A queda de 32,9% que foi de 9,5%

PIB EUA

Eu ia dizer que, finalmente, os editores de jornal tinham usado o “desaba” de forma correta em uma matéria sobre PIB, mas… Bom, a notícia mais ou menos falsa nem é do jornal – que chama a atenção para ela no subtítulo – é do BEA, o IBGE americano. Por tradição ou teimosia marqueteira, o BEA publica seus índices trimestrais anualizados (quer dizer, publica o que a queda no trimestre seria se ela acontecesse em todos os trimestres do ano).

A queda de 32,9% no PIB americano, então, foi de 9,5% . A conta é quase simples. Para transformar os -32,9% em taxa, somamos 1 a -0,329:

1 – 0,329 = 0,607

Esses 0,607 são elevados a 1/4 para ter a variação em 1/4 do ano que, acumulada, daria 0,607. Elevando 0,607 a 1/4 chegamos à taxa de 0,905.

Subtraímos 1 de 0,905, para transformar a taxa de volta em percentual:

0,905 – 1 = -0,095

E temos os -9,5% de queda no trimestre.

Chamo a forma de divulgação do BEA de teimosia marqueteira, porque essa anualização dos dados trimestrais não é o que os manuais internacionais recomendam – mas é o que os EUA sempre fizeram. E fizeram porque, em tempos normais, quando a economia cresce, o dado anualizado dá uma sensação de crescimento maior que o número que, de fato, foi estimado. Um crescimento de 1,0% no trimestre, publicado desse jeito, vira 4,1% na manchete do jornal.

De qualquer forma, o mais curioso para nós aqui no Brasil é que a FGV já projetou  uma queda de 10,5% para o PIB brasileiro entre março e maio, comparados aos três meses imediatamente anteriores. Sim, nesse trimestre móvel estimado pela FGV, o PIB daqui caiu mais do que o dos EUA entre abril e junho. A manchete sobre o Brasil, no entanto, vai ser PIB “desaba” 10%, enquanto a sobre os EUA é PIB “desaba” 30%…

Na capa do site do Globo, a economia da Alemanha (que publica seus dados de forma correta, sem anualizações) caiu 10,1%. No segundo trimestre de 2020, então, a queda lá foi maior que a dos EUA que, em vez de 32,9%, caíram 9,5%.

A estagnação dos economistas

A economia do mundo está desacelerando. E o economista mais tradicional do planeta já tem uma explicação para isso. Larry Summers, sobrinho de dois prêmios Nobel de Economia (Paul Samuelson e Kennet Arrow), ex-aluno e ex-presidente de Havard, ex-secretário do Tesouro e ex-mais-um-monte-de-coisas recuperou uma tese dos anos 30 segundo a qual a economia pode estar entrando em uma estagnação secular.

Em uma matéria de hoje na Folha de S. Paulo, Érica Fraga resume a ideia da estagnação secular:

“Cunhado na década de 1930 pelo economista Alvin Hansen, o termo ‘estagnação secular’ descreve um forte aumento na tendência a poupar recursos, que derruba os juros, mas é incapaz de animar os empresários a investir.”

O irritante, no entanto, é ver que a mania dos economistas de pensar em grandes agregados (o investimento, a poupança) ajuda todo tipo de lobista a empurrar as explicações mais toscas para a crise. Na matéria da Folha, Fraga ouve economistas que falam em “aumento da proporção de idosos”, “endividamento das empresas” e outras cascatas que não têm nada a ver com o problema.

Ela cita o problema, em um parágrafo curto, sem referência de autor:

“A maior desigualdade de renda em países ricos também tem sido investigada. Enquanto os ganhos adicionais dos mais pobres tendem a ser direcionados ao consumo, o rendimento extra dos mais ricos é destinado principalmente à poupança.”

Sim, o problema é que os ganhos de renda dos últimos anos estão indo para o 0,1% mais rico em cada país. Essas pessoas não têm como consumir muito mais do que já consomem, então aplicam o que ganham: emprestam para o governo ou compram ativos como ações e imóveis. Quem precisa de mais renda para comer, estudar, morar não a recebe. Se recebesse, veríamos o consumo crescer.

Resumindo: as economias não crescem – e vão continuar sem crescer – porque os ganhos de renda não vão para consumidores, vão para quem já é dono de quase tudo. Sem consumidor não há mercado e não adianta investir em aumento de produção se não houver mercado consumidor. Não adianta baixar juros para as empresas, não adianta criar facilidades para produtores: a economia ficará estagnada por falta de demanda.

Isso não quer dizer que as políticas pró-demanda de dois governo atrás estivessem certas. Na época, o Brasil tinha desemprego baixo, capacidade ociosa também baixa e inflação em alta. Nesse cenário, estimular a demanda só aumenta ainda mais a inflação.

Mas agora temos o cenário oposto: capacidade ociosa nas empresas, desemprego alto e inflação baixa. Nesse cenário, faz sentido sim estimular a demanda e faz mais sentido ainda ter políticas de distribuição de renda que levem renda a quem precisa e, ao mesmo tempo, façam o mercado consumidor votar a se mover.

Foi curioso ver outro Fraga, Armínio, semana passada, dizer na TV que o maior problema do país é a distribuição de renda. Concordo com ele. Ele só teve dificuldade em dizer que hoje, se o governo gastar com isso, a economia tem chances de sair da estagnação. Para Armínio, recomendar política fiscal expansionista no Brasil é como “recomendar cerveja para um ex-alcoólatra.”

Desculpe senhor Fraga, mas não é isso que diz o manual de macro. Quando falta demanda, faz sentido estimular a demanda. E supor um descontrole futuro de gastos não é argumento para não adotar a política correta. O correto é gastar agora e conter gastos quando a economia estiver mais acelerada (já com arrecadação crescente e boas perspectivas). Conter agora para conter mais ainda depois (com a economia estagnada) é realmente uma ideia heterodoxa – defendida, veja só, por egressos de Chicago!

Já vi declarações de subordinados de Paulo Guedes segundo quem a equipe econômica atual é de “supply siders” e eles não farão essas “coisas de demanda” do governo Dilma. Prezados, com inflação em alta e desemprego baixo é errado estimular a demanda. Mas com desemprego alto e inflação controlada isso é a coisa certa a fazer. Distribuam renda, com recurso público (em vez de concentra-la cada vez mais). Eu sei: isso vai contra seus interesses pessoais imediatos, mas vocês também vão ganhar mais quando a economia voltar a crescer.

A alternativa é ver a concentração de renda aumentar ainda mais, o mercado consumidor encolher, a produção ficar onde está e o discurso da estagnação secular ficar circulando por aí, como se o crescimento baixo fosse uma fatalidade – e não o resultado de deixar bilionários sem imposto e necessitados sem recurso.

esfinge

Esfinge fácil de decifrar.

 

Desminionizamento

O santo graal da política hoje, aquilo que todas as pessoas minimamente preocupadas com o destino do mundo procuram, é o processo de desminionizamento. Descoberto o processo, será possível fazer com que uma grande quantidade de pessoas concorde (novamente) que a tortura é uma coisa que não deve acontecer nunca, com ninguém, que o Estado não deve matar pessoas nem perseguir minorias e que crimes de Estado não farão do mundo um lugar melhor, pelo contrário.

O método deve envolver figuras ou (preferencialmente) vídeos, pois os mínions são muito resistentes a textos e são capazes de ignorar completamente argumentos apresentados oralmente por um interlocutor de carne e osso.

Se o processo funcionar, o ex-mínion se tornará capaz de dizer coisas como: “a apologia da tortura é crime, como alguém pode fazer uma coisa dessas?”, ou: “não sei como apoiei essa bizarrice, mas é melhor admitir que estava errado do que insistir nesse absurdo” ou ainda: “não faz sentido apoiar políticos preconceituosos que defendem a execução de bodes expiatórios”.

Alguns acadêmicos dizem que o minionismo tem a ver com a incapacidade dos mínions de se colocar no lugar de outras pessoas. Ele seria uma espécie de aristocratismo de pobre (ou de rico mesmo, em alguns casos). O método desminionizador, então, poderia criar imagens do mínion sendo torturado na frente de um presidente que ri e diz: “Vou te contar como ele morreu” ou imagens da família do mínion sob a mira de policiais acompanhados por um presidente que, de novo,  ri e diz: “Vão morrer como baratas!

Mas talvez nem assim o mínion consiga se pôr no lugar das pessoas transformadas em bodes expiatórios por políticos populistas. Nos EUA, já há mínions promovendo massacres de latinos em cidades na fronteira enquanto o presidente local diz que deputados negros devem “voltar para os lugares infestados de crimes de onde vieram“.

Aqui, estamos copiando o modelo – e nossos mínions já são tão ou mais resolutos que os deles. A defesa do extermínio está no twitter e na boca dos presidentes. E não é a primeira vez na História que chefes de estado defendem o assassinato de parte da população.

É preciso impedir que isso evolua, é preciso tirar o apoio popular desses políticos. Por isso digo que o desminionizamento é o santo graal da política. Ele é nossa única esperança.

Espero que alguém descubra logo o processo. Os mínions da minha família continuam ignorando todos os meus argumentos. É como falar com as paredes.

Mínion, eu?

PS. Nem todos os apoiadores do governo são mínions. Mas os que não são são piores ainda. Eles têm mais clareza sobre o que estão fazendo…

As editoras brasileiras não estão em crise, elas acabaram

A crise dos livros no Brasil vem de bem antes de as redes Saraiva e Cultura pedirem recuperação judicial. As vendas de livros já vinham caindo desde 2014. Os dados do IBGE sobre preços de livros (IPCA) e volume de vendas (Contas Nacionais) mostram que o volume caiu apesar de os preços terem subido bem menos que a média do itens do IPCA desde o início da crise. Mas a crise pode não ser só de demanda.

O papel das livrarias é vender livros, o das editoras, criar livros para serem vendidos. E, há alguns anos, elas pararam de fazer isso. Sem livros novos para vender, as livrarias mostram em suas vitrines apenas velhos autores reeditados e traduções: nada que venda muito. Quando pensamos em autores brasileiros, vêm à cabeça nomes como Paulo Coelho, Rubem Fonseca, Jorge Amado, Fernando Sabino, autores do século passado.

Mesmo a safra mais nova de autores – como José Roberto Torero, Daniel Galera, Daniel Pellizzari ou Patrícia Melo – foi lançada no século passado. Não há autores novos. Quanto um Jorge Amado representava das vendas quando era um autor novo? E um Fernando Sabino? Mas não há novos Sabinos.

E não há novos autores porque as editoras não querem lança-los. Não dá muito trabalho ir aos sites da Sextante,  ou da 34 Letras e ver que, explicita e declaradamente, elas não recebem originais. A Sextante recomenda que novos autores contratem um agente literário e diz que isso “é bom para o mercado”. A 34 Letras diz, em negrito, que: “A partir de 2017 não avaliaremos originais encaminhados sem solicitação prévia da editora”.

Editoras tradicionais como a Nova Fronteira/Ediouro não têm referências a envio de originais em seus sites. Fui à sede do grupo, no centro do Rio, onde a atendente me disse: “no momento não estamos recebendo originais”. “E no momento deve durar até quando?”, perguntei.

As editoras Globo, L&PM, Rocco e Arqueiro também não têm referências a envio de originais em seus sites – e não responderam aos e-mails sobre como envia-los. Intrinseca, Planeta e Boi Tempo têm mensagens sobre não receber originais. A Tinta da China “não se compromete a responder a quem envie originais não solicitados”.

A Editora Record (dona dos selos Bertrand Brasil,  José OlympioPaz e Terra, Civilização Brasileira, Verus e Difel) recebe originais, mas também não se compromete a dar qualquer tipo de resposta. Originais que não interessem à editora serão descartados, sem ao menos uma carta de recusa. Não há prazo para avaliar o original:  “não é possível estipular prazo para avaliação e a editora não emite parecer do material recebido”. É alguma coisa como “manda aí, mas não é para esperar nada”. Ainda é melhor que a Penguin-Random House-Cia das Letras. Depois de comprar concorrentes como Objetiva, Alfaguara e Suma (que, vendidos, não recebem mais originais) a Cia das Letras adotou como política ofender os possíveis novos autores. Os originais são aceitos apenas em dois meses por ano e “originais enviados fora do período estabelecido não serão avaliados”. Mais do que isso: “os autores que submeterem suas obras dessa maneira receberão uma resposta por e-mail num prazo mínimo de seis meses. As obras recusadas não serão comentadas, e o material será destruído”.

O negrito é deles e os seis meses são o prazo mínimo, não o máximo.

Tudo isso, segundo eles, porque a Penguin-Random House-Cia das Letras “dispõe de uma pequena equipe para avaliar os originais recebidos”. Tá bom: não lança livro, não vende. Quer dizer, vende traduções e autores antigos. Achei curioso quando, no fim do ano passado, um dos sócios da editora divulgou uma carta conclamando as pessoas a comprarem livros para salvar livrarias e editoras da crise. Prezado: não é assim que se resolve o problema.

Podem dizer que as editoras encolheram por causa da queda na demanda por livros ou que a demanda caiu porque as editoras têm menos lançamentos que tenham a ver com o que acontece hoje no país. Uma coisa não exclui a outra. Na prática, elas se reforçam. Pode ser que as pessoas estejam lendo menos livros (e mais blogs e twitter raivoso e facebook), pode ser que as gerações mais novas sejam mais impacientes, muitas coisas podem ser. Mas, de um jeito ou de outro, não lançar novos autores nacionais é ruim para as vendas.

A saída, para os novos autores, tem sido a publicação independente, que aumentou com o uso de ferramentas como o kindle direct publishing, da Amazon. Mas isso é curioso porque acaba sendo uma especie de uberização dos escritores. Os custos de revisão, editoração e até de fazer a foto da capa passam para o autor e a venda do livro é feita através de um grande site, a Amazon, que ganha uma comissão por isso.

Se fosse só isso, tudo bem. Mas o site não dá para os livros a visibilidade que uma editora daria: não os põe na vitrine da livraria por onde as pessoas passam no caminho para o trabalho. E a divulgação – mesmo que o o autor tente faze-la – não será igual à de uma editora (que tem departamento de marketing e assessoria de imprensa).

Um press release enviado por um autor independente para um caderno de cultura de jornal não vai lhe render sequer uma notinha na coluna mais obscura do caderno. O jornal continuará fazendo matérias sobre a última tradução lançada por uma grande editora ou reciclando o milésimo texto sobre Machado de Assis ou Clarice Lispector (que nem eu vou ler).

O horizonte é ruim para o surgimento de livros originais e de novos autores no país. Para lançar o meu, segundo a Sextante, eu deveria contratar um agente literário. Não tenho experiência nisso: não conheço agentes nem editores. É como contratar um advogado para ganhar uma causa? Publica quem tiver o melhor agente? Não há um processo imparcial e aberto para análise de originais? As grandes editoras não têm recursos para lançar autores? Então, desculpe, elas não são grandes editoras, são casas de replicação, tradutoras de luxo, empresas avessas demais a qualquer tipo de risco (tipo os fundos de renda fixa).

O Brasil não tem uma crise no mercado editorial: não tem nem mercado editoral. Tempos estranhos…

potter

O que resta é reler Harry Potter…

 

Problema econômico + ideia fixa de ministro = depressão

Os inventores da Nova matriz macroeconômica, no Governo Dilma, viam crises de demanda para onde quer que olhassem. Mesmo com a inflação chegando a 10% ao ano, eles insistiam em que era preciso estimular o consumo, pois faltava demanda.

O resultado foi, primeiro, inflação, depois,  uma longa recessão da qual talvez ainda não tenhamos saído.

Mas Paulo Guedes e sua equipe não são melhores. A crise de demanda agora está lá, finalmente é real, mas eles se recusam a olhar para ela. A economia não cresce, há capacidade ociosa nas empresas e desemprego alto. Mas a resposta de Guedes & associados é corte de gastos públicos e redução da renda futura das famílias (fim dos concursos públicos e dos reajustes de funcionários públicos, corte de aposentadorias  e de despesas do governo, corte de bolsas em faculdades e de qualquer projeto público em que consigam pensar, até o do Censo populacional).

Guedes, tão ideológico quando Guido Mantega, acha que só o lado da oferta existe – e aprofunda a crise de demanda com sua ideologia de ataque a tudo que for público.

Só para registro: quem derrubou Dilma Rousseff não foi a pedalada fiscal ou a “conspiração da direita”, quem a derrubou foi, principalmente, a crise econômica. Com Collor não foi diferente.

Guedes é hoje, então, a única pessoa no país com potencial para derrubar o governo (no médio prazo). Talvez essa seja sua única virtude. A dúvida é quanto estrago ele e seus colegas supply siders vão fazer até lá.

Ovelha conservadora anti-keynesiana.

Ovelha conservadora anti-keynesiana convicta.

PS. Sobre superavits fiscais, com a economia estagnada, eles vão demorar muito pra voltar. E quanto mais cortarem…

 

E, no entanto, se move (para trás)

Se você fosse o presidente de uma multinacional procurando lugares para abrir sua nova sede, você a abriria em um lugar onde o ensino público está encolhendo, onde não há mais recursos para escolas e universidades e onde o governo alardeia o corte de verbas com uma espécie bizarra de orgulho? Se você fosse gaúcho e tivesse que escolher  entre abrir seu pequeno negócio no Rio Grande ou no Uruguai, onde você abriria?

Se você tivesse planos de abrir uma pequena loja no centro do Rio de Janeiro (no meio de todas as lojas fechadas da Rua da Carioca), a notícia de que o governo está cortando bilhões de reais em gastos de custeio de universidades e escolas federais te deixaria mais ou menos propenso a achar que haveria compradores para os cadernos e mochilas que você queria vender?

Um dos poucos consensos que existe entre economistas de todas as escolas de pensamento é que, no longo prazo, é o conhecimento que faz as economias crescerem: é ele que distingue a economia moderna da pré-histórica – ou da medieval. Se a perspectiva agora é ter menos pessoas educadas e menos difusão de conhecimento, o cenário projetado para o longo prazo fica bem pior do que era duas semanas atrás.

Se o governo se propõe a destruir produção (pois cortar a conta de luz de universidades é análogo à sabotagem), não dá para esperar crescimento da oferta de mão de obra especializada ou de produção de tecnologia. Do lado da demanda é pior: no meio de uma crise em que a economia insiste em não voltar a crescer, o governo anuncia cortes em gasto essenciais, assustando consumidores, fornecedores do governo e qualquer pessoa que tente imaginar como isso pode evoluir ao longo do tempo.

Bom, no curto prazo, a gestão horrenda de expectativas nos levará a um novo mergulho recessivo. No longo, se essas decisões não forem revistas, a um mergulho na obscuridade, a alguma coisa como a Idade Média.

Washington 216

Estátua de Einstein nos EUA – para onde recém formados e estudantes brasileiros querem ir (há emprego e apoio à pesquisa).

PS. Um dos muitos secretários do Ministério da economia (foi o do Tesouro, Mansueto Almeida) disse ontem que os subsídios a grandes empresas – que fizeram o governo perder receitas bilionárias – podem eventualmente ser reduzidos ao longo dos anos, mas que isso “exige estudos complexos e a construção de um clima político adequado”.

Segundo ele, “não vamos nos enganar porque reduzir subsídio não é fácil. Porque você tem grupos que se beneficiam e qualquer tentativa de redução de subsídios esses grupos se organizam para bloquear essas mudanças”.

Então, em vez do subsídio aos amigos, cortaram o dinheiro do Colégio Pedro II. E o secretário ainda tem a cara dura de dizer que o lobby da Fiesp é muito bom, de dizer que, por isso, é melhor tirar dinheiro da Lei Orgânica de Assistência Social – pagando menos de um salário mínimo aos velhinhos pobres – do que mexer com os bilionários.

Assim, realmente, a direção é o fundo do poço.

Adestramento de minions ou, o que é desonestidade intelectual

Quando duas pessoas conversam ou discutem há, quase sempre, o pressuposto de que uma está ouvindo o que a outra diz. Mais do que isso: há a hipótese de que cada uma quer entender o que a outra diz.

Se não for assim, não é uma conversa, é uma tentativa de vender peixe estragado, de empurrar alguma coisa apesar dos argumentos em contrário.

Nos últimos meses, muitas pessoas que conheço, de quem gosto, têm feito isso. Começo a discutir e, em algum momento, elas param, dizem que não querem ouvir – e algumas já me chamaram de esquerdista (para registro: eu sou um liberal, um dos poucos que não é conservador disfarçado: liberal mesmo).

Mas fui salvo da ignorância (quem diria?!) por Arthur Weintraub, irmão do novo ministro da Educação. Em um vídeo excelente da Cúpula Conservadora das Américas (evento organizado por um dos filhos do atual presidente), Weintraub disse que “Quando um comunista ou socialista chegar para você com ‘nhoim nhoim’, você pega e manda ele para aquele lugar. Xinga. Faça o que o professor Olavo fala. Xinga”.

Ele resumiu a fórmula para matar o diálogo, para isolar os minions conservadores de qualquer ideia razoável: “quando alguém tentar te explicar porque nada do que esse governo faz é minimamente razoável, xingue-o, mande-o para longe, mantenha-se burro.”

É muito difícil ser conservador em um país onde é quase consenso que as coisas não vão bem (conservar o quê?). Então, o que alguém pode dizer em uma cúpula conservadora? “Tapem seus ouvidos, não escutem argumento nenhum, continuem andando direitinho atrás do pastor!”

Ok. Entendi. Mas se os minions estão bem adestrados para fugir de qualquer debate ou discussão racional, o que fazer?

Um amigo meu, nos tempos de faculdade, costumava dizer que “com democratas a gente conversa, em fascistas, taca pedra”. Não sei. Não sou bom nesse negócio de pedra: não sei fazer isso. Só sei conversar.

“Mas eles não vão ouvir”, argumentaria meu amigo de faculdade. Então que tomem decisões erradas e se afundem com elas. Os fatos, pelo menos, não adianta xingar. Eles não se ofendem.

E o fato é que a economia não está bem (desemprego alto, inflação subindo, investimento baixo, déficit fiscal, expectativas em queda…), a administração pública também vai mal (uma mistura de inexperiência e incapacidade administrativa com vontade de adotar políticas sem sentido) e a parte menos tosca dos minions já está começando a notar (vide pesquisas de opinião sobre o governo).

Talvez só os fatos convençam os minions. Mas não vai ser muito rápido. Eles só vão destampar os ouvidos (e os olhos) quando a água já tiver coberto seus narizes. É o meu melhor palpite sobre o que vai acontecer nos próximos meses.

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Não adianta vir com nhoim nhoim: você não vai me convencer de que isso é uma xícara de café, seu #*%#@&!!!

A imprensa e a apologia ao crime hediondo

Nos Estados Unidos, a imprensa dava uma atenção desproporcional a Donald Trump antes das eleições porque os delírios que produzia em frente à câmera davam audiência. No Brasil, isso não devia ser possível. Primeiro porque há regras sobre proporção de exposição de candidatos nos noticiários, segundo porque algumas coisas simplesmente não podem ser ditas impunemente na imprensa.

Fazer apologia a crimes – em especial a crimes hediondos como tortura, homicídio e estupro – é crime. Mas, se um candidato comete esse crime, os jornais daqui ficam felizes em estampar a declaração no alto da página.

Dado o espaço para seu nome ser lembrado por todos os eleitores, o candidato, depois, discretamente, diz que foi mal interpretado e não responde a processo por apologia.

Duas coisas são especialmente estranhas nessa história. A primeira é haver eleitores dispostos a votar em um candidato que (supostamente em nome da lei e ordem) defende que policiais e outros agentes do Estado possam cometer execuções sumárias, um candidato que homenageia publicamente torturadores. Para deixar claro: votam em um candidato que defende o crime hediondo.

A segunda é que a imprensa não dá destaque (como deu a Trump nos EUA) porque as declarações do candidato dão audiência. Ela dá destaque até quando não há declarações que dão audiência. Hoje, domingo 26 de agosto, o único nome em manchete no alto do site da Folha de S. Paulo é o desse candidato. Não há nada sobre Marina, nada sobre Ciro Gomes. Há uma foto de Alkmin (sem seu nome na manchete) e um vídeo (!) sobre o candidato que mais aparece nos jornais, com a chamada: “Bolsonaro desfila em Barretos a cavalo e é chamado de mito”.

Isso não é jornalismo. Isso é propaganda política. Eu deixaria de ler a Folha de S. Paulo se só ela estivesse fazendo isso, Mas, como os outros grandes jornais também estão fazendo… Não dá para deixar de ler todos.

A imprensa brasileira é conservadora, eu sei, mas isso não é conservadorismo, isso é o elogio do crime, crime cometido por agentes do Estado (o que deve contar como agravante). Como conseguem defender (sim a exposição maior que a dos outros candidatos é uma defesa, é propaganda), como conseguem dormir à noite fazendo esse tipo de coisa?

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Topo da página da Folha de S. Paulo, domingo, 26/8.

 

Estado de S. Paulo, mesmo dia, também no topo da página. Ainda mais explícito.

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Valor Econômico, topo da página, mesmo dia.

Longe do queijo

A foto é autoexplicativa: foi tirada hoje em um supermercado Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

Ok, podem dizer que é um queijo pesado, de seis quilos. Mas pense nele em termos de horas de trabalho. Uma pessoa que ganha salário mínimo trabalharia duas semanas, quer dizer, 80 horas (se não trabalhar aos sábados) para poder pagar por essa preciosidade.

O que faz um queijo custar meio salário mínimo?

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Podem dizer que é um caso extremo: o queijo mais caro da loja, para consumo só do 1% (que nem olha para a etiqueta quando compra). Mas, olhando para o lado, topei com este outro, que não vou nem comentar:

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A defesa dos herdeiros

– E nós, os bilionários, os herdeiros de grandes empresas? Quem irá nos defender?

– Eu!

– Eu!

– Eu!

Ontem, Marcos Lisboa, ex-secretário de política econômica (governo Lula), ex-diretor da FGV e atual presidente do Insper, se juntou ao coro.

Em um debate na sede do jornal Valor Econômico, Lisboa declarou: “Tributação de dividendos, de herança é vender terreno na lua. O grande impacto de justiça social da política pública não é via tributação é via gasto público”.

Caro doutor Lisboa, uma coisa não exclui a outra. Pesquisadores do nível de Thomas Piketty e Gabriel Zucman já produziram toneladas de estudos empíricos (com ótimas bases de dados) sobre os efeitos da concentração de renda e patrimônio (e sobre como a tributação de heranças e a tributação progressiva de renda é necessária para lidar com o problema). Falar em “terreno na lua” não descarta automaticamente tudo que já foi escrito.

Depois de fazer o lobby dos herdeiros e dos donos e diretores de grandes empresas  (que não pagam imposto sobre dividendos nem sobre bônus anuais), Lisboa atacou quem defende qualquer outro grupo: “O grande desafio hoje é que não se quer comprar brigas com as corporações”, disse, se referindo a funcionários públicos e “seguimentos do setor privado”.

Sobre ajuste fiscal na pauta dos candidatos à presidência, disse: “Estou surpreso com a superficialidade do debate”.

Superficial é fazer críticas genéricas a funcionários públicos ganhando muito mais do que eles para fazer a mesma coisa que um professor universitário faz (só que em uma universidade privada…).

A discussão seria mais simples se o debate fosse feito entre técnicos que não fizessem lobby disfarçado para um grupo específico.

Eu sei: é difícil. Depois de mais de cinco décadas implementando e defendendo abertamente políticas pró-FIESP, Delfim Netto até hoje é apresentado como “economista” e não como “lobista da Fiesp”.

É difícil identificar quem propõe políticas porque têm evidências sólidas de que funcionam e quem apenas foi contratado para dar verniz acadêmico a um lobby bem financiado. Mas quando a pessoa chega ao ponto de dizer que “tributar herança é vender terreno na lua”, aí, pelo menos, dá para ver que é lobby explícito mesmo.

Queria ver debates melhores no Valor. Onde estão os técnicos que não são lobistas? (Desiludidos em pequenas salinhas em universidades e órgãos públicos ou publicando artigos em revistas acadêmicas que o grande público não lê. Estão longe da imprensa – que não consegue ou não quer saber saber quem é quem.)

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Os heróis da Copa (em tempos de crise econômica, decadência política e desânimo profundo)

Em tempos de Copa do Mundo, vale a pena desencavar o trecho abaixo, um dos meus favoritos, que usei no primeiro post deste blog, mais de 10 anos atrás.

Ele é do Folhas inúteis, um dos livros anos 20 de Aldous Huxley:

“Fazer dos esportistas profissionais  e disputadores de prêmios  heróis efêmeros já é bastante mau; mas querer imortalizar-lhes a fama é certamente indicativo de profunda vulgaridade e degradação. Tal como a turba romana, as turbas de nossas modernas capitais deleitam-se com esportes e exercícios que elas próprias não praticam; mas, de qualquer maneira, a fama dos nossos esportistas dura apenas alguns dias após seus triunfos. Não gravamos suas efígies em mármore para que atravessem centenas de gerações. Gravamo-las em polpa de madeira, que é quase o mesmo que gravá-las na água. É reconfortante pensar que por volta de 2100 todo o nosso jornalismo, a literatura e a filosofia estarão reduzidos a pó.”

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(Mal) gravado em neon.

Como os economistas de extrema direita destruíram o governo do PT (por dentro)

É quase consenso que, sem a crise econômica, nenhuma pedalada fiscal teria derrubado o Governo Dilma. Foi a mistura de inflação em alta, recessão interminável e insistência na heterodoxia econômica que fez os apoiadores do governo desistirem dele.

No entanto, até hoje, os criadores da política econômica de Dilma escrevem em jornais como se fossem perfeitos inocentes. Luciano Coutinho escreve o Valor como se nunca tivesse presidido o BNDES. Nelson Barbosa, ex-Ministro do Planejamento e da Fazenda, escreve na Folha e deixa claro que não se arrepende das políticas que implantou.

Eles fariam tudo de novo. É por isso que tanta gente continuará fugindo do “programa econômico” do PT: o partido parece não ter entendido por que o país quebrou.

Li, há alguns meses, uma entrevista com o guru heterodoxo Ha-Joon Chang, um economista sul coreano que conseguiu espaço no cenário internacional escrevendo livros pró-protecionismo e pró-subsídios a grandes empresas.

Lembro que o repórter perguntou alguma coisa sobre haver espaço para políticas de esquerda como a dele. Com toda a candura, Ha-Joon Chang respondeu que, na Coréia e no Japão, suas propostas são consideradas de direita.

Não é à toa: elas são mesmo. Dar dinheiro público e crédito subsidiado para grandes empresas não é de esquerda nem aqui nem na Coréia do Sul. Protecionismo para a Anfavea e isenções fiscais para a Fiesp são políticas que nunca foram de esquerda. No entanto, foi isso que Mantega, Barbosa, Coutinho e afins fizeram.

Enquanto defender isso, enquanto defender transferências de dinheiro público para as maiores empresas do país, o PT não poderá dizer que é de esquerda. Ele será apenas uma versão mais populista do PMDB.

Se os caciques do PT fossem um pouco mais espertos, expulsariam os economistas heterodoxos do partido e defenderiam uma política econômica à Thomas Piketty (mesmo que fosse só para agradar a platéia, mesmo que fosse só para catar uns votos de esquerda de verdade).

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Encontro nacional de bodes expiatórios: criando justificativas para repetir a Nova Matriz Macroeconômica em 2019.

A qualquer preço (pois não sou eu quem paga)

O poder deve ser mesmo muito bom. Afinal, por que outro motivo um senhor de 77 anos, com artérias entupidas e grande potencial para se aposentar, se agarraria a ele a ponto de – para ficar mais 14 meses sentado no palácio – reintroduzir o trabalho escravo no país.

Porque cortar a fiscalização e depois avisar para todo mundo equivale a fazer exatamente isso (“Ó, pode fazer que não tem mais fiscal. Agora só levando a polícia até o interior da fazenda do ministro, tirando fotos, anotando nomes e, bom, não vai ter mais lista suja com nome de quem fizer…”).

Por que alguém promove uma barbaridade dessas em torca de alguns votos no processo a que responde no Congresso?

Não que ele ainda tenha alguma biografia para defender. Mas isso é abaixo do fundo do poço. É a barbárie batendo à porta.

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Concentração de renda

Vivemos em uma boa época para quem estuda crises econômicas e recessões violentas. Basta dar uma volta pela rua para ver os seus efeitos: as placas de Vendo e Alugo nas janelas, os mendigos em número cada vez maior…

Mas além dos efeitos óbvios da crise, há alguns surpreendentes. Um deles é o aumento da concentração de renda e seus efeitos sobre o comércio. O que vender em época de queda acumulada de 9% do PIB (desde o segundo trimestre de 2014)? Quem tem dinheiro para comprar? O que essas pessoas querem?

A resposta está em uma loja recém aberta no Edifício Avenida Central, no Centro do Rio. A loja, no térreo (em um bom ponto), vende bonecos decorativos para adultos.

A crise, como também dá para ver a olho nu, é assimétrica: deixa milhões de pessoas sem emprego e renda, mas mal faz cócegas em alguns outros. O 1% mais rico pode gastar R$ 1.176 em um boneco do Coringa ou R$ 3.000 em um do Robocop (o mais caro que vi na loja).

Obra de arte?

Para os menos abastados, bonecos de desenho animado japonês por R$ 700.

Dourados: só para quem não vê os pedintes nas esquinas.

A implosão do Rio de Janeiro

Sair do Rio de Janeiro ajuda a pôr a cidade em perspectiva. Em outros lugares, há bons imóveis anunciados por R$ 150 mil. Na Zonal Sul do Rio, eles custam quase um milhão.

Com os aluguéis é a mesma coisa: muito mais altos no Rio.

Os preços dos serviços privados são mais altos e a prestação de serviços públicos está mais decadente no Rio. Os funcionários do Estado estão com os salários atrasados, as unidades de pronto atendimento de saúde estão com seus contratos (caros) precisando de revisão e a universidade do estado só não fechou as portas porque professores e alunos toparam trabalhar em condições ruins para universidade não fechar de vez.

Ficou caro e ruim viver no Rio. O Estado vai passar as próximas décadas pagando dívidas como a do metrô (assumida para pagar quase R$ 10 bilhões à Odebrecht e Associados). O município também tem dívidas olímpicas a pagar…

Que empresa com alguma capacidade de escolha abriria filiais ou novos negócios nessa  cidade cara e pouco funcional?

A alta de preços e a destruição dos serviços públicos,  então, sinalizam baixo crescimento à frete. E, com ele, virão menos trabalho, menos impostos, menos serviços públicos e uma espiral de decadência.

A saúde pública é um dos maiores exemplos. O atendimento básico – que deveria ser municipal – é feito pelo Estado, em unidades privadas terceirizadas contratadas sem licitação a preços, no mínimo, discutíveis (essas são as UPAs).

Por falta de caixa, o governo cortou os repasses a algumas UPAs, que cortaram o atendimento aos doentes. Há quem defenda que as UPAs deviam mesmo ser fechadas, mas antes é preciso saber o que pôr no  lugar.

Que empresa ou família vai querer se instalar em um lugar em que a saúde pública  é assim, os planos de saúde são caros e a rede hospitalar privada está sobrecarregada?

Sair do Rio é, cada vez mais, a opção para recém formados, aposentados e qualquer um que tenha uma oferta de trabalho ou fonte de renda fora de lá. É o que escuto cada vez mais, das pessoas mais diferentes.

E, de fato, a vida é mais tranquila fora do Rio. Fora de lá, não é preciso ouvir um governador que atrasa salários dizer que quer expandir o metrô até o Recreio dos Bandeirantes.

Se as coisas continuarem desse jeito, os que não forem expulsos da cidade pela crise econômica serão expulsos pelos insultos de Pezão e Associados.

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Urubu em Jurerê: fugindo do Rio de Janeiro.

Gambiarra economics

Os remendos, as soluções de curto prazo com objetivos muito específicos, os subsídios, as taxas  juros especiais, os regimes tributários diferenciados, tudo isso faz parte de um modelo teórico heterodoxo que pode ser chamado – com muita precisão – de Teoria endógena da aplicação sequencial de gabiarras ou, como diriam os ingleses, gambiarra economics.

Um dos maiores consensos teóricos a respeito da economia da gambiarra é que ela é uma política de curto prazo: não resiste por períodos de mais de um ou dois anos:

” A gambiarra arrebenta”, já disse um de seus defensores, em voz baixa, em uma sala escura, sem gravadores ou câmeras ligados.

Os incentivos específicos, então, são apenas agrados a amigos. Quem os recebe sabe que eles não vão durar (mas os aceita assim mesmo, afinal, é descortês recusar presentes).

Quando as gabiarras arrebentam, em geral, vem o dilúvio. Os problemas que elas remendavam já cresceram o bastante para estoura-las e a crise vem pior do que parecia possível antes da adoção da política da gambiarra.

O dilúvio, no entanto, atinge com mais força quem estava perto da barragem. Nesse momento, os mais bem informados (ou bem relacionados) já terão fugido ou feito hedge de gambiarra no mercado financeiro.

Os responsáveis pela adoção da política, normalmente, voltam para a academia ou para alguma empresa amiga e imitam Luis XVI, dizendo sorridentes:

“Depois de mim, o dilúvio.”

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A crise bate à porta, entra e fica.

Estudar o fim do mundo

Passo pelos repórteres acampados no caminho de casa e descubro que sou vizinho do ex-governador Anthony Garotinho (solto esta semana após pagamento de fiança).

Em casa, descubro que a água foi cortada por conta da lenta manutenção da Cedae.

A renda da família está menor graças ao governador Pezão – que parcelou em sete vezes o salário do funcionalismo estadual.

Diante da derrocada (que todos já esperávamos para o pós-Olimpíadas), começo a pensar em largar tudo e ir estudar.

Mas um ex-professor, que encontrei no aeroporto outro dia, traçou um cenário ruim aí também:

“Os centros de excelência”, ele disse, “estão preocupados em publicar artigos em revistas no exterior”. Diante da minha expressão de dúvida, ele continuou: “Os incentivos são para isso, para produzir coisas acadêmicas, teóricas, que sejam aceitas por revistas de fora. Essas coisas práticas que você quer estudar, dificilmente alguém nos principais cursos de economia aceitaria te orientar nisso. Não é algo que renda uma publicação na American Economic Review“.

Quer dizer: o mundo está acabando e até para estudar o fim do mundo é preciso bater de frente com algum incentivo distorcido…

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Vaca cuja tese sobre a queda do muro de Berlim foi recusada na FGV.

“Nada a declarar” é o mesmo que “farei sim, mas tenho vergonha de dizer”

– O senhor pretende desviar o dinheiro da prefeitura, pretende usar a verba de publicidade para financiar as suas próprias revistas ou as de seus amigos?

– Pretendo sim. A prefeitura agora vai pôr muitos anúncios na Caviar Lifestile, a revista mais cara do meu grupo, como o nome deixa claro.

Bom, a pergunta não foi assim – e a resposta, muito menos. Mas há alguns momentos em que é importante conhecer a definição clássica de hipocrisia: a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.

Explicando bem: mesmo que um político pretenda desviar dinheiro público para suas empresas ele tem que dizer, enfaticamente, que não vai fazer isso de jeito nenhum. É hipócrita, mas não fazer isso é ofender abertamente o público.

As respostas “não costumo comentar sob hipóteses” e “essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário” não são boas.

A pergunta da repórter foi:

Julia Duailibi: “O que o senhor acha de usar recursos da publicidade da prefeitura para investir em revisas do estilo da Caviar Lifestile? 

João Doria : “Nunca teve isso. Você quer dizer hipoteticamente?”

Duailibi:”Hipoteticamente: uma revista com o perfil da Caviar Lifestile, se batesse lá na porta da secretaria de comunicação e pedisse recursos para publicidade. O senhor acha que recursos públicos poderiam ser usados para esse tipo de publicação?”

Doria: “Julia, eu não costumo comentar sob hipóteses. Essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário.”

A repórter, vendo a derrapada do entrevistado, lhe deu outra chance:

Duailibi: “O senhor pode fazer um exercício intelectual, assim, pensando hipoteticamente…”

Doria: “Eu agradeço, mas fique com o seu exercício você mesma.”

Duailibi: “É de uma pessoa da plateia essa pergunta.”

Doria, virando-se para a plateia: “Também agradeço.”

Duailibi: “Uma boa pergunta.”

Doria, para a plateia: “Não precisa se apresentar mas guarde para você o exercício.”

A entrevista completa, em vídeo, está no site da revista Piaui. O trecho acima vai do segundo 55:11 ao 56:06.

Não acompanho de perto a política local de São Paulo. Nunca tinha visto uma entrevista longa com João Doria. Não tinha opinião formada sobre ele. Agora tenho.

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Pinguim piauiense na plateia se ofende com resposta de Doria.

Discutam bastante antes de passar a faca

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Luz (fraca) no fim?

Lembro de meus posts de 2011 sobre o recém empossado governo Dilma. Minha impressão, na época, era de que o maior problema da presidente era a incompreensão do que acontecia na economia: o problema era mais burrice que maldade.

A esperança – eu pensava na época – era o debate. Se os problemas da economia fossem discutidos de forma clara e aberta, talvez se pudesse pôr a política econômica na direção certa.

Bom, eu errei em apostar no debate como solução para mudar os rumos do governo Dilma. O debate nunca aconteceu: o governo não estava interessado em ouvir críticas (por mais construtivas pudessem ser).

Votando aos dias de hoje: Michel Temer parecia, até agora, menos arrogante que a antecessora (o que era motivo de esperança). Mas a reforma educacional por decreto (literalmente por decreto) começou a me convencer de que talvez, de novo, eu estivesse sendo muito otimista.

O teto para as despesas federais, apresentado com pouco debate, também não é um a boa notícia.

Sim, o orçamento está completamente estourado e é preciso fazer cortes significativos. Mas não se corta por decreto. Não funciona assim. Apesar do discurso de que “a saúde será preservada” a proposta continua sendo reduzir a despesa per capita do governo com saúde ao longo dos próximos 20 anos.

Corrigir os gastos com saúde só pela inflação (quando a população cresce) é diminuir o gasto por pessoa ao longo do tempo.

Na saúde, o item em que é menos difícil cortar é a prevenção (é menos difícil que cortar o atendimento das pessoas que esperam na fila e protestam contra a falta de médico). O problema é que é mais destrutivo. Nós vimos isso com os surtos de Zika e Chicungunha no início do ano.

Cortar gastos com saúde pode sair incrivelmente caro – e a despesa extra virá com o carimbo de despesa emergencial, com preço superfaturado e dispensa de licitação…

A solução – mais uma vez – é discutir a sério o corte antes de fazê-lo. É discutir ouvindo as propostas de quem critica (e não dando um desconto no primeiro ano para servir de manchete n’O Globo e reduzindo o gasto per capita nos outros 19 anos do pacote).

Se quiser ser melhor que a antecessora, Temer não apenas terá que fazer cortes – o que ela sempre se recusou a fazer – terá que conversar e ouvir os críticos. Meireles e companhia terão que ouvir os críticos. Eles são bons economistas mas não entendem nada de saúde pública: têm que ouvir para avaliar direito o potencial destrutivo do que estão propondo.

Arrogância e desconhecimento – Dilma já provou – podem ser mais destrutivos que más intenções.

Vale a pena tentar não repetir os erros da presidente cassada.

 

Lobby e superfaturamento não geram política pública como subproduto

Ministros nomeados por qualquer motivo que não adotar boas políticas para suas áreas tomarão decisões destrutivas. A boa política (para educação, saúde ou mesmo para a pesca) não surge como um subproduto involuntário a partir da busca esbaforida por outros objetivos.

O problema é que o governo federal já admite que seus ministros não foram nomeados por conta do que pensam ou da política que propõem para cada pasta: foram nomeados para conseguir votos no Congresso. Não se deve então esperar que administrem suas pastas pensando no acesso da população a boas escolas e hospitais. Eles administrarão para dar aos congressistas alguma espécie de contrapartida por seu apoio ao governo.

Às vezes, a perspectiva de ter uma gestão curta em um ministério com muitos recursos pode induzir o ocupante do cargo a pedir contrapartidas muito altas de fornecedores (entregues diretamente aos congressistas), como indica esta nota d’O Globo sobre o ministro da Saúde Ricardo Barros.

Desse jeito, o governo Temer vai ter base parlamentar. Só não terá gestão executiva (e poderá ser ainda mais corrupto que o anterior).

Preferia que o Executivo se preocupasse em gerir a máquina administrativa em vez de apenas conseguir “apoios” do Legislativo. Depois de aprovar a reforma da Previdência (que tem mesmo que ser aprovada), espero que revejam algumas dessas concessões de ministérios (e que o estrago feito até lá não seja grande demais…).

Mas estou sendo otimista – e o que se viu até agora não devia inspirar otimismo.

Concessões “porteira fechada” desse tipo podem ser muito destrutivas. Um ministério não é um capitania imperial para ser concedido a quem quer que seja.

Em troca dos votos do PP, de Ricardo Barros, vão destruir o sistema público de saúde? Vão aumentar o custo dos seus insumos e, assim, diminuir sua capacidade de atender pacientes? Dilma fez isso (e defendia na TV o superfaturado Farmácia Popular) mas, pela grita dos fornecedores, Barros parece estar indo com muita sede ao pote…

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Primo do Pato amarelo: já instalado na Esplanada dos Ministérios.