Só este mês, conversei com cinco pessoas diferentes que receberam cartas ameaçadoras do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. São pessoas formadas em economia mas que não ocupam cargos de “economista”, fazem trabalhos que também são feitos por engenheiros, matemáticos e afins.

Para o conselho, elas exercem ilegalmente a economia e devem ser processadas por isso.

Algumas já responderam ao conselho dizendo que não exercem a profissão – e receberam novas cartas com prazos para “regularizar sua situação” e pagar anuidades (ou responder a processos caso não façam isso).

O conselho, involuntariamente, aponta para uma das poucas coisas que o governo poderia fazer para melhorar o nível de eficiência da economia e mostrar luz no fim do túnel para país. Para aumentar a eficiência no uso dos recursos escaços do país, faria bem cortar custos que não trazem nenhum benefício.

A solução é fechar os conselhos regionais de economia.

Os conselhos – dizendo representar os economistas – protestariam contra a medida. Mas economista nenhum seria contra, até por uma questão de coerência com os livros de microeconomia.

O poder de lobby do conselho seria apenas o de sua diretoria, porque seus “representados” ficariam muito felizes por não ter mais que pagar anuidades caras em troca de nada: em troca de de receber um jornalzinho mal impresso de vez em quando.

Conselhos profissionais que não produzem nada (alguém sabe o que o conselho de economia faz? e o de administração?) são um peso morto: custo Brasil, dinheiro tomado de quem produz para enriquecer os “diretores” de uma espécie de cartório.

Se o governo quer propor medidas que tornam o país mais eficiente e não envolvem aumento do gasto público, essa devia ser a primeira: ela aumenta a eficiência da economia, diminui a insatisfação de todos os que recebem ameaças pelo correio para se filiar e ainda sinaliza que o governo, finalmente, teria uma agenda para diminuir a burocracia e o cartorialismo do país (e uma agenda bem vista pela população).

"É um absurdo! Sem o que recebo como diretora do conselho como vou pagar meus vestidos? E meus chapéus?!"

“É um absurdo! Sem o que recebo como diretora do conselho como vou pagar meus vestidos? E meus chapéus?!”

Em uma crise econômica – com as causas que tiver – todos vão à luta para garantir que o ajuste da economia não caia justamente sobre suas cabeças. Se o país tiver instituições fracas, o ajuste vai ser feito de forma caótica, condenando a economia a ter baixo crescimento por décadas. Se as instituições resistirem à pressão dos lobistas, o ajuste envolverá decisões pouco destrutivas – e o país voltará a crescer mais rapidamente.

A tese acima – ao lado de um monte de estatísticas e regressões que tentavam medir o quanto se ajusta aos fatos – foi proposta pelo economista Dani Rodrick em 1998 para explicar porque alguns países cresceram mito mais que outros nas décadas após os choques do petróleo, nos anos 70.

A tese parece se ajustar bem a vários países. No caso do Brasil, teria sido a reação de Geisel à crise que condenou o país à década perdida (quando o Brasil pagou a conta do aumento da inflação, do aumento da dívida e das péssimas decisões de investimento subsidiado dos anos Geisel).

A dúvida agora é: como está sendo feito o ajuste à crise Dilma?

Certamente empresários, políticos e sindicalistas estão indo à luta para não perder sua fatia no bolo. E o fato de que muitos estejam conseguindo o que querem é – no fim das contas – motivo de preocupação.

As novas barganhas por cargos e outras – como a barganha da terceirização – indicam que o ajuste será relativamente caótico, com as decisões/vantagens sendo conseguidas por quem tiver mais poder político.

Poderia ser pior. O governo poderia deixar a inflação solta – como fizeram Hugo Chaves e Cristina Kirchner, para não contrariar ninguém no curto prazo –  mas isso teria um custo político proibitivo. É melhor reduzir a renda da população com juros, câmbio e corte de gasto do que com inflação desenfreada.

O governo sabe que não há como evitar o ajuste. O ajuste virá, porque, como lembra sempre o ministro Levi, o dinheiro acabou.

Para nomeados do PMDB, empresários que contratam terceirizados e para quem tem um bom patrimônio, o ajuste não será tão doloroso.

Mas, para quem tem pouca capacidade de fazer pressão, ele será duro.

Não sei se haverá protestos nas ruas. Acho que não. Já houve e eles não fizeram muita diferença.

A população está cética até em relação a protestos.

E, sobre as decisões de longo prazo, bom, vamos ver: até agora, tivemos só ajustes do orçamento, flutuação do câmbio e alta de juros – políticas decentes, mas de curto prazo.

Na estruturação do governo, a presidente optou por abrigar indicados políticos que não têm perspectiva de fazer nada além do que sempre fazem. Uma escolha ruim.

O governo fala em concessões de estradas e aeroportos. É pouco. E não parece haver capacidade ou recursos para propor muito mais.

A sensação, pelo menos, é de que ficaremos à deriva em direção à mais uma década de crescimento baixo, poucos gastos com educação, pouca infraestrutura, poucas perspectivas, mas muitas nomeações políticas e acordos discutíveis.

Como antes, depois dos anos 70 virão os 80 – com sua crise lenta e aquela letargia de que já tinha me esquecido.

Tudo calmo, parado, abafado e sem ventos.

Tudo calmo, parado, abafado e sem ventos.

Ouvi hoje, de um não-petista, versão da presidente Rousseff de que o governo fez o que pôde para evitar que a população sofresse mas agora não dava mais para segurar e, finalmente, sentiríamos os efeitos da crise internacional.

Tentei explicar que a crise internacional tinha sido em 2008 e 2009, que o Brasil – já em 2010 –  tinha crescido mais de 7%. Tentei explicar que o governo tinha baixado os juros quando a inflação estava subindo e aumentado o gasto público muito além do limite da receita tributária nos últimos anos, quer dizer: que a crise não era culpa dos estrangeiros.

A resposta foi alguma coisa como: “Dilma manteve o desemprego baixo”.

Sim, mas agora o desemprego vai ficar mais alto do que ficaria se não tivessem inflado a bolha de consumo até as eleições.

O problema – visto sem a perspectiva do calendário eleitoral – é que adiar um ajuste necessário para a economia torna o ajuste mais violento quando ele finalmente acontece. Feito dois anos atrás, o ajuste seria simples e pouco doloroso. Feito hoje, envolve aumentar juros e cortar gastos em uma economia que já está em recessão.

Mas não é só isso. O governo pode jurar que queria estimular os empresários a investir quando soprou a bolha de consumo. Mas ninguém leva bolhas a sério, ninguém corre atrás delas achando que são uma tendência de crescimento. Empresários e afins, no máximo, tentaram pegar carona aumentando seus preços. Ninguém investiu mais porque o governo estava aumentando seus gastos acima do sustentável ou baixando os juros “na marra”, apesar da expectativa de que a inflação iria subir.

Isso é muito claro para os economistas, mas não para a maioria dos eleitores. Para quem lê a propaganda oficial, a bolha pré-eleitoral foi uma tentativa do governo de “proteger os trabalhadores” e não uma decisão política que deixará a economia em crise por um prazo longo.

Estimular o consumo quando a inflação está em alta – baixar juros quando a inflação está em alta – não é proteger o trabalhador: é armar uma bomba relógio inflacionária para os assalariados.

Mais do que a estagflação em si, me assusta esse discurso de marqueteiro que tenta eximir o governo de qualquer responsabilidade por ela. Se não assume o erro, o governo está livre para repeti-lo daqui a um ano, está livre para “defender o trabalhador” do ajuste fiscal – se achar que isso é politicamente interessante.

Talvez ele até crie uma nova bolha pré-eleitoral daqui a três anos – e se reeleja novamente para cometer mais casuísmos destrutivos, sempre com a desculpa de que está “protegendo o trabalhador” no curtíssimo prazo.

Para os políticos, o longo prazo não existe. Mas um horizonte de mais de quatro anos – seja isso longo prazo ou não – faria bem ao planejamento da economia.

"Este é um governo popular. Longo prazo e análise macroeconômica são coisas burguesas. Não queremos isso aqui!"

“Este é um governo popular. Longo prazo e análise macroeconômica são coisas burguesas. Não queremos isso aqui!”

Quando a ditadura militar já estava em crise, o cronista Luis Fernando Veríssimo encontrou a personagem símbolo da sua decadência: a velhinha de Taubaté.

A velhinha ingênua era a última pessoa do país que ainda acreditava nas declarações de ministros e representantes do governo.

O mundo dá voltas e, 30 anos depois, o próprio Veríssimo é candidato ao papel de velhinha de Taubaté: parece ser um dos últimos a levar a sério – e até a torcer – por um governo decadente e desacreditado.

Mas ele não é o último. Ainda há 12% de satisfeitos com o governo (ou com a presidente) segundo a última pesquisa de opinião que li nos jornais.

Os 12% não são loucos. Conheço alguns. São seguidores fiéis do partido.

É para eles que o governo prepara suas histórias mais mirabolantes. O discurso de que não queria que o povo sofresse com a crise externa e adiou o ajuste por isso, o discurso de que não errou ao baixar o preço da energia e estimular seu consumo, o discurso de que não errou ao forçar a Petrobras a vender combustível abaixo do custo… tudo isso é só para as velhinhas de Taubaté (que ainda são 12% do eleitorado).

Mas, assim como os militares se desgastaram em 21 anos no poder (com Delfim Netto tentando maquiar preços e Reis Veloso tentando ignorar a crise do petróleo), o governo do PT também colhe o preço de seu populismo e de sua irresponsabilidade com a economia.

Os PTistas convictos adotam o “creio porque é absurdo” – que talvez ficasse bem em um teórico católico como Tertuliano, mas cai mal para militantes de esquerda.

Alguma hora, as velhinhas vão parar de repetir que a culpa é da imprensa e vão votar em outro partido (ou vão ser tão poucas que não elegerão nem vereadores no cinturão do Bolsa Família).

"Tenho saudades de Lula. Na época dele era muito melhor."

“Tenho saudades de Lula. Na época dele era muito melhor.”

A ideologia do PMDB

maio 3, 2015

Empresários e políticos não costumam esfregar as mãos de manhã e produzir gargalhadas sonoras de vilão de filme. Mesmo grandes destruidores de patrimônio (como Eike Batista) e lobistas notórios (como o defensor de montadoras Guido Mantega) têm necessidade de se olhar no espelho e acreditar que fazem alguma coisa útil.

E, embora não publiquem manifestos com títulos como “o elogio da produção superfaturada” ou ” porque favorecer minha empresa salvará o Brasil”, eles têm claramente uma forma de pensar que – mais do que explicar – justifica o que fazem.

Não acho que seja a forma de pensar que melhor se ajuste aos fatos, ou que permita tomar as melhores decisões, mas certamente é a mais cômoda para grandes empresários e envolvidos na liberação (em condições confidenciais) de recursos do BNDES.

A ascensão do PMDB ao centro do poder político no país está ajudando a deixar mais clara essa ideologia.

Embora muitos o considerem uma colcha de retalhos de oligarquias locais, o PMDB tem uma ideologia bastante homogênea – e internamente coerente. Sua política lembra a do Big Business americano dos anos 20, de antes da Grande Depressão.

Aqui, como nos EUA daquela época, seus defensores dão uma ênfase grande à desregulamentação, ao liberou geral para empresas de grande porte.

No Rio de Janeiro – que tem o PMDB na prefeitura e no governo do estado – isso é bastante claro. Para a ideologia do partido, as empresas são importantes (até porque são elas que financiam as campanhas) então, devem ter liberdade para fazer o que acharem melhor.

O discurso ideológico é de combate à burocracia. A prática é liberar a construção de um complexo petroquímico em uma região que não tem nem água, muito menos condições básicas de meio ambiente para recebe-lo. Esse é o COMPERJ: liberado, carimbado e autorizado porque seria “bom para o Estado do Rio” e – como se sabe hoje – economicamente inviável.

As histórias são muitas: do Hotel Glória de Eike Batista (abandonado) ao hotel II de Eike Batista na Praia do Flamengo (invadido, depois de abandonado) não é difícil ver políticos e empresários se abraçando para “promover o progresso” atropelando leis, despejando pessoas e superfaturando obras.

Não acho que façam isso por puro maquiavelismo. Fazem porque “é assim que se faz”, “é como as coisas funcionam”, “foi como funcionaram nos anos 70 quando a economia cresceu tanto” .

Mas não foi por causa dos negócios protegidos pela ditadura que a economia cresceu nos anos 70: foi por causa deles que parou de crescer nos anos 80. Ela cresce nos anos 70 por causa da estabilização econômica de Roberto Campos e Otávio Bulhões, nos anos 60.

É curioso ver o PMDB herdar métodos dos anos 70 (quando era oposição) mas, se herdou os apoiadores do governo nos anos 70, porque não herdaria também alguns métodos?

A ideologia do governador Pezão (e também de alguns PSDBistas) para lidar com protestos de rua foi herdada daqueles tempos: o melhor é mandar a tropa de choque para mostrar quem manda e fazer esses baderneiros aprenderem que não valem muito. Ninguém vai dizer isso na TV mas, quando o governador do Paraná, Beto Richa, manda a tropa de choque espancar professores (como o do Rio já tinha feito) é isso que está implícito.

A solução para a insatisfação social é aumentar o efetivo da polícia (que tem crescido), reduzir a maioridade penal, construir mais presídios, em suma: enquadrar esse povo.

Se o hospital público não atende e a escola municipal tem uma qualidade deplorável, é porque o dinheiro também não dá pra tudo… Quem quiser que pague escola e hospital privados…

É claro que isso é ideológico. É uma ideologia de oligarca, mas é uma ideologia. De algum jeito, é bom vê-la ficar mais explicita, mas fácil de apontar.

Se Eduardo Cunha e seus seguidores estão se sentido mais à vontade para dizer que direito trabalhista é bobagem e passar por cima transformando todo mundo em pessoa jurídica (sem férias nem 13°) é porque o governo PT desmoralizou a esquerda – e abriu espaço para a ideologia conservadora do PMDB.

O mais curioso é ver o PT cooptando a maior parte da oposição de esquerda (até a Mídia Ninja os apoia) e deixando espaço aberto para os conservadores serem seus críticos.

O PMDB, é claro, não se nega a ocupar o espaço. Mas ele tem um potencial tão grande (talvez maior) que o dos PTistas para fazer estragos.

Seria ainda mais interessante ver outro braço do governo, menos conservador e oligárquico, tentar se descolar de Dima e do PT, tentar criar uma oposição menos à direita.

Acho que é isso, em parte, que estão tentando partidos como o PSB ou a Rede, de Marina Silva (infelizmente, mais atacados pelo governo que o grande partido nacional, o PMDB).

Ioda:

Yoda: “Do barco governista você deve sair. Oposição você deve fazer. Não adianta para um planeta de lama fugir.”