Vigiar e punir a polícia

Foram as dezenas de câmeras, i-phones e afins – nas mãos de manifestantes, e vizinhos do protesto de segunda-feira – que impediram que a polícia mantivesse preso um manifestante acusado falsamente de jogar um cocktail molotov. A acusação contra ele era de tentativa de homicídio.

Considerando que a polícia já o tinha eletrocutado quando ele estava caído no chão, considerando que ele foi levado preso desmaiado e considerando os gritos do policial que  o mostrou para as câmeras (“ele jogou o cocktail molotov!”), o manifestante não devia esperar um tratamento delicado nas mãos da polícia.

Mas a vigilância sobre a polícia – ao lado de uma sensação profunda de revolta de quem viu os vídeos (e, mais ainda, de quem estava lá) – permitiram que se reunissem provas de que o manifestante era inocente. Provar a inocência é uma daquelas coisas que só se faz em ditadoras. O normal é quem acusa ter o ônus da prova.

A polícia – de agora em diante – será filmada de todas as janelas, por todos os telefones de passantes e manifestantes. Aprendemos que isso é questão de sobrevivência. A polícia será mais vigiada. Mas dificilmente será punida. E isso quer dizer que vai continuar dando choques em pessoas caídas e tiros no rosto de manifestantes.

Os protestos de rua no Rio de Janeiro nunca pretenderam derrubar o governo. As manifestações sempre foram de cobrança por melhores serviços públicos, foram pelos serviços que o governo promete e não entrega. Foram também contra abusos do governador com dinheiro público e – quase de desde as primeiras – contra os crimes cometidos pela polícia na repressão a manifestantes.

Acusar falsamente um inocente de tentativa de homicídio é crime. Acusa-lo na TV é outro crime. Enfim, pelo menos por calúnia, injúria e difamação os policias que prenderam (e apresentaram o manifestante à TV como culpado) deveriam estar sendo processados. Alguém sabe como vai o processo? Alguém sabe se um dia vai haver processo?

Um fotógrafo da AFP foi espancado pela polícia no protesto de segunda-feira. Ele estava tirando fotos, não fazia nada de ameaçador ou criminoso. Há processo por agressão contra o policial que o espancou?

É a P2 que vai investigar os crimes da policia? A mesma P2 que está sendo acusada de infiltrar agentes e de efetivamente lança o cocktail molotov na polícia para justificar a repressão ao protesto?

O comandante da polícia militar disse que se sentia enojado por alguém levantar a hipótese de quem um policial pudesse lançar bombas em um colega de farda. Ato falho horrível. Em civil pode jogar bomba? Os policiais a paisana da P2 se sentem colgas de farda da PM? Enfim, a polícia vai investigar se ela mesma jogou a bomba?

O problema é que, se ela não fizer isso, vai assumir que não adianta cobrar do Estado que trabalhe. Se o topo da hierarquia da polícia, se o governo não punir os policiais que comentem crimes, vai ser preciso mudar o topo da hierarquia da polícia.

Sim, os protestos não são para derrubar o governo mas, se o governador renunciasse e o vice mudasse a cúpula da polícia (no mínimo, conivente com crimes violentos contra os manifestantes), talvez as coisas se acalmassem um pouco.

Vigilância assustada.

Vigilância assustada.

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Bem vindo à ditadura

Espero que o saldo deter mais de um milhão de turistas convivendo com cariocas por uma semana seja que eles possam levar para casa o recado de que o Brasil é uma ditadura policial.

Um lugar onde pessoas são presas sem acusação, um manifestante caído é eletrocutado ao lado do estádio de Fluminense, policiais em pickups perseguem manifestantes em fuga atirando (é contra a Convenção de Genebra) e isso não só não sai na TV como nenhum policial é punido é – sem a menor dúvida – um Estado policial.

O direito à manifestação está na Constituição. Mas ficou no papel. A repressão policial com o nível de covardia e ilegalidade que foi adotado na última segunda-feira só tem precedente em ditaduras escancaradas.

Como a imprensa brasileira não noticiou (no Jornal Nacional, disseram apenas que uma manifestação complicou o trânsito e atrasou o  carro do bispo), sabemos que não dá para contar com ela (é uma ditadura).

A melhor cobertura do protesto em Laranjeiras está no New York Times, neste link.

O Times reuniu vídeos que indicam que o cocktail molotov – justificativa usada pela polícia para atirar bombas e balas de borracha sobre os manifestantes – pode ter sido  lançado por policiais infiltrados na manifestação. O jornal mostra – com imagens difíceis de rebater – como foi a repressão policial segunda-feira.

Policial eletrocuta manifestante caído - Rua Pinheiro Machado, Rio de Janeiro, 22/07/2013

Policial eletrocuta manifestante caído – Rua Pinheiro Machado, Rio de Janeiro, 22/07/2013

Preconceitos sobre os peregrinos

Pela quantidade de policiais nas ruas, o governo esperava que a cidade fosse tomada por uma horda de torcedores de futebol irritados, ou de “vândalos”, como os repórteres da Globo gostam de dizer. Mas os peregrinos que vieram ver o papa são um modelo de educação e civilidade.

Não há como não passar por eles: são onipresentes no Rio. No metrô, então, há quase um a cada dois metros quadrados. Eles se atordoam com a publicidade colorida que cobre a cor original das catracas (há uma cor de roleta para cada tipo de passagem) mas acabam descobrindo como passar.

Diferentemente do que a prefeitura parece ter imaginado, eles não trouxeram asas ou outro equipamento para voar pela cidade. O transporte, então, é um problema. O metrô e os ônibus já não davam conta do fluxo normal de moradores nos dias normais. Com um milhão e meio de pessoas a mais, as coisas ficaram bem confusas. Mais confusas ainda se lembrarmos que os milhares de policiais nas ruas não estão lá para dar informações – eles não tinham nada a dizer durante o colapso do metrô na tarde de ontem. Eles estão lá para… Bom não está claro para que os policiais estão lá.

O ajuste dos preconceitos oficiais à realidade dos religiosos tem sido muito lento, o que produz cenas realmente surreais. Hoje, por exemplo, os auto-falantes do metrô anunciavam que, às 16h30, a estação São Francisco Xavier seria fechada devido à grande quantidade de peregrinos na região.

Eu sei, é um processo lento de aprendizado. Mas, cedo ou tarde, a administração do metrô e do município vai aprender que, quando muitas pessoas querem ir para um lugar (e especialmente quando não sabem direito como chegar lá) o papel delas é ajudar – e não impedir ou sabotar o acesso.

Acostumados a bater em quem reclama, a fechar o metrô em áreas de passeata e a infernizar a vida dos caricas, Eduardo Paes e seu mentor, Sergio Cabral, estão agora torturando os peregrinos. “Peregrinação é isso”, deve estar pensado o prefeito.

Mais um preconceito que – ao lado do dos missionários vândalos voadores –  precisa ser deixado de lado.

O papa – em sua passagem pela Tijuca, daqui a pouco – podia criticar a maneira como a prefeitura local trata seus fiéis. Talvez a crítica papal faça o prefeito ver a luz (ou, pelo menos, fazer o dever de casa com medo da publicidade negativa).

Peregrina estóica tenta ignorar os tormentos  provocados pelo  prefeito do Rio de Janeiro.

Peregrina estóica tenta ignorar os tormentos provocados pelo prefeito do Rio de Janeiro.

Ratoeira carioca

Fiquei preso no centro do Rio hoje. Normalmente, com cada pessoa saído do trabalho no seu horário, ônibus e metrô já ficam lotados. Hoje, com o feriado papal a partir de 16h, todos saíram ao mesmo tempo. E o metrô parou de funcionar.

O hábito de baixar decretos – adotado com entusiasmo pelo prefeito Eduardo Paes – atormenta os cariocas há tempos. Só esta semana teremos três feriados novos, infernizando a vida de empresas e de qualquer um que tenha prazos para cumprir.

Os decretos surpresa são muitos, a qualidade do transporte (e da saúde e da educação pública) é baixa e – para qualquer empresa que pretenda produzir com regularidade – a cidade vai ficando pouco atraente.

Ah, sem metrô, os missionários estrangeiros ficaram completamente perdidos.

Sob censura (a imprensa ninja está na cadeia!)

Rio de Janeiro, 22/07, 21h – A cobertura dos protestos no Rio de Janeiro está sob censura policial. Os repórteres do último canal 100% independente que transmitia ao vivo (e sem edição) os protestos foram presos hoje pela Polícia do comandante Mariano Beltrame. Os três repórteres do grupo Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação (NINJA) que cobriam o protesto de hoje estão agora na delegacia do Catete, acusados de “posse de material explosivo” (seus telefones celulares?).

A cena de prisão, filmada pelos repórteres e transmitida ao vivo, não mostra nenhum “material explosivo”. O policial que fez uma das prisões recebeu a ordem para prender o repórter por telefone*.

Enquanto a Globo mostra o papa sorrindo na TV, a polícia do Rio de Janeiro dispara bombas de gás e balas de borracha contra os manifestantes perto do palácio do governo. A polícia, mantendo a tradição, esperou os políticos saírem para dispersar o protesto.

Passei por Laranjeiras hoje à tarde. Confesso que nunca tinha visto tantos policiais juntos. Eles estavam sorrindo – o que não achei um bom sinal – e carregavam escudos do Batalhão de Choque. Vi alguns com as balas de borracha  penduradas em diagonal sobre o peito.

Ah, sobre a visita papal, nada demais. João Paulo II deu tapinhas nas costas de Augusto Pinochet quando visitou o Chile. O papa Francisco cumprimentou Sergio Cabral na decida do avião, cumprimentou Renan Calheiros – e vai ficar sorrindo enquanto os caricas que reclamam do governo respiram gás lacrimogênio e tomam bala de borracha. Vai promover – voluntariamente ou não – os políticos que saem com ele na foto.

Se não reclamar da violência policial e da censura (da  prisão dos ninjas), o papa sairá do Brasil muito pior do que chegou – sairá conivente.

Abaixo, as fotos do bairro de Laranjeiras, tiradas há pouco, que já saíram nos sites de jornais:

policia reprime manifestação tiroRio 22_07_2013violencia policial

* PS.: Os jornais do dia seguinte (23/7) listaram a acusação como “incitar a violência”. Muita coisa foi dita pelos policiais no vídeo – até que os repórteres fossem soltos, por volta de 22h30.

Como o número de Bacon vence os Marinho

Falar mal da imprensa é uma tradição nacional. Em épocas de protesto – com a Globo se esforçando para transformar manifestações políticas em noticiário policial – falar mal é necessário.

E falar mal fará toda a diferença. A culpa (ou a explicação) é de um ancestral do número de Bacon. O ancestral é o número 6 – e foi descoberto nos anos 60 por um sociólogo americano chamado Stanley Milgram.

Milgram queria entender a formação de redes de conhecimento (conhecimento no sentido brasileiro: quem é amigo de quem). Ele pôs anúncios em jornais procurando voluntários em dois estados nos EUA (Kansas e Nebrasca). Os voluntários receberam envelopes com o nome, profissão e cidade de uma pessoa que não conheciam (em Boston, longe de casa). Eles deveriam fazer o envelope chegar ao destinatário, passando-o a amigos e conhecidos que o passariam a seus amigos, até que chegasse ao destino.

A mediana do número de conhecidos entre a origem o destino dos envelopes foi 5. Daí a expressão “seis graus de separação”, que indicaria a distância mediana entre as pessoas.

A versão  engraçadinha (e mais famosa) do número de Milgram é o número de Bacon, hit adolescente dos anos 90. Segundo ela, é praticamente impossível encontrar um ator a mais de quatro filmes de distância de Kevin Bacon – arroz de festa do cinema americano.

Aparentemente, quem não contracenou com ele, contracenou com alguém que contracenou com alguém que contracenou com alguém que contracenou com ele.

Uma versão atualizada da experiência de Milgram foi feita com e-mails e métodos estatísticos sofisticados pelo físico australiano Duncan Watts e seus co-autores Roby Muhamad e Peter Dods. Nessa versão da experiência, os e-mails passaram por mais de 60 mil pessoas em 166 países. E os resultados não foram muito diferentes dos de Milgram: cerca de metade das mensagens atingiu seu destino com menos de 7 intermediários.

Agora os Marinho.

Se cada participante de um protesto está a, no máximo, seis pessoas de distância de cerca de metade da população do país e, se o que eles viram a polícia fazer é um assunto que pede para ser comentado (e repassado aos amigos dos amigos dos amigos), então não adianta a Globo não mostrar a repressão da polícia – ou mostrar só pessoas quebrando vitrines.

As redes (de boca a boca ou por fios e e-mails) vão levar a notícia a onde ela tem que chegar.

Por mais que a TV grite mais alto em cima do móvel da sala, a informação confiável, narrada por um amigo que esteve lá (ou por um amigo de alguém que esteve lá) prevalece – e acaba com a credibilidade do canal dos Marinho.

Pássaro em rede complexa de galhos.

Pássaro em rede complexa de galhos.

PS. Para a experiência de Milgram, vale ler o Complexity, a guided tour, de Melanie Mitchell. Para a de Duncan Watts, o melhor é ler o próprio. O nome do livro é Everything is obvious – once you know the answer (acho que já lançaram em português).

PS2. Sobre redes, vale a pena também ler Linked: the new science of networks, de Albert-László Barbási.

Casa de tolerância

A tolerância é um virtude – e uma das maiores. Voltaire escreveu um tratado sobre ela. O Iluminismo não existiria sem ela. Enfim, em alguma coisa os brasileiros tinham que se destacar: para o bem e para o mal, somos o povo mais tolerante do mundo.

Não seria difícil fazer a campanha publicitária: em vez de “ninguém segura esse país” ou “país rico é país sem miséria”, “Brasil, o país mais tolerante do mundo”. Nós toleramos hospitais com poucos leitos, escolas sem professor, corrupção escancarada, enfim…

Mas o que não dá para tolerar (é um problema de lógica) é levar choque de arma-mais-ou-menos-letal por protestar contra o governo. Aí a contradição é muito grande. Afinal, não é o país dos tolerantes? Não é onde até roubar pode que tudo bem? Então tem que poder protestar.

Quando a tropa de choque vai para rua jogar spray de pimenta e bomba de gás em quem reclama do governo, joga no lixo a boa e velha tolerância, que – de novo, para o bem e para o mal – mantém o país sem grandes reviravoltas. Mas, se não pode protestar, então também não vamos tolerar o resto. E aí a coisa vai ficar ruim para o governo (que sempre contou tanto com a tolerância da população).

Autoritarismo, Museu de Belas Artes de Santiago do Chile.

Autoritarismo, Museu de Belas Artes de Santiago do Chile.