O lobista antigo era formado em direito. Em um lugar muito burocrático, conhecer o emaranhado legislativo era importante.

Que lei mudar, com que funcionário falar, isso era o conhecimento básico do velho lobista brasiliense.

Mas as decisões do governo federal começaram a ficar muito visíveis e foi preciso inventar justificativas para as politiquinhas setoriais que os lobista propõem.

O perfil do lobista, então, teve que mudar.

Hoje, boa parte deles é formada em economia e não se incomoda em – com a maior cara de pau – citar os autores clássicos das formas mais estranhas para justificar “tecnicamente” suas propostas.

Muitos lobistas passaram também a ser nomeados para cargos executivos da administração federal. Alguns até foram nomeados ministros. Mas a maior parte está em diretorias de ministérios.

Para esses casos, valia a pena ter algum conhecimento prático sobre a área para onde foram indicados. Apareceram então os lobistas de origem acadêmica: ex-professores de economia, doutores – com doutorado ou formados em medicina – etc..

O curioso é que são pessoas com um bom nível de estudo.

Em uma terra onde menos de 15% da população tem curso superior, pode-se imaginar que não passariam fome se fizessem outra coisa que não vender peixe ruim com entusiasmo.

Fazem pelo salário mais alto? É só dinheiro? Ou há algo de sadismo em pregar o favorecimento a grandes empresas com dinheiro público?

Vi, semana passada, palestras de dois lobistas da área de saúde (os dois com doutorado em economia na unicamp). Eles me convenceram de que os lobistas não fazem o que fazem por maldade. É por burrice mesmo.

Canudo de doutor não é garantia de eficiência. A articulação com que apresentavam suas propostas faria os dois serem reprovados em seleções para vendedor de loja.

Como então foram dar aula para doutorado?

Uma das ouvintes das palestras me disse que um deles já foi um bom acadêmico, que publicou coisas razoáveis no fim dos anos 80.

Mas, nas últimas décadas, seu cérebro deve ter atrofiado e – percebendo isso – ele passou a fazer lobby (o que é mais fácil que fazer pesquisa a sério).

Isso me tranquiliza.

Se for isso mesmo, os doutores lobistas serão, na média, tão eficientes quanto os sujeitos desconexos que ouvi semana passada.

Claro, a média não é tudo e há alguns lobistas eficientes.

É preciso restringir seu poder antes que algum deles vire ministro da fazenda e comece a aprovar isenções de IPI para montadoras e fábricas de massas! Antes que mude a política econômica para beneficiar a indústria (em detrimento dos consumidores)!

Temos que fazer lobby contra o lobby! (o que soa mal, não sei por quê).

Futuro lobista passeia pelos corredores da primeira faculdade de economia do mundo, a de Cambridge, na Inglaterra.

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Esqueça o entediante reducionismo da briga entre petralhas e PIG. Os resultados das eleições deste domingo mostram um movimento muito mais interessante – e que, a despeito disso ou justamente por isso, não deve passar de nota de rodapé na cobertura da grande imprensa:

Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, quase um terço do eleitorado não escolheu nenhum candidato para prefeito.

Em São Paulo, dos 8.619.170 eleitores aptos a votar, 18,47% não compareceram. Dos que apareceram, 5,43% escolheram o candidato “branco” e 7,35% anularam o voto. Considerado o eleitorado total, 28,89% não marcaram nenhum candidato a prefeito. Em 2008, tinham sido 22,3%.

No Rio de Janeiro, dos 4.719.607 eleitores aptos, 20,45% não apareceram. Votos em branco foram 5,03% e nulos 8,48%. Percentual que não sufragou ninguém: 31,2% (contra 28,36% em 2008).

Em Belo Horizonte, dos 1.860.172 eleitores, 18,88% faltaram. Votos em branco foram 5,79% e nulos 9,15%. O percentual dos que não optaram por qualquer dos candidatos a prefeito foi de 31% (contra 28,9% em 2008).

É certo que, entre as abstenções, há pessoas que não atualizaram o domicílio eleitoral, que estavam viajando, ou que por qualquer outra razão acabaram impedidas de votar. Da mesma forma, parte dos votos brancos e nulos pode ser atribuída a mero erro, e não a protesto ou indiferença.

São, ainda assim, números impressionantes, principalmente considerado o crescimento em relação às eleições municipais anteriores. Nestes quatro anos, o Brasil continuou crescendo, entrou em vigor a Lei da Ficha Limpa, o STF finalmente pôs em julgamento o mensalão. E como o eleitorado reagiu nas eleições que são as mais próximas do seu dia a dia?

Não escolhendo.

Essa é a manchete. Ou pelo menos deveria ser.

Entrevista fictícia com o Guru Maior do governo para assuntos econômicos.

O Guru encontrou o repórter de OS MOSCOSOS em um terreno baldio, à meia noite de ontem.

Preservando a tradição rodriguiana, uma cabra vadia foi levada para testemunhar o encontro.

O entrevistado – também segundo a tradição – não mentiu em nenhuma resposta.

Abaixo, os principais trechos da entrevista:

MOSCOSOS: Por que o Banco Central não explica o que está fazendo com a política econômica?
GURU MAIOR: Porque ele mesmo não tem muita certeza do que está fazendo.

M: O que O BC sabe?
GM: Ele sabe que trocou o câmbio flutuante por câmbio fixo e que trocou a política monetária por política fiscal (que é coerente com o câmbio fixo).

M: Quais os efeitos disso?
GM: O controle da inflação passou a ser feito pelo Ministério da Fazenda, que é quem implementa a política fiscal.

M: Como está a implementação da política?
GM: Difícil: como boa parte dos países ricos está em recessão e os juros estão baixos lá fora, há um grande estímulo para a entrada de dólares no país. Isso faz com que seja difícil para o governo fixar o câmbio.

M: O que o governo está fazendo para travar o câmbio?
GM: Para inibir a a entrada de dólares, o governo adotou impostos altos para movimentação de dinheiro com o exterior (IOF). Mas isso não foi suficiente para conter os investidores que achavam que o Brasil podia ser um lugar com potencial para crescer.

M: E qual a resposta do governo?
GM: Respondemos de forma agressiva, com intimidação. Mudamos várias regras sobre tarifas e avisamos que poderíamos mudar muito mais. A incerteza e a constante mudança de regras são mais eficazes que impostos altos para espantar os investidores.

M: Então está resolvido?
GM: Não. A política de criar incertezas e afugentar investidores levou à queda do investimento e do crescimento econômico. Criamos um problema maior que o que tínhamos antes.

M: E como estão resolvendo esse problema?
GM: Baixamos os juros, estamos emprestando dinheiro do Tesouro (via BNDES) com taxas abaixo da inflação e criamos mecanismos para afrouxar a política fiscal que contornam os registros de superavit primário (empréstimo ao BNDES, desconto de investimentos públicos da meta, nova “conta movimento” para Caixa Econômica e Banco do Brasil).

M: E funcionou?
GM: Mais ou menos – e teve efeitos colaterais. Mesmo com taxas baixas, a incerteza continua afugentando os empresários. Foi um erro grave aumentar a incerteza em uma época que já era incerta por conta da crise internacional. Para segurar o câmbio, condenamos o investimento.

M: Por que fizeram isso?
GM: Seguimos as sugestões de um grupo de industriais de São Paulo que são nossos amigos há muito tempo. Eles disseram que isso seria muito bom para eles.

M: E o que deve acontecer agora?
GM: Falar sobre o futuro é sempre difícil. Mas a crise na Europa é previsível: se a Alemanha insistir em obrigar os vizinhos a cortar despesas, a recessão vai piorar e há chance de haver revolta social – com possível saída de países da Área do Euro.

Isso contribui para o aumento da recessão lá fora.

Mas o mais difícil é prever o que vai acontecer aqui dentro. Como já anunciamos nossas políticas de aumento da incerteza, como já dissemos que vamos mudar regras de acordo com as conveniências, fica difícil voltar a trás. Ninguém ia acreditar se anunciássemos que íamos parar de repente com nossas políticas setoriais.

Então tudo aumenta a incerteza. O BC, por exemplo, não admite publicamente que sua política é de câmbio fixo. O efeito disso é que os documentos que produz – que balizavam as expectativas do mercado – perderam o sentido: não podem mais ser levados a sério como avaliação do cenário futuro.

M: Vai ficar pior?
GM: Não sei. Abandonamos as metas de inflação: os juros não são mais fixados para segurar os preços. O que segura a inflação hoje é o câmbio fixo e a recessão internacional. Com nossa política de incerteza, é improvável que a economia cresça no médio prazo. Ela pode crescer um pouco ano que vem – como efeito da queda dos juros. Mas, como ninguém investe, há a chance de que a queda dos juros estimule a demanda e não haja aumento de oferta para atender essa demanda. Se isso acontecer, teremos inflação.

M: O que fazer então?
GM: Para os empresários, a melhor alternativa é não investir. Porque, no médio e longo prazo, há poucas chances de a economia crescer. Eles vão aplicar em títulos indexados à inflação. Vão poupar porque, num futuro cada vez mais incerto, vale a pena ter uma reserva maior: guardar o dinheiro em vez de comprar máquinas para aumentar a produção.

M: Há alguma chance de reverter esse cenário?
GM: É muito difícil. Depois que se começa a política de incerteza, é difícil voltar atrás. Os investidores não vão acreditar se dissermos que não vamos mais mudar as regras do jogo para atender os amigos. A nossa falta de credibilidade vai derrubar os investimentos e frear a economia. Curioso, mas é um caso que não se encontra em livro texto de economia. Talvez o Brasil vire um caso de referência para o estudo de economia heterodoxa no futuro.