Gestão de pessoas

julho 26, 2011

Os pesquisadores do fenômeno da corrupção são quase unânimes em apontar uma correlação entre nível de remuneração e propensão ao desvio. Em bom português: segundo os estudos, quem ganha mais, rouba menos. A regra, obviamente, não é infalível. Tampouco se sugere, com isso, que os corruptos sejam pobres vítimas de salários baixos. Trata-se apenas de uma constatação. Correta ou não, é essa constatação que fundamenta, por exemplo, o posicionamento de auditores e fiscais no topo da folha salarial de qualquer esfera de governo.

Os recentes escândalos no Dnit e no Incra servem, assim, para revelar falhas um pouco mais sutis que as elencadas no Título XI do Código Penal. Um exame dos casos denunciados revelam uma atuação intensa das superintendências regionais dos órgãos, instâncias responsáveis por “botar a mão na massa”, ou seja, gerir obras milionárias e cuidar da regularização de terras cobiçadas. Com tantos interesses em jogo, seria de se supor que as autoridades máximas dessas unidades, os superintendentes regionais, estivessem em posição salarial privilegiada na folha do governo federal.

Não é o caso.

Os superintendentes regionais do Dnit e do Incra ocupam cargos comissionados do tipo DAS 101.4, de livre nomeação, o que corresponde a uma remuneração mensal de R$ 6.843,76 para não servidores e um adicional de R$ 4.106,25 para servidores na chamada “opção”. É o mesmo valor pago, por exemplo, a centenas de “assessores” de gabinetes de ministros e secretários-executivos e até aos famosos “assessores de ex-presidente da República”.

Repita-se quantas vezes forem necessárias: uma remuneração inadequada não explica, muito menos justifica, atos de corrupção e improbidade administrativa. Mas, a despeito disso, partir de uma estrutura salarial que faça um mínimo de sentido pode ser um bom passo para melhorar a gestão da coisa pública.

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É por maldade?

julho 23, 2011

O trem bala é uma prioridade e não saiu da agenda do governo. A inflação será contida sem queda no crescimento econômico. E outra prioridade do governo é a política industrial.

Essa sequência assustadora de declarações foi feita ontem, pela presidente da República.

Não faltam artigos de jornal lembrando o que dá para fazer com os R$ 35 bilhões (ou R$ 50 bilhões segundo construturas) necessários para pôr o trem bala para andar. O número de beneficiários do trem – e o que eles economizariam em passagens da ponte aérea – está longe de justificar a obra. O benefício seria maior se gastassem em metrô, em contratação de médicos, em aporte para complementar o salário de professores públicos.

Mas tudo bem, o trem dificilmente vai sair do papel: ele é mais desejo – ou balão de ensaio – da presidente que projeto político de verdade. Até onde eu sei, ele ainda nem tem projeto executivo: não existe um projeto detalhado com a inclinação do terreno, a extensão das pontes ou o número (que dizer do valor) das áreas que teriam que ser desapropriadas.

É uma cascata.

Mas a política econômica tem sido como a presidente descreve. E, nesse caso, não parece ser por maldade, porque a bomba vai explodir no colo dela. A história de conter a inflação sem desacelerar o crescimento está mantendo a inflação alta por um período muito longo – e a perda de renda começa a ficar grande demais para quem vive de salário, para quem não pode aumentar o preço do que vende.

As greves já estão começando – e vão aumentar. Dilma, e seu ministro da Fiesp, adotaram uma política econômica pró-industria paulista. O ministro chegou ao ponto de dar declarações à imprensa dizendo que não perde o sono com a inflação mas que o câmbio baixo (que contém os aumentos de preço mas aumenta a concorrência com a indústria paulista), esse sim, o deixa noites em claro.

Estamos mal parados. A indústria (que gera menos de 30% do PIB) está ditando uma política de curto prazo que vai deixar os assalariados no osso. E a presidente a defende alegremente: fala até em novos projetos de política industrial. Em bom português isso quer dizer mais transferências diretas de dinheiro público para as indústrias amigas.

O que eu posso dizer? A inflação vai fechar este ano acima de 6%. Quer dizer: vão ser mais de 12% acumulados em dois anos. Se você não teve aumento, faça greve. A Fiesp faz coro contra o aumento de juros porque quer liberdade para aumentar preços  – quer ver a demanda crescer apesar do aumento de preços. E nossa presidente, pelo jeito, comprou a ideia.

Se move?

julho 17, 2011

Do capítulo “A sociedade”, de Os Bruzundangas, livro póstumo de Lima Barreto em que descreve a vida e os costumes desse país distante (mas curiosamente familiar), a Bruzundanga. O livro foi escrito na década de 10 do século passado:

“A política não é aí uma grande cogitação de guiar os nossos destinos; porém, uma vulgar especulação de cargos e propinas.”

“(…) Os pintores vivem à míngua e, se querem ganhar algum dinheiro, têm que se rojar aos pés dos poderosos para que estes lhes encomendem quadros, por conta do governo.

Porque eles não os compram com dinheiro seu (…). É outro feitio da gente imperante da Bruzundanga de só querer ser generosa com os dinheiros do Estado.”

“Há lá salões literários e artísticos, mas de nenhum deles surgiu um Montesquieu com o Espírito das Leis (…). A gente da Bruzundanga gosta de raciocinar por aforismos. Sobre todas as coisas, eles têm etiquetadas uma coleção deles.”

Cenas de um país fictício.

Inflexão

julho 10, 2011

Quem faz previsões erra – e sabe que erra. O cuidado é para não errar por muito. E o que analistas e futurólogos mais erram são os pontos de inflexão, os momentos em que uma tendência muda. São os estouros de bolha, as mudanças de imagem, as horas em que o público – finalmente – perde a paciência.

Essas inflexões (em muitos casos) são previsíveis. Mas, se dá para ter ideia do que vai acontecer, saber quando é bem mais difícil. Às vezes é difícil perceber até depois da virada. A bolha imobiliária brasileira, por exemplo, dá sinais de já ter estourado. Mas são sinais discretos – e há quem se recuse a vê-los.

Afinal, os compradores já começaram a adiar compras? Os preços anunciados estão deixando mais imóveis encalhados? Índices como o do Zap Imóveis são apenas para os preços dos anúncios, não para os negócios fechados (e muito menos para os que deixaram de ser fechados porque o preço pareceu irrealista).

O número de imóveis vendidos, segundo discretas notinhas de jornal, caiu. Como as construtoras estão produzindo em ritmo acelerado, parece que a demanda resolveu dar um tempo. Sim, é o estouro da bolha. Antes tarde do que nunca. Mas até os preços caírem de verdade anda demora. Quanto tempo? Difícil prever.

PS. Comecei a ler um conto (“Bruzundangas”) do Lima Barreto. Uma das coisas mais estranhas em ler Lima Barreto é a atualidade – não só do texto, mas da descrição do país. Os problemas parecem não ter mudado muito no último século. Achar inflexões em séries longas devia ser mais fácil que em séries curtas. Mas é difícil achar inflexões onde elas quase não existem…