O poder deve ser mesmo muito bom. Afinal, por que outro motivo um senhor de 77 anos, com artérias entupidas e grande potencial para se aposentar, se agarraria a ele a ponto de – para ficar mais 14 meses sentado no palácio – reintroduzir o trabalho escravo no país.

Porque cortar a fiscalização e depois avisar para todo mundo equivale a fazer exatamente isso (“Ó, pode fazer que não tem mais fiscal. Agora só levando a polícia até o interior da fazenda do ministro, tirando fotos, anotando nomes e, bom, não vai ter mais lista suja com nome de quem fizer…”).

Por que alguém promove uma barbaridade dessas em torca de alguns votos no processo a que responde no Congresso?

Não que ele ainda tenha alguma biografia para defender. Mas isso é abaixo do fundo do poço. É a barbárie batendo à porta.

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Concentração de renda

maio 28, 2017

Vivemos em uma boa época para quem estuda crises econômicas e recessões violentas. Basta dar uma volta pela rua para ver os seus efeitos: as placas de Vendo e Alugo nas janelas, os mendigos em número cada vez maior…

Mas além dos efeitos óbvios da crise, há alguns surpreendentes. Um deles é o aumento da concentração de renda e seus efeitos sobre o comércio. O que vender em época de queda acumulada de 9% do PIB (desde o segundo trimestre de 2014)? Quem tem dinheiro para comprar? O que essas pessoas querem?

A resposta está em uma loja recém aberta no Edifício Avenida Central, no Centro do Rio. A loja, no térreo (em um bom ponto), vende bonecos decorativos para adultos.

A crise, como também dá para ver a olho nu, é assimétrica: deixa milhões de pessoas sem emprego e renda, mas mal faz cócegas em alguns outros. O 1% mais rico pode gastar R$ 1.176 em um boneco do Coringa ou R$ 3.000 em um do Robocop (o mais caro que vi na loja).

Obra de arte?

Para os menos abastados, bonecos de desenho animado japonês por R$ 700.

Dourados: só para quem não vê os pedintes nas esquinas.

Sair do Rio de Janeiro ajuda a pôr a cidade em perspectiva. Em outros lugares, há bons imóveis anunciados por R$ 150 mil. Na Zonal Sul do Rio, eles custam quase um milhão.

Com os aluguéis é a mesma coisa: muito mais altos no Rio.

Os preços dos serviços privados são mais altos e a prestação de serviços públicos está mais decadente no Rio. Os funcionários do Estado estão com os salários atrasados, as unidades de pronto atendimento de saúde estão com seus contratos (caros) precisando de revisão e a universidade do estado só não fechou as portas porque professores e alunos toparam trabalhar em condições ruins para universidade não fechar de vez.

Ficou caro e ruim viver no Rio. O Estado vai passar as próximas décadas pagando dívidas como a do metrô (assumida para pagar quase R$ 10 bilhões à Odebrecht e Associados). O município também tem dívidas olímpicas a pagar…

Que empresa com alguma capacidade de escolha abriria filiais ou novos negócios nessa  cidade cara e pouco funcional?

A alta de preços e a destruição dos serviços públicos,  então, sinalizam baixo crescimento à frete. E, com ele, virão menos trabalho, menos impostos, menos serviços públicos e uma espiral de decadência.

A saúde pública é um dos maiores exemplos. O atendimento básico – que deveria ser municipal – é feito pelo Estado, em unidades privadas terceirizadas contratadas sem licitação a preços, no mínimo, discutíveis (essas são as UPAs).

Por falta de caixa, o governo cortou os repasses a algumas UPAs, que cortaram o atendimento aos doentes. Há quem defenda que as UPAs deviam mesmo ser fechadas, mas antes é preciso saber o que pôr no  lugar.

Que empresa ou família vai querer se instalar em um lugar em que a saúde pública  é assim, os planos de saúde são caros e a rede hospitalar privada está sobrecarregada?

Sair do Rio é, cada vez mais, a opção para recém formados, aposentados e qualquer um que tenha uma oferta de trabalho ou fonte de renda fora de lá. É o que escuto cada vez mais, das pessoas mais diferentes.

E, de fato, a vida é mais tranquila fora do Rio. Fora de lá, não é preciso ouvir um governador que atrasa salários dizer que quer expandir o metrô até o Recreio dos Bandeirantes.

Se as coisas continuarem desse jeito, os que não forem expulsos da cidade pela crise econômica serão expulsos pelos insultos de Pezão e Associados.

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Urubu em Jurerê: fugindo do Rio de Janeiro.

Gambiarra economics

março 18, 2017

Os remendos, as soluções de curto prazo com objetivos muito específicos, os subsídios, as taxas  juros especiais, os regimes tributários diferenciados, tudo isso faz parte de um modelo teórico heterodoxo que pode ser chamado – com muita precisão – de Teoria endógena da aplicação sequencial de gabiarras ou, como diriam os ingleses, gambiarra economics.

Um dos maiores consensos teóricos a respeito da economia da gambiarra é que ela é uma política de curto prazo: não resiste por períodos de mais de um ou dois anos:

” A gambiarra arrebenta”, já disse um de seus defensores, em voz baixa, em uma sala escura, sem gravadores ou câmeras ligados.

Os incentivos específicos, então, são apenas agrados a amigos. Quem os recebe sabe que eles não vão durar (mas os aceita assim mesmo, afinal, é descortês recusar presentes).

Quando as gabiarras arrebentam, em geral, vem o dilúvio. Os problemas que elas remendavam já cresceram o bastante para estoura-las e a crise vem pior do que parecia possível antes da adoção da política da gambiarra.

O dilúvio, no entanto, atinge com mais força quem estava perto da barragem. Nesse momento, os mais bem informados (ou bem relacionados) já terão fugido ou feito hedge de gambiarra no mercado financeiro.

Os responsáveis pela adoção da política, normalmente, voltam para a academia ou para alguma empresa amiga e imitam Luis XVI, dizendo sorridentes:

“Depois de mim, o dilúvio.”

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A crise bate à porta, entra e fica.

Estudar o fim do mundo

novembro 25, 2016

Passo pelos repórteres acampados no caminho de casa e descubro que sou vizinho do ex-governador Anthony Garotinho (solto esta semana após pagamento de fiança).

Em casa, descubro que a água foi cortada por conta da lenta manutenção da Cedae.

A renda da família está menor graças ao governador Pezão – que parcelou em sete vezes o salário do funcionalismo estadual.

Diante da derrocada (que todos já esperávamos para o pós-Olimpíadas), começo a pensar em largar tudo e ir estudar.

Mas um ex-professor, que encontrei no aeroporto outro dia, traçou um cenário ruim aí também:

“Os centros de excelência”, ele disse, “estão preocupados em publicar artigos em revistas no exterior”. Diante da minha expressão de dúvida, ele continuou: “Os incentivos são para isso, para produzir coisas acadêmicas, teóricas, que sejam aceitas por revistas de fora. Essas coisas práticas que você quer estudar, dificilmente alguém nos principais cursos de economia aceitaria te orientar nisso. Não é algo que renda uma publicação na American Economic Review“.

Quer dizer: o mundo está acabando e até para estudar o fim do mundo é preciso bater de frente com algum incentivo distorcido…

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Vaca cuja tese sobre a queda do muro de Berlim foi recusada na FGV.

– O senhor pretende desviar o dinheiro da prefeitura, pretende usar a verba de publicidade para financiar as suas próprias revistas ou as de seus amigos?

– Pretendo sim. A prefeitura agora vai pôr muitos anúncios na Caviar Lifestile, a revista mais cara do meu grupo, como o nome deixa claro.

Bom, a pergunta não foi assim – e a resposta, muito menos. Mas há alguns momentos em que é importante conhecer a definição clássica de hipocrisia: a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.

Explicando bem: mesmo que um político pretenda desviar dinheiro público para suas empresas ele tem que dizer, enfaticamente, que não vai fazer isso de jeito nenhum. É hipócrita, mas não fazer isso é ofender abertamente o público.

As respostas “não costumo comentar sob hipóteses” e “essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário” não são boas.

A pergunta da repórter foi:

Julia Duailibi: “O que o senhor acha de usar recursos da publicidade da prefeitura para investir em revisas do estilo da Caviar Lifestile? 

João Doria : “Nunca teve isso. Você quer dizer hipoteticamente?”

Duailibi:”Hipoteticamente: uma revista com o perfil da Caviar Lifestile, se batesse lá na porta da secretaria de comunicação e pedisse recursos para publicidade. O senhor acha que recursos públicos poderiam ser usados para esse tipo de publicação?”

Doria: “Julia, eu não costumo comentar sob hipóteses. Essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário.”

A repórter, vendo a derrapada do entrevistado, lhe deu outra chance:

Duailibi: “O senhor pode fazer um exercício intelectual, assim, pensando hipoteticamente…”

Doria: “Eu agradeço, mas fique com o seu exercício você mesma.”

Duailibi: “É de uma pessoa da plateia essa pergunta.”

Doria, virando-se para a plateia: “Também agradeço.”

Duailibi: “Uma boa pergunta.”

Doria, para a plateia: “Não precisa se apresentar mas guarde para você o exercício.”

A entrevista completa, em vídeo, está no site da revista Piaui. O trecho acima vai do segundo 55:11 ao 56:06.

Não acompanho de perto a política local de São Paulo. Nunca tinha visto uma entrevista longa com João Doria. Não tinha opinião formada sobre ele. Agora tenho.

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Pinguim piauiense na plateia se ofende com resposta de Doria.

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Luz (fraca) no fim?

Lembro de meus posts de 2011 sobre o recém empossado governo Dilma. Minha impressão, na época, era de que o maior problema da presidente era a incompreensão do que acontecia na economia: o problema era mais burrice que maldade.

A esperança – eu pensava na época – era o debate. Se os problemas da economia fossem discutidos de forma clara e aberta, talvez se pudesse pôr a política econômica na direção certa.

Bom, eu errei em apostar no debate como solução para mudar os rumos do governo Dilma. O debate nunca aconteceu: o governo não estava interessado em ouvir críticas (por mais construtivas pudessem ser).

Votando aos dias de hoje: Michel Temer parecia, até agora, menos arrogante que a antecessora (o que era motivo de esperança). Mas a reforma educacional por decreto (literalmente por decreto) começou a me convencer de que talvez, de novo, eu estivesse sendo muito otimista.

O teto para as despesas federais, apresentado com pouco debate, também não é um a boa notícia.

Sim, o orçamento está completamente estourado e é preciso fazer cortes significativos. Mas não se corta por decreto. Não funciona assim. Apesar do discurso de que “a saúde será preservada” a proposta continua sendo reduzir a despesa per capita do governo com saúde ao longo dos próximos 20 anos.

Corrigir os gastos com saúde só pela inflação (quando a população cresce) é diminuir o gasto por pessoa ao longo do tempo.

Na saúde, o item em que é menos difícil cortar é a prevenção (é menos difícil que cortar o atendimento das pessoas que esperam na fila e protestam contra a falta de médico). O problema é que é mais destrutivo. Nós vimos isso com os surtos de Zika e Chicungunha no início do ano.

Cortar gastos com saúde pode sair incrivelmente caro – e a despesa extra virá com o carimbo de despesa emergencial, com preço superfaturado e dispensa de licitação…

A solução – mais uma vez – é discutir a sério o corte antes de fazê-lo. É discutir ouvindo as propostas de quem critica (e não dando um desconto no primeiro ano para servir de manchete n’O Globo e reduzindo o gasto per capita nos outros 19 anos do pacote).

Se quiser ser melhor que a antecessora, Temer não apenas terá que fazer cortes – o que ela sempre se recusou a fazer – terá que conversar e ouvir os críticos. Meireles e companhia terão que ouvir os críticos. Eles são bons economistas mas não entendem nada de saúde pública: têm que ouvir para avaliar direito o potencial destrutivo do que estão propondo.

Arrogância e desconhecimento – Dilma já provou – podem ser mais destrutivos que más intenções.

Vale a pena tentar não repetir os erros da presidente cassada.

 

As portas estão fechadas

setembro 21, 2016

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Nas ciências sociais é muito comum que as conclusões venham antes das provas, que venham antes até do início do estudo.

O clássico nesse campo é Karl Marx, que escreveu um panfleto cheio de conclusões (O manifesto comunista) e depois passou anos redigindo três volumes para deduzir, garantir, dar certeza de que o futuro seria exatamente como o panfleto previa.

Marx não foi o único. Uma legião de lobistas defende, todos os dias, as idéias mais viesadas e mal fundamentadas que se pode imaginar. Assim como Marx – que, curiosamente, era financiado por um industrial alemão (Engels) – muitos deles recebem dinheiro de grandes empresas. Outros estão confortavelmente instalados em cargos vitalícios na academia. E boa parte afirma ser capaz de prever o futuro, ou, pelo menos, de entender como a economia funciona.

Marx não devia aparecer nas prateleiras de economia nas livrarias. Estaria melhor classificado em ciência política ou história da filosofia (mas, talvez, políticos e filósofos discordem…).

De qualquer forma, ele tem mais a ver com a defesa de grupos de interesse que com a tentativa de entender como a produção se organiza e como a renda circula pela sociedade.

A dificuldade em perceber isso e a herança estranha que é ter sido obrigado a ler Marx nos primeiros períodos de faculdade mantêm as velhas idéias do filósofo-profeta em circulação nas universidades de todos os cantos do mundo.

Elas são pouco eficazes, as ideias de Marx. Quando chegaram ao poder, os marxistas russos não sabiam o que fazer (Lênin escreveu um livro sobre isso….), mas as ideias se mantêm circulando apesar disso.

A queda do muro de Berlim, em 1989, devia te-las enterrado de vez, não só por mostrar que as pessoas estavam presas do lado de lá do muro (que queriam sair e não podiam), mas por mostrar que a profecia marxista sobre o futuro não tinha se realizado.

Marx era essencialmente um profeta. Seus textos afirmam poder dizer como o futuro seria. Era esse o seu diferencial. Os reformistas bem intencionados, ele chamava de utópicos. Ele não. Não estava propondo melhoras: estava prevendo o desenrolar inexorável da História.

Bom, o futuro é bem menos previsível do que ele imaginava – como qualquer empresário falido já teve o desprazer de descobrir.

A sobrevida das ideias do velho Marx tem dois efeitos colaterais desagradáveis (além de servir de desculpara para ditadores na Coréia do Norte e em ilhas obscuras): ela dá discurso a políticos populistas e atormenta estudantes que poderiam estudar outras coisas (mas fazem matérias obrigatórias com velhinhos dogmáticos).

Marx, se vivesse hoje, seria publicitário. Seu maior mérito foi criar bordões e frases de efeito eficientes: frases que convencem rápido, mesmo que sejam mal fundamentadas ou, no fundo, não digam nada, enfim: frases publicitárias.

Essa herança propagandista foi o que os partidos populistas souberam usar melhor. Nada muito contra. Eles têm todo o direito de alardear velhos e novos slogans com pouco conteúdo.

O que lamento é  o espaço que ocupam – que poderia ser ocupado, até pelas mesmas pessoas, com ideias que descrevessem a realidade de forma um pouco mais precisa.

Ninguém sabe exatamente como o mundo funciona. Mas já temos alguma ideia de como ele não funciona. Temos alguma ideia do que é um delírio e produz catástrofes sociais e do que parece ter alguma chance de dar certo.

O segundo efeito colateral – o efeito sobre os universitários quase indefesos – é seletivo. Para a maior parte deles, as leituras d’O Capital, são um estorvo e as matérias obrigatórias, rapidamente esquecidas. O efeito é só a perda de tempo, esforço e dinheiro. Mas, para uma pequena parte dos alunos (talvez os mais ingênuos ou os maliciosos com interesse em virar acadêmicos com a benção de seus professores), as aulas realmente afetam o que dizem e até o que pensam. É uma deformação que pode levar anos  para ser corrigida – se algum dia for.

Não acho que deviam proibir cursos populistas. Seria usar autoritarismo contra autoritarismo – e o autoritarismo nunca deve ser usado.

A solução é argumentar, conversar, pôr as ideias à prova.

É preciso ter paciência, pois enquanto discutimos, continuaremos vendo grandes delírios sendo cometidos e defendidos por gente que cresceu ouvindo “proletários uni-vos” em uma economia que é basicamente de serviços. Gente que cresceu em uma economia onde o tal proletariado é uma expressão antiga, que não descreve mais os funcionários de fábricas. Hoje, nas fábricas – contrariando as previsões de Marx sobre a piora nas condições de trabalho – há turnos e expediente bem definidos, férias, décimo terceiro e seguro desemprego.

Não é difícil imaginar uma dedicada estudante de primeiro período de Ciências Sociais, ou de História ou de Jornalismo perdendo horas para preparar um trabalho de dezenas de páginas sobre a “teoria do valor-trabalho” e acreditando que o valor do que ela escreve é dado pelo tempo que passa produzindo o texto: que o preço das coisas depende do número de horas usadas para produzi-las.

– Bom, se você encontrar alguém disposto a pagar o que quer que seja por esse texto… – rebateria um colega de turma menos ideológico.

A estudante ficaria triste por um minuto e, logo, começaria a pensar na injustiça do mundo e em como é difícil ter reconhecimento pelo esforço que fazemos.

Bom, é difícil mesmo. Mas isso não significa que suas 20 páginas descrevendo uma teoria antiga (e completamente errada) tenham algum valor.

A estudante – vamos chama-la de Célia – vai se juntar a outros colegas no Centro Acadêmico da faculdade. Mas logo vai perceber que a principal função do Centro Acadêmico é organizar festas (pois há muita demanda por festas na faculdade).

As festas ajudam a financiar viagens para encontros nacionais de estudantes – que também são festas, mas com gente de mais lugares.

Desiludida com o movimento estudantil, Célia vai procurar o partido político que acha mais simpático. Vamos chama-lo de Partido do Sol para Todos.

Mas logo ela vai perceber que o Partido do Sol não segue os preceitos do velho Marx, não acredita na vinda inexorável do comunismo (pois essa hipótese já foi refutada pelos fatos). O que os solares fazem é propor políticas (boas ou ruins) que acham que vão melhorar a vida das pessoas. Na prática, eles não são muito diferentes de um partido social-democrata.

Mas, quando ela diz isso a um representante do partido, sua reação é violenta:

– Não é verdade! Nós não somos como eles, não nos misturamos como eles!

Célia se espanta por o Partido do Sol votar quase sempre com o Partido dos Oligarcas Locais mas odiar o Partido Social Democrata (com quem o Partido da Ogra Defenestrada, aliado do Partido do Sol, disputa espaço em São Paulo).

Enjoada, e achando que tudo aquilo não passa de uma disputa por cargos e verbas, Célia deixa o partido solar e tenta se concentrar apenas em seu curso de jornalismo na UERJ.

Depois de alguns anos de estágio em jornais que se dizem liberais – mas fazem seus funcionários virarem noites nas sextas-feiras para fechar a edição de domingo – ela consegue um emprego na TV Planeta, canal conservador que paga salários um pouco mais altos que a média (e promete bons salários para quem chegar a cargos de chefia).

Em quatro ou cinco anos de TV Planeta, Célia já terá feito a transição de marxista radical para conservadora assustada.

Ela agora vai ter medo da violência urbana – que noticiou nos primeiros três anos como repórter de TV – vai defender a o aumento do número de policiais nas ruas e condenar os “baderneiros” que fazem protestos pedindo melhores serviços públicos.

A transição de uma ideologia simples para o medo de mudanças simples (o conservadorismo) é fácil porque, em geral, é feita sem muitas discussões: é como uma conversão religiosa, uma mudança de credo.

De um dogmatismo a outro, dá para ir sem passar pela liberdade de opinião ou pela defesa do direito dos outros de defenderem suas opiniões erradas.

Se o marxismo desemboca em regimes totalitários, o conservadorismo extremo faz a mesma coisa, pois nada como um pouco de repressão para impedir mudanças indesejadas e “manter as pessoas nos seus lugares”.

O que me assusta nisso tudo é a falta de debate, o excesso de convicção de conservadores assustados (e agressivos) e ideólogos empedernidos (e desatualizados).

Não há liberais. Não há ninguém que se proponha a discutir e a ouvir. Os que posam como liberais quase sempre são conservadores disfarçados, envergonhados por defender a manutenção de uma situação tão ruim…

Os conservadores em países pobres têm esse dilema: conservar “isso que está aí”? Mas eles, em geral, estão satisfeitos desse jeito e têm medo de ficar pior se as coisas mudarem.

Podiam discutir melhor o que mudar em vez de comemorarem a repressão a protestos de rua.

A impressão geral é de que falta debate, falta disposição das pessoas para admitir que podem estar erradas, que podem aprender alguma coisa ouvindo o que as outras pessoas pensam.

Vamos afundar por conta de uma mistura destrutiva de burrice e arrogância ideológica (antes, arrogância à Dilma, agora a arrogância de ministros nomeados para pilhar recursos sem ter que discutir projetos com ninguém. Discutir para quê?).

É curioso que se tomem decisões erradas porque todos acham que estão certos (até os corruptos, até os lobistas em pele de ideólogos…).

 

Ministros nomeados por qualquer motivo que não adotar boas políticas para suas áreas tomarão decisões destrutivas. A boa política (para educação, saúde ou mesmo para a pesca) não surge como um subproduto involuntário a partir da busca esbaforida por outros objetivos.

O problema é que o governo federal já admite que seus ministros não foram nomeados por conta do que pensam ou da política que propõem para cada pasta: foram nomeados para conseguir votos no Congresso. Não se deve então esperar que administrem suas pastas pensando no acesso da população a boas escolas e hospitais. Eles administrarão para dar aos congressistas alguma espécie de contrapartida por seu apoio ao governo.

Às vezes, a perspectiva de ter uma gestão curta em um ministério com muitos recursos pode induzir o ocupante do cargo a pedir contrapartidas muito altas de fornecedores (entregues diretamente aos congressistas), como indica esta nota d’O Globo sobre o ministro da Saúde Ricardo Barros.

Desse jeito, o governo Temer vai ter base parlamentar. Só não terá gestão executiva (e poderá ser ainda mais corrupto que o anterior).

Preferia que o Executivo se preocupasse em gerir a máquina administrativa em vez de apenas conseguir “apoios” do Legislativo. Depois de aprovar a reforma da Previdência (que tem mesmo que ser aprovada), espero que revejam algumas dessas concessões de ministérios (e que o estrago feito até lá não seja grande demais…).

Mas estou sendo otimista – e o que se viu até agora não devia inspirar otimismo.

Concessões “porteira fechada” desse tipo podem ser muito destrutivas. Um ministério não é um capitania imperial para ser concedido a quem quer que seja.

Em troca dos votos do PP, de Ricardo Barros, vão destruir o sistema público de saúde? Vão aumentar o custo dos seus insumos e, assim, diminuir sua capacidade de atender pacientes? Dilma fez isso (e defendia na TV o superfaturado Farmácia Popular) mas, pela grita dos fornecedores, Barros parece estar indo com muita sede ao pote…

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Primo do Pato amarelo: já instalado na Esplanada dos Ministérios.

O Globo x Temer

agosto 28, 2016

Na matéria de capa da edição de hoje de O Globo, uma fonte (identificada apenas como “auxiliar de Temer”) diz que, aprovado o impeachment de Dilma, o governo apresentará uma pauta que inclui “PPPs (parcerias público privadas) para esgotos, penitenciárias, hospitais e creches, comprando vagas para as crianças.”

Um turista desavisado que lesse a matéria poderia achar que o jornal é dirigido por petistas e que eles apostam em uma última tentativa de manter Dima no poder – assustando os senadores para que votem contra Temer no julgamento do impeachment esta semana.

Além do timing horrível para esse tipo de manchete (que não traz novos apoios e afasta parte dos que se tem), o conteúdo do texto assusta. Concessões de serviços públicos para empresas de saúde estão tendo que ser revistas no Rio de Janeiro. Aqui, o Ministério Público investiga se os contratos com hospitais e UPAs administrados por empresas privadas foram feitos a preços razoáveis. O próprio governo estadual admite que terá que rever alguns desses contratos pois, pelo preço com que foram feitos, é difícil mantê-los.

A crítica às UPAs não é à qualidade dos serviços: é ao custo com que é oferecido. E, justo na hora em que se fala em cortar custos, alguém (não ficou claro quem) aparece com a bandeira da privatização da saúde.

Países liberais como a Inglaterra têm sistemas de saúde basicamente públicos. Há motivos para isso. Nos anos 60, o Nobel de economia Kenneth Arrow já escrevia artigos sobre como a saúde é uma área diferente onde as leis da oferta e da procura não funcionam do mesmo modo como em um mercado de sabão em pó, por exemplo.

Na saúde privada, quem escolhe o produto ou tratamento (médico) não é quem o consome (paciente) e também não é quem o paga (plano de saúde). Isso cria incentivos distorcidos na hora de escolher que remédio comprar ou que tratamento receber. Ninguém mais compara custos e benefícios porque os custos são do plano, ou do paciente (considerando também o sofrimento como custo) e o médico pode receber pressão do hospital onde trabalha para pedir mais exames ou mais avaliações. Enfim, há décadas se sabe que a expressão “oferta e demanda” não resolve os problemas na área de saúde.

No caso das creches é pior ainda. O que a frase na matéria dá a entender é que o governo quer ressuscitar uma velha ideia de Milton Friedman. Para Friedman, o governo poderia privatizar as escolas e oferecer vouchers para os pais com um valor fixo que eles usariam para pagar ou complementar o pagamento de mensalidades. Quem tivesse mais dinheiro, obviamente, usaria o voucher só como complemento.

A ideia é tão ruim que nem os EUA, terra de Friedman, a adotaram. O maior problema (de novo) é que ela deixa de lado os custos. A proposta de Friedman parte do preconceito de que a escola pública é ruim e propõe troca-la por escolas privadas (sem perguntar quanto custaria isso ou se seria realmente eficiente). Mais uma vez: nos EUA, onde a ideia surgiu, o ensino básico é praticamente todo público.

Sobre presídios privados, os EUA os implantaram – e estão revendo o programa para reduzir aos poucos sua participação no total de presídios. Não foi a solução que eles esperavam (como a própria matéria d‘O Globo deixa claro).

Por último, a fonte oculta d’O Globo usou uma expressão que sempre me dá calafrios: Parceria Público-Privada. Um ex-presidente do Banco Central da Índia, o ultra-ortodoxo professor Raghuram Rajan, escreveu um livro em que  aponta como esse tipo de coisa serve só para transferir dinheiro público para o setor privado. Pelo que me lembro do livro, ele deixa claro que a produção pode ser feita no setor público ou em empresas privadas. Modelos híbridos dão problema, fragilizam o sistema e ajudam a montar grandes crises como a de 2008, que ele analisa no livro.

Espero que a matéria de capa tenha sido só mais um balão de ensaio de lobistas tentando plantar seus projetos no meio da agenda do governo. Como projeto político, essas ideias não têm apoio de muita gente. E como agenda econômica, elas são simplesmente inviáveis (não há mais o que transferir para concessionários amigos: o dinheiro acabou).

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Um pequeno bode na sala?

 

 

Huxley em Olímpia

agosto 7, 2016

“É como se seus nomes fossem escrito em água”. A frase é de Aldous Huxley, não me lembro se do Contraponto ou do Folhas inúteis. Nos últimos dias, ela me vem à cabeça o tempo todo.

Sempre que vejo um atleta chorando ou dando pulos de alegria olímpica, na TV, penso em Huxley.

Alguém certamente já disse que é perigoso acreditar na própria propaganda. Mas estamos fazendo isso (eu mesmo não sou exceção). Estamos extasiados com imagens meio hipnóticas de gente correndo e pulando, de fogos de artifício e de cantores conhecidos.

Mas isso vai passar. A suave narcose olímpica vai durar um mês. Depois, vamos ficar com listas de nomes escritos em placares digitais (o que é quase o mesmo que escreve-los na água) e os mesmos problemas que tínhamos antes (e talvez mais alguns).

Difícil não pensar que os bilhões gastos em propaganda e entretenimento não pudessem ter um uso mais duradouro. Difícil não pensar nas dívidas que o governo assume para bancar os jogos.

Já ouvi de um governista que, sem os jogos, não teriam esticado o metrô até a Barra.

Nada contra o metrô, muito pelo contrário. Mas, se o critério para alocação de verba for esse (tem para evento, não tem para atender a população), estamos perdidos desde já.

A olimpíada vai criar boas externalidades: vai juntar as pessoas e talvez até esfriar os ânimos. Mas não se pode analisar nada olhando só para os benefícios. O mesmo recurso, usado em outras áreas, não seria mais proveitoso para a população? Se tivessem gastado em coisas básicas como saúde e educação, o resultado não seria melhor?

Não é uma crítica inútil. Por hora, vamos continuar hipnotizados diante da TV. Mas, no futuro, por favor, vamos tentar criar alguma coisa melhor do que emoções rápidas que não deixam traço.

 

PS.: O texto de Huxley é do Folhas inúteis. É o terceiro parágrafo neste link.

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Para o brejo?

A partir do dia 27 deste mês, quem estampar placas com palavras como “ouro”, “vitória” ou mesmo “Rio”, no Rio de Janeiro pode ser preso por até 1 ano segundo uma lei especial criada para atender ao Comitê Olímpico Internacional publicada há dois meses.

Para usar essas e outras 759 expressões registradas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, só pagando patrocínio ao COI.

Os detalhes estão na matéria neste link.

Não dá nem vontade de ver os jogos na TV. A vitória, o ouro e mesmo a cidade (já ficou claro) são do comitê de Genebra.

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Difícil de engolir.

 

O fechamento da Fazenda

abril 24, 2016

Várias matérias de jornal compraram o “shutdown” anunciado pelo Ministério da Fazenda para pressionar o Congresso.

Se recusando mais uma vez a cortar ministérios e cargos comissionados, o Ministério ameaça com uma espécie de greve patronal caso o Congresso cumpra seu papel e impeça o governo de aumentar ainda mais o rombo no orçamento.

Senhores, façam os cortes e recolham o pires: o Congresso não vai autorizar rombos extras agora.

O novo governo – se o Senado aprovar a abertura do processo de impeachment – vai cortar despesas. A alternativa é ver a dívida pública explodir em um prazo muito curto.

Só se espera que o governo Temer tenha algum critério para fazer os cortes. O governo (federal, estadual e municipal) gasta 3,4% do PIB com saúde, 4,4% com educação, e 10,8% com o restante da máquina administrativa (sem contar transferências como aposentadorias a pensões).

Os gastos com saúde e educação são reconhecidamente baixos: ficam perto do fim da fila nas comparações internacionais. Mas na administração, na burocracia brasiliense e na grande conta de transferências (INSS, pensões, subsídios etc…) há espaço para cortes. Nelson Barbosa e cia já deviam ter feito alguns deles.

Vamos ver o que fará o novo governo.

Quanto ao shutdown, é uma expressão importada do governo dos Estados Unidos. La, quando o governo federal estoura o orçamento, os funcionários são mandados de volta para casa (sem salários).

Não é assim que funciona aqui. A lei brasileira não prevê isso.

Não vai ter shutdown. O que vai ter, provavelmente, vai ser impeachment e corte no orçamento. 

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Vaca sagrada – Ministério da Fazenda, 2016.

MASSOLIT tupiniquim

março 29, 2016

É difícil não repetir a História como farsa. E é engraçado ver a esquerda fazer isso (mesmo quando a História é assustadora).

Nos anos 30, na União Soviética, o favorecimento aos artistas pró-regime era tão ostensivo que um escritor de oposição (Mikhail Bulgakov) não resistiu a registra-lo em livro. E assim, contrabandeada para fora da Russia e publicada postumamente, chegou ao ocidente a história da  MASSOLIT a (fictícia) associação literária de Moscou.

Seus integrantes, governistas ou dispostos a escrever por encomenda, viviam em um condomínio de luxo só para escritores e jantavam no excelente, exclusivíssimo  (e subsidiado) restaurante da associação literária.

Para qualquer governo preocupado com auto-promoção, pouca coisa é melhor do que cultivar escritores pró-regime. Mas arte pró-regime é que nem jornalismo pró-regime: é um armazém de secos e molhados (como disse Millor). Nem o pintor do rei da Espanha (Francisco de Goya) pintava decentemente quando tinha que retratar nobres sorridentes nos jardins do palácio. O Goya bom é o Goya velho e surdo: o Goya amargurado dos últimos quadros.

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Melhor que financiamento via Lei Rouanet e patrocínio do Banco do Brasil, só há uma coisa: compra direta de serviços. E aí, de novo, a história tem casos clássicos que a esquerda faz força para esquecer. O mais famoso é o de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, contratado por Frederico III, rei da Prússia, para fundamentar a doutrina de que o o Estado é tudo e o indivíduo, muito pouco.

Depois do período napoleônico, não dava mais para dizer que o rei era rei por vontade de deus. Tinha que haver uma filosofia para justificar a concentração de poder nas mãos do rei. E, para criar essa filosofia, Frederico III contou com um funcionário contratado: Hegel.

Os detalhes sórdidos do caso são descritos pelo também filósofo Karl Popper, no excelente A sociedade aberta e seus inimigos. A descrição da MASSOLIT está em Mestre e Margarida (incrivelmente mal traduzido para o português). E a possibilidade de encontrar filósofos governistas hoje está à disposição de qualquer um que leia jornal.

Um filósofo pró-governo não é muito melhor do que um artista pró-governo. As pessoas de quem se espera crítica (serve até critica construtiva) não deviam ficar elogiando os poderosos. É constrangedor. Me sinto envergonhado por eles.

Mas vai ser ainda mais constrangedor (e mais engraçado) se eles forem elogiar Michel Temer daqui a alguns meses, quando o governo Dilma terminar (o que parece cada vez mais provável).

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Goya, em sua melhor fase.

Dinheiro de fora, até quando?

fevereiro 16, 2016

Ainda há investimento estrangeiro direto suficiente no Brasil para compensar o envio líquido de juros de dividendos ao exterior e segurar a cotação do dólar em R$ 4. Mas não consigo entender por quê.

Quem são os investidores externos que põem dinheiro aqui? Que luz no fim do túnel eles conseguem ver que eu não consigo?

Alguém vai dizer que são os juros reais de até 7% pagos por alguns títulos do Tesouro. Mas basta uma leve sacudida do câmbio para engolir os 7% em menos de uma semana.

Ontem fiquei feliz em ler a avaliação de um gestor de fundo de investimento que também não entende esse otimismo do investidor externo (feliz porque não sou o único que não entende).

Ok, o Brasil está barato. Mas, se a economia depender da habilidade e do realismo da atual equipe econômica, os ativos ficarão ainda mais baratos, perderão ainda mais valor.

A conclusão que dá para tirar desse não entendimento é que, se os investidores externos começarem a pensar como os brasileiros, o dólar pode subir mais (e, com ele, a inflação).

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Investidores externos a caminho da Bovespa.

O arsenal da Fazenda

janeiro 31, 2016

No início do ano, o mercado reagiu com ceticismo aos discursos ortodoxos do novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Mas Barbosa ainda poderia usar medidas concretas para convencer empresários e investidores de que não adotaria o mesmo tipo de política que implementou no início do primeiro governo Dilma, quando era secretário de Política Econômica.

As medidas concretas, no entanto, foram na direção contrária.

Em menos de um mês, a nova gestão da Fazenda já tem um Banco Central completamente desmoralizado (o banco tinha recuperado parte de sua credibilidade no período de Joaquim Levy na Fazenda). A falta de credibilidade diminui o poder do BC para administrar expectativas e conter a inflação. A sinalização ruim indica que os gestores da política econômica não estão apavorados com a alta dos preços (e eles deveriam).

Esta semana, a Fazenda anunciou que despejará R$ 83 bilhões a juros baixos (TJLP) no mercado – o que também é inflacionário. Enquanto o Banco Central retira moeda da economia com os juros altos, a Fazenda a devolve com taxas mais baixas.

A heterodoxia é tanta que, entre as linhas de crédito do BNDES anunciadas, há uma para financiar capital de giro. Não dá nem para dizer que estão financiando investimento de longo prazo. Mais uma vez, o banco dará dinheiro a empresários a taxas de 6,25% ao ano (nominais) para que eles apliquem esse dinheiro a 14,25% (que é quando o governo paga quando pede emprestado). Mais uma vez, juros abaixo da inflação. Mais uma vez, a preferência por atender a demandas de curto prazo – em detrimento do controle da inflação no longo.

Se for por aí, o governo conseguirá – de novo – fazer os analistas de mercado parecerem otimistas ingênuos. As projeções de inflação para 2016 já estão acima de 7%. Mas, com mais medidas heterodoxas (e com a indexação generalizada que existe no Brasil), o governo pode conseguir resultados ainda piores.

Conseguiremos ter inflação acima do teto da meta e recessão (de novo), como em 2015.

É isso que o governo tem para oferecer? É essa a ortodoxia que prometeu?

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Enquanto a política monetária tenta enxugar a economia, os heterodoxos adotam o chfariz de liquidez.

Cidade de fachada

janeiro 24, 2016

No início do século XX, quando pôs abaixo centenas de casas para construiu “um boulevard com a mesma largura dos de Paris”, o então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, despejou milhares de pessoas. Para coroar sua obra, ele fez um concurso de fachadas, garantindo que a nova Avenida Central fosse vistosa.

Hoje, como no início do século passado, mosquitos assolam os habitantes da cidade – mas suas fachadas estão lindas. A prefeitura intima os moradores a pinta-las (e diminui impostos se pintarem com duas cores, destacando os arabescos do projeto original).

Lembrei de Pereira Passos ontem, andando pelas ruas do Rio e vendo as belas casas e prédios pintados e cheios de placas de “vendo” e “alugo”. São belas casas vazias, algumas com goteiras e mofo por dentro – mas (quase) todas devidamente pintadas por fora.

Das fachadas originais da Av. Rio Branco sobraram poucas. Da própria Rio Branco original sobrou pouco. Já remodelaram a rua para tirar os bondes e agora a estão quebrando de novo para reinstalar os bondes. As empreiteiras responsáveis pela obra agradecem.

É muito estranho passar pela Sete de Setembro e ver os trilhos do bonde antigo aparecendo no solo recém escavado. Depois de anos enferrujando sob o asfalto, eles serão finalmente arrancados, para dar lugar aos novos trilhos.

Os trilhos mudam, as fachadas são repintadas, as doenças transmitidas por mosquitos ressurgem, os despejos de moradores na Zona Oeste são rotina, a dificuldade em morar perto do trabalho a preços decentes persiste e os serviços públicos (principalmente a saúde pública) continuam lastimáveis.

Enquanto a grande preocupação do governo for a fachada, não se deve esperar nada muito diferente.

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Fachada em país rico – mais bonita que as daqui.

A arrogância e a ignorância têm um papel central na história das depressões econômicas. Quem mostra isso de um jeito muto claro é o economista Liaquat Ahamed, em seu livro Lords of finance – the bankers who broke the world.

No livro, Ahamed traça o perfil e acompanha as decisões dos presidentes dos bancos centrais de Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha de 1914 a 1944. Como aula de história do pensamento econômico, o livro é impressionante. O que ele deixa claro é que os presidentes dos maiores Bancos Centrais do mundo não tinham a mais vaga ideia do que estava acontecendo na economia e tomaram decisões capazes de transformar uma crise econômica na Grande Depressão.

Os economistas aprendem isso nas aulas de história, mas o livro – por ter uma pesquisa detalhada e ser muito bem escrito – ressuscita personagens como o pomposo Montagu Norman, presidente do Banco da Inglaterra na época. O ápice da arrogância misturada com desconhecimento ficou registrado na frase do Secretário do Tesouro dos EUA, Andrew Mellon. Mellon recomendou deixar os bancos e empresas quebrarem como solução para a crise:  “liquidate labor, liquidate stocks, liquidate farmers, liquidate real estate… it will purge the rottenness out of the system”. Mas o livro de Ahmad deixa claro que Mellon não estava sozinho: a falta de humildade para lidar com a crise era muito disseminada entre os governos e bancos centrais na época.

Naquele tempo, os economistas se consolavam dizendo que, no longo prazo, os preços de insumos e salários se ajustariam (cairiam) e isso estimularia a produção. No longo prazo, a economia voltaria a funcionar.

O economista inglês John Maynard Keynes – talvez o primeiro a entender o que aconteceu nos anos 30 – respondeu a isso com sua frase famosa: “No longo prazo, estaremos todos mortos”.

O problema é que a frase – no Brasil pelo menos – foi apropriada por lobistas, que a usam para defender políticas que produzem pequenos ganhos de curto prazo e tragédias em prazos um pouco maiores.

A inflação alta de hoje tem a ver com essa política de esquecer o longo prazo para não ter juros altos no curto. A crise fiscal tem a ver com a politica de gastar mais no curto prazo e torcer para ter aumento de arrecadação no longo. O baixo crescimento da economia tem a ver com a política de não fazer reformas estruturais no curto prazo – e torcer para a casa não cair no longo.

O longo prazo, segundo os manuais de macroeconomia, é quando todos os fatores de produção se ajustam. Em bom português: o prazo longo é aquele em que dá para construir fábricas, estradas e hidroelétricas, dá para a oferta se ajustar às mudanças na economia. No curto prazo, só a demanda muda.

Devia ser óbvio que não dá para administrar a economia olhando só para o curto prazo, só para a demanda.

Mesmo políticos que vivem em função do calendário eleitoral costumavam pensar nisso (e fazer ajustes no primeiro ano de governo, para tentar chegar melhor ao último).

Mas a arrogância das escolas econômicas ultra-curtoprazistas aqui do Brasil parece levar seus representantes a manter a cabeça no curto prazo até em início de governo.

O resultado será depressão econômica e – por que não? – depressão psicológica também.

Os autores da política, isolados em seus gabinetes, não sentirão os efeitos da crise. Muita gente não sente. Os bares do Leblon têm fila nos sábados a noite. A crise é desigual. Quem tem boas aplicações em títulos públicos não muda seu padrão de vida. Quem tem emprego, vê a renda real cair (por causa da inflação alta). E quem perde o emprego sofre com a falta de renda e de perspectiva.

A crise vai durar porque, para o governo atual, o longo prazo não existe.

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Para ler durante a crise.

De alguns meses para cá, passei a detestar a definição de leveza de Milan Kundera, que aparece logo no início da Insustentável leveza do ser. No livro, o descompromisso do personagem principal, sua leveza, permite que ele sobreviva a uma ditadura opressiva sem ser esmagado pelas decisões do governo. O mundo é leve: é melhor não se preocupar.

Mas, no Brasil de hoje, acontece o contrário: os governantes são leves. Eles andam despreocupados, alocando no fundo partidário verba que podia ir para o combate à Zica. Na prática, matam gente para ter mais recursos para a propagada eleitoral. E isso, sem angústia, sem sentimento de culpa. O mundo é leve: é melhor não se preocupar.

O ministro da Saúde dá declarações em tom leve à imprensa, dizendo que é melhor as mulheres contraírem Zica antes da idade fértil, para se imunizarem antes da gravidez (sofrimentos, riscos e efeitos desconhecidos da doença à parte). O mesmo ministro diz que, se conseguirem produzir uma vacina, ela não será para todos (imagine gastar dinheiro público com vacinas!), será para grupos de risco. Quer dizer: em vez de política pública para erradicar a doença – como deve ser feito – ele optaria por um paliativo, que mantém para sempre a doença em circulação. Afinal, o mundo é leve e é melhor não se preocupar.

Essa capacidade de não olhar para os efeitos das próprias decisões é um primor de autonomia psicológica. É preciso ser muito duro (ou muito cego) para tomar decisões desse tipo e não fazer um harakiri depois. Ou então é preciso acreditar que o mundo é leve, que é melhor não se preocupar.

O ministro – trancado em um gabinete em Brasília – se sente a salvo do vírus (e de tantas outras doenças para as quais falta atendimento médico no país). Seus colegas, barganhando verbas de campanha, também se sentem a salvo (contanto que tenham verba para se reeleger). Ninguém se preocupa muito. O mundo é leve. Pelo menos para eles.

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Mais leve que uma pluma.

Nos últimos 13 anos a história se repetiu, quase sempre como farsa: a inapetência administrativa do governo só foi superada pela incapacidade da oposição de apresentar um discurso decente.

Hoje, não há nenhum nome de PSDB, PPS ou afins em que o eleitor médio se sinta entusiasmado para votar. Os votos da oposição são votos contra o governo – e não votos a favor de Aécio, Serra ou Roberto Freire.

A maior parte dos deputados de oposição é de pessoas pouco conhecidas, eleitas “na aba” dos votos do partido ou de algum deputado bem votado.

E até os deputados bem votados são uma desgraça para a oposição. Jair Bolsonaro, do Partido Progressista do Rio de Janeiro, por exemplo, é tudo que a oposição não deveria ter.

Em disputas polarizadas, como as do cenário político atual, vence quem estiver mais perto do centro. Esse quase axioma eleitoral é o que orienta candidatos a cargos majoritários a não apresentar programas de governo e não tomar posição sobre temas polêmicos em suas campanhas.

Os radicais – pró-governo ou contra – já são voto garantido de cada um dos lados. São os centristas/indecisos que definem as disputas. E políticos como Bolsonaro – com seu discurso militarista/machista/anti-homossexuais/ultraconservador – espantam mais eleitores do que atraem.

Ele vai sempre se eleger como representante dos ultraconservadores (que merecem ser representados), mas como nome de destaque da oposição, seu papel é destrutivo, é o de empurrar votos de volta para o governo.

Essa é a lógica que sempre fez o PSDB ter tanto amor ao muro, à indefinição, ao esperar para ver.

É também a lógica que fez o PT gastar horas de propaganda eleitoral para vender a ecologista Marina Silva como uma “representante dos banqueiros” (ideia tosca mas repetida incansavelmente, até isolar Marina longe do centro no espectro político).

Mas tudo isso é para dizer que, nos últimos meses, a oposição se superou em sua capacidade de fazer campanha contra si mesma. Na hora em que o governo estava mais frágil e a oposição devia ir para perto do centro para ocupar espaço, ela se isolou à direita.

O senador Aloysio Nunes (candidato a vice de Aécio) emendou a proposta de lei anti terrorismo para torna-la mais repressiva. Seu colega de PSDB, o governador Geraldo Alckmin, mandou a polícia bater em estudantes secundaristas que protestavam contra o fechamento de suas escolas. Enquanto ele fazia isso, seus colegas de partido apareciam na TV perguntando quando o povo irá às ruas pelo impeachment da presidente.

Bom, se depender do PSDB, nunca.

Quanto mais a oposição mostrar seu rosto conservador, seu lado elite paulistana, menos chance o impeachment vai ter.

Eu sei: o governo tem deixado claro que sempre se pode contar com sua capacidade de enfiar os pés pelas mãos e fabricar crises. Mas isso não muda o fato de que a oposição, nos últimos meses, passou de muda a auto-depreciativa.

Vejam a diferença: o governo trocou um ministro da Fazenda ortodoxo por um heterodoxo – que assumiu jurando que será ortodoxo. Ninguém acreditou. Se fosse para ser ortodoxo, era melhor manter o ministro antigo. Quer dizer: sozinho, mais uma vez, o governo cria a crise e enfia os pés pelas mãos. Mas, como concessão mínima ao centrismo e à marquetagem, o ministro heterodoxo assume o cargo jurando fidelidade à ortodoxia econômica.

É pouco? Sim. É só discurso? É. Mas nem isso a oposição sabe fazer.

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Pedras e espinhos. É tudo que a oposição tem para oferecer?