Paranóia americana

dezembro 31, 2009

A polícia de Nova York fechou ontem o Times Square – um dos pedaços mais movimentados do centro da cidade. A justificativa foi uma van branca, sem placa, estacionada na rua. Os paranóicos de plantão acharam que ela podia ter uma bomba.

Quando estive em Nova York, fui expulso de um dos pontos turísticos (eu, todos os turistas e até os funcionários) por um bando de policiais armados com fuzis. Os policiais chegaram à Ellis Island – que fica ao lado da Estátua da Liberdade – e informaram que a ilha ia ser evacuada. Não disseram por que ou pra quê.

Não sei se o plano era só criar paranóia e medo mas, provavelmente, isso foi tudo que conseguiram. Criaram um pouco de irritação também. A senhora atrás de mim, na fila de volta para o barco, estava furiosa (para dizer o mínimo).

A van branca no Times Square era de um comerciante local: em vez de bombas, tinha roupas. Em Ellis Island, até hoje não sei o que houve. No máximo uma simulação de rotina para estragar o passeio de alguns turistas.

Mandar a polícia evacuar o Museu da Imigração – a grande atração da ilha – é mesmo uma coisa meio caricata.

E, pelo jeito, evacuar pontos turísticos já deve ser uma coisa comum. Até onde eu vi, não saiu  nada sobre Ellis Island nos jornais do dia seguinte.

Posto de recrutamento das forças armadas americanas no Times Square: "To bomb and to fear being bombed" - novembro de 2009.

Algo de podre no cofre

dezembro 27, 2009

Fim de ano é época de fechar balanços. Mas uma das grandes dúvidas do ano – quanto valem os papéis podres na lista de ativos dos grandes bancos gringos – continua sem resposta.

Goldman Sachs e similares estão há alguns meses alardeando lucros e pagando gordos dividendos a seus diretores. Mas a única garantia de que eles não vão quebrar amanhã é a do Federal Reserve, o banco central americano (que promete uns bilhõezinhos a todos os que ficarem com a corda no pescoço e forem grandes demais para quebrar).

Protegidos pela garantia federal, os bancos fazem o mesmo tipo de aposta que levou muitos deles ao abismo (e ao socorro do FED) em 2008.

A estátua de George Washington, em Wall Street, protesta contra os bônus pagos a executivos de bancos com ativos podres - novembro de 2009.

A estátua de Shakespeare no Central Park concorda com o protesto.

Chamunda, o horrendo destruidor do mal (Madhya Pradesh, século X ou XI), Metropolitan Museum, Nova York.

Chamunda, o horrendo destruidor do mal (acima), foi testemunha das aberrações econômicas da Índia – seu país de origem – por vários séculos. Aqui no Brasil, nossa lista de aberrações o deixaria ainda mais esquelético e horrorizado. Ontem, Lula, Mantega e uma tropa de sindicalistas baixaram, por medida provisória, as regras de aumento do salário mínimo e das aposentadorias até 2011. A novidade é que o aumento do salário mínimo vai ser igual à variação da inflação (INPC) mais a variação do PIB – se ela for positiva. Já os aposentados ficarão com metade da variação (positiva) do PIB.

Segundo o Estadão, o PIB usado para corrigir os salários de 2011 será o de 2009. Mas o curioso é que o IBGE só divulgará o PIB definitivo de 2009 em novembro de 2011. Como os salários mínimos são reajustados no primeiro semestre, imagino que usarão o PIB de 2009 calculado por soma de trimestres – sempre sujeito a revisões.

No último dia 10, o IBGE revisou em 0,9 ponto percentual o PIB do segundo trimestre de 2009 – revisou para baixo. Imagine como vai ser isso em épocas de salário indexado ao PIB…

PIB não é indexador, nem de salário nem de nada, em lugar nenhum do mundo. E este é mas um caso de falsa jabuticaba, uma daquelas políticas que, se só tem no Brasil, é porque deve ter algum problema.

A primeira maldade dos autores da MP é que o PIB de 2009 deve crescer pouco – se é que não vai ser negativo. Mas a idéia usar o PIB como indexador pode render frutos assustadores, coisa de deixar Chamunda de cabelo em pé.

Se a moda pegar e se o Brasil tiver – no futuro – o nível de crescimento que bancos e consultorias têm projetado, muitas prefeituras vão ficar com a corda no pescoço, para não falar na Previdência.

Ah e,  a cada revisão para baixo no PIB, vai ser uma gritaria dos diabos.

Ainda há esperança

dezembro 23, 2009

Adeus, Sean, seja feliz. Ou não. Pouco importa.

Econometria, por favor

dezembro 15, 2009

Deve haver algo errado comigo, ou então Abraços partidos, último filme de Pedro Almodóvar, ficou longo demais. O fato é que, no meio do filme, eu já sentia saudades do livro de econometria que deixei de lado para ir ao cinema.

O filme não é uma perda total: ele mostra Penélope Cruz com jeitinho de Audrey Hepburn (foto). Mas, fora isso, é só um longo melodrama.

A econometria, pelo menos, é seca: não é maniqueísta, não  envolve espancamentos e não pretende assustar ninguém (embora também assuste, às vezes).

Penélope Cruz - quase salvando um roteiro que a Audrey original teria recusado