Os americanos estão há tanto tempo insistindo em que a China deve desvalorizar sua moeda que o governo chinês resolveu – só para eles pararem de perturbar – dizer que sim, que vai desvalorizar.  Mas que ninguém espere grandes desvalorizações. Afinal o problema, na China, não é de câmbio, é de consumo. Mudar o câmbio sem aumentar o consumo só vai desacelerar o crescimento do país – o que prejudica quem pega carona nesse crescimento – como os exportadores brasileiros.

O Banco Central chinês sabe disso, sabe que o problema é consumo e, o mais curioso: os americanos também parecem saber. O melhor texto que já li sobre isso é de um acadêmico de lá, Barry Eichengreen – que já citei aqui no blog. Abaixo, um trecho do artigo dele publicado hoje no Estadão. O link no fim do texto é para a página do jornal em que o artigo completo saiu (o artigo está no pé da página).

“(…) [Na China] As empresas estatais são extremamente lucrativas e não sofrem grandes pressões para pagar dividendos. O subdesenvolvimento dos mercados financeiros impede que as pessoas tomem dinheiro emprestado para educação e assistência médica e faz com que as famílias reservem grande parte de sua renda para a poupança. Os baixos salários pagos pelas indústrias limitam o poder aquisitivo dos trabalhadores.

Na ausência de soluções para esses problemas, os gastos das famílias continuam baixos. As empresas precisam exportar grande parte de sua produção e a baixa cotação do yuan faz com que isto seja possível.

Se a China valorizasse consideravelmente sua moeda sem solucionar estes outros problemas, a demanda por seus produtos cairia. O país experimentaria um declínio significativo do seu crescimento, ou pior. Atualmente, a China é um dos poucos países que crescem no mundo, e isso afetaria exportadores de commodities como o Brasil.(…)”

Texto completo

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Land of the Free

junho 18, 2010

Não sou muito chegado a casos individuais para ilustrar teses gerais, mas uma leitura casual, hoje, reforçou minha desconfiança periódica de que o ser humano é um projeto de futuro pouco promissor. O texto é do Slate, e a tradução do primeiro parágrafo a seguir, feita a toque de caixa, é de minha própria larva.

Esta semana, a Suprema Corte rejeitou, sem maiores explicações, um recurso ajuizado por Maher Arar, um homem de dupla-cidadania canadense e síria detido durante uma conexão no aeroporto JFK em 2002. Depois de enviado à Síria, Arar passou dez meses sob tortura. A violência contra ele teria incluído espancamentos com cabos elétricos e enclausuramento numa cela de tamanho equivalente ao de uma cova. Quando perceberam que haviam capturado o sujeito errado – o sujeito completamente errado -, Arar foi solto, sem sofrer acusações formais. Em seguida, ele foi isentado de qualquer ligação com terrorismo pelo governo canadense, que instituiu uma comissão para investigar o incidente. A comissão publicou um relatório de mais de mil páginas reconhecendo a responsabilidade de seus órgãos de inteligência no episódio. O governo pediu desculpas e determinou o pagamento de US$ 9,8 milhões a Arar. Enquanto isso, o governo americano – como diz o advogado e blogueiro Glen Greenwald – nunca se desculpou, nunca reconheceu qualquer ilegalidade, nem responsabilizou qualquer pessoa. E, sob a liderança de Obama, redobrou seus esforços para impedir Arar de ter um único dia de audiência numa corte judicial.

A Veja e o dever de casa

junho 16, 2010

Estudar economia é preciso.

Sempre me espanto quando vejo uma grande pilha de erros conceituais e definições viradas pelo avesso. Minha dúvida básica é: foi por maldade ou por burrice? Na matéria de economia da Veja desta semana há pouco espaço para a dúvida: foi burrice mesmo.

Para defender uma idéia bastante razoável – a de que a economia brasileira está superaquecida – os repórteres usaram definições erradas de PIB, produtividade total dos fatores, relação entre investimento e crescimento da economia e se perderam – bastante – comparando a economia do país primeiro a um carro, depois a uma fábrica.

Para economistas que gostam de caricaturas, a matéria é um achado. O título “O Brasil não pode (ainda) crescer em ritmo chinês”, dá a impressão de que a tendência é de que vá poder em breve. Mas a matéria não diz por quê. A maneira de explicar o problema ofende até leitores de 12 anos de idade: “Imagine os painéis de dois carros de competição”, escrevem os repórteres, “um chinês e um brasileiro”. E aí seguem com sua comparação.

A primeira definição em que erram é a de PIB. Tudo bem, essa todo mundo cita errado. Diferentemente do que diz o texto da matéria, o PIB não é “o total das mercadorias e serviços produzidos pelo país”. Ele é o total do valor adicionado pela economia (produção menos insumos usados na produção) e é – não por coincidência – igual à renda gerada pela economia. PIB é uma medida de renda, não de produção.

Outro conceito caro aos economistas, a produtividade total dos fatores, é definido em um destaque na página como algo que “estima os efeitos sobre a economia de elementos não facilmente mensuráveis. Diz respeito sobretudo à qualidade das instituições (…)”. A produtividade até tem a ver com qualidade das instituições. Na prática, seu crescimento é um saldo, é a parte do crescimento da economia que não é explicada pelo investimento nem pelo aumento da população. Produtividade tem a ver com tecnologia, assim como com instituições. Mas a frase usada na matéria, “Sem produtividade não existe crescimento real, outro nome para crescimento sustentável”, simplesmente não faz o menor sentido.

Só para constar: crescimento real é o contraponto de crescimento nominal, quer dizer, é o crescimento descontando aumentos de preço. Crescimento sustentável é o que pode se manter no futuro e, sim, pode haver crescimento sem aumento de produtividade. A economia pode crescer porque há mais investimento ou mais gente trabalhando, sem que a produtividade mude. Não é o melhor dos mundos mas, bom, a frase na matéria está errada.

Mas o mais horripilante no texto é ver os autores tentarem explicar por que é preciso investimento para que a economia cresça em um ritmo razoável.  Eles comparam a economia a uma fábrica que tenta aumentar a produção sem comprar novos equipamentos. Dizem que logo os fornecedores começam a cobrar mais pelos insumos, os empregados exigem aumentos de salário e as máquinas da fábrica se desgastam. Bom, isso pode até acontecer. Mas o problema de crescer sem investir não é esse. A maior parte dessas coisas acontecerá mesmo que a fábrica do exemplo invista em novas máquinas. O principal problema de crescer sem investir é que o produto feito por essa fábrica começa a faltar.

O problema não é de aumento de preços de insumos ou de mão-de-obra. O problema da falta de investimento é a falta de capacidade para produzir mais. É como se, sem conseguir atender à demanda, a fábrica do exemplo passasse apenas a aumentar os preços (o que ainda é simplificar bastante o problema).

A impressão geral é a de que os repórteres ouviram explicações razoáveis de algum economista e simplesmente não conseguiram reproduzi-las (ou foram editados por alguém que queria mesmo era escrever sobre carros de corrida). No fim, talvez fosse melhor se eles escrevessem sobre carros de corrida.

Seis das maiores editoras brasileiras (Record, Sexante, Planeta, Objetiva, Rocco e Intrínseca)  estão lançando uma empresa de distribuição de  livros digitais. A notícia parece boa. Mas não é. O mercado brasileiro de livros é um caso clássico de formação de cartel – e sua versão digital vai ser pior ainda.

O primeiro sinal disso está na matéria de hoje do Estadão sobre a nova distribuidora: “(…) os sócios da DLD estimam uma redução de até 30% no valor do e-book em comparação com a edição de papel.” Mas espera aí, o custo de produzir um livro é principalmente o que os economistas chamam de “custo variável”. Quer dizer, a maior parte do custo de um livro está em imprimir, transportar e vender uma cópia a mais, é o papel, a tinta, o caminhão que leva o livro, o salário do vendedor da loja. Descontando os direitos autorais, o custo de produzir a matriz do livro (igualzinha à versão digital), o “custo fixo” do livro, se diluí na medida em que as cópias são vendidas. Quanto maior a tiragem, menor a participação do custo fixo no custo total do livro. Para um best seller, o custo  de produzir a matriz (que as editoras querem vender por 70% do preço de um livro impresso), dividido pelo número de cópias, é próximo de zero.

Mas as editoras estão apostando em que vai ter quem pague.

E alguém vai pagar. Pagará porque vai ter um desconto de 30% para não ficar com a cópia impressa (e não tem como comprar o livro de que precisa em outro lugar).

As editoras apostam nisso porque já estão acostumadas a outras aberrações bem sucedidas. A maior delas é a tabela de preços dos livros. Todo mundo sabe que livro brasileiro tem o mesmo preço em qualquer livraria. O preço vem tabelado das editoras, com uma boa margem para o livreiro. Nenhuma livraria fura o cartel e tenta vender mais barato. Azar do consumidor. Como cada editora tem o monopólio de produção dos livros que publica, azar do consumidor duas vezes.

O cartel online vai ser ainda mais forte. As livrarias virtuais que quiserem vender livros digitais das editoras ali do primeiro parágrafo vão entregar ao comprador um link para baixar o livro direto do site da nova distribuidora digital. Na prática, as editoras vão controlar o envio de cada cópia.

Eu, que estava pensando em comprar um leitor digital, vou deixar para mais tarde (bem mais tarde). O desconto de 30% não justifica a despesa. Além do mais, leio andando enquanto vou para o trabalho. Com um leitor desses, correria o risco de ver um ladrão levar o aparelho e – com ele – toda a caríssima biblioteca digital que tivesse acumulado.

Antiquado ou não, continuo comprando meus livros na Amazon. Mesmo com frete, eles são mais baratos que os brasileiros. E, depois de alguns anos fazendo isso, ler em inglês já é confortavel o bastante para eu chamar de lazer.

Às editoras brasileiras, com suas versões traduzidas mais caras que as originais, um abraço.

Para as edições antigas, enquanto a biblioteca Google não vem...