A história dos blocos de rua do Rio de Janeiro é a história de uma rebelião contra a grandiosidade que o carnaval carioca assumiu com o passar dos anos. É o resgate da folia pela folia, das marchinhas e sambas tradicionais, da bagunça organizada. Ou, provavelmente, nada disso. O fato é que, de um par de décadas para cá, o carnaval de rua – esse puxado pelos blocos – tornou-se, para muitos, o verdadeiro carnaval da cidade.

Cordão do Boitatá, 2010. Foto de Alexandre Ferreira sob licença CC.

Pois bem.

O jornal O Globo acaba de anunciar a primeira edição do prêmio Bloco de Ouro. Não é preciso ser um gênio – nem minimamente inteligente – para perceber o parentesco com o estandarte que, há anos, serve de prêmio de consolação para os que não se dão bem no julgamento oficial do desfile das escolas de samba.

A proposta do Bloco de Ouro – é esse mesmo o nome? – é espalhar uma tropa de repórteres, reforçada por três “especialistas”, para identificar “os blocos que mais se destacaram (sic) na festa que deve reunir este ano cerca de três milhões de pessoas”. Mas o reconhecimento não se limita aos blocos: os “leitores foliões” poderão enviar fotos para participar de um concurso paralelo (Leitor de Ouro?).

Por que tudo isso? A matéria que anunciou o prêmio, no último domingo, responde já na primeira frase: “O GLOBO vai homenagear o espírito alegre, espontâneo e irreverente do carnaval de rua.”

Alegre, espontâneo e irreverente.

O bloco não sei quem leva, mas o Piada de Ouro já tem dono.

Eu só me caso
com mulher rica.
Amor de rica
sempre fica.

A suíte dos vetos

janeiro 12, 2011

No dia 18 de novembro, o Jornal Nacional anunciava, com destaque, a aprovação pelo Senado de um projeto de lei que determinava o acréscimo de cinco vacinas no calendário básico de vacinação infantil. Pois no dia 9 de dezembro, o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, vetou o projeto, com base em dois argumentos: três das vacinas já fariam parte do calendário e, em relação às demais, a inclusão não teria seguido critérios epidemiológicos. O Jornal Nacional, bem como vários dos outros veículos que haviam noticiado a aprovação, não deram um pio, contra ou a favor da decisão do governo.

É aquele hábito saudável da imprensa: suíte não interessa a ninguém.

Em 2010, 14 projetos de lei aprovados no Congresso, tratando de assuntos que iam da regulamentação da profissão de apicultor à criação do cadastro positivo nos sistemas de proteção ao crédito, foram vetados pelo presidente Lula. Com apenas 11 dias de governo Dilma, outros 3 já tiveram o mesmo destino, como sempre sem nenhuma cobertura da imprensa.

Em resumo, para grande parte dos leitores, ouvintes e telespectadores brasileiros, as vacinas contra hepatite A e varicela (catapora) estão, oficialmente, no calendário básico de vacinação. Que de fato não estejam, para bem ou para o mal, não interessa a ninguém.

Propaganda de faculdade

janeiro 4, 2011

Da série A educação no Brasil.

Propaganda da Fadisp publicada hoje, na página B3 do caderno de economia do Estado de S. Paulo.

Marcela, 27 anos - seis de casada - e Temer, 70. Diferente do que a propaganda insinua, a "vice-primeira-dama" já conhecia o marido quando fez a faculdade.

E tem faculdade que se orgulha de prêmio de ciências, número de publicações acadêmicas, titulação de professores…

A crise de 2008 foi mais do que anunciada: quem acompanhava o mercado sabia que havia bolha imobiliária, que as contas externas dos EUA eram insustentáveis e que o déficit do governo de lá também tinha uma trajetória, no mínimo, inviável.

Mas, com o conforto de quem olha em retrospecto – depois do início da crise -, dá para ver um outro sinal que devia ter chamado a atenção do público: os elogios rasgados de Alan Greenspan a Ayn Rand.

Em seu livro de memórias, publicado pouco depois que deixou de ser presidente do banco central dos EUA, Greenspan dá dois sinais claros de que não sabia o que estava fazendo: o primeiro é dizer – como diz claramente – que, com o volume e a variedade de operações financeiras desenvolvidas nos últimos anos, não há como fiscalizar o sistema bancário.

Isso, vindo do responsável por fiscalizar os bancos, já seria muito ruim. Fica pior quando ele diz e que os bancos não precisam de uma fiscalização tão rigorosa, que o mercado se encarrega de supervisiona-los.

Eu sei, estou falando em retrospecto, depois da crise. Mas a variedade e o volume de maneiras com que um gestor de banco pode comprometer o longo prazo da instituição em função do bônus que vai ganhar por conseguir mais rentabilidade no curto prazo deviam ter chamado a atenção do “maestro” – como Greenspan chegou a ser chamado por um escritor puxa-sacos do começo da década.

O sinal mais claro de que o velhinho não sabia o que estava fazendo foi seu elogio a Ayn Rand. Greenspan conheceu Ayn Rand. E Rand, escritora russa que emigrou para os Estados Unidos no começo do século XX, é bastante razoável como autora de livros para meninas de 15 anos do século passado. Mas é só isso.

Graças às recomendações enfáticas de Greenspan, comprei Atlas shrugged, tijolão de 1.168 páginas que Rand publicou em 1957. Não fui além da página 100. Os personagens – todos loiros de olhos azuis – se dividiam entre heróis com espírito empreendedor e burocratas hesitantes, no papel de vilões. E nenhum deles, em momento algum, parecia lembrar que o mundo é um pouco mais complicado do que isso.

As explicações de Greenspan para porque os juros não subiram no final de sua gestão no BC americano parecem, hoje, histórias de Ayn Rand. A bolha de ações e imóveis estava embaixo do nariz dele, o consumo crescia acelerado – a poupança das famílias chegou a ser negativa em alguns trimestres – com crédito barato e endividamento descontrolado. E Greenspan, como um daqueles personagens das vésperas da Grande Depressão, dizia que estávamos em um mundo diferente, onde as importações da China garantiam a estabilidade dos preços.

Ele parece Irving Fisher, economista americano que, às vésperas da crise de 29, pôs toda sua poupança em ações e vaticinou: “Os preços das ações atingiram o que parece ser um platô permanentemente alto.” Quer dizer, Greenspan é um mané, mas um mané que controlava a política monetária da maior economia do planeta.

A capa da edição brasileira de Atlas Shrugged (traduzido como A revolta de Atlas) mostra o deus grego carregando o mundo nas costas. Greenspan não era nenhum Atlas, mas deu uma boa sacudida no planeta.

O que se tira de tudo isso? Que precisamos de economistas com melhores referências literárias…

PS. Procurando a capa do livro no Google, para colar aí embaixo, li que vão adaptar Atlas Shrugged para o cinema. Não acho ruim. Como eu disse, é um livro para meninas de 15 anos (não para presidentes de banco central). Ele tem a grandiloqüência e o tom passional daqueles livros de banca de jornal: Júlia, Sabrina e similares.

Rand: Um mundo simples, como aqueles de extrema esquerda que vendiam livros nos anos 60.