Para todos os lados

março 26, 2011

Não gosto de ver impostos subirem por decreto de um dia para o outro. As mudanças fiscais deviam ser como as eleitorais: só valer para o ano seguinte.

Mas o que me espanta não é o modo como o aumento (de 2,38% para 6,38%) no Imposto sobre Operações Financeiras nas compras com cartão de crédito no exterior foi feito. O espantoso é que ele prova que o governo está atirando para todos os lados: chega ao ponto de adotar medidas contraditórias – que se anulam, em parte.

O governo tem gastado dezenas de bilhões de reais todos os meses para segurar a cotação da moeda em torno de R$ 1,66 por dólar. São bilhões de dólares comprados com dinheiro que o governo não tem, que pega emprestado a juros de  11,75%  ano ano. Os dólares comprados são aplicados no exterior a uma taxa bem menor. A diferença de taxas, multiplicada pelos quase US$ 300 bilhões de dólares aplicados pelo governo no exterior, é paga pelo contribuinte.

Bom, se quer mesmo segurar o câmbio (o que é uma política discutível…) o governo deveria estimular as importações, deveria estimular as pessoas a comprar importados, a comprar dólares, pois isso faz o preço do dólar subir. O aumento de IOF sobre compras com cartão no exterior cria exatamente o estímulo oposto.

A mensagem implícita (implícita?!) é: “Não comprem dólar! Só quem compra dólar aqui é o governo! por pior que isso seja para o caixa do Tesouro Nacional.”

Livros da Amazon com mais imposto...

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A Veja garante

março 26, 2011

A Veja Rio de hoje tem uma capa com potencial para entrar para a história: além do subtítulo manipulador, “preços de imóveis sobem até 380% em 5 anos”, a revista catou 30 “especialistas” que, segundo a chamada no pé da capa, garantem: isso não é uma bolha.

Toda vez que uma capa de jornal ou revista anuncia: “não é uma bolha”, bom, vocês sabem…

PS. Até fiquei curioso para saber qual foi o aumento médio do preço dos imóveis cariocas no últimos anos. Foi grande mesmo. Mas o “até”, na chamada da Veja, me garante que o 380% não informa nada…

Se não fosse bolha, não estaria na capa.

Os jornais de grande circulação têm formatos parecidos: têm cadernos de política, economia, cultura, esporte… Mas lendo hoje um artigo sobre desindustrialização – escrito por um industrial paulista para o Estado de S. Paulo – me dei conta de que essa divisão não é mais suficiente. Precisamos de um novo caderno: o Caderno Lobby.

O Caderno Lobby reuniria artigos, notas e notícias viesados, insinceros e feitos para enrolar leitores apressados.

O critério de seleção seria simples: artigos de dirigentes de associações de empresas, de sindicatos ou de técnicos contratados por eles iriam direto para o Caderno Lobby, mesmo que seu tema fosse futebol.

Notícias pautadas diretamente pela direção do jornal teriam o mesmo destino. O Estadão, de tempos em tempos, publica uma sobre desindustrialização. Dois dias depois, escrevem sobre o crescimento da indústria, o aumento das exportações e sobre o recorde mais recente de vendas de automóveis no país. É preciso escolher: ou o crescimento da indústria ou a desindustrialização vai para o Caderno Lobby.

A proposta é simples e segue a mesma linha da que, há décadas, separou os artigos e editoriais das notícias. Os lobistas não vão gostar, vão fazer lobby contra, vão suspender anúncios, vão dizer que o que querem é se misturar aos colunistas sinceros.

O jornal então tem que se decidir: quer trazer notícias e facilitar a vida do leitor ou quer empurrar discursos pró-favorecimento a grupos organizados?

Os lobistas dirão que tem que haver espaço para todos. Concordo. Mas espaço bem delimitado. Notícia é notícia, opinião é opinião e defesa de interesses próprios como se fossem mais do que isso é lobby: deve estar em um espaço apropriado.

PS. Todas as declarações do atual ministro da Fazenda iriam para o Caderno Lobby. O mercado nunca levou o que ele diz a sério mesmo. Tira-lo do caderno de economia seria apenas reconhecer o que é a parte mais concreta do seu trabalho: repassar centenas de bilhões de reais do Tesouro Nacional – via BNDES – para empresas amigas.