Do ius barracandi

abril 22, 2012

Ao comentar a troca de acusações, na imprensa, entre seus colegas Cezar Peluso e Joaquim Barbosa, o ministro do STF Marco Aurélio declarou que a briga “não contribui para o fortalecimento das instituições”. Para ele, com a desavença escancarada, “quem perde é a Corte” e “aos olhos do jurisdicionado, isso não é bom”.

Data maxima venia, vossa excelência, é justo o contrário: faltam bate-bocas públicos, não só no Judiciário, como no Executivo, no Legislativo e até, ou principalmente, na imprensa. Em nossa democracia incompleta, em que o indivíduo tem liberdade de expressão, mas não direito à informação, com freqüência é na lavação de roupa suja que debates indispensáveis ao exercício pleno da cidadania vêm à tona.

O corporativismo, a mútua proteção, a discussão contida, se preservam “a Corte”, privam as pessoas de conhecerem os reais motivos e maquinações por trás de decisões que se impõem a todos. E, sem acesso a essas informações, a sociedade assiste cada vez mais passiva ao ritual de sempre, em que um grupo restrito resolve o que pode ou não pode, o que é certo ou errado, o que é bom ou mau.

A imprensa, essa mesma que expôs as denúncias bombásticas dos ministros, é um exemplo emblemático de como, no Brasil, os poderes se esmeram em defender os princípios democráticos, desde que protegidos da crítica externa por um pacto não-declarado de não-agressão e sigilo interno.

Não há outra explicação para o silêncio ensurdecedor em jornalões, sites, rádios e TVs sobre as relações no mínimo exóticas entre um editor de uma das maiores revistas do país – Policarpo Júnior, da Veja – e o onipresente Carlinhos Cachoeira.

O dito “quarto poder”, percebe-se por esses e outros tantos casos, gosta de fiscalizar tudo, menos a si mesmo. Deve achar, assim como Marco Aurélio, que investigar um possível desvio de um (ou mais) de seus membros “não contribui para o fortalecimento das instituições”.

Não mesmo?

O diabo em Moscou

abril 17, 2012

Devia ter escrito isso há mais tempo. Há algumas semanas, doente, achei na estante uma edição americana de Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov. No livro – escrito em Moscou no auge do stalinismo – o diabo, em pessoa, visita a cidade.

Não é fácil ser o diabo em um país oficialmente ateu. Seus assistentes têm, de tempos em tempos, que explicar a seus interlocutores que não vão prendê-los, que não são da polícia secreta.

Mas não foi por isso que achei que valia a pena resenhar um clássico russo no meio de posts sobre economia a atualidades.  É porque o livro é uma espécie de experiência religiosa, até para os céticos. Bulgakov nem se deu ao trabalho de tentar faze-lo passar pela censura. Sabia que seria obra póstuma. Sem problema: “os manuscritos não queimam”, diz o diabo, já quase no fim do livro.

No primeiro capítulo, “Não fale com estranhos”, o diabo aparece e interrompe uma conversa entre um escritor com cara de esfomeado e seu editor – que encomenda um verso sobre a não existência de Cristo. – Nunca existiu. É uma colagem de mitos de várias origens – garante o editor.

O sujeito estranho que se mete na conversa – por acha-la interessante – dá um passo além de Dostoievski:  – mas se deus não existe, então quem está no controle?

– O homem, responde o editor.

O diabo, que afinal de contas é o diabo, descreve então a sequência de coincidências que vai fazer com que o editor seja decaptado por um bonde em alguns instantes.

Se não dá para saber se você vai estar vivo para jantar, você controla o quê?

O editor, crente que está falando com um louco, vai atrás de um telefone para chamar o órgão estatal encarregado dos loucos. Antes que termine de atravessar a rua, uma mulher sem querer derrama o óleo que está carregando, o editor escorrega e vai praticamente sendo arrastado para os trilhos…

Mas isso não dá ainda uma boa ideia do livro. O diabo quase não fala na história, Cristo, outro personagem, menos ainda. Mas quando falam, são deus e o diabo falando, como só os escritores de verdade sabem fazer.

Engraçado que boa parte das bruxarias e personagens míticos que enchem os cinemas desde Harry Potter já estavam lá. O diabo e sua entourage, deixariam Voldemort morrendo de medo. Cheio de referências escondidas (realmente fiquei com vontade de ler as notas no fim do livro), Mestre e Margarida tem ainda personagens simpáticos como Behemoth – bem humorado gato falante capaz, literalmente, de arrancar cabeças. É ele quem ilustra a capa de quase todas as edições do livro.

O livro enterra o stalinismo para sempre. A Rússia dos anos 30 é descrita com uma ironia tão seca que sobra pouca coisa. Das disputas para ocupar apartamentos – controlados por administrações locais corruptas – às regalias para escritores pró-regime, pouca coisa escapa.

Bulgakov, o escritor perseguido que não conseguia fazer suas peças serem encenadas e seus livros publicados, no fim, vence, mesmo depois de morto. Quem leu o livro sabe que, para ele, esse é um bom final.

Turismo na crise

abril 15, 2012

A culpa é do editor – que o mandou viajar – mas o resultado da viagem é quase um novo gênero literário: o turismo de crise.  A ideia é simples: o país x está afundando na lama? vá lá dar uma olhada de perto.

Boomerang, de Michael Lewis é isso: um close na lama, com boas tentativas de explicar como ela se acumulou. Lewis tem prática no assunto. Seu primeiro livro, Liar’s Poker, é uma descrição – feita por um ex-trainee assustado – de como funciona um banco de investimento nos Estados Unidos. A visão é assustadora: todas as acusações feitas hoje a Goldman Sachs e similares já eram aplicáveis ao finado Solomon Brothers  nos anos 80 (da grosseria dos técnicos ao hábito de enganar clientes).

Lewis seguiu em frente lançando boas descrições da crise imobiliária americana (The big short) e livros até sobre esportes. Sua temporada européia rendeu a seguinte teoria: na época da criação do Euro, vários países se viram em uma espécie de quarto escuro cheio de dinheiro – dinheiro para se afundar, sem ninguém olhando. Cada um usou o crédito barato de um jeito. Depois veio a conta.

Lewis começa pela Islândia, que com seus 300 mil habitantes, deixou de ser um país para virar um fundo de headge gigante. Ele se hospeda em um dos hotéis espalhafatosos para milionários criado no auge da bolha – e hoje quase vazio – e entrevista um ex- capitão de navio pesqueiro que virou operador de câmbio. O ex-capitão era uma referência na pesca em alto mar, um dos melhores. Mas decidiu viver de pegar empréstimos no Japão (juros baixos), comprar moeda islandesa e emprestar a juros mais altos. Com a crise, a moeda da Islândia se desvalorizou, transformando o “lucro garantido” do negócio em prejuízo impagável. O autor não tem pena: “você passou anos estudando para ser capitão. Para virar um bom capitão, passou mais alguns anos trabalhando com um dos melhores e achou que podia virar operador de câmbio de um dia para o outro?” Segundo Lewis, foi isso, em escala ampliada o que aconteceu com o país.

O capítulo seguinte, “e eles inventaram a matemática”, é sobre a Grécia. Lá o problema não foram os bancos – eles até se comportaram bem. Lá, quem se afundou em empréstimos foi o governo (com consultoria da Goldman Sachs).

Além de conversas com fiscais da receita federal grega – que explicam como ninguém paga imposto no país e como quem tenta cobrar é punido pelos chefes – Lewis visita um mosteiro tradicional, com monges ultra-espartanos, que foi o estopim da crise grega.

A crise começou oficialmente quando o governo antigo caiu e o novo descobriu a que nível a contabilidade pública estava maquiada. O governo tinha se comprometido com despesas que nunca teria receita para pagar – e ia financiando o buraco com empréstimos. O governo anterior teria durando mais um pouco, não fosse pelo escândalo dos monges.

De uma hora para outra, o mosteiro espartano passou a ser dono de uma quantidade enorme de imóveis no país, de elefantes brancos, como os construídos para a olimpíada grega, a coisas mais úteis. Apesar de – segundo Lewis – ninguém pagar imposto na Grécia e até para ser atendido em hospital público ser preciso pagar propina – a população ficou indignada com a história dos monges e derrubou o governo.

Na Irlanda a história foi mais parecida com a americana. Diante do quarto escuro cheio de dinheiro, os irlandeses decidiram comprar a Irlanda, uns dos outros. E a especulação com o preço dos imóveis disparou. Imigrantes poloneses iam ao país para trabalhar na construção civil – e abandonaram seus carros financiados no estacionamento do aeroporto quando as construtoras quebraram.

Um ingrediente curioso da crise irlandesa foi que, orientado por um parecer da Merrill Lynch (garantindo que a conta fechava), o governo se comprometeu a cobrir todas as dívidas dos bancos que quebrassem. Todas as dívidas quer dizer até debêntures dos bancos, não só o dinheiro nas contas dos clientes. E os bancos – que tinham passado a financiar com entusiasmo a compra de imóveis e as construtoras locais – quebraram. O resgate dos bancos fez a dívida do governo passar de 100% do PIB.

Como em seu livro sobre a crise americana, Lewis se diverte indo atrás do economista que avisou – em artigos de jornal – que aquilo estava acontecendo e foi tratado como um excêntrico dizendo abobrinhas.

Da Irlanda ele vai para a Alemanha, que financiou todos os quebrados. Emprestar irresponsavelmente para quem não tem como pagar também é um problema. E a conta também chega. Foi sua chance de conferir o final de uma das histórias de seu outro livro, o big short. Quando, no auge da bolha imobiliária, ninguém mais comprava títulos imobiliários e seus derivados, havia um último comprador. No livro anterior, os banqueiros americanos diziam apenas “Dusseldorf” quando alguém queria saber quem comprava aqueles papéis. Lewis foi atrás do banco de Dusseldorf que fez a lambança.

Há um capítulo sobre estados e municípios americanos quebrados. Lewis entrevista o famoso ex-governador do estado mais quebrado de todos: Arnold Schwarzenegger. Ele é até bonzinho com o ex-exterminador. Segundo ele, os californianos querem bons serviços públicos, mas não estão dispostos a pagar por eles – e o estado vai continuar quebrado.