Um simples levantamento feito por um blog deixou a revista Crescer, da Editora Globo, numa saia justa nesta semana. O Não era amor, era cilada descobriu que, num período de mais de um ano, todas as edições da publicação estamparam uma criança branca na capa – em grande parte brancas de olhos verdes ou azuis.

Questionada sobre o assunto, a revista saiu-se com a seguinte resposta, segundo o mesmo blog:

Ericka,
tudo bem? Vimos seu post no seu blog, que acompanhamos.
Primeiro gostaríamos de pedir desculpas por tê-la deixado sem resposta, ainda não conseguimos localizar seu e-mail aqui para saber o que aconteceu, já que costumamos sempre falar com nossos leitores.
De fato, faz algum tempo que não temos capas com crianças negras, mas costumamos fazer muitas fotos com crianças de todas as raças em nossas reportagens, como você pode ver em todas as edições da Crescer.
Esperamos continuar tendo você como leitora.
Obrigada,
Daniela

A explicação, de um descaramento quase ingênuo, é espantosa, mas, pensando bem, o que mais a revista poderia dizer além de alegar que foi mera coincidência? Qualquer resposta mais sincera provocaria uma reação de proporções inimagináveis – dos próprios leitores e de simpatizantes da tese Kamel-Magnoli.

Pois segue, em primeira mão, a resposta sincera que a Crescer gostaria de ter enviado à leitora:

Ericka,

Tudo bem? Nunca tínhamos ouvido falar do seu blog e confessamos que essa não foi uma maneira agradável de conhecê-lo.

De qualquer maneira, primeiro gostaríamos de esclarecer que só respondemos, em geral, e-mails elogiosos. Ou os que, sendo críticos, podemos manejar a nosso favor, já que não gostamos de alimentar debates polêmicos com nossos leitores.

De fato, quase nunca temos capas com crianças negras, e não é difícil entender por quê. Cerca de 90% dos nossos leitores são brancos e nossas pesquisas mostram que eles preferem crianças brancas às negras em nossas capas – as mais populares são as de olhos verdes ou azuis. Na verdade, suspeitamos que mesmo parte dos nossos poucos leitores negros e mulatos, desde sempre expostos a um padrão caucasiano de beleza, tem uma leve preferência pelas crianças brancas.

Ainda assim, pelo sim pelo não, sempre procuramos incluir crianças negras – e amarelas também – aqui e ali, justamente para evitar comentários inconvenientes. No entanto, provavelmente teremos de aumentar essa proporção, já que você, com certeza, vai pesquisar nossas edições passadas para checar se isso é verdade.

Gostaríamos que você entendesse que a revista é um negócio e fazemos as opções editoriais que acreditamos ser capazes de nos render mais leitores e mais publicidade. Infelizmente, nossos anunciantes não ligam muito para o público negro; mas quem sabe com a ascensão da classe C, não é? Sugerimos que faça uma reflexão e tente compreender que somos um produto da sociedade, e nossa sociedade não vai muito bem, convenhamos. Temos nossa responsabilidade social, especialmente por sermos um veículo jornalístico, mas sinceramente não somos heróis e não estamos aqui para resolver os problemas do mundo.

Esperamos continuar tendo você como leitora e não perca nossa próxima matéria de capa sobre “como estimular o respeito às diferenças nas crianças”.

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O fim da Espanha

julho 21, 2012

A Espanha vai implodir. Encontrei a descrição detalhada da implosão em uma estante de casa. É praticamente um livro de profecias.

Escrito nos anos 80, nos Estados Unidos, o livro descreve em detalhes a crise Espanhola – inclusive os próximos capítulos. Pior: é um livro de economia heterodoxa e a descrição de como a Espanha vai naufragar aparece no capítulo em que o autor explica porque a teoria ortodoxa – a síntese neoclássica – não funciona.

Resumindo bastante: a queda nos salários durante a crise espanhola – segundo os neoclássicos – deveria fazer a Espanha recuperar sua competitividade. Com a recessão, o desemprego aumenta, os salários caem, o custo de produzir diminui, a produção é reanimada e os empregos crescem novamente.

Mas o livro de profecias diz que não vai ser assim. O modelo da síntese neoclássica esquece completamente o mercado financeiro. A simplificação parece razoável na sala de aula. Mas não é. Não dá para deixar todas as dívidas, empréstimos e afins de lado na hora de ver como a Espanha vai reagir ao corte de gastos do governo.

Empresas, famílias, bancos, talvez o próprio governo, diante da perspectiva de recessão à frente, verão seus ativos perderem valor, começarão a ter dificuldade em pagar suas dívidas, cortarão qualquer tipo de investimento e – sem conseguir financiamento para pagar as contas (e as dívidas) – irão à falência.

Com a falência, não surgirão novos empregos para os desempregados e a economia não voltará aos níveis normais de emprego e produção. Ela vai ficar décadas (sim, no plural) em crise.

A propósito, o livro de profecias, Stabilizing an unstable economy, de Hyman Minsky, desanca a teoria neoclássica de um jeito que nunca vi na faculdade. Segundo Minsky, os formuladores da teoria estavam preocupados em mostrar como a economia tenderia naturalmente a voltar ao equilíbrio depois de algum desajuste, não em entender como os desajustes acontecem.

O resultado é que os neoclássicos têm dificuldade em entender como se formam crises com o tamanho da atual e acham que é só questão de tempo para que passem – embora possam dar empurrõezinhos com quedas nos juros e aumentos de gastos públicos.

Mas hoje, nem o aumento de gasto público os espanhóis estão adotando. Empurrados pela Alemanha, eles  estão correndo para a própria falência. Talvez não custem muito a chegar lá.

Madri: na direção errada.

O governo Dilma está se aventurando por um terreno desconhecido, onde presidente nenhum jamais esteve (talvez Campos Sales, mas não me lembro direito).

Talvez não dure. Há sinais de que Dilma pode mudar de rumo antes de poder se empolgar com o “nunca antes na história…”

A novidade é a seguinte: como seus formuladores de política não são muito criativos, Dilma resolveu seguir as recomendações de seus críticos, quer dizer, trocou a política monetária pela política fiscal.

A ideia, a princípio, é boa: o governo economiza com o corte de gastos e economiza com o pagamento de juros. Corta os gastos e abre espaço para cortar os juros – já que os funcionários públicos e fornecedores do Estado têm que apertar o cinto e parar de gastar em coisas fúteis – como aluguel.

Mas fazer as coisas pela primeira vez é difícil. E aprender fazendo é coisa de amador. O resultado é que a economia está estagnada e a pressão sobre o governo está aumentando. Lobistas de todas as áreas batem à porta para perguntar o que o governo vai fazer para a economia crescer de novo.

Bom, ontem o governo aumentou o salário dos professores universitários federais em até 48%  (em três prestações anuais).

Se seguir por aí vai afrouxar a política fiscal. Dependendo de quanto afrouxar, o resultado pode ser razoável.

Na prática, ninguém sabe qual a combinação de corte de juros e corte de gasto que vai fazer a economia crescer sem a inflação acelerar – é um terreno novo e desconhecido.

Há até quem acredite que não é por aí e que o país vai crescer pouco independentemente de como o governo administre o curto prazo.

Para muitos economistas (e sinto uma grande vontade de concordar com eles) o problema é estrutural: o governo ficou muito tempo empurrando para depois a reforma tributária e outros ajustes que melhorariam a produtividade do país e a conta do não-ajuste estaria começando a chegar.

Bom, é esperar para ver. Com o comércio em queda (vide Pesquisa Mensal de Comércio) pode haver espaço para os juros caírem ainda mais. Mas a queda dos juros demora para fazer efeito – então talvez eles já tenham caído demais e ainda seja cedo para notar…

Não sei. É um mundo novo em termos de política econômica e quem está a cargo da sintonia fina da política é…o ministro Mantega.

Para onde vai a economia?

A crítica do BC

julho 12, 2012

Falar mal é fácil. Provavelmente é por isso que a melhor contribuição da Escola de Chicago para a teoria econômica é uma crítica, a Crítica de Lucas.

Robert Lucas, lá pelos anos 70, resolveu dizer que, justamente quando você mais precisa deles, os modelos econométricos não funcionam.

O argumento é o seguinte: os modelos usam relações entre variáveis como renda e consumo para projetar o que vai acontecer com alguma dessas variáveis no futuro. Mas, quando acontece uma crise (uma “quebra estrutural”, como dizem alguns economistas) as relações entre as variáveis mudam e usar essas relações  para fazer projeções deixa de fazer sentido.

Em época de crise internacional ou de mudança na política econômica, as projeções ganham ares de chute.

Exemplo: a relação entre câmbio e inflação depende do tipo de política cambial do país: com câmbio fixo é uma, com câmbio flutuante é outra. Não dá para pegar uma relação calculada a partir de dados de um período de câmbio fixo e usar para projetar o que vai acontecer depois de uma mudança na política cambial.

Bom, o governo abandonou o câmbio flutuante, trocou a política monetária por política fiscal e, do lado externo, está administrando um cenário atípico.

O resultado é que os modelos de projeção começam a ficar ruins.

Mas tudo isso é para dizer que o Banco Central não tem muita certeza do que está fazendo quando reduz os juros. O modelo deles também não tem como ser muito preciso.

Em administrações anteriores, o BC era mais modesto e seguia um princípio antigo (anterior à teoria econômica) que se provou muito útil: se você não sabe o que está fazendo, faça de vagar.

Juros de 8% com inflação de 5,5%? Tudo bem, mas podiam ir cortando de 0,25% em 0,25% para ver o que acontece (e poder corrigir o rumo sem grandes estragos se der tudo errado).

Vamos ver o que vem por aí.

Talvez por terem matado essa aula na faculdade, ou por terem vivido muitos anos em uma economia meio deprimida, só agora os economistas do governo Dilma estão começando a entender o que é crescimento potencial.

Resumindo muito: “é a oferta, estúpidos”. O que falta é oferta, não demanda, é por isso que a economia não cresce.

“Mas há capacidade ociosa na indústria”, reclamarão os lobistas da Fiesp.

Sim, mas falta de oferta não quer dizer incapacidade de aumentar a produção. É incapacidade de produzir mais a um custo minimamente competitivo. A R$ 100 por unidade, eu mesmo posso virar um grande produtor de livros amanhã. Ao preço que cobram aqui, as gráficas brasileiras perdem mercado para as chinesas.

E não adianta aumentar impostos e criar barreiras burocráticas para a importação. A Argentina fez isso e só conseguiu aumentar a inflação (para cerca de 25%!) e deixar a economia em crise.

Aqui, o governo estimula a demanda quando deveria melhorar a infraestrutura e diminuir os custos burocráticos de produzir. Quer dizer, tinha que adotar políticas pelo lado da oferta.

A inflação só não disparou ainda porque estão cortando os salários dos funcionários públicos (cortaram 6,5% em termos reais só no ano passado).

Mas os serviços públicos têm custo. Não dá para ficar cortando à grega para sempre. O resultado serão greves – no curto prazo – e, no longo prazo,  serviços deteriorados, de onde os melhores funcionários fugiram (afugentados por salários em queda por mais de quatro anos).

A política econômica do governo Dilma precisa de algumas (grandes) revisões – revisões na equipe inclusive.

Fazenda: sem planos para os tempos difíceis.