Para baixo!

Para baixo!

Conseguir fazer coisas não é só questão de vontade.

A tal “vontade política” é um mito.

Ninguém quer que o país continue em crise, que continue com a economia encolhendo e a política perdida entre a paralisia e a lama.

Mas ninguém tem uma solução funcional para os estranhos impasses do governo, do Congresso e dos investigados por corrupção.

Por isso, cada vez mais se consolida a impressão de que, sim, o país tem direção – e é para baixo: até o fundo do poço.

Supondo, é claro, que ele tenha fundo.

As crises econômicas já são complicadas quando são enfrentadas. Uma crise sem política econômica, sem que o Congresso aprove um orçamento equilibrado ou uma desvinculação de receita é algo novo. Não consigo lembrar de nenhum precedente.

E isso não é bom.

Governo x tautologia

outubro 18, 2015

Tudo que é insustentável, alguma hora, acaba.

Aparentemente redundante, a frase acima tem uma pequena maldade: o “alguma hora”.

Discípulos de Milton Friedman defendem a teoria (nunca provada) das expectativas racionais. Segundo ela, as pessoas tomam decisões usando toda a informação disponível e olhando para frente, para o futuro. Assim, se estão num barco prestes a afundar ou em um governo prestes a cair, tratam – imediatamente – de mudar para uma posição em que fiquem melhor (ou mais seguras) se o que estão prevendo – de fato – acontecer.

Se for só isso, vão todos para o mar, no caso do barco afundando, e para a oposição, no caso do governo em queda.

Mas não é só isso. O caso clássico de insustentável que durou 70 anos é a União Soviética. Ao longo de décadas, diplomatas, filósofos e escritores como George KennanFriedrich Hayek e Mikhail Bulgacov listaram os motivos porque a União Soviética era inviável. E ela caiu pelos motivos que eles listaram. Mas demorou 70 anos.

O que manteve o regime? O que fez com que não desabasse sob o peso da desorganização econômica causada pelo controle de preços (Hayek)? Por que não caiu com a ineficiência dos favorecimentos e idiossincrasias dos burocratas que tinham poder quase absoluto (Bulgacov)? Como resistiu à perseguição de alguns de seus melhores técnicos e pensadores como o próprio Bulgacov? Como o povo que produziu – e lia – Dostoievski aguentou uma ditadora daquele tipo (Kennan)?

O problema é que havia uma forte estrutura estatal empenhada em se manter no poder – mesmo a um custo alto.

A História não é mecânica e previsível. Embora dissesse que acreditava na História mecânica à Marx, o que o o governo russo fez foi nadar contra a corrente por 70 anos. Mataram gente, censuraram opositores, fizeram o diabo (como alguém já disse) para conservar o poder.

São as pessoas fazem a História: ela não está dada. Mas, mesmo fazendo o diabo, não dá para sustentar o insustentável para sempre. Não dá para brigar com a tautologia – dá, no máximo, para adiar o ajuste.

Resumindo: acho que o governo cai. Mas pode demorar. Eles ainda têm poder e capacidade para tomar muitas decisões (destrutivas) que lhes dêem uma sobrevida.

Os exemplos disso são próximos: os governos da Venezuela e da Argentina estão acabando com a economia de seus países em nome da manutenção do poder. O daqui é perfeitamente capaz de fazer o mesmo.

Hora de abandonar o barco.

Hora de abandonar o barco.

Má vontade garantida

outubro 9, 2015

Não é só por vaidade que ditadores – de Stalin a Sadam Hussein – espalham estátuas de si mesmos pelas cidades. Não é só para inflar o próprio ego que publicam biografias autorizadas.

Getúlio Vargas tinha todo um Departamento de Imprensa e Propaganda para censurar críticas e vender a imagem de “pai dos pobres”.

O problema é que até ditadores (sem limites para o uso da força e sem pudor para usa-la) têm dificuldade para implantar políticas e conseguir o que querem.

Contar com a boa vontade alheia – como sabe qualquer pessoa que trabalhe produzindo qualquer coisa – ajuda muito.

Por isso, tanta propaganda. Por isso, dá para dizer que Fernando Collor caiu no primeiro dia de seu governo – quando confiscou as cadernetas de poupança e conquistou a antipatia e a má vontade de toda a população.

O processo, no caso de Collor, levou mais de dois anos para efetivamente tira-lo do palácio. Mas o que o fez cair foi a antipatia geral, de políticos, empresários, seriados da Globo e, até, da população.

A atual presidente é conhecida pela dificuldade que tem em não gritar, xingar e humilhar quem quer que apareça na sua frente. Acumula também uma crise econômica sem fim à vista e um histórico de promessas descaradamente descumpridas.

Mesmo com todos os recursos do executivo federal, mesmo com toda a falta de pudor para distribuir cargos e trocar verbas por votos no Congresso, ela perdeu apoio. A boa vontade de políticos, empresários e, até, da  população com Dilma acabou.

E, sem boa vontade, é difícil fazer qualquer coisa que dependa de outras pessoas.

O governo Dilma acabou.

Mesmo se ela não cair, não conseguirá fazer nada além de tapar buracos no casco do barco (e, mesmo isso, a um custo enorme).

Para ficar desse jeito, é melhor que caia.

Pisar na cabeça não é boa politica.

Pisar na cabeça não é boa politica.

Os 7 suspeitos

outubro 3, 2015

A economia sob controle.

E a economia? Sob controle?

A reforma ministerial anunciada ontem pelo governo me lembrou uma velha comédia anos 80 chamada Os 7 suspeitos. No filme, o anfitrião de um jantar de gala é assassinado e todos os convidados são suspeitos. O anfitrião seria um chantagista e a grande pergunta do filme é: qual dos chantageados o matou? Foi o coronel Mostarda, com um candelabro, na sala de jantar? Ou foi simplesmente o mordomo?

Nos filmes policiais, os chantagistas costumam morrer porque vão tirando cada vez mais dos chantageados (que, em algum momento, concluem que é melhor mata-los).

A coisa fica mais difícil quando o chantagista não é uma pessoa, mas um grupo de partidos políticos. O governo não pode matar o PMDB ou outros “aliados” que pedem cargos. Se pudesse, provavelmente mataria, mas essa opção não está no cardápio.

Os partidos que pedem cargos, no entanto, têm os mesmos estímulos dos chantagistas de filme: vão continuar pedindo cada vez mais, até deixar o/a chantageado/a na miséria.

Resumindo: acho que a distribuição de ministérios não é uma solução de longo prazo. Ela pode comprar apoio por algumas semanas mas, logo, novos pedidos de cargos e verbas virão.

Ajudaria se o governo tivesse algum tipo de projeto de médio prazo, algo além de fazer o possível para continuar no poder ou das medidas de curto prazo para conter o crescimento da dívida pública. Se fizesse acordos em torno de propostas, o governo daria mais horizonte para investidores e empresários e garantiria apoio para as essas propostas – em vez de só apoio contra o impeachment.

PS. Amigos baianos me dizem que Jaques Wagner pode ter sido escolhido para a Casa Civil por ter a característica que mais falta à presidente: simpatia pessoal. Nesse caso, escolher um ministro só porque é simpático não seria um erro tão grande – uma vez que há um déficit monstruoso dessa característica na Planalto.

O problema é que a Casa Civil é por onde passam todos os papéis, autorizações, leis e chancelas do poder executivo federal. Em seu curto período como ministro da Defesa, Wagner cochilou e deixou passar a ordem de uma auxiliar que tirava poder dos comandantes militares para fazer coisas básicas, como transferir funcionários. Depois, o ministro teve que desfazer a ordem (que já tinha passado, sem problemas, pela Casa Civil de Aloísio Mercadante).

O caso deixou a impressão de que Wagner não tem muita afinidade com a burocracia típica da Casa Civil. Com sua nomeação, Dilma trocou o “professor aloprado” pelo bonvivant. Vamos ver se funciona.