Estou lendo sobre mau uso de números. O nome do livro é Proofiness, o autor, Charles Seife. O primeiro exemplo de manipulação numérica do livro é o que o autor chama de números de Potemkin.

Os números de Potemkin são fraudes, puras e simples: números inventados para enrolar passantes distraídos. Seu nome é uma homenagem ao príncipe Gregory Potemkin que, para enganar a imperatriz da Rússia (que visitava sua região), teria mandado construir fachadas de casas ao longo do caminho pelo qual ela passaria. A ideia era convence-la de que a região era mais que o bando de terrenos baldios que realmente era.

Segundo a lenda, Potemkin sabia que a imperatriz jamais saltaria de sua carruagem para ver de perto as casas do caminho. E sua fraude foi bem sucedida: convenceu a imperatriz russa de que aquela parte da Crimeia – sim da Crimeia – era uma região movimentada e cheia de atividade econômica.

O mundo da voltas.

Fachadas no caminho: bem longe da Crimeia.

Fachadas no caminho: bem longe da Crimeia.

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Quem anda hoje pelo Centro do Rio de Janeiro repara logo nas faixas de “vende-se” e “aluga-se” na frente de lojas e em janelas de escritórios.

Se a oferta de imóveis já é grande hoje, imagine quando as construtoras entregarem o emocionante “porto maravilha”, projeto privado para ocupar uma área decadente na ponta do centro da cidade.

Mas o que está acontecendo? Por que tantos imóveis anunciados?

Pode ter a ver com o preço dos imóveis e dos aluguéis – que disparou nos últimos anos.

Embora os donos de imóveis continuem com a expectativa de vende-los ou aluga-los por valores altos, não há mais quem pague o que pedem.

Mas por que agora? Por que, às vésperas da Copa do Mundo, dois anos antes das Olimpíadas etc. etc.?

O problema é que a bolha imobiliária nunca teve nada a ver com Copa ou Olimpíadas. Ela tinha a ver com juros e câmbio. O resto era conversa de corretor.

O preço dos imóveis – no Rio e em outras cidades – começou a subir em 2008, no começo da crise nos Estados Unidos e na Europa.

Os juros, no mundo rico, caíram para perto de zero (para menos de zero, descontando a inflação). Os ricos do mundo rico trataram de levar seu dinheiro para onde rendesse um pouco mais. Vieram para cá e para outros países onde juros, ações e imóveis fossem render mais do que o zero que ganhavam em casa.

O efeito disso foi que o real se valorizou fortemente entre 2008 e 2012, as ações no Brasil subiram de preço e os imóveis – comprados por estrangeiros, fundos imobiliários e brasileiros pegando carona – também.

Mas já começam a haver sinais de recuperação nos EUA. Ontem, o BEA (o IBGE americano) anunciou que a economia de lá cresceu a um ritmo anualizado de 2,6% no quarto trimestre do ano passado. A presidente do BC de lá já avisou que eles vão – aos poucos – parar de imprimir dinheiro para jogar no mercado (o que eles chamam de quantitative easing), em suma: para muitos investidores estrangeiros, começa a ficar próxima a hora de vender o que compraram aqui e voltar para casa.

O Banco Central daqui está fazendo malabarismos para evitar que a saída de dinheiro desvalorize o real muito rapiadamente e, para os estrangeiros, esse é exatamente o problema. Se demorarem muito para sair, o real perderá valor e seus ganhos por investir aqui virarão fumaçam. Então, é melhor se antecipar um pouco e não esperar pela alta dos juros nos EUA.

Resumindo: não sei quem vai comprar os imóveis do porto maravilha. Não sei nem quem vai alugar ou comprar os que já estão anunciados no Centro do Rio. Com o aumento dos juros aqui, até os compradores mais necessitados vão passar a pensar dez vezes antes de pegar financiamentos imobiliários. O cenário, cheio de “vende-se” e “aluga-se”, lembra muito o que vi em uma viagem à Inglaterra em 2007 (pouco antes do estouro da bolha imobiliária de lá).

Edimburgo, 2007. Às vésperas da crise.

Edimburgo, 2007. Às vésperas da crise.

 

Lixo administrativo

março 5, 2014

Com cinco dias de greve da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), as pilhas de lixo nas ruas do Rio de Janeiro começam a ficar altas. Mas elas incomodam menos que a decisão do presidente da empresa, Vinicius Roriz, de demitir 300 funcionários por faltar o trabalho durante o feriado de Carnaval.

Isso: depois de faltar três dias (sábado, domingo e segunda-feira de Carnaval) 300 pessoas foram demitidas, por fazer greve. Não existe alguma lei que impeça empresas de demitir pessoas por fazer greve? Ainda mais em um feriado? Não deviam tentar negociar por mais tempo antes de demitir? Não pensaram que, demitindo, só vão acirrar mais os ânimos? Não lembraram que vivemos em tempos democráticos, em que o que vale é a negociação?

Não. Domingo, dia 2 de março, uma matéria da Agência Brasil, publicada no jornal O Dia, já mostrava como os garis seriam tratados. A passeata dos garis foi acompanhada por PMs desidentificados, sem nome ou número nas fardas. O coronel responsável pela tropa se justificou: as novas fantasias de Robocop usadas pela PM carioca para reprimir passeatas não têm nomes nem números. Segundo o coronel Wagner Vilares, a identificação dos PMs “não é uma obrigatoriedade legal, mas administrativa”. Isso quer dizer que eles podem bater impunemente sem identificação (e agora, com capacetes que escondem o rosto)?

A quantidade assustadora de lixo acumulada nas ruas em cinco dias é prova de que os garis cariocas trabalham. É trabalho pesado e é usado pela prefeitura como símbolo de eficiência administrativa. Não à toa, Cesar Maia adotou a cor da Comlurb (o laranja) como símbolo da sua administração. Não à toa, Eduardo Paes levou um gari para dançar no palco de encerramento das Olimpíadas de Londres: era a imagem publicitária perfeita para as Olimpíadas do Rio (um lugar onde os garis são felizes).

Na hora de faturar em cima da eficiência da Comlurb, os políticos estão lá. Mas na hora de negociar salários, mandam a polícia.

Em vez de negociar a sério, conversam com um sindicato não representativo, que não se incomoda em adotar cláusulas de demissão imediata em seu “acordo” com a Comlurb.

Isso não tem como acabar bem.

Demissões, ameaças e incapacidade de negociar.

Demissões, ameaças e incapacidade de negociar.

PS. Com o desemprego na mínima histórica, os garis não vão ter muito medo de perder os R$ 1.200 de salário (R$ 400 de adicional de insalubridade incluído). Para ganhar isso trabalhando domingos, feriados e em horários alternativos, não vai ser tão difícil arrumar outro emprego. Eles não vão se intimidar com demissões e ameaças.