A marcação do mercado

outubro 28, 2010

Em 2003, logo que Lula assumiu ou governo, muitos analistas disseram que o mercado se encarregaria de manter a administração federal longe dos delírios econômicos.

Se os delírios começassem, investidores – brasileiros e estrangeiros – começariam a vender suas ações e títulos de renda fixa e a comprar dólares. O real se desvalorizaria, a inflação subiria e a vaca iria para o brejo – levando com ela a popularidade do governo.

Isso funcionou até o final de 2008, quando veio a crise nos EUA e na Europa.

Com a crise, os juros foram para zero nos EUA e despencaram também na Europa. O baixo crescimento da economia por lá fez novos investimentos deixarem de ser uma boa ideia.

Ao mesmo tempo, o Brasil, com juros e crescimento altos, se tornou mais atraente para investidores.

Por isso a enxurrada de dólares que tem valorizado o Real nos últimos meses.

O problema é que, com a enxurrada de dólares, Mantega e seus amigos se sentem à vontade para cometer suas barbaridades econômicas.

O dinheiro, por hora, não vai parar de entrar, mesmo com déficit público e inflação subindo, mesmo com operações mal explicadas para lançar ações da Petrobrás, mesmo com os empréstimos inexplicáveis do Tesouro ao BNDES.

Pelo jeito, quem mantinha o governo no rumo era mesmo a marcação do mercado.

A crise lá fora pode demorar a passar, mas não vai durar para sempre. E as barbaridades econômicas podem tardar, mas não falham em mostrar por que merecem o título de barbaridades econômicas.

Sem a pressão de curto prazo do mercado, no entanto, o governo parece não dar muita bola para isso.

BC americano: o juro zero que banca os disparates de Mantega.

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Como se sabe, principalmente pela fama youtúbica, com a renúncia de Joaquim Roriz à candidatura ao Governo do Distrito Federal, assumiu a vaga sua esposa, Weslian Roriz. O anúncio ocorreu em 24 de setembro e, por isso, no primeiro turno das eleições, disputado em 3 de outubro, Weslian concorreu numa condição esdrúxula: as urnas ainda exibiam nome e foto de seu marido. A candidata, portanto, tornou-se uma espécie de ficção eleitoral; recebia em teoria votos que na prática destinavam-se a Joaquim Roriz.

Com Weslian qualificada a disputar o segundo turno, no relativamente distante 31 de outubro, criou-se a expectativa de que os dados das urnas pudessem ser corrigidos. Argumentou-se, com contundente simplicidade, que o eleitor deve saber exatamente em quem vota.

No entanto, consultado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-DF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manifestou-se pela impossibilidade da troca dos dados. Os ministros concluíram que havia impedimentos técnicos e legais ao procedimento, causados principalmente pela necessidade de rompimento dos lacres das cerca de 5 mil urnas usadas nas eleições.

O corregedor-eleitoral, Aldir Passarinho Junior, ressaltou que “tal operação possui alta probabilidade de falhas e comprometimento da segurança dos dados essenciais às eleições, inclusive, dos resultados da totalização dos votos do primeiro turno em razão da necessária reinicialização dos sistemas eleitorais e da reinserção de novos dados nas urnas eletrônicas”. Ele descartou, também por impossibilidade técnica, a substituição das urnas do primeiro turno por urnas novas.

O ministro Marco Aurélio admitiu que a modificação seria desejável, mas afirmou que “implicaria o prejuízo de uma possível auditoria na própria urna eletrônica”.

O que as duas justificativas para a inação têm em comum? A preocupação com a “probabilidade” de falhas e a “possibilidade” de prejuízos. Nada se falou, porém, sobre uma conseqüência concreta e certa da manutenção dos dados de Joaquim como representativos da candidatura de Weslian: muitos eleitores votarão num achando que estarão votando também no outro.

A decisão do TSE pelo comodismo inaugura a era das candidaturas bicéfalas, dos votos duplos, da transrepresentação. Um lembrete constrangedor de que vivemos numa democracia frágil, em que o voto do cidadão é tratado como uma mera questão de conveniência técnica.

Não sou exatamente um fã de Miriam Leitão, mas sua coluna no Globo deste sábado é um dos melhores resumos que li até agora sobre o nó cambial que estamos começando a enfrentar.

Diferentemente do que diz o ministro da Fazenda, a única coisa que o governo pode fazer para ajudar a conter a queda do dólar (que tende a continuar) é diminuir o gasto publico. Ameaças com “armas secretas” são blefes toscos demais para qualquer analista econômico minimamente educado levar a sério. O ministro, para variar, faria melhor ficando calado.

Crime em grande escala

outubro 8, 2010

Uma das vezes em que roubaram meu relógio – foram duas, quando era adolescente – parei para pensar em como aquilo era ineficiente: além das ameaças do assaltante e de toda sensação de ter algo seu levado à força, me irritei pensando que o ladrão ia vender o relógio por muito menos do que ele tinha me custado. O que ele ganhava com o roubo era bem menos do que eu perdia.

Até hoje me espanto vendo cenas parecidas. E hoje topei com uma em grande escala. Não vou enfastiar ninguém com os detalhes mas, em um conhecido instituto de pesquisa econômica aplicada, vi hoje uma das apresentações mais toscas de que já tive notícia sobre a economia do Brasil. Os apresentadores já tinham claramente um pacote de políticas que queriam vender – e faziam contorcionismos curiosos para tentar justificá-las.

Seu desinteresse em entender o que está acontecendo na economia era tanto, que não davam atenção às rebatidas da platéia. Por exemplo: um dos apresentadores passou um bom tempo reciclando uma tese antiga sobre como a indústria estaria usando mais componentes importados e como isso – segundo ele – teria resultados terríveis para o futuro do país. Um dos economistas na platéia reclamou: “Mas, olhando para os dados da balança comercial, o que mais tem crescido é a importação de máquinas e equipamentos, não de insumos para a indústria.”

Já vi os dados. E é isso mesmo. Mas o apresentador continuou sua ladainha com frases que – mesmo para os versados em economês pós-keinesiano – não faziam o menor sentido.

Mas esses manés que foram postos lá no instituto de pesquisa fizeram pelo menos uma coisa boa (foi só uma mesmo): me ajudaram a definir meu voto no segundo turno.

Afinal, a conclusão do discurso deles é que cortar gastos públicos não ajudará a conter a alta do real nem terá nenhum efeito positivo sobre a economia. Em seu momento mais ideológico, um deles chegou a dizer explicitamente: “Nos anos 90, se achava que o setor privado deveria puxar a economia e tomar as decisões de investimento. Agora achamos que é o setor público quem deve fazer isso. E a população está apoiando políticos que dizem isso.”

Esses manés me convenceram de que o discurso à Geisel de Dilma Rousseff não é sinal de burrice, é maldade mesmo. Eles sabem perfeitamente que estão enrolando o público. Hoje, listaram abobrinhas tão esdrúxulas quando o “déficit comercial setorial”, idéia criada por algum lobista que nunca leu David Ricardo (e que só os lobistas mais toscos têm cara-de-pau para repetir).

Esses manés estão por trás do discurso de Dílma de que o déficit das contas públicas não é um problema. São eles que defendem os empréstimos super-direcionados do BNDES e impedem que uma boa política fiscal (controle de gastos) permita que o país tenha juros menores.

E, se esse discurso ultra-intervencionsita ganhar mais espaço no governo, a economia do país vai perder muito mais do que esses lobistas vão ganhar….

O candidato da oposição tem três semanas para me convencer de que não vai também atrás dos lobistas de Campinas. Se não conseguir, só me restará o voto nulo.