Num terreno baldio em Paris

janeiro 29, 2012

A imprensa está mansa. Mais mansa que no fim dos anos 60. Naquela época, mesmo com censura e afins, se uma figura pública começasse a não dar satisfações sobre algum tema importante para sua área, podia descobrir, lendo o jornal, que tinha sido entrevistada à meia noite, em um terreno baldio, tendo como testemunha apenas uma cabra vadia que comia a paisagem (e que tinha sido excessivamente sincera na entrevista).

Eu sei, é muito esperar que apareça um novo Nelson Rodrigues para entrevistar nossos políticos, diretores do Banco Central, religiosos e afins. Mas alguém podia, pelo menos, entrevistar o governador do Rio de Janeiro.

No terreno baldio, à meia-noite, o governador explicaria suas relações com os empresários de ônibus, suas caronas em helicópteros de construtoras contratadas pelo Estado, a origem do dinheiro para comprar sua nova casa em Angra e até o motivo de estar sempre fora do Rio (de preferência em Paris) quando alguém precisa falar com ele.

A entrevista apócrifa, para conforto do governador, poderia ser feita em um terreno baldio parisiense, tendo como testemunha uma cabra produtora de queijo – do tipo que só come paisagens selecionadas. Como é apócrifa mesmo, ela poderia ser regada a bons vinhos locais e, é claro, poderia manter a tradição de sinceridade de suas ancestrais rodriguianas.

Nelson: algumas das melhores entrevistas que nunca aconteceram.

Menos a Daniele

janeiro 22, 2012

Uma mulher que é estuprada, perde a filha de pouco mais de um ano e passa por uma sessão de tortura de quatro horas sob custódia do Estado é notícia? Para a imprensa brasileira, ao que parece, todo caso desse tipo merece destaque.

Menos o da Daniele.

Em 2006, Daniele Toledo do Prado foi estuprada por um estudante de medicina no Hospital Universitário de Taubaté, onde tinha internado a filha de um ano e três meses. O que já seria uma tragédia pessoal insuportável se tornou um enredo de terror inconcebível. A filha acabaria morrendo, e ela, a mãe estuprada, acusada por médicos de dar cocaína para a menina. A polícia comprou a história antes mesmo de ouvir depoimentos ou realizar exames periciais. E, com a polícia, veio a imprensa. O que se seguiu, mesmo nestes tempos de fugacidade, muita gente lembra até hoje.

Nasceu então o “monstro da mamadeira”. [Leia detalhes do caso aqui.]

Pois o monstro da mamadeira, exposta diariamente pelo “interesse jornalístico” da versão oficial, era na verdade vítima. Vítima de estupro, vítima de uma funesta arapuca armada por médicos, vítima da polícia, vítima do prejulgamento da sociedade, vítima da imprensa.

E, por tudo isso, a Justiça de São Paulo decidiu recentemente que o monstro da mamadeira merece receber do Estado uma indenização de R$ 15 mil. São cinco meses da mensalidade do curso de medicina da Universidade de Taubaté, dois meses de salário de um delegado da Polícia Civil de São Paulo, dois segundos de comercial em rede nacional de TV.

A Folha de S. Paulo publicou uma matéria discreta sobre a decisão. O resto da grande imprensa nem se deu ao trabalho. O monstro da mamadeira, ou melhor, Daniele Toledo do Prado, ao virar vítima de tantas monstruosidades, perdeu o interesse jornalístico.

E nós todos perdemos a vergonha.

Menos a Daniele, que terá de viver com ela até a morte, aqui mesmo no Brasil.

É bom que a Europa entre em recessão e melhor ainda que Guido Mantega continue no Ministério da Fazenda depois da reforma pré-eleitoral que Dilma fará em sua equipe.

Uma semana atrás, se lesse a frase acima, eu ia achar que tinha sido escrita por um lunático. Mas, excesso de otimismo à parte, concordo com ela. Estou lendo o novo livro de Daniel Kahneman, o psicólogo que ganhou o Nobel de economia. O livro fala mais de estatística do que de qualquer outra coisa e acaba com a maneira como os economistas entendem a ideia de utilidade.

Kahneman e seu co-autor, Amos Tversky, perceberam que as pessoas sofrem de aversão à perda. Resumindo muito, a perda de satisfação por perder R$ 1.000 é muito maior que a satisfação de ganhar R$ 1.000. A teoria vai bem mais longe do que isso. Mas, parando aí, já dá para explicar porque passei a comemorar a recessão européia.

Agora, no auge da crise – quando os governos estão com a corda no pescoço, sem saber se vão conseguir pagar as contas do mês que vem – é a hora ideal para empurrar medidas que, em qualquer outro momento, seriam consideradas politicamente inviáveis. A aversão à perda faria os eleitores derrubarem qualquer um que propusesse um ajuste igual a metade do necessário para botar as contas públicas de Grécia, Itália e cia. em ordem.

Eu sei, o ideal seria fazer o ajuste aos poucos, para evitar a recessão. Eu sei, ter famílias, empresas e governos cortando gastos ao mesmo tempo (em vários países) é uma receita para o desastre. Mas se os governos não fizerem os cortes agora, não vão conseguir aprova-los depois – quando a crise não estiver encostando a faca em seus pescoços.

A aversão à perda – de cada um dos eleitores – faz com que prefiram a bomba de longo prazo do que o corte de salário amanhã. É irracional, mas quem disse que nós somos racionais? (há uma longa lista de autores, mas eles estão errados).

Kahneman certamente não imaginou que suas ideias poderiam justificar um aperto de cinto de proporções latino americanas na Europa. Mas, por estranho que pareça, é o que resta fazer. É isso ou continuar com a incerteza à porta, com os problemas em banho-maria enquanto os políticos se esquivam de tomar medidas impopulares (e, infelizmente, necessárias).

Sobre o Mantega, bom, li esta semana um artigo excelente do Armando Castelar associando a entrada de dólares dos últimos anos a altas  de  preço – como a dos imóveis. O investimento externo tem contribuindo para que o Big Mac daqui seja mais caro que o dos outros lugares.

O Brasil, em tempos de crise bancária internacional e recessão européia, virou um bom lugar para guardar dinheiro.

Mas, quando o dinheiro entra muito rápido, ele cria bolhas, aquece a demanda e produz um certo suspense sobre o que vai acontecer quando parar de entrar.

Os economistas mais tradicionais sabem que há pouca coisa a fazer sobre isso. Quando o dinheiro quer vir, ele vem. Não há câmbio controlado, controle de capitais ou qualquer outro controle que funcione.

Para moderar os efeitos da enxurrada de dólares, o Banco Central tem mandado parte dos dólares de volta para o exterior (como reservas internacionais) e a presidente Dilma tem mantido Mantega no ministério.

Não que qualquer medida proposta por ele afete realmente o câmbio ou o fluxo de recursos. Quem afeta é ele, diretamente. Mantega funciona como um espantalho em plantação de milho. O risco, a ameaça crível de ter medidas completamente sem nexo adotadas a qualquer momento na economia desestimula boa parte dos investidores mais sérios a olhar para o Brasil. E isso diminui a entrada de dólares.

A heterodoxia, enfim, é útil.

E o saldo da história é que estamos bem com nosso ministro e a Europa está bem com sua recessão iminente (apesar dos empregos que serão perdidos, da queda de padrão de vida e da troca amarga de olhares entre gregos e alemães). Tudo vai bem, no melhor dos mundos possíveis.

Como diria Voltaire: "Tá otimista é?"