O primeiro turno tem mais candidatos: já me decidi. Difícil vai ser se o segundo turno for mesmo entre Serra e Dilma.

A pessoa certa para resolver o problema, infelizmente, morreu há mais de 50 anos. Sim, Jonh von Neumann, o pai da teoria dos jogos (e um dos pais do computador e da bomba atômica) teria a solução.

Se um grande jogo do copo ou outro método de fazer fantasmas falarem trouxesse de volta a voz de Von Neumann, a primeira coisa que ele diria seria provavelmente: “joguem a bomba na União Soviética!”.

Mas aí devemos dar um desconto. Ele era húngaro – e  recomendou que a bomba fosse jogada em cima do país que invadiu e que mantinha a Hungria ocupada. Von Neumann justificava a decisão dizendo que, cedo ou tarde, os russos teriam a bomba – então era melhor explodi-los antes que tivessem.

Como eu disse, ele certamente teria a solução para esse dilema horrível entre votar num candidato muito de esquerda ou numa candidata muito de esquerda.

Se Von Newman estivesse mais inteirado sobre o que aconteceu depois dos anos 50, a primeira coisa que diria seria provavelmente: “Stanley Kubrick é uma anta!”. E, contrariando meus amigos cinéfilos, eu concordo. Ele fez um Laranja mecânica datado, uma Lolita muito mais velha que a do livro e, pior, tentou avacalhar o inventor da teoria dos jogos – com o caricato Doutor Fantástico.

(De olhos bem fechados também merece o rótulo de overrated).

Mas se Von Neumann fosse falar de eleições, nos diria que o melhor a fazer em nosso caso é minimizar as chances do pior resultado, ou seja, é ver quem pode causar o maior estrago e votar no outro.

Eu sei, isso não resolve o problema – mas já me diz o que procurar (o potencial para a lambança) no discurso desses candidatos .

Alfred, o primo pop de John.

BNDES em Basiléia

julho 24, 2010

O BNDES está em toda parte. Ele financia obras na Venezuela, promete dinheiro para a hidroelétrica do Pará, financia até o metrô do Rio de Janeiro. Mas a maior parte das notícias sobre ele nas últimas semanas têm a ver com um empréstimo de R$ 180 bilhões feito pelo Tesouro Nacional ao banco.

O problema é que o governo não tem poupança para emprestar. Pegou os R$ 180 bi emprestados no mercado – pagando juros Selic (hoje 10,75% ao ano) e emprestou ao BNDES com base na Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje em 6,0% ao ano. O governo está subsidiando os empréstimos do BNDES a empresas de grande porte que poderiam perfeitamente captar recursos no mercado, poderiam emitir novas ações, enfim, que não precisam de subsídios com dinheiro público.

Mas tudo isso já saiu no jornal. Não sei se já disseram, mas R$ 180 bilhões é muitas dezenas de bilhões a mais do que o governo (Federal, Estadual e Municipal) vai gastar este ano com saúde. Mesmo somando os medicamentos distribuídos em postos de saúde, os pagamentos à rede privada conveniada ao SUS, salários e despesas das clínicas e hospitais públicos e todos os programas de saúde associados de alguma forma ao governo, anda falta muito para chegar a R$ 180 bi.

Mas minha dúvida é mais específica. Ontem os jornais anunciaram que sete bancos europeus vão precisar de aportes de capital –  de mais dinheiro de seus acionistas ou de novos sócios – para poder continuar funcionando. A conta sobre de quanto eles vão precisar foi feita a partir de “testes de stress”. Bom, essa conta foi feita para dar uma espécie de “garantia extra”, porque todos os bancos dos países que adotam os Acordos de Basiléia já são obrigados a ter um mínimo de dinheiro próprio (uma proporção de quanto emprestam) para garantir que não quebrem caso seus devedores dêem calote. No Brasil, se não me engano, o percentual é de 11%.

Isso quer dizer que, quando o Tesouro empresta R$ 180 bi ao BNDES e o BNDES repassa esse dinheiro às empresas que financia, o banco aumenta sua necessidade de capital próprio em R$ 20 bi. Assim, ou o governo procura novos sócios dispostos a investir R$ 20 bi em ações do BNDES – o que ele não vai fazer – ou o Tesouro trava R$ 20 bi em capital para o banco (dinheiro que o BNDES não pode emprestar).

Não sei como fizeram isso – se é que fizeram. Mas sei que quem tem que fiscalizar se estão fazendo é o Banco Central. Então pode valer a pena o BC – em vez de reclamar que o derrame de empréstimos do BNDES força a Selic para cima – mandar seus fiscais à Av. Chile 100, onde talvez haja um banco descumprindo os Acordos de  Basiléia.

BNDES, agora emprestando dinheiro do Tesouro Nacional (de todos os brasileiros) a taxas subsidiadas.

O conservadorismo dos EUA tem poucos equivalentes assumidos aqui na terra dos papagaios. Quando vemos grupos políticos americanos fazendo lobby contra a regulação do sistema financeiro ou contra a legalização de imigrantes, o primeiro impulso é pensar que estão defendendo abertamente algum grupo – e não querem saber se suas propostas levarão ao caos econômico ou ao aumento do custo da mão-de-obra.

Por isso é tão curioso encontrar teóricos com sintomas de ultraconservadorismo. Ou pior, encontrar bons teóricos que, por um motivo ou outro, acabaram na equipe econômica de Bush Jr. ou mergulharam na paranóia de perseguição a terroristas invisíveis em aeroportos. O primeiro caso, o do ex-assessor economico de Bush Jr., é o de Gregory Mankiw. Na faculdae, meu primeiro livro de introdução à economia foi o dele. O livro é bom mas, na época, estranhei um pouco a ênfase que dava aos efeitos negativos da cobrança de impostos (que os economistas chamam de peso morto do imposto). Afinal, o livro devia ser só sobre os fundamentos da teoria econômica.

Bom, Mankiw é um desses conservadores que, sem um bom contraponto teórico, pode acabar defendendo – com uma eloquência razoável – políticas que liberem os bancos para arriscar demais, quebrar e deixar a conta para o povão.

Quem também deixa escapar – de tempos em tempos – a tendência a votar em aliados de Sarah Palin, é a dupla de autores de Superfreaknomics, Steven Levitt e Stephen Dubner. No primeiro livro que escreveram juntos, eles se mantiveram nas áreas de pesquisa de Levitt, não disseram nada que não tivesse algum tipo de teste estatístico por trás. No segundo, o superfreak, ficaram mais à vontade e foram atrás de métodos duvidosos para apontar possíveis terroristas e defenderam a poluição como candidata a arma contra o aquecimento global.

O segundo livro é fraco, para dizer o mínimo. Mas tudo isso foi só para dizer que até esses ideólogos conservadores meio envergonhados parecem concordar com a idéia de que livros digitais não podem ser caros – se é que devem custar alguma coisa.

Ontem o Blog de Levitt e Dubner no Times tinha uma nota sobre Street fighting matematics, livro recém lançado do matemático Sanjoy Mahajan. Não li o livro, não sei se é bom. Mas sei que o PDF está disponível de graça para quem quiser baixar.

Mahajan não é o primeiro autor a fazer isso. Mas acho divertido imaginar de que lado da discussão sobre limites ao uso de direitos de monopólio os autores de Freakonomics ficariam. Eles já puseram o link para o PDF em seu blog e publicaram a defesa que Mahajan faz da divulgação de PDFs grátis.

Em resumo, Mahajan diz que os custos de edição de um livro caíram muito nos últimos tempos e que, além de facilitar a divulgação de algo que ele acha importante, o PDF pode levar pessoas a comprar a versão em papel (com boa qualidade de impressão, capa dura etc.).

A discussão é boa e, se até conservadores como Mankiw mantém blogs atualizados – que não são pagos para escrever -, fica difícil dizer que, sem o monopólio de direitos autorais concedido às editoras, os escritores não teriam estímulo para produzir.

Ok, é importante poder ganhar dinheiro com a produção de livros. Mas isso justifica preços de capa de mais de R$ 100 – como o do livro de história econômica que eu desisti de comprar hoje numa livraria?

Poker conservador: vitrine de uma loja de quadros em Washington.

Trouxa de chocolate

julho 12, 2010

Assim que descobriu a revolução da “vida moderna”, a indústria decidiu acompanhar os “novos hábitos” do consumidor, iniciando o milagre do encolhimento dos produtos. O biscoito recheado perdeu 20 gramas (de 200 para 180), o iogurte perdeu 20 mililitros (de 200 para 180), o papel higiênico perdeu 10 metros (de 40 para 30). O sabão em pó também quis embarcar na era do comedimento, com uma lipoaspiração de 100 gramas, mas aparentemente donas e donos de casa têm uma relação afetiva com as caixinhas de 1 quilo, e a mudança não colou.

Confrontada (timidamente) por autoridades, órgãos de defesa do consumidor e imprensa, a indústria sempre se saiu com uma variedade de desculpas, que iam da sociologia barata à matemática revolucionária. Do outro lado do balcão, o consumidor se via – ou se dizia – indefeso diante do livre mercado, ainda que um livre mercado com indícios de cartelização.

(Aparentemente não ocorreu a ninguém perguntar por que as multinacionais responsáveis por muitos desses produtos nunca se interessaram em exercer essa liberdade de miniaturização nos mercados americano e europeu.)

Até aí tudo bem. Sem mortos ou feridos, ao menos conhecidos, a vida seguiu seu curso natural: a indústria faturando alto com o espetáculo do crescimento e o consumidor naquela eterna marolinha de indignação.

Mas eis que o sujeito entra no supermercado, em pleno ano de 2010, e dá de cara com a novíssima promoção da Garoto: 20 gramas de chocolate GRÁTIS nas barras de 180 gramas!

Era tudo de que o homem – e a mulher – moderno precisava: uma barra de chocolate de 200 gramas. E sem pagar nada a mais por isso!