RIP Jones

maio 19, 2011

Parte do trabalho da imprensa consiste em dizer ‘lord John morreu’ para pessoas que nunca souberam que ele estava vivo. Vou me apoiar nessa velha máxima para dizer a vocês que Charles I. Jones morreu (embora, de fato, ele continue vivo). De qualquer jeito, para mim está morto: não leio mais uma palavra escrita pelo sujeito.

Mas quem é Charles I. Jones? Bom ele faz parte de uma safra de autores que ficaram famosos por escrever os livros-texto mais usados nas faculdades de economia. Os economistas formados hoje estudam Macro no livro do Jeffrey Sachs, Micro no Hall Varian (economista chefe do Google), economia do setor público no livro de Joseph Stiglitz, Introdução à economia com o livro de Gregory Mankiw e Crescimento e desenvolvimento econômico no livro de Charles I. Jones.

Eu dava monitorias de crescimento na faculdade usando o Jones. Mas ontem vi que a caricatura do Inside Job (o documentário ganhador do Oscar) não é uma caricatura. Acadêmicos bem pagos, titulares de cadeiras vitalícias em faculdades famosas, não são mais o que eram antigamente.

Antigamente, na hora de entrevistar um monte de fontes, o acadêmico era considerado uma fonte mais ou menos isenta. Afinal, não sendo empresário do setor ou parte de algum grupo de interesse, ele poderia falar sobre economia sem puxar sardinha para nenhum lado, apenas por amor à análise – ou por vaidade, o que, nesse caso, não é um problema.

Mas uma quantidade cada vez maior de acadêmicos faz hoje um pé de meia extra escrevendo artigos pseudo-científicos para subsidiar lobby político. O Inside job mostra  Frederick Miskin, outro acadêmico famoso, tendo que explicar quem o contratou para escrever um artigo sobre a estabilidade econômica da Islândia – que ele disse ser excelente – pouco antes do país falir.

Bom, Jones é o próximo da lista. Li há pouco um artigo em que ele estima que os gastos dos EUA com saúde podem sair dos cerca de 16% do PIB atuais para 30% do PIB em 2050. O texto é uma grande cascata com fórmulas matemáticas (para desanimar quem tem medo delas). As hipóteses em que ele se baseia para chegar à sua conclusão são simplesmente erradas. Partindo de hipóteses erradas, é fácil chegar à conclusão que se queira.

Jones esquece de olhar para o resto do mundo, onde se gasta em média 8,5% do PIB com saúde. Sua referência é apenas os Estados Unidos, o país que mais gasta em saúde por qualquer critério adotado (e onde a saúde da população está longe de ser a melhor do mundo). Ele supõe que o gasto maior tem a ver com oferecer mais e melhores serviços – em vez de apenas serviços mais caros.

A OECD, tem um estudo recente comparando preços de serviços hospitalares similares em vários países. Esse estudo – que parte de dados e não de suposições peculiares – deixa claro que o problema dos EUA é de preço, não de atender a uma demanda ansiosa por mais tecnologia nos serviços de saúde.

Até a hipótese de que o progresso tecnológico aumenta custos é discutível. Não devia ser uma hipótese inicial em modelos econômicos.

A paridade de poder de compra para hospitais da OECD enterrou de vez o Jones. Mas ele já estava morto antes. Quem lê seu texto com um mínimo de cuidado não tem dúvidas de que o sujeito vendeu a alma ao lobby dos serviços de saúde (que movimentam mais de 15% do PIB americano). Espero que, pelo menos, tenha cobrado caro.

PS. Uma das hipóteses curiosas do artigo do Jones é que o gasto com saúde tem elasticidade-renda maior que 1. Quer dizer: para cada aumento de 1% na renda da população, o gasto com saúde aumentaria mais de 1%. Pesquisas feitas a partir de dados – e não de hipóteses injustificadas – estimam essa elasticidade entre 0,4 e 0,8 para diferentes países.

PS2. O Brasil tem também sua safra de economistas-lobistas. Alguns passaram anos bolando teorias para justificar a transferência de recursos públicos para alguns grupos de empresas. O jeito mais fácil de reconhecer um deles é esperar que use expressões como “déficit comercial do setor” ou que elogie as taxas de juros subsidiadas do BNDES.

O livro de Jones.

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Um livro não é um eletrodoméstico. E um eletrodoméstico não é um livro. Mas a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado discorda. Ela aprovou ontem uma proposta para dar ao Kindle e a similares as mesmas isenções fiscais dos livros.

Mas leitores eletrônicos são máquinas, como televisões, rádios e afins. A isenção, se vier, deveria se para os arquivos de texto, os PDFs de livros, comprados para serem lidos na tela do computador ou no Kindle.

E esses, pelo jeito, vão ter dificuldade em ficar isentos, pelo menos se depender do ministro Dias Tóffoli, do Superior Tribunal Federal (que já derrubou o pedido de isenção para uma enciclopédia jurídica eletrônica).

Senado e STF, pelo jeito, têm dificuldade em definir o que é um livro – por falta de intimidade com o tema, talvez.  Ou talvez porque o lobby dos importadores de Kindle é melhor que o dos leitores de livros.

Toffoli, do STF: um livro é...

Qualquer gerente de farmácia pode dizer que os remédios de graça da Farmácia Popular são pagos pelo governo. E eles dizem. Dizem também que o governo paga o preço cheio, o preço sem desconto, cobrado pela farmácia. Quer dizer: eu quando compro remédio peço e consigo desconto, o governo – maior comprador do país – paga o preço cheio.

Onde estão os chefes de reportagem dos jornais do país que não pautam ninguém para escrever sobre isso? Eles recebem uma parte do bolo das farmácias também?

Começo a achar que sim, afinal, alguns meses atrás, O Globo fez matérias de capa sobre compras superfaturadas da secretaria de saúde do Rio. Políticos falaram sobre isso nos debates eleitorais (e Sergio Cabral fingia que não ouvia), o RJTV entrevistou o secretário de saúde, que desconversou. Como terminou a história? Não sei. Não vi mais matérias sobre isso.

A história de hoje foi da mesma safra: o Senado aprovou um aumento que triplica o preço da energia que o Brasil compra da parte paraguaia de Itaipu. Os preços estavam previstos em contrato. O Brasil então aceitou mudar o contrato para pagar três vezes mais. Por quê?  Se houver uma boa razão, tudo bem, mas as matérias de jornal não davam razão nenhuma. Na TV, senadores do PT diziam coisas sem nexo que não justificavam de forma alguma a decisão. E os repórteres, pelo jeito, se deram por satisfeitos.

Preço da energia paraguaia: concordamos com o aumento por que mesmo?

O estouro da bolha?

maio 13, 2011

Por quanto tempo corretoras e construtoras vão conseguir empurrar imóveis a preços astronômicos para um público que achou que sua renda fosse subir para sempre?

Por pouco tempo. Pelo menos é essa a impressão que fica depois de ver o caderno especial “Mercado imobiliário” do Estadão de hoje. Não, o caderno não diz que a bolha de preços dos imóveis estourou – e também não sai da rotina de entrevistar donos de construtoras que juram que os preços atuais são perfeitamente razoáveis. O curioso é que todas as páginas ímpares do caderno têm propagandas de página inteira de alguma construtora, quer dizer, todas menos uma – que tem a propaganda de página inteira da Caixa Econômica.

Esperar isenção de um jornal tão bem patrocinado é querer demais, mas a despesa ímpar com anúncios pode indicar que vender apartamentos já não é tão fácil quanto alguns meses atrás.

Agora que a inflação engole a renda dos consumidores com mais vontade, pegar empréstimo na Caixa para comprar apartamentos a preços nunca antes vistos na história do país pode começar a parecer uma idéia pior do que já era. Mesmo a velhinha ultraconservadora (que teve a poupança confiscada no plano Collor e só investe no que pode ver e pegar) vai achar que é demais.

Já é tempo de os preços começarem a cair.

E essa profusão de propaganda das construtoras pode ser um sinal de fim da bolha.