Recessão amantegada

agosto 30, 2014

Os jornais se apressaram hoje em dizer que o país está em recessão técnica. 

Recessão técnica, segundo os jornais, é quando o país tem dois trimestres seguidos de queda no PIB.

O curioso é que a definição – usada por jornais do mundo inteiro  – só é usada em jornais: não está nos livros de economia.

Para os economistas, não faz sentido chamar de recessão dois semestres seguidos com taxas de -0.1% e não chamar outros dois, com taxas de 0 e -5%, por exemplo.

O “técnica”, ao lado do “recessão”, devia ser trocado por jornalística, simplista ou outro adjetivo qualquer.

Isso, no entanto, não muda o fato de que os números da economia no segundo trimestre foram bastante ruins: recessão ou não, a economia encolheu.

Mas, mais que que o destaque para um conceito de recessão que não está nos livros, o mais estranho na cobertura da imprensa sobre o PIB talvez tenham sido as declarações do ministro da Fazenda sobre os resultados. 

O ministro não têm a obrigação de dar declarações sempre que o IBGE divulga o PIB. Mas Guido Mantega faz isso – seja para se vangloriar, quando o PIB cresce, seja para dizer que não tem nada com isso (a culpa é da seca, da crise externa etc.) quando o PIB cai.

Desta vez, talvez com o estímulo extra da campanha eleitoral, o ministro deu declarações simplesmente erradas, como a de que os EUA também estão crescendo pouco, ou a de que já há sinais de recuperação para a economia no terceiro trimestre.

Os EUA cresceram mais de 1% no segundo trimestre e os poucos indicadores de julho sobre a economia brasileira já publicados não foram exatamente comemorados pelo governo (ou por quem quer que seja).

De qualquer jeito, o terceiro trimestre ainda está longe de acabar (e o futuro é muito pouco previsível, como o ministro sabe, ou deveria saber). 

Campanha ao pé do ouvido - Camille Claudel.

Campanha ao pé do ouvido – Camille Claudel.

O futuro sou eu

agosto 19, 2014

A presidente Dilma Roussef cumpriu pelo menos uma de suas promessas: a de ser, na prática, o ministro da Fazenda. 

Diante do silêncio de Guido Mantega nas últimas semanas, Dilma chamou para si o papel de guia da economia e repetiu as mesmas previsões otimistas que fizeram a desgraça de seu ministro.

Hoje, em entrevista ao Jornal Nacional, ela garantiu: a inflação foi praticamente zero em julho e (esqueçam o passado) os indicadores antecedentes da economia apontam melhora no segundo semestre. 

A segunda parte, a dos indicadores antecedentes, nos leva à pergunta: quais? Os da Fundação Getúlio Vargas, os mais divulgados no mercado, estão em seu nível mais baixo desde a crise de 2008/2009.

Sobre a inflação, Dilma não mentiu: ela foi de praticamente zero em julho. Mas faltou dizer que a inflação sempre é de praticamente zero em julho e que isso acontece por uma questão de sazonalidade. Julho é – todo ano – o mês em que os preços não sobem. 

Para ter ideia de como anda a inflação é preciso ver dados dessazonalizados ou olhar para a inflação acumulada nos últimos 12 meses (que está em 6,5%, como lembraram os entrevistadores).

O que mais me assusta não é pensar que Dilma repete Mantega e acha que pode enrolar o público com a promessa de um futuro cor-de-rosa. O que me preocupa é que há uma chance, pequena, mas há, de que ela acredite no que diz, de que compre a própria propaganda.

Nesse caso, ela se aproxima de Luis XIV, com sua célebre: “O estado sou eu”. No caso de Dilma, a versão tupiniquim da frase é algo como: “O futuro sou eu” ou “A projeção errada do Mantega sobre o futuro sou eu”, ou “Minha previsão como mandatária desse caos sou eu”. 

De um jeito ou de outro, é uma previsão ruim.

Maria Antonieta: "O futuro é comer brioche!"

Maria Antonieta: “O futuro é comer brioche!”