A grande ideia da carreira de Adam Smith não foi a de que a divisão do trabalho aumenta a produtividade. Também não foi a de que, movidas pelo interesse próprio (e respeitando algumas regras, como não matar, não fazer cartel etc.), as pessoas trabalham umas para as outras e organizam o trabalho de forma eficiente.

A ideia que me faz classificar Smith como gênio também não tem nada a ver com o equilíbrio de mercado, com as pessoas querendo produzir mais e consumir menos de um produto quando seu preço sobe.

Gosto dessas ideias e sei que, como quase todas, elas são uma descrição do que Smith observou visitando fábricas e estudando séries de dados (como as dos preços da prata, no capítulo mais extenuante do Riqueza das nações). Muito disso já era intuído pelos empresários da época, mas foi organizado, digerido e posto no papel por Smith.

Mas sua grande ideia, a que o tornou conhecido ainda no século XVIII – e que até hoje é lida sem muitas inclusões, exceções e refinamentos – tem a ver com como as pessoas vêem a si mesmas  e às outras, tem a ver com até que ponto sentem empatia com o sofrimento alheio e como é irritante quando não sentem.

Thomas Piketty, em seu livro sobre concentração de renda e patrimônio, lembra que, apesar de seu alto nível de renda, os Estados Unidos nunca desenvolveram um sistema de bem estar social similar aos sistemas europeus. Os EUA não têm nem ao menos um sistema de saúde pública.

Para Piketty, eles não criaram um estado de bem estar social porque são racistas. Parte da população, mesmo sendo pobre, vota contra o aumento da segurança social e a garantia de atendimento médico para excluir outra parte – com a qual não sente empatia. Eles literalmente não estão nem aí para o sofrimento alheio (sofrimento com a falta de hospital ou de apoio social básico).

E quando a concentração de renda aumenta, essa falta de empatia ganha ares de crueldade.

Um nível alto de desigualdade faz com que algumas pessoas tenham boas reservas/sobras enquanto outras não conseguem o bastante para o básico. As pessoas que não têm o básico ficarão ansiosas para conseguir mais dinheiro. Mas boa parte dos possíveis contratantes está na parte mais rica da população.

A imagem do bilionário praticamente comprando pessoas para satisfazer seus caprichos mais estranhos foi a que saiu do relatório (com informações até agora não comprovadas) sobre o novo presidente dos EUA publicado pelo site Buzzfieed.

Se Trump foi eleito porque parte do eleitorado estava insatisfeita com a estagnação de sua renda nos últimos anos, seu perfil concentrador promete que esse problema não vai ser resolvido: teremos mais concentração de renda e mais estagnação para as classes média e baixa nos EUA. Ah, e sem saúde pública ou benefícios sociais. Afinal, mesmo já tendo pedido falência várias vezes, Trump não tem empatia com esse bando de perdedores pobres (que o elegeram).

É estranho que Adam Smith – vendido pelos conservadores como um defensor de que o egoísmo é o motor da economia – seja, na prática, um delicado observador da solidariedade (e da falta de de solidariedade) entre os homens.

Mas é preocupante que, depois de séculos contando com o egoísmo como  motor da economia, tenhamos chegado a um ponto em que a falta de empatia com o sofrimento alheio seja o determinante da mudança política em muitos países.

Se as novas políticas sociais e econômicas forem criadas com esse desprezo total pelo que os outros sentem, aumentaremos ainda mais o sofrimento e a insatisfação a nossa volta.

Nos tempos da tecnologia de informação e dos níveis de renda (total) mais altos já registrados, condenamos pessoas a sofrerem por não poder pagar um médico (e por nosso governo ter sucateado o SUS).

Tenho dificuldade em entender porque parece ter havido uma onda conservadora em tantos lugares. No Brasil, houve uma grande decepção com a esquerda (que o PT engoliu e depois afundou). Mas na Inglaterra? nos Estados Unidos? Sim, havia insatisfação por lá. Mas por que ela foi canalizada nessa direção? Por que não virou pressão por mais serviços públicos? Por que o discurso do imigrante como bode expiatório emplacou?

Eu sei, há o problema do medo. O combustível de quase todo conservador é o medo. Medo de perder o que tem, principalmente. Em tempos de mudança, como a que vem com a migração dos sírios para a Europa, muitos conservadores ficam com medo de perder espaço.

É horrível. Itália, Alemanha e tantos outros países europeus enviaram emigrantes, aos milhões, para todo o mundo nos séculos XIX e XX (quando enfrentaram guerras e crises econômicas). E agora, parte de sua população é fortemente contra receber gente de países em guerra ou em crise.

A falta de empatia, como diria Smith, cria um problema sério para a forma como as sociedades se organizam.

A dúvida é se, apesar de toda a tecnologia e de todo o desenvolvimento econômico que conseguimos nos últimos 300 anos, a falta de empatia e as políticas concentradoras que ela tenta impor terão força para nos levar a uma guerra de todos contra todos, para nos levar a um  período em que políticas toscas desmoralizam os governos e as pessoas não vêem mais para onde correr.

Estamos tomando o rumo do aumento da pobreza? Isso vai ser bem digerido pelas pessoas que votaram nos conservadores achando que eles trariam alguma melhora? E depois, quando a insatisfação aumentar, o que vai acontecer?

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De volta à idade das trevas?

O Globo x Temer

agosto 28, 2016

Na matéria de capa da edição de hoje de O Globo, uma fonte (identificada apenas como “auxiliar de Temer”) diz que, aprovado o impeachment de Dilma, o governo apresentará uma pauta que inclui “PPPs (parcerias público privadas) para esgotos, penitenciárias, hospitais e creches, comprando vagas para as crianças.”

Um turista desavisado que lesse a matéria poderia achar que o jornal é dirigido por petistas e que eles apostam em uma última tentativa de manter Dima no poder – assustando os senadores para que votem contra Temer no julgamento do impeachment esta semana.

Além do timing horrível para esse tipo de manchete (que não traz novos apoios e afasta parte dos que se tem), o conteúdo do texto assusta. Concessões de serviços públicos para empresas de saúde estão tendo que ser revistas no Rio de Janeiro. Aqui, o Ministério Público investiga se os contratos com hospitais e UPAs administrados por empresas privadas foram feitos a preços razoáveis. O próprio governo estadual admite que terá que rever alguns desses contratos pois, pelo preço com que foram feitos, é difícil mantê-los.

A crítica às UPAs não é à qualidade dos serviços: é ao custo com que é oferecido. E, justo na hora em que se fala em cortar custos, alguém (não ficou claro quem) aparece com a bandeira da privatização da saúde.

Países liberais como a Inglaterra têm sistemas de saúde basicamente públicos. Há motivos para isso. Nos anos 60, o Nobel de economia Kenneth Arrow já escrevia artigos sobre como a saúde é uma área diferente onde as leis da oferta e da procura não funcionam do mesmo modo como em um mercado de sabão em pó, por exemplo.

Na saúde privada, quem escolhe o produto ou tratamento (médico) não é quem o consome (paciente) e também não é quem o paga (plano de saúde). Isso cria incentivos distorcidos na hora de escolher que remédio comprar ou que tratamento receber. Ninguém mais compara custos e benefícios porque os custos são do plano, ou do paciente (considerando também o sofrimento como custo) e o médico pode receber pressão do hospital onde trabalha para pedir mais exames ou mais avaliações. Enfim, há décadas se sabe que a expressão “oferta e demanda” não resolve os problemas na área de saúde.

No caso das creches é pior ainda. O que a frase na matéria dá a entender é que o governo quer ressuscitar uma velha ideia de Milton Friedman. Para Friedman, o governo poderia privatizar as escolas e oferecer vouchers para os pais com um valor fixo que eles usariam para pagar ou complementar o pagamento de mensalidades. Quem tivesse mais dinheiro, obviamente, usaria o voucher só como complemento.

A ideia é tão ruim que nem os EUA, terra de Friedman, a adotaram. O maior problema (de novo) é que ela deixa de lado os custos. A proposta de Friedman parte do preconceito de que a escola pública é ruim e propõe troca-la por escolas privadas (sem perguntar quanto custaria isso ou se seria realmente eficiente). Mais uma vez: nos EUA, onde a ideia surgiu, o ensino básico é praticamente todo público.

Sobre presídios privados, os EUA os implantaram – e estão revendo o programa para reduzir aos poucos sua participação no total de presídios. Não foi a solução que eles esperavam (como a própria matéria d‘O Globo deixa claro).

Por último, a fonte oculta d’O Globo usou uma expressão que sempre me dá calafrios: Parceria Público-Privada. Um ex-presidente do Banco Central da Índia, o ultra-ortodoxo professor Raghuram Rajan, escreveu um livro em que  aponta como esse tipo de coisa serve só para transferir dinheiro público para o setor privado. Pelo que me lembro do livro, ele deixa claro que a produção pode ser feita no setor público ou em empresas privadas. Modelos híbridos dão problema, fragilizam o sistema e ajudam a montar grandes crises como a de 2008, que ele analisa no livro.

Espero que a matéria de capa tenha sido só mais um balão de ensaio de lobistas tentando plantar seus projetos no meio da agenda do governo. Como projeto político, essas ideias não têm apoio de muita gente. E como agenda econômica, elas são simplesmente inviáveis (não há mais o que transferir para concessionários amigos: o dinheiro acabou).

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Um pequeno bode na sala?

 

 

A lei de Contra-Say

junho 19, 2016

Um dos argumentos teóricos favoritos dos autores da política econômica do governo Dilma pode ser chamado, sem muita controvérsia, de Lei de Contra-Say.

A Lei de Say original, proposta pelo economista francês Jean Baptise Say no século XIX, dizia, resumidamente, que a oferta cria sua própria demanda. Quer dizer: ao produzir, as pessoas geravam a renda que seria usada para comprar o que foi produzido.

A Grande Depressão, nos anos 30, enterrou a Lei de Say. Havia produção mas, com a demanda fraca, ela encalhava em pilhas de estoques.

A produção não gera necessariamente demanda pelo que foi produzido. Isso é mais ou menos consenso entre os economistas hoje. Em períodos conturbados, pessoas e empresas podem preferir guardar uma parte maior de sua renda – em vez de consumi-la ou de investir em produção. Em situações de crise de demanda (como nos anos 30), vale a pena que o governo incentive a demanda. Até aqui, tudo bem.

Mas os teóricos do governo Dilma deram um passo além: para eles, a demanda gerava sua própria oferta – em uma versão invertida da Lei de Say. Bastaria estimular a demanda e surgiria produção para atendê-la.

Em depressões econômicas, com fábricas fechadas e desemprego em massa, o estímulo à demanda pode sim levar a uma retomada na oferta (pois o conhecimento específico, a estrutura física e os trabalhadores já estão lá prontos para voltar a produzir). Em períodos normais, estímulos fortes à demanda levam apenas a aumentos de preços – como se pode ler em qualquer manual de macroeconomia.

Negando o manual, os teóricos do governo transformaram a população do país em cobaia involuntária de uma experiência fadada ao  fracasso. É claro que a inflação subiu. É claro que empresas e donos de ativos, vendo aquela política temerária ser implantada, não só não investiram como tentaram colher ganhos de curto prazo subindo preços.

Tudo isso era previsível. A única coisa surpreendente é que um governo com ambições  políticas de longo prazo tenha comprado o discurso de lobistas com um horizonte de tempo curto. O surpreendente é que o governo tenha acreditado na cascata acadêmica da Lei de Contra-Say.

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Contra-Say: A solução é construir pirâmides, esfinges e obras olímpicas.

Há empresas esvaziando seus estoques. A queda na produção de bens parece ter sido maior que a queda no consumo desses bens, quer dizer: há sinais de que haverá compradores se as fábricas aumentarem a produção.

O gráfico abaixo mostra a variação de estoques (acumulada a cada 4 trimestres para não ter sazonalidade) e a variação nominal do PIB de 4 trimestres sobre os 4 trimestres imediatamente anteriores.

Além de mostrar que há uma correlação razoável entre as duas variáveis, ele mostra também que a variação de estoques tem sido negativa, quer dizer: aparentemente há mais demanda que oferta no mercado de bens (os serviços são outra história).

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Com estoques caindo, as empresas, em algum momento, poderão se movimentar para repô-los (ou não vão conseguir atender à demanda).

A boa correlação entre as duas séries me fez tentar projetar a variação de estoques a partir da série do PIB. O resultado é a linha cinza no gráfico. Ela também é uma boa notícia: indica que os estoques estão caindo mais rápido do que se pode projetar a partir da variação nominal da renda (a variação do PIB nominal).

Com estoques caindo rápido, há estímulo para que a produção de bens volte a crescer logo.

É, pelo menos, alguma luz lá pelo meio do túnel…

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PS.: Sobre o gráfico acima, usei diferenças em reais para o PIB em vez de taxas de crescimento em percentual. Na série do PIB, os valores em milhões de reais correntes de cada período foram divididos por 10 (para a linha não ficar muito longe da linha da variação de estoques, facilitando a comparação).

A projeção em cinza foi feita com uma regressão simples, de mínimos quadrados.

Os dados originais estão na planilha de “Valores correntes”, no site do IBGE, neste link.

Pequenas expectativas

junho 8, 2016

Somos adaptativos: quando chove, achamos que vai continuar chovendo. Quando faz sol, nossa impressão é que haverá sol no dia seguinte. Na maior parte dos casos, dá certo: acertamos a previsão. Talvez por isso – por um processo de seleção natural de animais/pessoas adaptativos – esse jeito de formular expectativas seja tão natural para nós.

Talvez por isso, em épocas prósperas, todos esperem por prosperidade eterna e, em épocas de crise, a sensação seja de que o poço não tem fundo.

Mas a decadência econômica alguma hora vai acabar. Não dá para dizer bem quando, mas dá para dizer que vai. A máxima de que nada dura para sempre se aplica às crises. A crise vai acabar também porque os prejuízos que causa estão começando a empurrar empresários, políticos e organizações de todos os tipos a fazer mudanças (às vezes até mudanças que envolvam perdas de curto prazo).

A sensação continua sendo de crise sem luz no fim do túnel. Já houve crises que duraram décadas e desembocaram em regimes totalitários. Houve também crises curtas que ajudaram a despejar governantes totalitários. Cada crise tem seus traços específicos. Por isso – expectativas adaptativas à parte – não dá para ter muita ideia de quando a atual vai acabar (mesmo sabendo que, alguma hora, vai).

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“A crise já acabou?”

A prisão do marqueteiro João Santana e a chance de que leve à cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff mostraram que os investidores estrangeiros, afinal, não são loucos por trazer dinheiro para cá.

É uma aposta arriscada, realmente especulativa. Uma aposta que depende da política e do Judiciário e não de analises macroeconômicas ou de mercado. Se depender só da análise macro, é melhor ficar longe daqui. Afinal, a falta de horizonte na economia já faz os analistas falarem em calote, hiperinflação e em outras criaturas que não vemos desde o governo Collor.

Mas, se o Tribunal Superior Eleitoral cassar a chapa Dilma/Temer e um novo governo for eleito este ano ou no próximo, quem trouxe dinheiro para o Brasil (apesar da falta de horizonte que temos hoje) vai ter feito um excelente negócio.

Com a melhora nas perspectivas da economia, o real pode se valorizar e as empresas compradas na bacia das almas também podem se valorizar (em reais).

Como há excesso de liquidez em muitos países (taxas de juros próximas ou até abaixo de zero), faz sentido pôr uma parte dos recursos em apostas arriscadas como empresas brasileiras (uma parte pequena do total). Apostar no Brasil é coisa para especuladores com aplicações muito diversificadas: para investidores de grande porte. Não é o tipo de aplicação em que se põe a poupança para a aposentadoria.

Hoje, a chance de a chapa Dilma/Temer ser cassada é, paradoxalmente, a única justificativa razoável para o dólar não disparar. Como o governo pode cair, ainda é possível ganhar dinheiro com investimentos de longo prazo no Brasil. E, se ainda há chance de ganhar dinheiro, os investidores não saem correndo do país (o que ajuda a manter o dólar em R$ 4 e evita que a inflação dispare).

Aparentemente, a gestão de Nelson Barbosa na economia só consegue se manter sem produzir uma corrida ao dólar porque pode acabar de repente.

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Especuladores de olhos azuis, atacados por Lula em 2009, evitam que o dólar chegue a R$ 5.

Os acadêmicos que tentavam justificar a política econômica do primeiro governo Dilma diziam que bastava estimular a demanda e as empresas tratariam de produzir mais para atender ao aumento na procura.

Agora que a experiência (para não falar na velha teoria ortodoxa) já deixou claro que não é bem assim, vale a pena fazer uma necrópsia da política de Dilma I para ver o que se pode aprender com ela sobre a economia brasileira.

A primeira coisa é: quando o governo estimula artificialmente a demanda, todo mundo entende que ele está fazendo isso. Algumas pessoas pegam carona (sopram bolhas de ativos e aumentam preços em geral) mas ninguém faz planos de longo prazo para não perder dinheiro quando o efeito do estímulo temporário passar.

A segunda coisa, mais específica de economia brasileira, é: aumentar a oferta é difícil, mesmo quando se quer. É só ver as estatísticas sobre fechamento de empresas, o nó burocrático e fiscal para manter uma e a paranóia da contínua mudança nas regras do jogo para entender por que – mesmo quando os grandes produtores não querem arriscar – os pequenos só se dão mal por aqui.

A terceira coisa – e a única de que eu realmente gosto – é: não basta ser amigo do rei, mesmo que, em alguns ramos, isso pareça necessário. As montadoras de automóveis eram amigas do ministro mantega, as construtoras, amigas de diretores da Petrobras e aquele ex-bilionário falido – quando queria vender ações ou pedir empréstimos – posava ao lado do então governador Sergio Cabral e da presidente Rousseff para mostrar que tinha influência e seria favorecido nos negócios pelos amigos. A amizade é necessária, mas não suficiente.

O resumo da história é que não dá para fazer a economia brasileira crescer só inflando a demanda. Enquanto não resolverem os problemas de verdade (a burocracia monstro, a péssima qualidade do ensino, os amigos do rei que atropelam qualquer tentativa de concorrência), não adianta dar empurrõezinhos imprimindo moeda ou aumentando o gasto público.

Ver a presidente na TV falando em “pátria educadora” é ver o mesmo discurso de sempre.

Na mesma semana, ela cortou o orçamento do Ministério da Educação.

Os problemas de verdade não vão ser resolvidos – e, tão cedo, a economia não vai voltar a crescer.

Se forçar a demanda para cima só produziu inflação, para frear a inflação o remédio é forçar a demanda para baixo. E, nessa hora, os empresários têm certeza: não adianta investir, a economia vai fazer água por uns dois anos pelo menos.

Nesse período, a inflação vai comer a renda real das famílias, os juros dos endividados vão subir, os gastos do governo vão ter que cair (menos compras, menos contratados, menos reajuste dos funcionários públicos pela inflação) e as famílias vão pagar a conta apertando o cinto.

Depois dos dois anos, sem os problemas de verdade resolvidos, continuaremos crescendo pouco – apesar do velho discurso sobre o “grande potencial do Brasil”, sobre como nossa renda per capita é só 20% da americana e como isso indica espaço para crescer. Para quem diz isso, recomendo visitar uma escola pública no Rio de Janeiro (nem precisa ir até o Maranhão), ou, pior, recomendo abrir um negócio.

Isso: empreenda, abra um negócio, veja como é grande o potencial do Brasil. Lembre de contratar alguns contadores para acompanhar as mudanças fiscais no setor em que você trabalha – e mais alguns funcionários para dar conta da gincana burocrática de todos os meses (alvarás, fiscalizações etc.). Se der, faça uma doação eleitoral para o próximo prefeito ou governador e, se com toda essa despesa, você ainda conseguir produzir alguma coisa a um preço decente, parabéns: não conheço ninguém tão eficiente quanto você.

Qualidade da educação: o Brasil tem zero Prêmios Nobel, diferente do Chile, Argentina, Colômbia, Peru...

Qualidade da educação: o Brasil tem zero Prêmios Nobel, diferente de Chile, Argentina, Colômbia, Peru…

Hipocrisia, por favor

outubro 28, 2014

Há mais de um, ano a revista inglesa The Economist disse que, se Dilma Rousseff não demitisse seu ministro da Fazenda, não seria reeleita.

Custou muito dedo no olho e todo tipo de golpe baixo, mas Dilma conseguiu desmentir a profecia.

A economia chegou ao fim de 2014 em um estado lastimável. O déficit público está muito maior que o previsto (mesmo sem descontar a maquiagem de Arno Augustin, secretário do Tesouro), a inflação estourou o teto da meta (apesar dos controles artificiais, como o do preço da energia) e o crescimento da economia é negativo (já há dois trimestres).

A dúvida é: para estabilizar a economia, o governo terá o mesmo desprendimento que teve para fazer campanha eleitoral?

Durante a campanha, Dilma insistiu em que a economia estava bem: a inflação estava sob controle e não era preciso fazer grandes mudanças. Repetir isso hoje equivale a expulsar investidores e recomendar às empresas que fechem suas portas – pois a economia vai seguir ladeira abaixo.

Graças à falta de limites do marqueteiro João Santana, o vaticínio da Economist não se cumpriu. Mas ele pode ser renovado: se não mudar rapidamente a política econômica, Dilma não fará seu sucessor em 2018 – nem que seja Lula, nem que contrate dois João Santana.

A economia está degenerando cada vez mais rápido.

Resta saber se Dilma terá – para ajustar a economia – a mesma falta de pudor que teve na campanha. Se terá cara dura para dar independência ao Banco Central – depois de ir pessoalmente à TV dizer que isso seria “criar um quarto poder na República” -, se terá a hipocrisia necessária para chamar um sósia de Armínio Fraga para o Ministério da Fazenda, se fará o ajuste fiscal que nunca, nos quatro anos de seu governo, chegou perto de fazer.

Seus eleitores a perdoarão. Perdoaram imediatamente as barbaridades da campanha. Seus eleitores são seus. Mas, se a economia afundar, alguns deixarão de ser.

Vamos ver se – pelo menos para se manter no poder – Dilma será capaz de trocar os preconceitos ideológicos de sua política econômica por hipocrisia pragmática à moda de Luis Inácio.

Sarcófago da política industrial. A pirâmide, contratada com financiamento do BNDES, não ficou pronta.

Sarcófago da política industrial. A pirâmide, contratada com financiamento do BNDES, não ficou pronta.

Recessão amantegada

agosto 30, 2014

Os jornais se apressaram hoje em dizer que o país está em recessão técnica. 

Recessão técnica, segundo os jornais, é quando o país tem dois trimestres seguidos de queda no PIB.

O curioso é que a definição – usada por jornais do mundo inteiro  – só é usada em jornais: não está nos livros de economia.

Para os economistas, não faz sentido chamar de recessão dois semestres seguidos com taxas de -0.1% e não chamar outros dois, com taxas de 0 e -5%, por exemplo.

O “técnica”, ao lado do “recessão”, devia ser trocado por jornalística, simplista ou outro adjetivo qualquer.

Isso, no entanto, não muda o fato de que os números da economia no segundo trimestre foram bastante ruins: recessão ou não, a economia encolheu.

Mas, mais que que o destaque para um conceito de recessão que não está nos livros, o mais estranho na cobertura da imprensa sobre o PIB talvez tenham sido as declarações do ministro da Fazenda sobre os resultados. 

O ministro não têm a obrigação de dar declarações sempre que o IBGE divulga o PIB. Mas Guido Mantega faz isso – seja para se vangloriar, quando o PIB cresce, seja para dizer que não tem nada com isso (a culpa é da seca, da crise externa etc.) quando o PIB cai.

Desta vez, talvez com o estímulo extra da campanha eleitoral, o ministro deu declarações simplesmente erradas, como a de que os EUA também estão crescendo pouco, ou a de que já há sinais de recuperação para a economia no terceiro trimestre.

Os EUA cresceram mais de 1% no segundo trimestre e os poucos indicadores de julho sobre a economia brasileira já publicados não foram exatamente comemorados pelo governo (ou por quem quer que seja).

De qualquer jeito, o terceiro trimestre ainda está longe de acabar (e o futuro é muito pouco previsível, como o ministro sabe, ou deveria saber). 

Campanha ao pé do ouvido - Camille Claudel.

Campanha ao pé do ouvido – Camille Claudel.

Piketty incendiário

julho 5, 2014

Uma das coisas estranhas em ler Capital no Século XXI é ver como a maior parte das resenhas sobre o livro foi escrita por gente que não o leu.

Eu sei: os prazos da imprensa são curtos e – tirando notas, referências bibliográficas etc. – o livro tem 577 páginas.

Resumindo: Thomas Piketty, o autor, se defende antecipadamente de todas as críticas que li ao seu livro – em resenhas tupiniquins e estrangeiras. Ele sabia quem seriam os seus críticos e que tipo de críticas iriam tentar fazer.

Mas, muito melhor do que isso: ele escreveu que temos um problema bizarro de concentração do patrimônio: com os 10% mais ricos nos EUA, por exemplo, sendo donos de 70% do capital do país (imóveis, ações, empresas, títulos de dívida, terras, patentes etc.). Pior: o 1% mais rico é dono de 35% capital total do país.

Na Suécia, famosa pelo igualitarismo, os 10% do topo têm 50% dos ativos e o 1% mais rico, 20%. Longe da imagem de igualitarismo.

No Brasil… No Brasil não dá para saber. A Receita Federal não permite que as  pessoas atualizem o valor de seus bens no Imposto de Renda. Ela obriga todos a manter o valor de compra dos ativos na declaração – para cobrar imposto em cima da diferença entre o valor de compra e o de venda, quer dizer: para cobrar imposto sobre a inflação.

O resultado é que, para o Brasil, não dá para fazer a conta, muito menos para fazer como Piketty e ver a evolução da concentração do capital ao longo do tempo (ela aumentou muito desde os anos 80, nos países em que há dados).

Mais: a partir das extensas bases de dados fiscais de Piketty, dá para explicar por que a concentração de patrimônio aumenta (é porque a rentabilidade do capital é maior que o crescimento da economia) e propor maneiras de evitar que a concentração aumente ainda mais.

O futuro sem correções de rumo que podemos ter pela frente é parecido com o passado. É como o período pré-Primeira Guerra Mundial, quando o capital era ainda mais concentrado que hoje. Era um tempo em que o mérito contava pouco e o único jeito de ter uma vida “confortável” era ser herdeiro.

Como o capital crescia sozinho (rendia entre 4% e 5% ao ano, em média, enquanto a renda dos países crescia muito menos do que isso), quem já tinha capital ganhava cada vez mais e quem não tinha ficava com uma parte cada vez menor do bolo.

E estamos voltando para lá, para o mundo dos rentistas. A relação entre patrimônio e renda está voltando ao nível pré-Primeira Guerra e a concentração desse patrimônio no topo da pirâmide, também.

O curioso é ver como o ataque de Piketty ao 1% do topo (que tem que pagar mais imposto!) passou bem pelas críticas de lobistas dos mais diversos coloridos ideológicos.

Ultra-ortodoxos como Kenneth Rogoff não conseguiram achar erros conceituais ou desmentir o que a belas bases de dados de Piketty mostram.

Um editor do Financial Times tentou, só para ser lindamente desmontado por uma  réplica de Piketty.

Marxistas mumificados se levantaram dos sarcófagos para criticar Piketty (para quem Marx fez perguntas certas, mas encontrou respostas erradas) e não conseguiram: simplesmente não fizeram mais do que balbuciar que gostam mais de Marx (problema deles).

Em suma: mal atacado pela esquerda e pela direita, Piketty segue como o autor do melhor livro de economia do século (até agora).

É bom ver que a economia pode ser útil, que pode ser mais do que modelos pouco aplicáveis e hipóteses impossíveis de testar (tipo expectativas racionais e outras besteiras que ensinam na faculdade).

O animador no livro de Piketty é ver que a economia pode ajudar a tornar o mundo menos nebuloso, que serve para destacar o que tem importância e que mecanismos produzem, por exemplo, a nossa crescente concentração de renda e patrimônio. O animador – para um economista – é ver que os economistas não precisam trabalhar em bancos e consultorias (Working for the few, como já disse uma ONG que trabalha com combate a pobreza). Há mais na economia do que isso.

Lobista conservador pensa em como criticar "Capital no século XXI".

Lobista conservador pensa em como criticar Capital no século XXI.

Matemáticos gostam de jogar sinuca.

Pelo menos, é essa a impressão que fica em quem vê a quantidade de exemplos em que usam bolinhas de sinuca.

Esta semana, encontrei um (exemplo) que me fez olhar com desprezo para metade das análises econométricas que já li.

A econometria – em tese – está para a economia assim como o laboratório está para a química. É ela quem deveria dar a base quantitativa, a análise de dados, para refutar ou não as teses dos economistas.

Grosseiramente, o que a econometria faz é tentar encontrar relações entre variáveis.

Até a semana passada, eu não teria nada contra encontrar uma equação do tipo:

y = β . x + ε

em que y  fosse o (log do) consumo, o (log da) renda  e β  a estimativa (econométrica) de quanto o consumo aumenta quando a renda fica 1% maior (ε  é o resíduo, a parte do consumo que a renda não explica).

Então apareceram as bolas de sinuca.

O exemplo é um pouco estranho: imagine uma mesa de sinuca com três tipos de bolas: bolas azuis, bolas brancas com uma listra vermelha e bolas brancas com uma listra laranja.

Como é um exemplo teórico, as bolas com listras podem grudar nas bolas azuis quando batem nelas. Se a listra for vermelha, a chance de grudar é de 50%. Se for laranja é de 10%.

Nesse caso, sabendo o número de bolas, por tipo, e o número médio de choques por segundo, é possível estimar quantas bolas estarão grudadas após um certo período de tempo.

Mas, para estimar isso precisamos de duas equações: uma para as bolas com listra laranja e outra para as com listra vermelha, pois a chance de grudar nas bolas azuis depende da cor da listra.

A vontade de simplificar – e usar uma equação só, com uma chance média  de grudar – induz ao erro. Essa média, para ser confiável, teria que levar em conta a quantidade de bolas com listra vermelha e a com listra laranja. Quer dizer: ela não seria uma média para bolas com listras, não poderia ser aplicada a mesas de sinuca com proporções diferentes de bolas laranjas e vermelhas.

Na prática, seria preciso tratar de forma diferente as bolas com listras de cores diferentes.Um β estimado para “listras”, sem levar em conta a proporção de cada tipo, levaria a projeções erradas se usado em uma mesa com outra proporção.

Na equação com renda e consumo, o grande bolo de produtos dentro do item consumo é parecido com as bolas listradas: complica qualquer exercício econométrico de previsão.

Agregação e homogeneidade são coisas que os professores de econometria (e mesmo os livros) citam pouco…

Pavão econométrico projetado.

Pavão econométrico projetado.

PS. O livro do exemplo acima é da safra dos sobre sistemas complexos, se chama: Hidden Order – How Adaptation Builds Complexity, de John H. Holand.

Cara de madeira

junho 26, 2013

Chamada do site do Estado de S. Paulo:

‘Não vi ninguém na rua falando em descontrole da economia’, diz Mantega

Abaixo, o lead da matéria o link para o texto completo. Acho que não preciso comentar.

BRASÍLIA – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta quarta-feira, 26, que não viu reclamações nas ruas sobre controle da economia. “Não vi ninguém na rua falando de descontrole da economia. Posso ter perdido alguma coisa”, afirmou, durante audiência na Câmara.

Texto completo

Máscara de madeira africana - início do século XX, Museu Smithsonian.

Máscara de madeira africana – início do século XX, Museu Smithsonian.

A criatura e seus amigos

abril 23, 2013

Quem nomeia um lobista para um ministério não pode ficar surpreso por ele transformar a pasta em um grande escritório de lobby. No começo, o lobista pode (e deve) ser discreto. Mas, depois de mais de sete anos no cargo, ele pode acabar perdendo o pudor.

Pensei nisso hoje vendo o ministro da Fazenda ao lado da representante da associação dos usineiros (produtores de cana, álcool e afins). O ministro anunciava os favores que faria ao setor: compras garantidas para aumentar a mistura de álcool na gasolina, isenções de imposto, mudança na estrutura de cobrança (agora mais simples) etc..

O saldo da entrevista é a certeza de que hoje, mais do que nunca, fazer lobby em Brasília é muito mais lucrativo do que investir em pesquisa ou comprar mais máquinas e equipamentos. Hoje, mais do que nunca, o Brasil é dos amigos do Rei, ou do ministro, ou do grupo político do ministro.

Mas eles não precisavam  deixar todo o resto de lado. Quer dizer: o que o governo chama de política econômica é simplesmente gerenciamento de lobby. As políticas de isenção específicas para montadoras, produtores de massas alimentícias e afins são só favores para amigos, não há nada de política econômica nisso.

A mudança nas regras para cobrança por energia elétrica foi resultado do lobby de grandes consumidores de energia, do lobby da indústria. Mesmo tendo sido vendida como medida para agradar o povão, seu objetivo era agradar alguns grandes consumidores (para quem a redução de preços foi maior até em termos percentuais).

Pequenos consumidores de energia já têm tarifas mais baratas, o efeito da redução sobre os que já pagavam tarifas sociais e tarifas para pequenos consumidores não vai afetar muito seu orçamento. Já para empresas com maquinário pesado ou processo intensivos em eletricidade (como produção de alumínio), o resultado do lobby foi maravilhoso: muito melhor do que investir em processos alternativos de geração de energia ou fazer qualquer outro tipo de investimento.

E assim seguimos, sem política econômica nenhuma, só atendendo a amigos. E assim a economia vai desacelerando e a inflação vai subindo. Como já disseram os ingleses da Economist, teria sido melhor trocar o ministro…

Escada a baixo, com toda a pompa.

Escada a baixo, com toda a pompa.

Watts: o anti-Freakonomics

fevereiro 12, 2013

O livreiro não sabia classificar o livro. Ou achou que ele ia vender mais ali, em destaque no meio da loja. Mas fiquei assutado em ver o livro novo de Duncan Watts na seção de auto-ajuda.

Watts é um físico que virou sociólogo: dava aula de sociologia na Universidade de Columbia antes de ir para a área de pesquisa do Yahoo!. Ele é um dos principais pesquisadores na área de formação de redes (sociais ou não). Mas seu livro de “auto-ajuda” só começa a falar em redes depois dos primeiros 20% (estou lendo a versão digital, sem número de páginas…).

Ele começa batendo com força na ideia de senso comum. Para ele, usar o “bom senso” para questões macro – que têm muito pouco a ver com nosso dia-a-dia – é no mínimo temerário.

Para ilustrar algumas temeridades do senso comum, ele dá o exemplo de um estudo feito com soldados americanos depois da guerra. O texto do estudo apresenta várias conclusões, como a de que pessoas de origem rural se adaptam melhor ao Exército. O leitor do texto imediatamente pensa: “claro, a vida no campo é mais dura. Normal que alguém do campo se adapte melhor ao trabalho pesado do Exército”. Todas as conclusões do estudo parecem meio óbvias, a ponto de logo o leitor começar a pensar: “Gastaram milhares de dólares para chegar a essas conclusões? Se tivessem me perguntado, eu teria respondido isso.”

Mas aí vem a maldade do autor do estudo. As conclusões do estudo eram exatamente o contrário das apresentadas. O curioso é que as conclusões verdadeiras também pareciam óbvias depois de apresentadas. Por exemplo: pessoas da cidade – mais acostumadas com estresse, hierarquia e afins – se adaptam melhor ao Exército. Óbvio.

Daí o título do livro de Watts: Tudo é óbvio, uma vez que você saiba a resposta.

Mas a melhor parte do livro (até agora, ainda estou no meio) é a em que ele bate nos modelos racionalistas de teoria econômica. Watts é uma espécie de anti-Levitt (o economista do Freakonomics). Para ele, os incentivos e punições pregados pelos economistas tradicionais são simplificações que podem ter resultados completamente imprevistos.

O problema é que as pessoas estão longe de ser tão racionais como os modelos econômicos supõem. E essa parte do texto lista uma coleção de estudos de psicologia com o tipo de incongruência que cometemos no dia-a-dia (que faz corar qualquer sujeito que se julgue mais ou menos racional).

São coisas como preferir um produto barato e um pouco pior a um caro e melhor (mas “mudar de preferência” se na propaganda dos produtos houver também um terceiro: tão bom quanto o caro, mas muito mais caro). Coisas como se deixar influenciar pela música da loja na hora de escolher produtos ou por números (aleatórios) que se viu há pouco tempo na hora de avaliar preços. E todas elas vêm de estudos sobre psicologia cognitiva – cheios de testes com cobaias –  mostrando que, bom, a gente não se comporta como a teoria econômica supõe (sem testar) que a gente se comporta.

Quer dizer: não dá para confiar demais nos modelos que partem dessas hipóteses.

“O problema é que (…) [nesse tipo de explicação] instintivamente enfatizamos custos e benefícios acessíveis à nossa consciência como os associados a motivações, preferências e credos – o tipo de fator que predomina nos modelos racionalistas dos cientistas sociais”, diz Watts.

Watts descreve uma experiência que fazia com seus alunos: falava para eles pensarem em dois países: A e B. Em um deles, 12% da população se registrava como doadora de órgãos, no outro, 99,9% era doadora. O que fazia com que essa diferença surgisse?

Os alunos então propunham as teorias mais diferentes: o nível de religiosidade da população, a qualidade dos serviços de saúde, uma cultura mais individualista, uma frequência maior de acidentes etc.

Os alunos então eram informados que os índices de registro como doador de órgãos eram reais e se aplicavam à Alemanha e à Áustria.

Afinal, o que havia de tão diferente entre Alemanha e Áustria? Bom, na Áustria, o default, na hora de tirar documentos é a opção “doador de órgãos”, na Alemanha não. Lá você tem que dizer que quer ser doador.

Uma coisa trivial, que nenhum dos estudantes de nenhuma das turmas de Watts jamais chutou, era a explicação para a diferença.

E nesse caso, o ponto era só mostrar que o mundo é mais complicado do que  economistas e modeladores supõem. Quando o comportamento humano entra no meio, a coisa fica bem pior. O livro tem um capítulo divertido sobre políticas de incentivo supersimplificadoras – como os bônus atrelados à valorização das ações de uma empresa. Afinal, os executivos trabalhariam pior com bônus menores? Trabalhariam menos? Dariam voltas na empresa? O que – em um comportamento complexo, relacionado a uma infinidade de estímulos – muda com o pagamento de bônus?

Mas a parte que me deixou mais feliz com o livro até agora foi uma pela qual muita gente vai passar direto (mas que merece ser lida com calma). É a parte sobre o que os sociólogos chamam de “problema macro-micro”.

“O problema, resumindo muito, é que os resultados que os sociólogos querem explicar são intrinsecamente ‘macro’, por natureza, o que quer dizer que envolvem um grande número de pessoas (…) E todos esses resultados são conduzidos por ‘micro’ decisões de indivíduos humanos que estão fazendo o tipo de escolha que discuti no capítulo anterior [sobre o que afeta as decisões das pessoas além da racionalidade].”

Os modelos econômicos se desviam desse problema supondo que existe um “agente representativo”, uma espécie de sujeito médio que determina o comportamento da multidão. O problema é que cada um dos agentes reais decide pelos motivos mais diferentes e todos eles trocam figurinhas – influenciando-se uns aos outros. Os resultados dessa interação são muito pouco previsíveis.

O exemplo de Watts é um estudo dele e de outros autores sobre formação de preferências. Os pesquisadores montaram um site de download de músicas de bandas desconhecidas. O site só podia ser acessado por uma rede social cujos administradores eles conheciam. Quem acessava o site podia baixar as músicas e ranquea-las, de acordo com suas preferências.

A maldade do estudo é que, quem acessava o site de downloads era alocado em um de cinco grupos independentes – em que os rankings eram separados. Em quatro grupos era possível ver o ranking estabelecido até então a partir dos votos de quem já estava no grupo. No quinto grupo, era preciso votar sem ver em quem as outras pessoas tinham votado.

O resultado foram rankings muito diferentes, pois a música que começava bem em um grupo tendia a ter mais downloads e mais votos. O quinto grupo foi usado como controle, para ter uma ideia de como seria um ranking sem a influência de opiniões externas.

O irritante é que muita coisa no mundo real tem a ver com esse tipo de interação – e isso não aparece nos modelos econômicos agregados. O que você quer explicar é justamente o que você não vê quando usa o tal “agente representativo” ou quando agrega os dados.

Se isso dá um certo desânimo quanto à teoria econômica que existe hoje, faz pensar também nas coisas divertidas que ainda podem ser descobertas (principalmente agora, quando é possível usar a internet para estudos como o de Watts, sobre interações e influências).

Se não ajudarem a entender como as pessoas são, esses estudos vão pelo menos ajudar a entender como se influenciam umas às outras – o que já é bastante coisa.

Árvore complexa, em um mundo complicado.

Árvore complexa, em um mundo complicado.

Em 1989, pouco antes do início do governo Collor, os jornais passaram algumas semanas especulando sobre quem seria o ministro da Fazenda do novo governo. Os nomes lembrados eram de economistas conhecidos, como Mário Henrique Simonsen. Nenhum jornal levou a sério a hipótese de Collor escolher a assessora econômica de sua campanha, Zélia Cardoso de Melo.

O resto da história é bem conhecido.

Nove anos depois, no início de 1999, FHC convidou Francisco Lopes para ser presidente do Banco Central. A experiência durou poucos dias. Seu saldo foram duas falências de bancos (do tipo que a Policia Federal tem que investigar), o rápido esgotamento das reservas cambiais do país e a criação de um novo modelo de câmbio: a “banda diagonal endógena”.

Quando perguntaram a FHC por que tinha nomeado Lopes, o então presidente respondeu: “Quem não tem cão, caça com gato”.

Se os políticos estudassem história teriam entendido, a partir daí, que caçar com gato é, no mínimo, temerário, principalmente se for um gato doméstico, como um assessor econômico do partido ou um diretor ambicioso querendo ser presidente do BC.

De qualquer jeito, seis anos depois, quando Antônio Palocci foi acusado de quebra de sigilo bancário e deixou o ministério da Fazenda, Lula nomeou Guido Mantega para substituí-lo.

Na época, os jornais noticiaram a nomeação como sendo para um mandato tampão, de dois anos. Eram tempos de mercado externo tranquilo. Para o novo ministro, bastaria manter a política econômica de Palocci e repetir suas justificativas, com frases como: “O Brasil é como um transatlântico – e transatlântico não dá cavalo de pau”.

Mas veio a crise – e Lula manteve Mantega. Depois, Dilma o manteve também. O resto da história ainda não é completamente conhecido. Mas, a julgar pela inflação acelerada, pela queda do investimento e pela destruição institucional que se vê por aqui, a máxima do “não caçarás com gato” vai se mostrar, mais uma vez, verdadeira.

Bode - há outo anos no meio da sala.

Bode – há oito anos no meio da sala.

Em seu emocionante Conto de natal o blog BeyondBrics sugere que Dilma, nossa rena presidente, seja mandada de volta para os anos 70.

O blog foi muito atento. É para lá mesmo que ela parece estar indo (e nos levando junto).

As taxas de juros negativas do BNDES, o aumento das barreiras alfandegárias, o favorecimento a grupos de industriais, a aceleração da inflação, a pouca atenção à educação básica (responsável pela produtividade do trabalho) são marcas do Governo Geisel.

O resultado dessas coisas – os economistas não cansam de lembrar – foi a década perdida, entre os anos 80 e 90.

As discussões sobre o trem bala de Dilma me lembram sempre do trecho abaixo, do livro A ditadura encurralada, de Elio Gaspari. O trecho é sobre a Açominas, uma das muitas estatais que o governo Geisel criou porque não havia mais ninguém interessado em criar – a não ser alguns fornecedores, construtoras e teóricos da “substituição de importações”:

“Deveria ter custado 1,8 bilhão de dólares e entrado em funcionamento em 1980. Custou 7 bilhões e operou em 1986. Sete anos depois, falida, a siderúrgica foi privatizada por 598,5 milhões de dólares” (Gaspari, 2004, p.49).

Em vez de contratar e treinar professores, o governo quis produzir aço. O resultado do dinheiro mal usado é, ao mesmo tempo, investimento sem retorno e má formação profissional. Essas duas coisas juntas são parte da explicação para a década perdida: são queda de produtividade. Nossa produção por pessoa e por cruzeiro investido, passou a ser menor.

O gráfico abaixo é uma estimativa da produtividade da economia do país entre 1950 e 2000. Não precisa explicar muito, o gráfico fala por si.

A produtividade total dos fatores é, resumidamente, a geração de renda ajustada para os aumentos no estoque de capital e de mão de obra.

PTF

Fonte: Gomes, Pessoa e Veloso – 2003.

PS.: Não entendo bem por que os jornalistas daqui não conseguem produzir coisas como o conto de natal do blog do Financial Times. Às vezes tenho a impressão que isso é um dos efeitos do gasto reduzido em educação básica – que o Brasil, tradicionalmente, insiste em manter.

O lobista antigo era formado em direito. Em um lugar muito burocrático, conhecer o emaranhado legislativo era importante.

Que lei mudar, com que funcionário falar, isso era o conhecimento básico do velho lobista brasiliense.

Mas as decisões do governo federal começaram a ficar muito visíveis e foi preciso inventar justificativas para as politiquinhas setoriais que os lobista propõem.

O perfil do lobista, então, teve que mudar.

Hoje, boa parte deles é formada em economia e não se incomoda em – com a maior cara de pau – citar os autores clássicos das formas mais estranhas para justificar “tecnicamente” suas propostas.

Muitos lobistas passaram também a ser nomeados para cargos executivos da administração federal. Alguns até foram nomeados ministros. Mas a maior parte está em diretorias de ministérios.

Para esses casos, valia a pena ter algum conhecimento prático sobre a área para onde foram indicados. Apareceram então os lobistas de origem acadêmica: ex-professores de economia, doutores – com doutorado ou formados em medicina – etc..

O curioso é que são pessoas com um bom nível de estudo.

Em uma terra onde menos de 15% da população tem curso superior, pode-se imaginar que não passariam fome se fizessem outra coisa que não vender peixe ruim com entusiasmo.

Fazem pelo salário mais alto? É só dinheiro? Ou há algo de sadismo em pregar o favorecimento a grandes empresas com dinheiro público?

Vi, semana passada, palestras de dois lobistas da área de saúde (os dois com doutorado em economia na unicamp). Eles me convenceram de que os lobistas não fazem o que fazem por maldade. É por burrice mesmo.

Canudo de doutor não é garantia de eficiência. A articulação com que apresentavam suas propostas faria os dois serem reprovados em seleções para vendedor de loja.

Como então foram dar aula para doutorado?

Uma das ouvintes das palestras me disse que um deles já foi um bom acadêmico, que publicou coisas razoáveis no fim dos anos 80.

Mas, nas últimas décadas, seu cérebro deve ter atrofiado e – percebendo isso – ele passou a fazer lobby (o que é mais fácil que fazer pesquisa a sério).

Isso me tranquiliza.

Se for isso mesmo, os doutores lobistas serão, na média, tão eficientes quanto os sujeitos desconexos que ouvi semana passada.

Claro, a média não é tudo e há alguns lobistas eficientes.

É preciso restringir seu poder antes que algum deles vire ministro da fazenda e comece a aprovar isenções de IPI para montadoras e fábricas de massas! Antes que mude a política econômica para beneficiar a indústria (em detrimento dos consumidores)!

Temos que fazer lobby contra o lobby! (o que soa mal, não sei por quê).

Futuro lobista passeia pelos corredores da primeira faculdade de economia do mundo, a de Cambridge, na Inglaterra.

O governo Dilma está se aventurando por um terreno desconhecido, onde presidente nenhum jamais esteve (talvez Campos Sales, mas não me lembro direito).

Talvez não dure. Há sinais de que Dilma pode mudar de rumo antes de poder se empolgar com o “nunca antes na história…”

A novidade é a seguinte: como seus formuladores de política não são muito criativos, Dilma resolveu seguir as recomendações de seus críticos, quer dizer, trocou a política monetária pela política fiscal.

A ideia, a princípio, é boa: o governo economiza com o corte de gastos e economiza com o pagamento de juros. Corta os gastos e abre espaço para cortar os juros – já que os funcionários públicos e fornecedores do Estado têm que apertar o cinto e parar de gastar em coisas fúteis – como aluguel.

Mas fazer as coisas pela primeira vez é difícil. E aprender fazendo é coisa de amador. O resultado é que a economia está estagnada e a pressão sobre o governo está aumentando. Lobistas de todas as áreas batem à porta para perguntar o que o governo vai fazer para a economia crescer de novo.

Bom, ontem o governo aumentou o salário dos professores universitários federais em até 48%  (em três prestações anuais).

Se seguir por aí vai afrouxar a política fiscal. Dependendo de quanto afrouxar, o resultado pode ser razoável.

Na prática, ninguém sabe qual a combinação de corte de juros e corte de gasto que vai fazer a economia crescer sem a inflação acelerar – é um terreno novo e desconhecido.

Há até quem acredite que não é por aí e que o país vai crescer pouco independentemente de como o governo administre o curto prazo.

Para muitos economistas (e sinto uma grande vontade de concordar com eles) o problema é estrutural: o governo ficou muito tempo empurrando para depois a reforma tributária e outros ajustes que melhorariam a produtividade do país e a conta do não-ajuste estaria começando a chegar.

Bom, é esperar para ver. Com o comércio em queda (vide Pesquisa Mensal de Comércio) pode haver espaço para os juros caírem ainda mais. Mas a queda dos juros demora para fazer efeito – então talvez eles já tenham caído demais e ainda seja cedo para notar…

Não sei. É um mundo novo em termos de política econômica e quem está a cargo da sintonia fina da política é…o ministro Mantega.

Para onde vai a economia?