Na votação do impeachment na Câmara, os deputados de partidos aliados (PC do B e PSOL) deram um show à parte com seus discursos inflamados “contra o golpe”. Era estranho vê-los se expor desse jeito em nome de uma causa perdida (e incrivelmente impopular).

Não custa lembrar: Dilma já tinha índices de rejeição que deixariam até Collor constrangido.

Então por quê? Por que o desgaste para a própria imagem? Por que o PSOL, que tentou por alguns anos se apresentar como “oposição de esquerda”, defendeu Dilma com mais estardalhaço que o partido dela?

Esta semana, vimos um bloco bastante compacto de atores e cantores fazer a mesma coisa: se expor ao vexame de defender a rainha de copas, a destruidora da economia, em nome de… em nome de que mesmo?

Não parece haver chance de Dilma voltar ao poder. Mas os petistas ainda podem ter um ou outro voto na eleição para vereador. Então é realmente estranho o jeito como o partido parece arregimentar seus anexos para pular no abismo da rejeição pública.

Não entendo o que alguém ganha transformando Caetano Veloso em um lobista da burocracia de um Ministério da Cultura ressuscitado. Não entendo por que, um Jean Wyllys, que tinha uma boa plataforma política e um bom eleitorado, se expõe a perder o apoio de todas as pessoas que votaram nele e que têm alguma noção de economia.

Os antigos governistas parecem perdidos, ou desesperados.

DSC00762

Aristocracia decadente?

 

Com um cocar branco, cantando de graça entre os pilotis do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, Caetano Veloso se transformou em uma versão musical de Leonardo Picciani – ex-líder do PMDB na Câmara dos deputados e hoje ministro dos Esportes.

Caetano fez com Michel Temer, o mesmo que Picciani fez com Dilma Rousseff: exigiu dele  um ministério. Não era para ele pessoalmente: era para o grupinho de que faz parte.

Ser o PMDB do PMDB é uma coisa estranha. Mas se, em algum momento, Caetano perceber que se transformou nisso, vai, provavelmente fazer uma piada e fingir que não notou. Afinal, ele é hoje uma pessoa que exige espaço na burocracia oficial: ele é o PMDB do PMDB (e é melhor não admitir uma coisa dessas).

Temer, como bom articulador político, cedeu e recriou o Ministério da Cultura: um custo baixo para tirar o discurso da oposição musical.

DSC02767

PMDB, Honoré Daumier.

Ainda estou esperando para ver como será o governo Temer. Mas me espantou ver a defesa enfática (e involuntária) do novo governo feita por atores, cantores e compositores.

Não, eles não mudaram de lado. Caetano e cia continuam oficialmente contra. Mas, se a pior coisa que têm para reclamar é que Temer transformou o Ministério da Cultura em secretaria, então as coisas não podem estar tão mal.

O Brasil sempre foi um país cheio de problemas, com saúde pública ruim, educação pública idem, corrupção, concentração de renda etc.. Se agora os artistas se unem para denunciar uma mudança burocrática em um mistério quase sem verba, é porque o resto deve estar indo bem (ou porque eles não têm ideia do que estão fazendo).

L' adieu, Camille Claudel esculpida por Auguste Rodin após sua separação.

L’ adieu, Camille Claudel esculpida por Auguste Rodin após sua separação.