A crise da economia brasileira não tem a ver só com queda de arrecadação, tem a ver também com despesas crescentes. O governo Dilma falhou por não reconhecer isso. E, sem reconhecer o problema, não há como trata-lo.

A dúvida agora é se o governo Temer (cada vez mais provável) vai tentar resolver problemas como o do defict da previdência. Se não resolver, sofrerá, até 2018, o mesmo desgaste enfrentado pelo governo Dilma.

A situação das contas públicas chegou a um ponto em que não é possível postergar ajustes – embora Dilma ainda tente posterga-los. Até 2008, ainda havia algum controle sobre a relação entre a dívida pública e o PIB. Mas, depois da crise de 2008/2009, o governo abandonou a contenção de gastos em nome de políticas de incentivo à demanda. Hoje, o Estado gasta crescentemente mais do que arrecada (e se endivida a taxas altas). Será preciso ajustar novamente a despesa à receita.

Parte do ajuste será via inflação (não corrigindo os salários dos funcionários públicos, por exemplo), parte terá que ser contenção do crescimento de itens como a previdência social.

O curioso é que, embora arrecade cerca de 34% do PIB em impostos (e gaste mais de 40%) o governo consome menos de 20% do PIB com a prestação de serviços públicos. O resto são transferências, são itens como juros, previdência e programas sociais (que crescem automaticamente, puxados pela dívida pública e pela demografia).

Algum ajuste virá, nem que seja um involuntário, com calotes e alta da inflação. Será melhor se o governo conseguir entregar um ajuste organizado, um ajuste intencional e bem planejado.

Nas últimas décadas tivemos ajustes de diferentes tipos: tivemos o Plano Real (que adotou a máxima do equilíbrio fiscal para conter a inflação), tivemos os ajustes dos anos 80 (que, sem a parte fiscal, foram paliativos e ineficientes) e tivemos o Plano Collor (um confisco temporário que deixou sequelas até hoje em muitos antigos poupadores).

Se servir como estímulo para os formuladores da política econômica de Temer, vale a pena lembrar que o efeito político desses ajustes foi o seguinte: o Plano Real elegeu um presidente, os ajustes do governo Sarney tiraram do PMDB a chance de se firmar como amplamente majoritário após o fim da ditadura. O Plano Collor levou ao impeachment de seu autor.

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Crise econômica. México, museu de antropologia.

MASSOLIT tupiniquim

março 29, 2016

É difícil não repetir a História como farsa. E é engraçado ver a esquerda fazer isso (mesmo quando a História é assustadora).

Nos anos 30, na União Soviética, o favorecimento aos artistas pró-regime era tão ostensivo que um escritor de oposição (Mikhail Bulgakov) não resistiu a registra-lo em livro. E assim, contrabandeada para fora da Russia e publicada postumamente, chegou ao ocidente a história da  MASSOLIT a (fictícia) associação literária de Moscou.

Seus integrantes, governistas ou dispostos a escrever por encomenda, viviam em um condomínio de luxo só para escritores e jantavam no excelente, exclusivíssimo  (e subsidiado) restaurante da associação literária.

Para qualquer governo preocupado com auto-promoção, pouca coisa é melhor do que cultivar escritores pró-regime. Mas arte pró-regime é que nem jornalismo pró-regime: é um armazém de secos e molhados (como disse Millor). Nem o pintor do rei da Espanha (Francisco de Goya) pintava decentemente quando tinha que retratar nobres sorridentes nos jardins do palácio. O Goya bom é o Goya velho e surdo: o Goya amargurado dos últimos quadros.

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Melhor que financiamento via Lei Rouanet e patrocínio do Banco do Brasil, só há uma coisa: compra direta de serviços. E aí, de novo, a história tem casos clássicos que a esquerda faz força para esquecer. O mais famoso é o de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, contratado por Frederico III, rei da Prússia, para fundamentar a doutrina de que o o Estado é tudo e o indivíduo, muito pouco.

Depois do período napoleônico, não dava mais para dizer que o rei era rei por vontade de deus. Tinha que haver uma filosofia para justificar a concentração de poder nas mãos do rei. E, para criar essa filosofia, Frederico III contou com um funcionário contratado: Hegel.

Os detalhes sórdidos do caso são descritos pelo também filósofo Karl Popper, no excelente A sociedade aberta e seus inimigos. A descrição da MASSOLIT está em Mestre e Margarida (incrivelmente mal traduzido para o português). E a possibilidade de encontrar filósofos governistas hoje está à disposição de qualquer um que leia jornal.

Um filósofo pró-governo não é muito melhor do que um artista pró-governo. As pessoas de quem se espera crítica (serve até critica construtiva) não deviam ficar elogiando os poderosos. É constrangedor. Me sinto envergonhado por eles.

Mas vai ser ainda mais constrangedor (e mais engraçado) se eles forem elogiar Michel Temer daqui a alguns meses, quando o governo Dilma terminar (o que parece cada vez mais provável).

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Goya, em sua melhor fase.

O governo e a defesa Lindt

março 26, 2016

Véspera de páscoa no Botafogo Praia Shopping: uma fila de consumidores espera para pagar seus ovos de chocolate Lindt na loja da marca no terceiro piso. Pergunto à vendedora da loja em frente:

– É a primeira vez que eles têm fila?

– Não – ela responde, como se a fila para comprar chocolates de luxo importados fosse uma coisa normal.

Quatro pisos abaixo, no subsolo, onde ficam as Lojas Americanas, centenas de ovos continuavam pendurados em estruturas de madeira e plástico montadas especialmente para a páscoa.

Os ovos das Lojas Americanas estavam caros (mas nem de longe tinham preços de Lindt). Alguns custavam mais de R$ 30. Um ovo Lacta de 230 gramas custava R$ 17,90, com desconto de 10% sobre o preço riscado na etiqueta: R$ 19,90.

Uma barra de chocolate do mesmo tipo, na mesma loja, saia por R$ 5,90 (barra de 150 gramas).

Os ovos das Americanas vão encalhar. Com uma boa quantidade de caixas registadoras funcionando, a loja estava sem fila. Um piso acima, na Cacau Brasil, o estoque já estava todo vendido, as vitrines tinham pouca coisa a mostra.

Os chocolates de grife foram disputados. Os mais baratos não: estavam caros para o público a quem se destinavam.

É um exemplo de caricatura, eu sei, uma amostra pequena e viesada, mas ajuda a entender porque o governo ainda tem defensores na classe média alta. Para muita gente, não existe crise: o PIB caindo 4% e a inflação de mais de 11% no ano passado não as incomodam de verdade, não afetam suas rotinas.

Para os comedores de Lindt, o país não está em crise. Por isso, alguns deles não se sentem constrangidos em defender o status quo atual.

Isso vai mudar. Não por causa dos comedores de ovo Lacta, ou das pessoas que nem pensam em ovo de chocolate: vai mudar porque os comedores de Lindt do PMDB entenderam que a situação é insustentável, que é melhor mudar de barco antes que o governo se aproxime ainda mais do calote na dívida pública (da qual muitos comedores de Lindt são credores).

Mas, que o PMDB queira mudar de lado, era fácil prever. O que entendi hoje é por que uma parte da classe média alta não muda: ela continua comprando ovos de chocolate Lindt, mesmo que eles sejam obtidos graças à contratações via Lei Rouanet ou a contratos associados a empréstimos subsidiados do BNDES (há também os que simplesmente acreditam na propaganda política, sem ganhar nada com isso. São os piores esses últimos, mesmo que comam Lindt).

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O atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, anunciou esta semana que o governo deve ter um déficit de quase R$ 100 bilhões este ano, sem contar as despesas com juros.

Como ainda estamos em março – e, este ano, o governo tem revisto as projeções de déficit para mais a cada mês – é difícil prever onde a conta vai parar.

Mantendo esse ritmo de crescimento, a dívida pode se tornar maior que o PIB já em 2019.

Uma dívida maior quer dizer mais despesas com juros sobre a dívida. Uma dívida de quase 100% do PIB – com taxas de juros brasileiras – simplesmente não é sustentável. Ela pode levar ao calote ou à monetização da dívida (hiperinflação).

Mas o pior não é ver o governo chutar o balde do endividamento, é ver o ministro da Fazenda dizer que faz isso de propósito, para “reaquecer a economia”.

O Brasil tem um regime de câmbio flutuante. Com câmbio flutuante, os gastos do governo têm pouca capacidade de estimular a demanda. Com câmbio flutuante, quem estimula a demanda (para gerar crescimento ou inflação) é a taxa de juros: é a política monetária.

Ou o ministro da Fazenda esqueceu o básico de macroeconomia ou está sendo pouco sincero em até em suas declarações mais estranhas.

A economia não está parada por falta de déficits públicos, está parada porque empresas e famílias não querem correr riscos ou assumir compromissos em um ambiente instável como o atual.

O aumento da dívida pública em ritmo insustentável contribui para aumentar os riscos e frear ainda mais o investimento privado.

O gasto a mais, anunciado por Barbosa, vai produzir mais dívida e mais gasto com juros, vai ter o efeito oposto do anunciado.

Se o ministro for esperar a volta do crescimento da economia para cortar gastos, vai esperar para sempre (ou até ser defenestrado).

Lagarto sorridente

Dragão da crise.

Quando o governo congelou os preços da gasolina, do diesel, da energia elétrica e do dólar, houve poucas reclamações do público.

Alguns congelamentos foram feitos com estardalhaço (como  o da energia, que teve anúncio da presidente em rede nacional), outros foram feitos de forma discreta, como o do câmbio, que foi segurado pelo Banco Central com vendas de títulos no mercado futuro.

Passada a eleição de 2014, foi preciso descongelar os preços. Como, além das famílias, as empresas também usam energia e combustível, como vários produtos são cotados em dólar ou diretamente importados, o efeito do descongelamento foi amplo.

Mas a parte mais complicada do processo veio depois. No Brasil, quase tudo, de tarifas públicas a aluguéis, é indexado. Quando a inflação sobe, todos querem repor a perda de poder aquisitivo reajustando seus preços de acordo com a inflação passada. Por isso, depois que a inflação sobe é difícil fazê-la cair novamente.

As ferramentas tradicionais para segura-la são as políticas fiscal (gastos do governo) e monetária (taxa de juros). E é nessa hora que dá para ver a maldade (ou a total incompetência) da gestão mantega no Ministério da Fazenda. O governo, até 2014, estimulou o consumo de todas as formas possíveis, “gastou por conta” de formas novas e em escalas inéditas. O resultado é que não pode mais aumentar suas despesas para estimular a economia. Na verdade o governo têm que conte-las para segurar a inflação. Mas conter despesa (fazer política fiscal) é difícil.

Com a economia em recessão, a arrecadação cai e o governo assume (mesmo sem querer) o papel de impulsionador da inflação. O problema é que a diferença entre o que o governo gasta e o que arrecada – o impulso fiscal, como o chamava Joaquim Levy – se amplia e se consolida. Quer dizer: hoje, com uma diferença de cerca de 10% do PIB entre suas receitas e despesas, o governo estimula, em vez de conter, a demanda: ele pede emprestado para gastar. Empurrando a demanda, o governo estimula a inflação.

Já não bastasse a inércia dos reajustes automáticos, ainda temos a política fiscal jogando contra. E, pior, temos um grupo de economistas no governo que acha que é melhor esperar a crise passar e a arrecadação crescer para, só aí, resolver o problema fiscal.

Do outro lado da mesa, economistas de fora do governo dizem que é melhor primeiro segurar a inflação para depois voltar a crescer.

É que segurar a inflação é difícil. Mesmo com uma recessão como não se via desde Collor, a inflação continua acima de 10% ao ano. Se não for contida, ela pode, sim, voltar ao padrão dos anos 80.

A inércia – o reajuste de passagens de ônibus e metrô, de contas de luz, gás, telefone e internet – mantém a inflação em 10%. E qualquer novo choque, como uma alta do câmbio, pode puxa-la para cima, para se estabelecer em um patamar ainda mais alto.

Por isso é preciso fazer política fiscal (cortar gasto público), conter logo o monstro antes que volte ao que era há 25 anos, nos tempos de Collor.

O curioso é que economistas heterodoxos reclamem do baixo crescimento da economia e peçam estímulos para o consumo. Se estimularmos o consumo agora, o dragão acordará para valer. É a recessão que o está segurando na caverna.

Um ajuste fiscal forte provocaria uma recessão ainda maior, no curto prazo, para depois – com os preços estabilizados – permitir a queda dos juros, a estabilidade do câmbio e a retomada da economia.

Mas “queda maior no curto prazo” é uma expressão abominada pelos heterodoxo-eleitoreiros. Eles a evitam, mesmo que, ao impedir uma queda de 5% no PIB, acabem ficando com várias de 4%…    

No fim, o ajuste de preços relativos será feito via inflação, corroendo a renda de quem não tem como reajustar o preço do que vende (os assalariados). A perda de renda real fará com que reduzam o consumo e, lentamente, isso conterá os reajustes de preços. Os beneficiários de concessões do governo continuarão com seus benefícios e reajustes de tarifas – e o ajuste da economia demorará vários anos, em vez de um ou dois.

O governo sabe disso. E prefere fazer assim.

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– Vai: descongela aí!

Merguho em espiral

março 4, 2016

Há alguns anos um amigo me mostrou um gráfico de ciclo econômico – quase igual a ilustração abaixo – em uma matéria do New York Times.

O eixo horizontal do gráfico tem o crescimento (ou queda) da economia em cada trimestre e o eixo vertical tem o desvio do crescimento em relação a uma tendência de longo prazo.

Quando a economia está caindo e ainda por cima está abaixo da tendência de longo prazo (no canto esquerdo do gráfico, embaixo), ela está em crise. Quando está abaixo da tendência, mas crescendo, está saindo da crise – e assim por diante:

ciclo2

A matéria do Times mostrava que, na época, a economia dos Estados Unidos estava começando a sair da crise de 2008-2009.

Fazendo o gráfico com os dados do Brasil, divulgados ontem pelo IBGE, dá para ver que as coisas por aqui não estão bem. O gráfico abaixo tem os dados do crescimento do PIB a cada trimestre, na série com ajuste sazonal. Para definir o desvio em relação à tendência usei o crescimento médio dos 20 trimestres anteriores como tendência:

ciclo2009 PIB

O investimento parece ainda pior. Os números no eixo do gráfico são maiores (para mais e para menos):

ciclo2009 FBCF

Mas, desânimos à parte, os gráficos ajudam as mostrar que as economias têm mesmo ciclos – embora não dê para ter ideia de quando o nosso vai virar para cima.

Por último, o gráfico do consumo das famílias:

ciclo2009 CFF