Agora sim: agora o governo vai controlar a inflação. Essa conclusão, de três repórteres em um programa da Globonews (Fatos e versões), não saiu de nenhuma medida específica do governo, tem a ver só com discursos – e com um texto menos escorregadio na última ata do Comitê de política monetária.

Mas o mesmo comitê que escreveu essa ata decidiu subir os juros no piso das expectativas – apesar da alta consistente dos preços nos últimos meses. A mesma presidente que anuncia o combate à inflação como prioridade liberou repasses bastante inflacionários do governo ao BNDES este ano.

Que o governo não combate a inflação, eu já sabia. O espantoso foi ver a imprensa reproduzindo seu discurso. E não é só em programas obscuros de TV a cabo. Esta semana, com a empostação de sempre, Wiliam Bonner anunciou o superávit primário recorde do governo.

Mas o superávit primário acabou, deixou de ser um indicador sério há uns dois ou três anos. Quando o Tesouro Nacional começou suas transferências de centenas de bilhões de reais (sim, centenas, no plural) para o BNDES, o superávit primário deixou de fazer sentido. O repasse bilionário do Tesouro aos empresários amigos -via BNDES – não é registrado como despesa, embora aumente diretamente a dívida bruta do governo.

O dinheiro repassado aumenta a demanda – que pressiona os preços. Assim, enquanto anuncia que vai fazer tudo para conter a inflação, o governo libera – só este ano – mais de R$ 60 bi para os amigos (sem se preocupar com o efeito disso sobre a inflação). E o Jornal Nacional reproduz o indicador desmoralizado que diz que o governo está melhorando a relação entre suas receitas e despesas.

Melhor faria Bonner se simplesmente não desse a notícia (em vez de repetir a propaganda oficial).

Mas se ele quiser mesmo informar como vai a situação fiscal do país, diga então qual foi a variação da dívida nominal bruta do governo no último mês. Essa inclui os repasses ao BNDES.

Mas esse número, os assessores de imprensa do Ministério da Fazenda não põem no alto do press release.

Hipocrisia à brasileira

abril 16, 2011

O que um palhaço e um ator de filmes eróticos têm em comum? Trocadilhos e piadas à parte, os dois são exemplos de uma mistura de hipocrisia e ignorância típica do brasileiro, ou pelo menos do que se convencionou chamar de opinião pública brasileira. No início do mês, o palhaço Tiririca levou paulada por contratar dois humoristas como assessores parlamentares; poucos dias depois, o ator Valter Pagliosa perdeu o cargo no Instituto Ambiental do Paraná (IAP) por ter no currículo uma participação em filme “adulto”.

Naked Clown Calendar: esses nunca conseguiriam emprego público no Brasil.

Ninguém parou para pensar que, aparentemente, ambas as atividades (humor e filmes eróticos) são legais e, ao menos nas declarações públicas, tão dignas quanto qualquer outra. O que importa é que, para todos os efeitos, a presença de pessoas como essas nos quadros do estado ofende as regras do bom senso, para não falar dos bons costumes.

Certamente, estaria mais de acordo Tiririca contratar para assessorá-lo dois médicos, dois engenheiros de software ou mesmo dois geofísicos, estes sim representantes de profissões dignas, que não envergonhariam pais e mães de bem, nem a atividade parlamentar. Na mesma linha de raciocínio, a chefia do IAP em Cascavel ficaria melhor nas mãos de um jornalista, um cozinheiro ou quem sabe até um comerciante de madeira de lei, a fim de evitar que a questão ambiental no Paraná se transforme numa, com o perdão da palavra, putaria.

A volta do general

abril 10, 2011

Os primeiros 100 dias do governo Dilma foram celebrados com vários artigos de jornal comparando sua política econômica à do general Ernesto Geisel. Não é para menos: elas são parecidas mesmo. A comparação fica especialmente maldosa quando se pensa que, na época, Dilma participava de grupos que queriam derrubar o governo na marra.

Tanto esforço para, 30 anos depois, adotar de novo a política econômica do general. Mas de um jeito pior, porque, com o benefício da experiência, sabemos que a política econômica de Geisel produz – depois de alguns anos – uma ou duas décadas de estagnação econômica.

Dei uma olhada nos meus textos de faculdade sobre o governo Geisel. Achei um resumão da política econômica da época. Muita coisa parece o noticiário recente: os juros subsidiados do BNDES, o favorecimento a grupos de empresários, os protestos contra o aumento de juros, o investimento em grandes projetos estatais (que depois deram prejuízo), o aumento da dívida pública e, é claro, a alta da inflação.

Só o que é mesmo diferente é a justificativa para adotar essa política. Elio Gaspari e outras pessoas que escreveram sobre o governo Geisel tentam explicar com disputas de poder sua política econômica inconsistente: Geisel tinha que mostrar resultados econômicos de curto prazo para não ser derrubado pela linha dura do exército. Ele teria forçado a barra para manter o crescimento depois da crise do petróleo porque a ala do exército no poder antes dele, a de Médici, usaria a queda no crescimento para justificar um golpe dentro do golpe (e derrubaria, com Geisel, seu projeto de abertura política).

Dilma, ao contrário, não parece enfrentar grandes resistências políticas: tem feito o que quer. Parece estar cometendo esses desatinos econômicos por vontade  – mais do que por qualquer restrição político-partidária.

Se der, ou melhor, quando der tudo errado, ela não vai ter muitas desculpas ou explicações razoáveis para oferecer. Quando a inflação subir mais, quando vierem as greves por aumento de salário, quando for preciso tomar medidas realmente duras para frear a alta dos preços, ela vai ter que assumir a responsabilidade.

Mas o que Dilma provavelmente vai fazer vai ser demitir o ministro da Fazenda e chamar alguém menos chamuscado para fazer o ajuste (isso, no melhor cenário que consigo imaginar).

Geisel: a cara da década perdida

Jornalismo?

abril 5, 2011

Em mais um escândalo tuítico, o Grupo Folha decidiu demitir dois repórteres, um da Folha e outra do Agora, por trocarem comentários “inapropriados” a respeito da cobertura da morte de José Alencar pela Folha.com. Curiosamente, a repercussão do caso não começou com o fato em si – a troca de tuítes -, mas com comentário na coluna da ombudsman da Folha, Suzana Singer.

Na coluna, a ombudsman lembra que a modernidade da blogosfera tem sido uma “fonte de problemas” para o jornalismo, como o diálogo entre os dois repórteres. Afirma que “é insensível jogar na cara do leitor que há obituários prontos à espera do momento de publicação”. Censura a crítica via Twitter a um site da mesma empresa (dos jornais que empregavam os repórteres). E, finalmente, argumenta que contas de jornalistas em redes sociais “não podem ser encaradas apenas como pessoais”.

A pequena seleção de pérolas, produzidas em tom de revelação oracular, já permitiria ao leitor se perguntar se a ombudsman não confunde a independência garantida à sua função com a presunção de que pontos extremamente polêmicos podem ser resolvidos numa canetada.

A jóia da coroa, porém, viria depois.

Carol Rocha, a (ex-)repórter do Agora, conta em seu blog que enviou um email à ombudsman da Folha com comentários a respeito da coluna e da demissão. Também publica, na íntegra, tanto essa sua mensagem quanto a tréplica de Suzana. Trata-se, na falta de expressão mais erudita, de uma aberração jornalística, que por isso mesmo vai re-reproduzida abaixo [para mais contexto, recomenda-se a leitura da coluna da ombudsman e da mensagem de Carol, disponíveis no blog]:

Carol,

agradeço muito a sua mensagem, mesmo.

Não tenho nada a ver com a demissão, porque não tenho nenhuma participação nas decisões das chefias. Mas posso dizer que lamento muito a saída de vocês e me sinto mal por ter provocado isso com a crítica interna.

Eu acho o diálogo de vocês, no mínimo, inapropriado. Não é legal lembrar o leitor que os obituários estão prontos à espera da morte de pessoas queridas do público, não é certo criticar um outro órgão de imprensa (principalmente sendo do mesmo grupo) nem ressuscitar erros graves recentes.

Mais do que tudo isso, acho importante que os jornalistas se controlem, não coloquem suas opiniões no Twitter a qualquer momento, sem refletir. Já tinha acontecido antes: o próprio Alec criticou no Twitter o caderno de Esporte durante a Copa, a editora de política lamentou a morte errada do Tuma na rede etc.

Não acho que isso seja censura. A Folha tem meios de fazer e receber críticas (painel do leitor, ombudsman, o blog da crítica interna, a seção erramos). Imagina se todo jornalista resolvesse colocar na rede os erros de colegas e desafetos.

Vc gostaria que eu publicasse a sua mensagem no blog da crítica amanhã? A ideia é que ele sirva para discussões internas mesmo.

Na coluna de domingo, vou citar o caso sem identificar você ou o Alec, por isso, não pensei em procurá-los para um “outro lado”. Acho que é melhor assim, mas se vc preferir ter um espaço para responder, me diga.

É reconfortante saber que a ombudsman não teve participação direta nas demissões, mas a digestão do resto não é tão fácil.

A opinião sobre os obituários pré-fabricados pelos meios de comunicação, que já tinha sido expressa na coluna, mantém sua robustez surrealista. Ao que parece, a colunista considera mais “sensível” os veículos fingirem que os obituários de personalidades em idade avançada ou em condição delicada de saúde são elaborados somente após a morte das pessoas, provavelmente por jornalistas superdotados capazes de apurar e resumir 60, 70, 80 anos de história, sem erros, nos cinco minutos entre a confirmação do óbito pelos médicos e a publicação da notícia na internet.

Uma novidade na tréplica, contudo, consegue o prodígio de superar essa gota de sabedoria. Segundo a ombudsman, não é certo criticar um outro órgão de imprensa. Entenderam? De acordo com a ouvidora da Folha, um jornal, digamos, apenas à guisa de exemplo, a Folha de S. Paulo, não deve criticar outro jornal, revista, programa de rádio, telejornal ou site jornalístico, ainda que estes tenham os deveres de cumprir sua função social e respeitar códigos de ética, sem falar no fato de que, no caso específico de rádio e TV, funcionem graças a concessões públicas.

Prática anticoncorrencial? Espírito de corpo? Cara-de-pau?

É, sem dúvida, um caso para ombudsman.