A mão invisível é como a seleção natural: uma ideia no mínimo cruel quando se é afetado diretamente por ela.

As duas parecem bons princípios organizadores no longo prazo, capazes de equilibrar sistemas e trazer uma espécie de tendência natural de organização a coisas que – de outra forma, poderiam tender ao caos. Agora vá você ser “naturalmente selecionado” (ou pior, não-selecionado) para ver como a experiência é ruim.

Com a mão invisível é a mesma coisa. O primeiro problema da mão invisível é que não é invisível. Como diria um ex-presidente do Banco Central (se fosse mais pobre e tivesse que pensar nisso): a mão invisível é a sua, a minha, as nossas mãos.

Resumindo muito, isso quer dizer que os preços só vão parar de subir depois que nós pararmos de comprar. A inflação vai continuar em alta – com produtores e comerciantes repassando aumentos de custo e segurando margens – até que simplesmente não consigamos mais acompanhar.

Vamos ficar pobres antes que os preços parem de subir. E, mesmo depois que ficarmos pobres, os preços ainda vão subir mais um pouco, até produtores e comerciantes se convencerem de que, subindo ainda mais os preços, a queda de vendas mais que compensa o ganho com o aumento de margem.

Essa pequena defasagem no tempo – esse período entre a hora em que ficamos pobres e a hora em que os preços param de subir – é uma falha da mão invisível: se ela fosse eficiente em prazos curtos, isso não aconteceria.

Mas a mão invisível é uma figura de linguagem – usada, meio por acaso, no meio de um livro de mais de 600 páginas cheio de figuras de linguagem – e usada para descrever cenários macroeconômicos no longo prazo.

Não que seu seja contra. A mão invisível é melhor que o caos. Mas, misturada com a ideia de defasagem no tempo, ela nos lembra de que não tem nada de ético ou moral, nada de normativo. Ela é só um mecanismo mais ou menos automático que faz os preços subirem quando falta produto – e caírem quando falta comprador, sem muita preocupação com o que “falta comprador” pode significar.

O irritante é pensar que os recursos públicos que poderiam amortecer os efeitos ruins do ajuste (que poderiam manter bons hospitais públicos e boas escolas públicas funcionando durante a crise) vão ser usados para garantir bons apoios políticos, com obras olímpicas e contratos de administração privada do museu MAR e do museu MIS / Fundação Roberto Marinho.

Quando a verba do governo cai por causa da crise, quem garante a sua é o mais forte (ou mais bem relacionado), mostrando que a versão gasto público da seleção natural / lei da selva também não é bonita de se ver.

Nova Iorque, hoje? Não. Deixa pra lá.

Nova Iorque, hoje? Não. Deixa pra lá.

PS.: Como o nível de renda não é uniformemente distribuído – uns ganham mais do que outros – o aperto da inflação atinge alguns com mais força que outros (e o lado lei da selva do ajuste macro via inflação fica ainda mais explícito).

PS2.: Ajuste macro via inflação é a redução dos salários – ou diminuição do custo de mão de obra, como dizem os donos de empresas – que está acontecendo agora no país (efeito da inflação alta e do desemprego em alta). Esse é outro daqueles conceitos interessantes em teoria, mas que ninguém quer sentir na própria pele. 

Con x Con

abril 13, 2015

O salve-se quem puder é uma das variantes mais estranhas do conservadorismo.

Sua lógica é mais ou menos a seguinte: se não dá para manter o mundo congelado – com as mesmas pessoas no poder e o mesmo rendimento no mercado de capitais – mantenha pelo menos a sua fatia do bolo.

Aplicado a uma pessoa, isso parece fazer sentido. Aplicado a muitas ao mesmo tempo, nos deixa à beira da guerra de todos contra todos – à Hobbes.

Em épocas de crise, esse tipo de conservadorismo superindividualista tende a ganhar espaço. Um exemplo curioso dele foi a aprovação da lei de terceirizações – desengavetada e votada rapidamente pelo conservador-individualista Eduardo Cunha.

A nova lei piora o ambiente institucional, cria incerteza para os assalariados e aumenta o poder de políticos sobre os funcionários em órgãos técnicos (terceirizado não é estável, pode ser demitido por não beneficiar o governante da vez em detrimento do Estado).

Por que então votaram isso? Bom, quem fez campanha pela aprovação da lei foi a Fiesp. Empresários da indústria paulista usaram seu poder de lobby para economizar uns tostões na contratação de pessoal: para pagar menos ao INSS transformando em pessoa jurídica parte de seus empregados.

Para isso, pioraram uma estrutura institucional que tinha bons motivos para ser do jeito que era (diminuir a incerteza para os assalariados, dar autonomia técnica a funcionários públicos, financiar minimamente a previdência social).

De novo, tudo foi feito com muita velocidade, sem debate, sem argumentos. Eduardo Cunha tirou o texto da gaveta (onde estava há anos, com milhares de outros) e votou. Azar de quem era contra.

Conservadores individualistas são capazes de coisas assustadoras. Nos Estados Unidos, a desregulamentação da Era Bush foi feita por eles – e levou à crise de 2008. A festa anti-regulação já tinha sido tentada nos anos 20 (antes da crise de 29). Aqui, tivemos um ensaio nos anos 70, sob o manto “desenvolvimentista” do governo Geisel. O resultado foi a crise dos anos 80.

Resumindo: o salve-se quem puder não pode ser política de Estado. Não pode ser política. Ao longo da história, em países diferentes, tudo que ele produziu foi desregulação, selvageria e, finalmente, grandes crises.

Longe de ser uma resposta à crise atual, esse tipo de política é só uma forma de piorar o lado institucional da crise (que já era assustador sem isso).

Campo conservador americano. Edward Hopper.

Campo conservador americano. Edward Hopper.

PS: Achei a solução para o “problema de imagem” da presidente. Diferentemente do que diz o relatório atribuído ao ex-ministro Thomas Traumann, não vai ser preciso trazer guerrilheiros virtuais nem despejar dinheiro público nas mãos de blogueiros mercenários. Para recuperar sua imagem, Dilma só precisa ficar quieta e deixar Eduardo Cunha se expor à imprensa. Uma Dilma presente no noticiário pode ou não ser pior que o presidente da Câmara. Mas uma Dilma discreta é favorecida pelo contraste com ele.

Um longo fim de festa

abril 9, 2015

Depois de 12 anos no poder, o PT hesitou e perdeu a chance de sair preservando minimamente sua imagem. “Fizeram o diabo”, como disse a presidente, e se mantiveram nos palácios.

O “se mantiveram” é relativo. Muitas pessoas – assustadas com o vale tudo – foram embora. E muitas outras – contentes com o vale tudo – disputam o que sobrou.

Mas não sobrou tanto. A vitória eleitoral foi um pouco vitória de Pirro. A economia está estagnada e o governo não tem caixa para atender ao mesmo tempo à população e aos seus financiadores de campanha (vai arcar com o ônus de não atender à população).

Por isso, a popularidade de Dilma cai e as perspectivas sobre o futuro da população pioram.

No lugar de técnicos dispostos a produzir, o governo nomeia ministros políticos ansiosos por dividir o butim eleitoral. Nenhuma boa política pode sair disso. Hoje mesmo nomearam o novo ministro PMDBista do Turismo, Henrique Alves.

O que veremos nos próximos meses será uma espécie de fim de festa, com o PMDB catando os últimos doces da bandeja e a maquina administrativa funcionando como um garçom bêbado que está há 12 anos servindo doces sem dormir.

Não à toa, as expectativas para os próximos meses – medidas por pesquisas da FGV com empresários e consumidores – estão paradas em um nível baixo.

Arrumar as finanças do governo enquanto se loteia o resto da máquina administrativa é uma forma curiosa de esticar a festa. Mas a maior parte das pessoas sabe que a festa não é para elas.

Coisas para ler enquanto a festa não acaba.

Coisas para ler enquanto a festa não acaba.

Ciclotimia

abril 1, 2015

A economia tem ciclos. Não é teoria, é fato: é só olhar o gráfico e ver as subidas e decidas do crescimento.

Por que os ciclos acontecem já é terreno fértil para ódio e troca de insulto entre teóricos.

O Nobel de economia Robert Lucas ficou ainda mais famoso por dizer, no começo do século XXI, que os ciclos econômicos estavam domados, que a teoria econômica – com suas políticas fiscal e monetária – tinha enterrado de vez as oscilações mais fortes do ciclo.

Ele disse isso, aparentemente, só para ser desmentido pela crise de 2008.

O crescimento da economia: 1998-2014.

O crescimento da economia: 1998-2014.

Um colega de Lucas na Universidade de Chicago (Raguran Rajan) escreveu um livro para tentar provar que a culpa da crise de 2008 foi do governo, do presidente do Banco Central americano Alan Greenspan – que não soube fazer política monetária direito.

Em parte, foi mesmo. Mas a crise cresceu e ganhou escala por conta de empréstimos imobiliários temerários que os bancos tinham feito e de títulos obscuros que emitiram para bancar esses empréstimos.

De qualquer forma, toda boa teoria sobre ciclos tem um capítulo sobre o problema da defasagem no tempo.

Algumas reações demoram a acontecer e isso, naturalmente, provoca ondulações no crescimento econômico.

Para chegar à crise de 2008, o crédito ficou anos crescendo (inflando a bolha) até que isso ficasse insustentável e – com uma grande defasagem – o efeito dos empréstimos ruins chegasse (empobrecendo quem tinha tomado empréstimo e perdia a garantia e quem tinha emprestado e levava calote).

Isso tudo é para dizer que a economia do Brasil vai patinar por muito tempo. E não é só porque a conta dos empréstimos bilionários à Friboi e o pagamento do subsídio à energia elétrica estão chegando (é também por isso).

Mas, além do efeito defasado dos subsídios e incentivos distorcidos que o governo adotou até o ano passado, há a defasagem do ajuste do governo atual.

O governo, hoje, não tem muitas alternativas além de subir juros (para controlar a inflação), deixar o câmbio desvalorizar (porque no longo prazo não pode, nem deve, contê-lo), cortar gastos e aumentar impostos (porque não tem como pagar suas contas).

Os efeitos dessas três medidas não são imediatos. Quem já tinha planejado fazer uma grande festa de casamento desde o ano passado não deixou de fazer. Quem estava no meio do pedido de financiamento para comprar casa, comprou, enfim, muitas decisões de longo prazo mudam de vagar.  

Fora isso, reduzir o consumo (efeito de câmbio alto, juro alto e corte de gasto público) é uma coisa que só fazemos relutando e contrariados, é algo que fazemos aos poucos.

O efeito do ajuste também virá aos poucos, com grandes defasagens – e também passará aos poucos, depois de muito tempo.