornará o buraco mais fundo.

Mas o curioso, neste caso, é que esta crise é as duas coisas. A Europa, antes da crise, crescia a base de anabolizantes. O crescimento da Espanha, por exemplo, foi puxado pelo setor de construção, pela bolha imobiliária. Esse crescimento não vai voltar.

Nesse sentido, o choque é permanente: é preciso cortar gastos para se ajustar.

Mas o estouro da bolha, diminuindo o valor dos imóveis, fez com que as famílias europeias empobrecessem de um dia para o outro – e passassem a cortar gastos para recompor o patrimônio.

O corte brusco do consumo derruba a produção, mas é temporário: depois de alguns anos pagando dívidas e refazendo o fundo de aposentadoria, as famílias voltam a consumir no nível de antes.

O governo, nesse caso, deveria pedir empréstimos para aumentar seus gastos e evitar que a queda do consumo das famílias derrubasse a produção. Como o choque é temporário, isso seria viável: alguns anos no vermelho, gastando para manter a demanda, e alguns anos (depois) pagando a conta.

Como tratar então esse choque parte-temporário parte-permanente?

A solução, para muitos economistas é gastar agora e fazer o ajuste depois.

Mas o argumento alemão é que os outros países não vão fazer o ajuste depois.

A crise, com todos precisando urgentemente de dinheiro alemão, seria então uma oportunidade para a Alemanha forçar outros países a fazerem reformas previdenciárias e cortarem serviços públicos.

O processo é mais doloroso do que seria se o ajuste fosse feito mais tarde, depois que as economias já tivessem voltado a crescer. E, pior, pode ter efeitos colaterais inesperados, como reviravoltas políticas e calotes generalizados.

Se a Europa tivesse uma estrutura institucional melhor, se os compromissos de ajuste de longo prazo da Grécia fossem críveis, a Alemanha não teria como justificar sua pressão por ajustes agora.

Mas cada país é soberano para descumprir cartas de intenções ao FMI e para dar calote em suas dívidas quando achar melhor.

Resumindo: o nó europeu é institucional – mais do que econômico. Sem aumento de gastos (de governos, famílias ou empresas) no horizonte, a crise não tem perspectivas de acabar no curto prazo: ainda vai durar muitos anos.

E ela pode piorar se alguém espirrar mais forte na Espanha ou na Itália…

Europa: pelo caminho mais difícil.