Por razões mais ou menos óbvias, não houve muito destaque nos meios de comunicação, mas o fato é que o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) divulgou esta semana um interessante estudo (PDF) sobre o serviço público nacional. A conclusão, não exatamente inédita, é enfática: “não está havendo, nos últimos anos, um ‘inchaço’ do Estado” no Brasil. A base para tal afirmação é um levantamento indicando que, por aqui, o emprego público responde por apenas 10,7% do total de ocupados, o que representaria pouco diante dos índices registrados na Dinamarca (39,2%), na França (24,9%) e até nos Estados Unidos (14,8%), “caracterizados por seu caráter privatista”. Entre os primos pobres da América Latina, o Brasil também sai bem na foto, atrás de Panamá, Costa Rica, Uruguai, Argentina, Paraguai e República Dominicana.

Tudo, ou só, isso leva o Ipea a vaticinar que “há espaço para o crescimento do estoque e da participação relativa do emprego público no Brasil”. Na verdade, segundo o instituto, existe “a necessidade de ampliação do emprego público” para o “fortalecimento da democracia”. Ou seja, o Brasil tem poucos servidores e precisa de mais, muito mais.

Precisa? Talvez sim, talvez não.

De uma ou de outra forma, seria uma boa idéia tentar desenhar outros quadros, mais complexos é verdade, porém certamente dentro das possibilidades investigativas do Ipea:

Qual é a relação entre as remunerações médias no serviço público e na iniciativa privada nos diferentes países?

Como se compara a qualidade do serviço público nos diferentes países?

Dos “poucos” servidores públicos no Brasil quantos de fato trabalham?

Massacrar o serviço público, indiscriminadamente, é um absurdo. Exatamente como absolvê-lo com base em dados superficiais.

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Imagine que o governo americano anunciasse hoje que, daqui a cinco anos, vai aumentar – bastante – os impostos. O que os consumidores gringos fariam?

O que quer que seja, é bom eles já irem começando a fazer. A estimativa do Escritório de Orçamento do Congresso americano para o déficit público de lá subiu para US$ 1,85 trilhão. Isso quer dizer que a dívida do governo deve subir US$ 1,85 tri este ano e, algum dia, a arrecadação vai ter que aumentar para o governo re-equilibrar as contas (e pagar parte da dívida).

O aumento de impostos pode não acontecer daqui a cinco anos, nem daqui a dez. Mas, para as famílias preocupadas com o futuro de seus filhos e netos, um déficit público gigante é um estímulo para poupar.

O fantasma de David Ricardo não assombra os governos apenas quando criam barreiras alfandegárias (que empobrecem os países, segundo o princípio das vantagens comparativas de Ricardo). Quando aumentam absurdamente suas dívidas, os governos também batem de frente com o economista inglês.

Mas, diferente da teoria das vantagens comparativas, a equivalência ricardiana  – a idéia de que as famílias podem poupar para enfrentar um aumento futuro de impostos – nunca foi comprovada na prática. 

Se não servir para mais nada, essa crise vai, pelo menos, aumentar a quantidade de números nos bancos de dados – e talvez, algum dia, ajudar a provar a tese de Ricardo.

O mundo é complicado e as famílias estão gastando menos por vários motivos. O aumento do gasto público estimula a demanda mas, quando aumenta o déficit público, pode gerar um efeito contrário também (não se sabe de que tamanho).

O resumo da história é que os efeitos da política do governo americano para combater a crise são menos previsíveis do que parecem. E, sim, aumentar a dívida pública pode desestimular – ainda mais – o consumo das famílias nos próximos anos. 

 

Consumidores em época de crise - Museu Rodin - 2008

Consumidores em época de crise - Museu Rodin - 2008

Bons economistas têm traçado o futuro da crise americana a partir de três cenários simplificados: a crise em V, a crise em U e – o mais assustador – a crise em L. A crise em V é aquela em que a economia cai rápido e se recupera rápido. O exemplo mais citado é a crise das pontocom, no começo de 2000.

 A crise de 2000 foi relativamente pequena, com queda rápida nos preços das ações de empresas de internet e retorno rápido ao crescimento. Nesse caso, a crise foi só um ajuste de preços (das ações). E, quanto mais rápido os preços chegassem ao fundo do poço, mais cedo as ações encontrariam compradores, mais rápido mercado voltaria a funcionar e mais rápido também a crise passaria.

Mas a crise atual não vai ser em V. Já não é em V. O problema é que o ajuste de agora foi muito mais forte. Para ter uma boa idéia do que aconteceu, é preciso rever a velha diferença entre renda e riqueza. Renda é o que você ganha por trabalhar, por alugar um imóvel ou por ser sócio de uma empresa. A soma das rendas geradas no país é o PIB. Riqueza é o que foi acumulado pelos habitantes do país e por seus ancestrais, é a poupança acumulada (descontado seu desgaste natural ao logo do tempo) são os prédios, as estradas, as empresas e até as jóias no cofre.

O que aconteceu nos EUA foi uma queda brusca da riqueza. Como a riqueza é muito maior que a renda gerada em um ano (o PIB), quando ela despenca, as pessoas percebem que vão demorar muitos anos para repor o que achavam que tinham.

Derepende, os americanos, endividados até o pescoço, descobriram que seus apartamentos valiam bem menos do que eles pensavam, que suas ações também estavam com preço inflado e eles mesmos vão demorar mais para poder se aposentar.

Então voltaram a economizar. E vão ficar assim, consumindo menos, por muito tempo.

Essa crise não vai ser em V porque o problema não é só o de ajustar os preços das ações ou das casas. O problema é reorganizar a economia inteira já que, com a queda do consumo, cai a produção (de casas, de carros e de tudo que se comprava confiando na riqueza estocada).

Boa parte do povo que produzia carros e casas vai ter que arrumar outro emprego vai ter aprender outra profissão e encontrar um serviço para oferecer no meio da crise. Talvez surjam mais professores e médicos, mas isso não vai ser rápido.  A coisa tem mais cara de L que de U.

O governo gringo faz o que pode, estimula o consumo para fazer com que o impacto da crise venha mais de vagar, para que as pessoas tenham mais tempo para se ajustar ao novo cenário – com menos consumo de casas, carros e afins. Mas ele não pode fazer mais do que isso, não tem como – nem deveria – evitar que o consumo caia.

Os americanos estavam contando com uma riqueza que não tinham, agora vão ter que voltar ao mundo real.

Aqui, onde a gente já não tinha muita coisa mesmo, uma versão amantegada do Dr. Pangloss anda dizendo que a crise não vai ser ruim, que vamos até crescer um pouco este ano. O argumento do governo é que parte da queda do consumo aqui tem mais a ver com expectativa que com queda da renda.

E, por enquanto, tem mesmo. A renda das famílias não caiu no fim do ano passado, mas o consumo caiu 2% comparado ao do terceiro trimestre (dessazonalizado).

Mas não adianta ser otimista demais. As exportações já despencaram, o crédito ficou mais difícil e o desemprego já está aí. Quer dizer: estamos importando a crise.

Vi hoje um gráfico assustador com a série histórica do PIB mundial e a do Brasil. Historicamente, o PIB brasileiro acompanha os movimentos de alta e baixa do resto do mundo – com uma defasagenzinha de uns três meses. Como a abertura econômica cresceu nos últimos anos, devemos acompanhar o ritmo externo ainda mais de perto.

O que vem por aí não é o melhor dos mundos possíveis…

Contemplação da crise - México - Museu de Antropologia

Contemplação da crise - México - Museu de Antropologia

Bento Consulting

março 11, 2009

Errar é humano. Errar em previsões sobre a economia é humano e bastante normal. Nas consultorias que fazem essas previsões, há bons técnicos e bons cascateiros – como em qualquer lugar. Mas separar os técnicos dos cascateiros é especialmente difícil nessa área – até que os cascateiros se entreguem sozinhos. E às vezes eles fazem isso.

Não dá para dizer quem é bom só olhando para o histórico. Um cascateiro com bons programas de computador, amigos bem informados e um pouco de sorte  pode ter uma performance bastante razoável por um certo tempo. E, em épocas como agora, em que tudo muda muito rápido, esse pouco de sorte acaba fazendo uma boa diferença.

Mas há duas maneiras de diferenciar o cascateiro. A primeira é ver como ele reage quando erra. Todas as consultorias erraram a previsão do PIB para o quarto trimestre no Brasil. As mais sinceras assumiram o erro. Afinal, todo mundo erra. Mas as mais povoadas por cascateiros não assumem.

O bom cascateiro não quer se passar por analista, quer se passar por profeta. E profeta não erra. Se o número divulgado é diferente do seu, o erro é de quem divulgou. 

E aí começa a ladainha de consultores no ouvido de repórteres desprevenidos. A culpa do erro é do ajuste sazonal, é de um outlier que não deveria estar lá etc etc. As críticas são feitas em econometrês, um dialeto do economês que nem os consultores sérios dominam muito bem. 

Os repórteres não entendem, os leitores também não, mas o consultor limpa sua cara, mantém seus clientes e empurra a culpa para os pesquisadores que divulgaram os dados. 

Bom, esse desejo de infalibilidade – coisa de deixar papas com inveja – é o primeiro indício de cascata. O segundo está no que eles dizem.

Na Folha de São Paulo de hoje há um bom exemplo:

Reclamando dos números do PIB, que vieram abaixo de suas previsões, dois consultores se alternam dizendo que “assim, qualquer movimento positivo, por mínimo que seja, empurrará o PIB do primeiro trimestre de 2009 para cima” e “com isso, reduzem-se as chances de uma recessão técnica”.

O problema é que eles estão reclamando do ajuste sazonal do PIB, da conta que tira os efeitos típicos de determinadas épocas do ano (como as vendas do Natal) da taxa de crescimento sobre o trimestre anterior. Eles dizem que, após o ajuste, o PIB veio baixo porque o ajuste considerou o quarto trimestre um mês atípico quando seria o começo de uma tendência de queda. Bom, um ponto não faz tendência. Se houver uma tendência, o ajuste sazonal do próximo trimestre vai incorporar essa informação e ajustar os valores do quarto trimestre para uma nova tendência – levando talvez a dois trimestres de queda. Se houver realmente queda em dois trimestres, o ajuste sazonal não diminui as chances de que ela apareça.

Desculpem pelo econometrês. O fato é que nenhum dos dois consultores tem idéia do que está falando. O ajuste sazonal muda a série para trás para incorporar a informação nova de cada trimestre sobre como os efeitos sazonais se comportam. Todo mundo que acompanha séries estatísticas com ajuste sazonal sabe disso, sabe que, a cada novo dado, se revisam os anteriores para incorporar os efeitos das novas informações.

O chato é que, para pegar esse tipo de cascata, a gente tem que aprender o beabá de econometrês.

A dupla de profetas, para tentar continuar no negócio, poderia estudar um pouco mais. Nem que seja para inventar cascatas melhorzinhas…