Humor involuntário

É difícil competir com os economistas quando o assunto é humor (o involuntário, é claro). Este texto publicado na Folha de S. Paulo de hoje por um analista da FGV defende – sem nenhum constrangimento – que, para tributar mais os mais ricos, é preciso REDUZIR os impostos sobre as empresas. Isso: reduzir.

Depois, ele propõe aumentar as alíquotas do Simples, pagas pelos pequenos empresários (aqueles cujas firmas têm expectativa de vida de uns dois anos) e, para arrematar, diz que é difícil falar em reduzir impostos dos ricos porque no Brasil a classe média é rica.

Aí a ofensa foi feia: a concentração de patrimônio no Brasil é uma das maiores do mundo. Desculpe, mas a classe média não é rica aqui não.

O nó retórico de Samuel Pessoa, o autor do texto, é confundir renda e patrimônio. Renda é quanto você ganha, patrimônio, o que você tem. Um é fluxo, o outro, estoque.

Rico é quem tem patrimônio. Uma pessoa que conseguiu um salário maior ou uma transferência de renda em um ano não é rica. Ao mesmo tempo, donos de imóveis e empresas bem avaliadas, mesmo que tenham prejuízo e um ano qualquer, são ricos, porque riqueza é patrimônio.

O patrimônio no Brasil é muito mais concentrado que a renda, e a concentração de renda é subdimencionada. Só agora, com dados do Imposto de Renda Pessoa Física (analisados à Piketty) estamos começando a medir melhor a renda das faixas mais altas e – por tabela – nossa concentração de renda.

Dizer que quem ganha mais de 23 mil no país está no grupo dos mais bem pagos (como faz Pessoa) é tentar arregimentar para a defesa da Fiesp os funcionários mais bem pagos das empresas e do governo – e é um discurso ofensivo.

Vamos falar sobre tributação de patrimônio e sobre tributação da renda do capital e não sobre salários. Se misturar essas discussões for a base do discurso conservador na próxima eleição, até eu, que tenho horror a economistas heterodoxos, sou capaz de votar em alguém de extrema esquerda, só para não ter que ouvir pérolas pró-Fiesp como essa.

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Portas fechadas para os pequenos.

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