O carioca desidratado

outubro 28, 2013

São três da tarde de segunda-feira, 28 de outubro. É o quarto dia de racionamento de água em meu prédio. A água fica aberta algumas horas por dia: tempo para preparar comida, tomar banho e encher baldes e garrafas de novo.

Passei a pé pelo Flamengo, depois do almoço. Contei cinco caminhões pipa em seis quarteirões. Considerando o tempo que leva para esvaziar um caminhão desses, é provável que todos os prédios em volta estejam pedindo um. O meu já pediu.

Tudo é bastante estranho nesse caso. Da falta de anúncio (ou péssima divulgação) sobre a manutenção na rede de água até a cobertura da imprensa – que dá mais destaque ao preço extorsivo dos caminhões pipa do que ao desrespeito completo da Cedae, a companhia estadual de saneamento.

Não basta não avisar, não basta informar prazos sempre prorrogados para a normalização do abastecimento, não basta deixar escolas, hospitais, restaurantes e casas a seco, a Cedae ainda vai continuar fazendo o que sempre fez: quando a água voltar, voltaremos a ver o esgoto jorrando pelas calçadas – travado em tubos entupidos e subdimencionados – voltaremos a ver as contas altas e a nos lembar da marchinha dos anos 50:

“Rio de Janeiro / Cidade que seduz / De dia falta água / De noite falta luz.”

As caixas da Light pararam de explodir (por hora), mas os professores aceitaram um acordo ruim (para não ter seu ponto cortado depois de dois meses de greve) e a saúde pública continua mal.

O governo parece não entender que existe para prestar serviço público. Prefeito e governador acham que estão lá para repassar subsídios a empresas de ônibus lucrativas, licitar obras sem projeto (com o Regime Diferenciado de Contratação, aprovado em homenagem à Copa do Mundo) e contratar a Fundação Roberto Marinho para administrar museus.

Depois se espantam quando a população vai para a rua (e mandam a polícia “dispersar” a manifestação).

Cariocas: pacientemente esperando a Cedae

Cariocas: pacientemente esperando a Cedae.

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O conselho do Globo

outubro 17, 2013

A primeira página do Globo de hoje é de tirar o fôlego. Um soco no estômago, um tapa na cara e todas as agressões figuradas a que se possa recorrer, mas, sobretudo, uma declaração de guerra ao leitor e ao jornalismo. Numa só manchete, o jornal destroça a literatura, a prosopopeia, a lógica, o direito e a ideologia. Mesmo em tempos de gás de pimenta, Amarildos, flagrantes forjados e prisões para averiguação, e uma fileirinha de homens e mulheres de bem a aplaudir atrás, é preciso coçar os olhos para crer estar diante do quadro fantástico pintado: Dostoiévski, uma lei dobrada sob o braço, a conduzir 70 criminosos ao cárcere. A caracterização geral dos detidos como vândalos já não é mais presunção amparada pelas notórias perícia e diligência policiais; é confissão despudorada de um jornal que amanheceu nesta quinta, 17 de outubro, metamorfoseado num inseto monstruoso. Era mais divertido antes, procurar um viés aqui e ali, disfarçado, ainda que mal e porcamente. Essa primeira página de hoje é outra coisa. É para guardar e mostrar ao filho um dia: “Eu te amo, mas ser jornalista, não.”

Uma pintura surrealista.

Uma pintura surrealista.

A grande preocupação dos governos (federal, estadual e municipal) hoje é a fachada. Vivemos sob um governo de aparências: se não sai na TV, não aconteceu.

É por isso que a nova lei municipal do Rio de Janeiro para a educação premia a “produtividade” dos professores. A produtividade é medida pelo número de aprovações. Assim, paga-se mais aos professores se aprovarem alunos ruins. O resultado: a melhora nos índices de aprovação nas escolas municipais.

No Estado, a polícia tentou, por três meses, esconder que torturou e matou um auxiliar de pedreiro que não queria dar informações na Unidade Pacificadora da Rocinha. Só depois de três meses de pressão, saiu na TV o que antes se falava em voz baixa.

Sem a pressão, o caso teria sido esquecido, quer dizer, não sairia na TV e não afetaria a “imagem” do governo. Os outros (muitos) casos similares, não aconteceram, não estão na TV.

No Governo Federal, os dados do Tesouro Nacional incluem uma coletânea de operações esdrúxulas de compras, vendas e empréstimos que disfarçam – mal – o descasamento entre receita e despesa, quer dizer, o aumento do déficit nas contas públicas. Além de ignorar a violência e o desrespeito aos direitos humanos no Rio de Janeiro, o governo Dilma, finge que não vê uma das principais causas dos protestos: a alta, persistente, dos preços no país.

Dilma levou para o IPEA, e depois para o cargo de ministro da Secretaria de Assuntos Especiais, um conhecido marqueteiro, o professor Marcelo Neri. Há quase 20 anos, Neri repete que estamos no melhor dos mundos possíveis, que o Brasil melhora sem parar, que nada pode dar errado. Neri é um especialista em pintar a fachada de rosa. Não à toa virou ministro tão rápido.

Mas se fosse só isso, tudo bem. O problema é que por trás da fachada, a situação está degenerando mais rápido do que esperávamos. O governo – em parte acreditando na própria propaganda – não dá sinais de se preocupar com o descontentamento da população. E, ao mesmo tempo, aprova as leis que estão sendo usadas para mandar para o presídio de Bangu perigosos manifestantes acusados de formar quadrilhas para cometer o horrendo crime de ocupar praças.

Hoje, o jornal O Globo publica as fotos de alguns desses perigosos ocupadores de praças. Ele as estampa na capa como se fossem de terroristas, do tipo que mata gente ou sequestra embaixador. As fotos, na capa do jornal, estão sob o “vândalos” da manchete.

Sim: lei de exceção, mais de 1.500 policiais para reprimir um protesto e um jornal oficial para aplaudir. Tudo isso enquanto o governo jura que está tudo bem: “pra frente Brasil!”.  Parece familiar?

Um fotógrafo que cobria o protesto de terça-feira foi preso e autuado por incêndio criminoso, roubo, depredação do patrimônio público e formação de quadrilha. Ele é um dos 70 “vândalos” cujo envio a Bangu O Globo comemora em sua capa.

Não dá  para fingir que não está acontecendo nada.

Cabral. A volta do "prendo e arrebento"?

Cabral. A volta do “prendo e arrebento”?

O protesto dos professores

outubro 16, 2013

Cheguei tarde à passeata dos professores – e cheguei pelo lado da Av. Presidente Vargas. Tive que desviar do “bloco da polícia” que fechava a passeata. Era uma quantidade realmente grande de policiais – fechando (no sentido estrito) a manifestação.

Mas a passeata foi excelente. Se tivesse um pouco mais de traquejo com a parafernalha do blog postaria os vídeos de manifestantes cantando “A educação parô-ôu!”, com as vozes de dezenas de milhares de pessoas na Av. Rio Branco, às 19h de hoje.

Preocupava um pouco a presença ostensiva da Tropa de Choque. Eles ficavam a cada dois quarteirões, em grupos de 20 ou 30, com escudos e cacetetes, encostados a prédios da avenida. Sem nomes nas fardas, tinham as tais identificações alfanuméricas.

Vi o momento em que um grupo de mais de 20 policiais resolveu prender um manifestante (pacífico) no meio da multidão. Eles foram, os 20 ou 30, para cima do sujeito. Não sei se ele estava usando máscara ou qual foi a justificativa. Mas, em pouco tempo, havia uma roda de câmeras e filmadoras em torno da cena e a multidão gritava “au au au, cachorrinhos do Cabral!”.

passeata 15_10

Os policiais se retiraram. Passaram ao meu lado na calçada e – pelo que pude ver – dessa vez não levaram ninguém. É difícil enfrentar uma multidão de professores.

Mas ser chamados de poodles do governador não foi o bastante para lhes ensinar a lição do dia.

Eu já estava longe quando a confusão do fim do protesto começou. Desenvolvi um sentido especial para pressentir o fechamento das portas da estação do Metrô e corri para lá a tempo de entrar.

O que posso dizer com segurança é que – pela quantidade de policiais no trajeto e no bloco de fechamento da passeata – houve certamente um momento, na hora da dispersão, em que eles se tornaram maioria.

Fico assustado vendo os narradores da TV dizerem em tom acusatório: “Vocês estão vendo um manifestante usar um tapume como escudo!”. Sim: como escudo, para se defender de alguma coisa. Fico assustado vendo a quantidade de bombas de gás voando e o locutor da Globo, o tal Bonner, dizer: “foi um grupo de mascarados…”

Alguém disse a ele para parar de dizer “vândalos”. Já é um progresso. Mas falta cobrir melhor como as passeatas são “dispersadas”: em que momento a polícia decide “dispersar” os manifestantes e a partir de que horas o Metrô fechado se junta à falta de ônibus (as ruas estão fechadas) e a polícia age como manda o governador.

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PS. Vi há alguns dias um documentário sobre o fim do comunismo no Leste Europeu. Os documentaristas recuperaram um trecho do jornal da noite da Alemanha Oriental de dias antes da queda do muro. Antes do muro cair, os alemães orientais já fugiam de carro, passando por outros países para chegar à Alemanha Ocidental. O locutor do jornal – com a cara mais dura do mundo – dizia que aqueles fugitivos estavam sendo “expulsos” do país.

Lembrei disso vendo o Bonner não dizer “vândalos” no Jornal Nacional. Não é ele quem decide como as passeatas serão mostradas no jornal da noite. Ele é um rosto, como o do apresentador alemão, alguém que está lá para repetir uma determinada versão.

Me senti, de novo, em um regime totalitário. Mas gostei de pensar que o status de celebridade de algumas figuras, de alguns apresentadores e “jornalistas”, se perdeu de vez.

Agora dá para ver melhor o que eles são.

PS2. Os jornais de hoje (16/10) mostram as decisões do comando da PM e do governador no fim da noite de ontem. Foram presas 190 pessoas. Os acampados – que estavam há semanas nas escadarias da Assembléia Legislativa – foram levados em ônibus para oito delegacias espalhadas pelas cidade, da Taquara à Ilha do Governador.

Por estar acampados perto do palácio, 43 pessoas foram acusadas de formação de quadrilha com agravante de aliciamento de menores.

PM

Policiais militares deram tiros para o alto  com munição real. Pelo menos um manifestante foi hospitalizado com um tiro – que o atingiu nos braços.

Segundo a Folha de S. Paulo, agora, cerca de 24h depois dos protestos, 64 manifestantes continuam presos. 

É estranho usar a lei de segurança nacional contra manifestantes de rua (que não ameaçam a segurança nacional). Mais estranho ainda é usa-la em um período de democracia.

Quando mandou autuar os manifestantes na lei da ditadura, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se esqueceu do básico: os militares usavam a LSN porque não precisavam de votos. Se dependessem de aprovação popular para se manter no poder, jamais teriam adotado a dita cuja.

O destino de Alckmin, graças a ele mesmo, será igual ao de Sérgio Cabral: a repulsa da população (que se traduz em perda de votos).

O PSDB, partido de Alckmin, faria bem se escolhesse outro nome para concorrer às eleições de São Paulo ano que vem. Alckmin vai ter contra ele as balas de borracha da polícia (disparadas no olho de uma repórter da Folha de São Paulo, há três meses) e o uso da lei de segurança nacional. Tudo visto e revisto no horário de propaganda eleitoral gratuita.

A oposição vai poder chama-lo de fascista sem medo de estar exagerando.

Há uma diferença respeitável ente ser politicamente correto e se oferecer como saco de pancadas.

Depois de levar a primeira rasteira na corrida eleitoral, Marina Silva parece ter deixado claro que vai bater de volta, com força, realmente para machucar- mas sem jogar baixo.

A decisão de apoiar Eduardo Campos – depois que cartórios eleitorais do ABC paulista, Brasília e outros lugares se recusaram a reconhecer assinaturas para fundação da Rede – é mais do que desistir de uma candidatura própria.

Apoiando Campos, sendo, provavelmente, candidata a vice, Marina se defende de novas rasteiras e cria uma candidatura com boas chances de ir para o segundo turno – e de ganhar a eleição.

O PSDB, há três eleições, entrega de bandeja a vitória ao PT. O partido é tão pouco aguerrido – e Aécio Neves tão menos aguerrido que o partido – que não dá para esperar muita coisa.

Se aliando a uma raposa política com uma boa base de apoio, como Campos, Marina bateu naquilo que o PT mais presa, sua continuidade no poder.

A dupla Campos-Marina tem boas chances em 2014. E, se o PT tentar outros golpes baixos, como fez com a fundação da Rede, a resposta vai ser dura, não tenho dúvida.

Com muita tranquilidade.

Com muita tranquilidade.

TSE estimula o voto nulo

outubro 4, 2013

Estou vendo, na TV Justiça, o julgamento da autorização para a criação da Rede, partido de Marina Silva.

O resumo do que ouvi até agora – espremido de dolorosos minutos de juridiquês – é o seguinte:

Juízes penas aplicam a lei. Se os cartórios não puderam ou não quiseram autenticar as assinaturas para a criação do partido, não é problema do Judiciário. Cabe ao Tribunal Superior Eleitoral apenas negar a criação do partido por falta de autenticação nas assinaturas.

Confesso que não entendo: a exigência de assinaturas não está na lei para garantir que novos partidos tenham representatividade? Não é essa a justificativa? Então, batendo pé pelos carimbos, apesar de as assinaturas existirem, apesar de o partido já ter milhões de eleitores declarando voto em sua candidata, os juízes não estão contrariando o “espírito” da lei? (se é que as leis têm isso).

Essa cômoda posição de verificador de carimbos – que os ministros do TSE se atribuem – bate de frente com declarações de ex-ministros, como ex-presidente do STF Carlos Ayres Britto, para quem, o TSE poderia liberar um registro provisório para o partido até que o total de autenticações fosse apresentado.

Resumindo: assuma ou não a responsabilidade, o Superior Tribunal Eleitoral negou a milhões de eleitores – que declaram sua disposição de votar em Marina Silva – um partido político.

Vi uma ministra do TSE dizer que os cartórios têm dificuldades em verificar tantas assinaturas em tão pouco tempo. Vi outro ministro lembrar que, no Rio Grande do Norte, faltaram duas assinaturas (ele não disse duas, mas disse o número necessário e o número obtido – duas assinaturas menor) para chegar ao mínimo por Estado para criar o partido. Vi as desculpas mais curiosas.

O que não vi foram ministros do tribunal eleitoral preocupados em fazer com que as próximas eleições tenham um partido que representa grande parte do eleitorado. Democracia é representação, não uma gincana de barreiras que dependem de cartórios (logo de cartórios, essa praga burocrática que não existe fora do mundo ibérico).

Vi ministros dizerem que não se pode sair criando partidos de qualquer jeito. Mas, para criar partidos governistas como o PSD, de Gilberto Kassab, o Solidariedade, de um sindicato ligado ao governo, e o PROS, para onde os irmãos Gomes irão para continuar com Dilma (contra Eduardo Campos) não há dificuldade: os cartórios parecem funcionar melhor.

O funcionamento dos cartórios, repete a ministra, não é responsabilidade dos juízes. Se os cartórios não conseguem ou não querem cumprir o prazo legal de 15 dias para verificar assinaturas, elas ficam sem validação – e não são contadas. O judiciário não pode prescindir do carimbo burocrático.

Meus parabéns, senhores ministros. Graças aos senhores, voto nulo para presidente. O próximo eleito – seja Dilma, Eduardo Campos ou Aécio Neves – não me representa. Quem me representa, os senhores vetaram: não tem partido para disputar.

Vale a pena repetir: a candidata de oposição com mais chance de vitória nas próximas eleições teve a criação de seu partido negada por falta de carimbos de cartórios.

Bela democracia.

Decepção - e falta de democracia.

Decepção – e falta de democracia.

Imagem resumo do protesto dos professores municipais, ontem, na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro. A repressão policial foi violenta (a Globo só mostrou pessoas quebrando vidraças) mas deu para ver que nem todo mundo se intimida com as balas de borracha e com o efetivo exagerado da polícia nas passeatas.

Fábio Motta, Agência Estado, 01/10/2013.

PS. A foto é também uma aula de jornalismo: ela não foi tirada nem do ponto de vista dos manifestantes nem do da polícia. O fotógrafo estava no espaço entre os dois grupos, assim como a professora que deu a bronca nos policiais.

PS2. Foi estranho – embora não surpreendente – ver no Jornal Nacional a proposta apresentada pelo prefeito Eduardo Paes – e aprovada pelos vereadores em seção fechada (com a polícia explodindo bombas na porta) – para o plano de carreira dos professores. Apresentada pela Globo, a proposta parece boa. Só esqueceram de dizer que ela vale para menos de 10% dos professores do município.

PS3. Com um salário de R$ 1.224 para trabalhar 22h (poucos trabalham 40h e ganham R$ 4.000 como alardeou a secretária municipal de educação, Cláudia Costin), sem grandes perspectivas de melhora e ainda apanhando da polícia, quem ainda vai querer dar aula para alunos de primeiro grau? Afinal, comissões incluídas, o salário de um vendedor de roupas é melhor.

PS4. A Globo também lembrou – em algum dos seus jornais – que os professores são contra a “avaliação por desempenho”, proposta pela dupla Paes/Costin. Faltou explicar como o desempenho dos professores é avaliado. O número de alunos aprovados é um dos critérios. A aprovação automática, dos tempos de Garotinho no Governo do Estado, era, pelo menos, mais explícita.

PS5. Já me disseram que a imagem aí em cima não resume o que o batalhão de choque fez nem a quantidade de bombas de gás que a polícia jogou do alto dos prédios sobre os professores. Mas, de qualquer jeito, fiquei feliz em ler os posts de professores descrevendo como o Black Block chutou de volta as bombas de gás da polícia e ofereceu água e ajuda aos atingidos pelo gás lacrimogênio. O bloco parece, cada vez mais, um grupo disposto a defender os manifestantes da truculência policial. As agressões físicas, registradas nas passeatas, são sempre cometidas pela polícia – que recebe a famigerada ordem para “dispersar” e a executa com entusiasmo. Sem o Black Block para defender os manifestantes, o número de vítimas sérias do gás e de pancadas de cassetete seria, certamente, maior.