A estagnação dos economistas

A economia do mundo está desacelerando. E o economista mais tradicional do planeta já tem uma explicação para isso. Larry Summers, sobrinho de dois prêmios Nobel de Economia (Paul Samuelson e Kennet Arrow), ex-aluno e ex-presidente de Havard, ex-secretário do Tesouro e ex-mais-um-monte-de-coisas recuperou uma tese dos anos 30 segundo a qual a economia pode estar entrando em uma estagnação secular.

Em uma matéria de hoje na Folha de S. Paulo, Érica Fraga resume a ideia da estagnação secular:

“Cunhado na década de 1930 pelo economista Alvin Hansen, o termo ‘estagnação secular’ descreve um forte aumento na tendência a poupar recursos, que derruba os juros, mas é incapaz de animar os empresários a investir.”

O irritante, no entanto, é ver que a mania dos economistas de pensar em grandes agregados (o investimento, a poupança) ajuda todo tipo de lobista a empurrar as explicações mais toscas para a crise. Na matéria da Folha, Fraga ouve economistas que falam em “aumento da proporção de idosos”, “endividamento das empresas” e outras cascatas que não têm nada a ver com o problema.

Ela cita o problema, em um parágrafo curto, sem referência de autor:

“A maior desigualdade de renda em países ricos também tem sido investigada. Enquanto os ganhos adicionais dos mais pobres tendem a ser direcionados ao consumo, o rendimento extra dos mais ricos é destinado principalmente à poupança.”

Sim, o problema é que os ganhos de renda dos últimos anos estão indo para o 0,1% mais rico em cada país. Essas pessoas não têm como consumir muito mais do que já consomem, então aplicam o que ganham: emprestam para o governo ou compram ativos como ações e imóveis. Quem precisa de mais renda para comer, estudar, morar não a recebe. Se recebesse, veríamos o consumo crescer.

Resumindo: as economias não crescem – e vão continuar sem crescer – porque os ganhos de renda não vão para consumidores, vão para quem já é dono de quase tudo. Sem consumidor não há mercado e não adianta investir em aumento de produção se não houver mercado consumidor. Não adianta baixar juros para as empresas, não adianta criar facilidades para produtores: a economia ficará estagnada por falta de demanda.

Isso não quer dizer que as políticas pró-demanda de dois governo atrás estivessem certas. Na época, o Brasil tinha desemprego baixo, capacidade ociosa também baixa e inflação em alta. Nesse cenário, estimular a demanda só aumenta ainda mais a inflação.

Mas agora temos o cenário oposto: capacidade ociosa nas empresas, desemprego alto e inflação baixa. Nesse cenário, faz sentido sim estimular a demanda e faz mais sentido ainda ter políticas de distribuição de renda que levem renda a quem precisa e, ao mesmo tempo, façam o mercado consumidor votar a se mover.

Foi curioso ver outro Fraga, Armínio, semana passada, dizer na TV que o maior problema do país é a distribuição de renda. Concordo com ele. Ele só teve dificuldade em dizer que hoje, se o governo gastar com isso, a economia tem chances de sair da estagnação. Para Armínio, recomendar política fiscal expansionista no Brasil é como “recomendar cerveja para um ex-alcoólatra.”

Desculpe senhor Fraga, mas não é isso que diz o manual de macro. Quando falta demanda, faz sentido estimular a demanda. E supor um descontrole futuro de gastos não é argumento para não adotar a política correta. O correto é gastar agora e conter gastos quando a economia estiver mais acelerada (já com arrecadação crescente e boas perspectivas). Conter agora para conter mais ainda depois (com a economia estagnada) é realmente uma ideia heterodoxa – defendida, veja só, por egressos de Chicago!

Já vi declarações de subordinados de Paulo Guedes segundo quem a equipe econômica atual é de “supply siders” e eles não farão essas “coisas de demanda” do governo Dilma. Prezados, com inflação em alta e desemprego baixo é errado estimular a demanda. Mas com desemprego alto e inflação controlada isso é a coisa certa a fazer. Distribuam renda, com recurso público (em vez de concentra-la cada vez mais). Eu sei: isso vai contra seus interesses pessoais imediatos, mas vocês também vão ganhar mais quando a economia voltar a crescer.

A alternativa é ver a concentração de renda aumentar ainda mais, o mercado consumidor encolher, a produção ficar onde está e o discurso da estagnação secular ficar circulando por aí, como se o crescimento baixo fosse uma fatalidade – e não o resultado de deixar bilionários sem imposto e necessitados sem recurso.

esfinge

Esfinge fácil de decifrar.

 

Desminionizamento

O santo graal da política hoje, aquilo que todas as pessoas minimamente preocupadas com o destino do mundo procuram, é o processo de desminionizamento. Descoberto o processo, será possível fazer com que uma grande quantidade de pessoas concorde (novamente) que a tortura é uma coisa que não deve acontecer nunca, com ninguém, que o Estado não deve matar pessoas nem perseguir minorias e que crimes de Estado não farão do mundo um lugar melhor, pelo contrário.

O método deve envolver figuras ou (preferencialmente) vídeos, pois os mínions são muito resistentes a textos e são capazes de ignorar completamente argumentos apresentados oralmente por um interlocutor de carne e osso.

Se o processo funcionar, o ex-mínion se tornará capaz de dizer coisas como: “a apologia da tortura é crime, como alguém pode fazer uma coisa dessas?”, ou: “não sei como apoiei essa bizarrice, mas é melhor admitir que estava errado do que insistir nesse absurdo” ou ainda: “não faz sentido apoiar políticos preconceituosos que defendem a execução de bodes expiatórios”.

Alguns acadêmicos dizem que o minionismo tem a ver com a incapacidade dos mínions de se colocar no lugar de outras pessoas. Ele seria uma espécie de aristocratismo de pobre (ou de rico mesmo, em alguns casos). O método desminionizador, então, poderia criar imagens do mínion sendo torturado na frente de um presidente que ri e diz: “Vou te contar como ele morreu” ou imagens da família do mínion sob a mira de policiais acompanhados por um presidente que, de novo,  ri e diz: “Vão morrer como baratas!

Mas talvez nem assim o mínion consiga se pôr no lugar das pessoas transformadas em bodes expiatórios por políticos populistas. Nos EUA, já há mínions promovendo massacres de latinos em cidades na fronteira enquanto o presidente local diz que deputados negros devem “voltar para os lugares infestados de crimes de onde vieram“.

Aqui, estamos copiando o modelo – e nossos mínions já são tão ou mais resolutos que os deles. A defesa do extermínio está no twitter e na boca dos presidentes. E não é a primeira vez na História que chefes de estado defendem o assassinato de parte da população.

É preciso impedir que isso evolua, é preciso tirar o apoio popular desses políticos. Por isso digo que o desminionizamento é o santo graal da política. Ele é nossa única esperança.

Espero que alguém descubra logo o processo. Os mínions da minha família continuam ignorando todos os meus argumentos. É como falar com as paredes.

Mínion, eu?

PS. Nem todos os apoiadores do governo são mínions. Mas os que não são são piores ainda. Eles têm mais clareza sobre o que estão fazendo…

As editoras brasileiras não estão em crise, elas acabaram

A crise dos livros no Brasil vem de bem antes de as redes Saraiva e Cultura pedirem recuperação judicial. As vendas de livros já vinham caindo desde 2014. Os dados do IBGE sobre preços de livros (IPCA) e volume de vendas (Contas Nacionais) mostram que o volume caiu apesar de os preços terem subido bem menos que a média do itens do IPCA desde o início da crise. Mas a crise pode não ser só de demanda.

O papel das livrarias é vender livros, o das editoras, criar livros para serem vendidos. E, há alguns anos, elas pararam de fazer isso. Sem livros novos para vender, as livrarias mostram em suas vitrines apenas velhos autores reeditados e traduções: nada que venda muito. Quando pensamos em autores brasileiros, vêm à cabeça nomes como Paulo Coelho, Rubem Fonseca, Jorge Amado, Fernando Sabino, autores do século passado.

Mesmo a safra mais nova de autores – como José Roberto Torero, Daniel Galera, Daniel Pellizzari ou Patrícia Melo – foi lançada no século passado. Não há autores novos. Quanto um Jorge Amado representava das vendas quando era um autor novo? E um Fernando Sabino? Mas não há novos Sabinos.

E não há novos autores porque as editoras não querem lança-los. Não dá muito trabalho ir aos sites da Sextante,  ou da 34 Letras e ver que, explicita e declaradamente, elas não recebem originais. A Sextante recomenda que novos autores contratem um agente literário e diz que isso “é bom para o mercado”. A 34 Letras diz, em negrito, que: “A partir de 2017 não avaliaremos originais encaminhados sem solicitação prévia da editora”.

Editoras tradicionais como a Nova Fronteira/Ediouro não têm referências a envio de originais em seus sites. Fui à sede do grupo, no centro do Rio, onde a atendente me disse: “no momento não estamos recebendo originais”. “E no momento deve durar até quando?”, perguntei.

As editoras Globo, L&PM, Rocco e Arqueiro também não têm referências a envio de originais em seus sites – e não responderam aos e-mails sobre como envia-los. Intrinseca, Planeta e Boi Tempo têm mensagens sobre não receber originais. A Tinta da China “não se compromete a responder a quem envie originais não solicitados”.

A Editora Record (dona dos selos Bertrand Brasil,  José OlympioPaz e Terra, Civilização Brasileira, Verus e Difel) recebe originais, mas também não se compromete a dar qualquer tipo de resposta. Originais que não interessem à editora serão descartados, sem ao menos uma carta de recusa. Não há prazo para avaliar o original:  “não é possível estipular prazo para avaliação e a editora não emite parecer do material recebido”. É alguma coisa como “manda aí, mas não é para esperar nada”. Ainda é melhor que a Penguin-Random House-Cia das Letras. Depois de comprar concorrentes como Objetiva, Alfaguara e Suma (que, vendidos, não recebem mais originais) a Cia das Letras adotou como política ofender os possíveis novos autores. Os originais são aceitos apenas em dois meses por ano e “originais enviados fora do período estabelecido não serão avaliados”. Mais do que isso: “os autores que submeterem suas obras dessa maneira receberão uma resposta por e-mail num prazo mínimo de seis meses. As obras recusadas não serão comentadas, e o material será destruído”.

O negrito é deles e os seis meses são o prazo mínimo, não o máximo.

Tudo isso, segundo eles, porque a Penguin-Random House-Cia das Letras “dispõe de uma pequena equipe para avaliar os originais recebidos”. Tá bom: não lança livro, não vende. Quer dizer, vende traduções e autores antigos. Achei curioso quando, no fim do ano passado, um dos sócios da editora divulgou uma carta conclamando as pessoas a comprarem livros para salvar livrarias e editoras da crise. Prezado: não é assim que se resolve o problema.

Podem dizer que as editoras encolheram por causa da queda na demanda por livros ou que a demanda caiu porque as editoras têm menos lançamentos que tenham a ver com o que acontece hoje no país. Uma coisa não exclui a outra. Na prática, elas se reforçam. Pode ser que as pessoas estejam lendo menos livros (e mais blogs e twitter raivoso e facebook), pode ser que as gerações mais novas sejam mais impacientes, muitas coisas podem ser. Mas, de um jeito ou de outro, não lançar novos autores nacionais é ruim para as vendas.

A saída, para os novos autores, tem sido a publicação independente, que aumentou com o uso de ferramentas como o kindle direct publishing, da Amazon. Mas isso é curioso porque acaba sendo uma especie de uberização dos escritores. Os custos de revisão, editoração e até de fazer a foto da capa passam para o autor e a venda do livro é feita através de um grande site, a Amazon, que ganha uma comissão por isso.

Se fosse só isso, tudo bem. Mas o site não dá para os livros a visibilidade que uma editora daria: não os põe na vitrine da livraria por onde as pessoas passam no caminho para o trabalho. E a divulgação – mesmo que o o autor tente faze-la – não será igual à de uma editora (que tem departamento de marketing e assessoria de imprensa).

Um press release enviado por um autor independente para um caderno de cultura de jornal não vai lhe render sequer uma notinha na coluna mais obscura do caderno. O jornal continuará fazendo matérias sobre a última tradução lançada por uma grande editora ou reciclando o milésimo texto sobre Machado de Assis ou Clarice Lispector (que nem eu vou ler).

O horizonte é ruim para o surgimento de livros originais e de novos autores no país. Para lançar o meu, segundo a Sextante, eu deveria contratar um agente literário. Não tenho experiência nisso: não conheço agentes nem editores. É como contratar um advogado para ganhar uma causa? Publica quem tiver o melhor agente? Não há um processo imparcial e aberto para análise de originais? As grandes editoras não têm recursos para lançar autores? Então, desculpe, elas não são grandes editoras, são casas de replicação, tradutoras de luxo, empresas avessas demais a qualquer tipo de risco (tipo os fundos de renda fixa).

O Brasil não tem uma crise no mercado editorial: não tem nem mercado editoral. Tempos estranhos…

potter

O que resta é reler Harry Potter…

 

Problema econômico + ideia fixa de ministro = depressão

Os inventores da Nova matriz macroeconômica, no Governo Dilma, viam crises de demanda para onde quer que olhassem. Mesmo com a inflação chegando a 10% ao ano, eles insistiam em que era preciso estimular o consumo, pois faltava demanda.

O resultado foi, primeiro, inflação, depois,  uma longa recessão da qual talvez ainda não tenhamos saído.

Mas Paulo Guedes e sua equipe não são melhores. A crise de demanda agora está lá, finalmente é real, mas eles se recusam a olhar para ela. A economia não cresce, há capacidade ociosa nas empresas e desemprego alto. Mas a resposta de Guedes & associados é corte de gastos públicos e redução da renda futura das famílias (fim dos concursos públicos e dos reajustes de funcionários públicos, corte de aposentadorias  e de despesas do governo, corte de bolsas em faculdades e de qualquer projeto público em que consigam pensar, até o do Censo populacional).

Guedes, tão ideológico quando Guido Mantega, acha que só o lado da oferta existe – e aprofunda a crise de demanda com sua ideologia de ataque a tudo que for público.

Só para registro: quem derrubou Dilma Rousseff não foi a pedalada fiscal ou a “conspiração da direita”, quem a derrubou foi, principalmente, a crise econômica. Com Collor não foi diferente.

Guedes é hoje, então, a única pessoa no país com potencial para derrubar o governo (no médio prazo). Talvez essa seja sua única virtude. A dúvida é quanto estrago ele e seus colegas supply siders vão fazer até lá.

Ovelha conservadora anti-keynesiana.

Ovelha conservadora anti-keynesiana convicta.

PS. Sobre superavits fiscais, com a economia estagnada, eles vão demorar muito pra voltar. E quanto mais cortarem…

 

E, no entanto, se move (para trás)

Se você fosse o presidente de uma multinacional procurando lugares para abrir sua nova sede, você a abriria em um lugar onde o ensino público está encolhendo, onde não há mais recursos para escolas e universidades e onde o governo alardeia o corte de verbas com uma espécie bizarra de orgulho? Se você fosse gaúcho e tivesse que escolher  entre abrir seu pequeno negócio no Rio Grande ou no Uruguai, onde você abriria?

Se você tivesse planos de abrir uma pequena loja no centro do Rio de Janeiro (no meio de todas as lojas fechadas da Rua da Carioca), a notícia de que o governo está cortando bilhões de reais em gastos de custeio de universidades e escolas federais te deixaria mais ou menos propenso a achar que haveria compradores para os cadernos e mochilas que você queria vender?

Um dos poucos consensos que existe entre economistas de todas as escolas de pensamento é que, no longo prazo, é o conhecimento que faz as economias crescerem: é ele que distingue a economia moderna da pré-histórica – ou da medieval. Se a perspectiva agora é ter menos pessoas educadas e menos difusão de conhecimento, o cenário projetado para o longo prazo fica bem pior do que era duas semanas atrás.

Se o governo se propõe a destruir produção (pois cortar a conta de luz de universidades é análogo à sabotagem), não dá para esperar crescimento da oferta de mão de obra especializada ou de produção de tecnologia. Do lado da demanda é pior: no meio de uma crise em que a economia insiste em não voltar a crescer, o governo anuncia cortes em gasto essenciais, assustando consumidores, fornecedores do governo e qualquer pessoa que tente imaginar como isso pode evoluir ao longo do tempo.

Bom, no curto prazo, a gestão horrenda de expectativas nos levará a um novo mergulho recessivo. No longo, se essas decisões não forem revistas, a um mergulho na obscuridade, a alguma coisa como a Idade Média.

Washington 216

Estátua de Einstein nos EUA – para onde recém formados e estudantes brasileiros querem ir (há emprego e apoio à pesquisa).

PS. Um dos muitos secretários do Ministério da economia (foi o do Tesouro, Mansueto Almeida) disse ontem que os subsídios a grandes empresas – que fizeram o governo perder receitas bilionárias – podem eventualmente ser reduzidos ao longo dos anos, mas que isso “exige estudos complexos e a construção de um clima político adequado”.

Segundo ele, “não vamos nos enganar porque reduzir subsídio não é fácil. Porque você tem grupos que se beneficiam e qualquer tentativa de redução de subsídios esses grupos se organizam para bloquear essas mudanças”.

Então, em vez do subsídio aos amigos, cortaram o dinheiro do Colégio Pedro II. E o secretário ainda tem a cara dura de dizer que o lobby da Fiesp é muito bom, de dizer que, por isso, é melhor tirar dinheiro da Lei Orgânica de Assistência Social – pagando menos de um salário mínimo aos velhinhos pobres – do que mexer com os bilionários.

Assim, realmente, a direção é o fundo do poço.

Adestramento de minions ou, o que é desonestidade intelectual

Quando duas pessoas conversam ou discutem há, quase sempre, o pressuposto de que uma está ouvindo o que a outra diz. Mais do que isso: há a hipótese de que cada uma quer entender o que a outra diz.

Se não for assim, não é uma conversa, é uma tentativa de vender peixe estragado, de empurrar alguma coisa apesar dos argumentos em contrário.

Nos últimos meses, muitas pessoas que conheço, de quem gosto, têm feito isso. Começo a discutir e, em algum momento, elas param, dizem que não querem ouvir – e algumas já me chamaram de esquerdista (para registro: eu sou um liberal, um dos poucos que não é conservador disfarçado: liberal mesmo).

Mas fui salvo da ignorância (quem diria?!) por Arthur Weintraub, irmão do novo ministro da Educação. Em um vídeo excelente da Cúpula Conservadora das Américas (evento organizado por um dos filhos do atual presidente), Weintraub disse que “Quando um comunista ou socialista chegar para você com ‘nhoim nhoim’, você pega e manda ele para aquele lugar. Xinga. Faça o que o professor Olavo fala. Xinga”.

Ele resumiu a fórmula para matar o diálogo, para isolar os minions conservadores de qualquer ideia razoável: “quando alguém tentar te explicar porque nada do que esse governo faz é minimamente razoável, xingue-o, mande-o para longe, mantenha-se burro.”

É muito difícil ser conservador em um país onde é quase consenso que as coisas não vão bem (conservar o quê?). Então, o que alguém pode dizer em uma cúpula conservadora? “Tapem seus ouvidos, não escutem argumento nenhum, continuem andando direitinho atrás do pastor!”

Ok. Entendi. Mas se os minions estão bem adestrados para fugir de qualquer debate ou discussão racional, o que fazer?

Um amigo meu, nos tempos de faculdade, costumava dizer que “com democratas a gente conversa, em fascistas, taca pedra”. Não sei. Não sou bom nesse negócio de pedra: não sei fazer isso. Só sei conversar.

“Mas eles não vão ouvir”, argumentaria meu amigo de faculdade. Então que tomem decisões erradas e se afundem com elas. Os fatos, pelo menos, não adianta xingar. Eles não se ofendem.

E o fato é que a economia não está bem (desemprego alto, inflação subindo, investimento baixo, déficit fiscal, expectativas em queda…), a administração pública também vai mal (uma mistura de inexperiência e incapacidade administrativa com vontade de adotar políticas sem sentido) e a parte menos tosca dos minions já está começando a notar (vide pesquisas de opinião sobre o governo).

Talvez só os fatos convençam os minions. Mas não vai ser muito rápido. Eles só vão destampar os ouvidos (e os olhos) quando a água já tiver coberto seus narizes. É o meu melhor palpite sobre o que vai acontecer nos próximos meses.

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Não adianta vir com nhoim nhoim: você não vai me convencer de que isso é uma xícara de café, seu #*%#@&!!!

A imprensa e a apologia ao crime hediondo

Nos Estados Unidos, a imprensa dava uma atenção desproporcional a Donald Trump antes das eleições porque os delírios que produzia em frente à câmera davam audiência. No Brasil, isso não devia ser possível. Primeiro porque há regras sobre proporção de exposição de candidatos nos noticiários, segundo porque algumas coisas simplesmente não podem ser ditas impunemente na imprensa.

Fazer apologia a crimes – em especial a crimes hediondos como tortura, homicídio e estupro – é crime. Mas, se um candidato comete esse crime, os jornais daqui ficam felizes em estampar a declaração no alto da página.

Dado o espaço para seu nome ser lembrado por todos os eleitores, o candidato, depois, discretamente, diz que foi mal interpretado e não responde a processo por apologia.

Duas coisas são especialmente estranhas nessa história. A primeira é haver eleitores dispostos a votar em um candidato que (supostamente em nome da lei e ordem) defende que policiais e outros agentes do Estado possam cometer execuções sumárias, um candidato que homenageia publicamente torturadores. Para deixar claro: votam em um candidato que defende o crime hediondo.

A segunda é que a imprensa não dá destaque (como deu a Trump nos EUA) porque as declarações do candidato dão audiência. Ela dá destaque até quando não há declarações que dão audiência. Hoje, domingo 26 de agosto, o único nome em manchete no alto do site da Folha de S. Paulo é o desse candidato. Não há nada sobre Marina, nada sobre Ciro Gomes. Há uma foto de Alkmin (sem seu nome na manchete) e um vídeo (!) sobre o candidato que mais aparece nos jornais, com a chamada: “Bolsonaro desfila em Barretos a cavalo e é chamado de mito”.

Isso não é jornalismo. Isso é propaganda política. Eu deixaria de ler a Folha de S. Paulo se só ela estivesse fazendo isso, Mas, como os outros grandes jornais também estão fazendo… Não dá para deixar de ler todos.

A imprensa brasileira é conservadora, eu sei, mas isso não é conservadorismo, isso é o elogio do crime, crime cometido por agentes do Estado (o que deve contar como agravante). Como conseguem defender (sim a exposição maior que a dos outros candidatos é uma defesa, é propaganda), como conseguem dormir à noite fazendo esse tipo de coisa?

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Topo da página da Folha de S. Paulo, domingo, 26/8.

 

Estado de S. Paulo, mesmo dia, também no topo da página. Ainda mais explícito.

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Valor Econômico, topo da página, mesmo dia.