Nova rainha

junho 14, 2011

Se é verdade que cada país tem os monarcas que merece, vale a pena perguntar: o que nós fizemos para merecer isso?

Ontem, enquanto visitava uma fábrica em São José dos Campos, o ministro da Ciência e tecnologia, Aloísio Mercadante, declarou que quer receber – de um antecessor no cargo – o valoroso título de Rainha da sucata:

“O governo Dilma vai aumentar a exigência de conteúdo local”, declarou o ministro. A frase quer dizer que, assim como o antigo ocupante do cargo – e antiga Rainha da lata -, Mercadante não acredita em especialização, vantagens comparativas ou no resto da teoria econômica. Para ele, importar é ruim: o Brasil tem que produzir seus computadores, celulares e tudo mais aqui – e com peças nacionais.

Já vimos o filme. Sabemos que o resultado é preço mais alto e qualidade mais baixa para o consumidor, são produtores com monopólios garantidos pelo governo e empresários muito agradecidos (e dispostos a financiar a campanha de quem os tratou tão bem, com incentivos tão fortes para produzir sua sucata).

Segundo matéria do Estadão de hoje, Mercadante usou o argumento clássico dos lobistas: ele quer “reduzir o déficit na balança do setor de eletrônicos”. O velho David Ricardo dá voltas no túmulo sempre que alguém diz isso. É como a Noruega investir mais em plantações de laranja para reduzir o déficit na balança de frutas tropicais. É melhor para eles produzir bacalhau, exportar e, com o dinheiro, comprar laranjas brasileiras.

Nenhum país tem vantagem em produzir tudo. Os economistas sabem disso há uns 200 anos, desde que David Ricardo provou a tese. Quando estimula a produção de coisas que são feitas a custo menor em outros países, além de nos fazer pagar mais, o governo diminui nossas importações. Isso valoriza o real (o que diminui nossas exportações). É política ruim, qualquer aluno do primeiro período de economia sabe disso. Aliás, esse Mercadante devia estudar um pouco de economia, só o básico, para não falar besteiras desse tipo.

"Vantagens comparativas? Não, nunca. Devo ter faltado essa aula."

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O Facebook planeja fazer uma oferta pública de ações (IPO) no próximo ano. Segundo o globo.com, o preço das ações oferecidas pela empresa suporá um valor de cerca de US$ 100 bilhões para o site de relacionamentos.

Só para dar uma idéia: US$ 100 bi são, hoje, R$ 160 bi, o que é igual a 4,4% do PIB do Brasil em 2010.

Isso é muito mais do que o governo daqui gasta em saúde anualmente (3,5% do PIB). Quer dizer, é mais do que ganham em um ano todos os médicos, enfermeiros, recepcionistas e afins de postos de saúde, clínicas e hospitais de todas as prefeituras, governos estaduais e do governo federal. É mais do que toda a verba para manter a burocracia do Ministério da Saúde, a agência de vigilância sanitária, os postos de vacinação, os tratamentos em hospitais privados conveniados ao SUS e os programas de distribuição de remédios.

Sei lá porque, parece um pouco desproporcional.

Meu palpite é que a desproporção está na maneira como a Goldman Sachs – provável responsável pelo lançamento das ações – avalia o Facebook.

Sim, isso é um sinal de bolha no mercado de ações de alta tecnologia (lembra muito a que que estourou em 2000, também nos Estados Unidos).

Bolha pontocom - gráfico do índice Nasdaq.


Depois da bolha

junho 12, 2011

História de uma bolha imobiliária clássica, com todos os seus ingredientes: os vários anos em que os preços subiram, as decisões erradas tomadas por conta dos preços insólitos, o mantra dos corretores (“preço de imóvel não cai”) e o efeito do estouro.

A matéria no link é sobre a bolha espanhola, co-responsável pelos mais de 20% de desemprego que o país tem hoje.

A curiosidade macroeconômica: na Espanha, o que fez bolha estourar foi a alta dos juros – que aumentou o valor das prestações e fez as pessoas começarem a devolver seus imóveis de centenas de milhares de euros.

A previsão do governo de lá é que os preços dos imóveis continuem caindo, já que falta comprador.

A imagem da bolha britânica.

A notícia é velha: o Banco Central anunciou, na última quarta-feira, que não vai mais substituir notas manchadas por dispositivo antifurto de caixas eletrônicas. Segundo o banco, a cédula “perderá a validade”, devendo ser recusada ou, caso já recebida, encaminhada ao BC para análise, sem expectativa de ressarcimento. A questão mais importante, porém, passou discretamente pelos jornais e sites: e os bancos?

Talvez seja necessário explicar à direção do Banco Central que são os bancos, e não os clientes, que instalam os dispositivos antifurto nas caixas eletrônicas. Então, quando um bando rouba o dinheiro de uma caixa eletrônica e escapa com as notas, mesmo manchadas, quem dá causa ao dano é o banco. Por decorrência lógica, com base no princípio da causalidade, é do banco – e não de um cidadão incauto que sequer sabe da ocorrência do crime – a responsabilidade pela nota “sem valor”.

Princípio da igualdade, versão BC: bancos serão ressarcidos, cidadãos comuns, não.

Mas a coisa fica pior. Segundo matéria da Folha de S. Paulo, “os bancos poderão ser ressarcidos pelo BC quando as cédulas forem manchadas por acidente ou por situação de furto frustrado”. Como a informação veio no pé do texto, vale a pena repeti-la, de maneira mais clara: o banco que apresentar notas manchadas ao BC será ressarcido; o cidadão comum que fizer o mesmo, não. Trata-se do princípio constitucional da igualdade… como piada.

Ainda em outras palavras, o banco responsável por manchar o dinheiro (ainda que pela nobre causa de desincentivar os roubos) não precisa se preocupar, pois seus, digamos, R$ 50 mil manchados, serão integralmente substituídos pelo Banco Central. Já o indivíduo que nada tem nada a ver com a produção das manchas se vê obrigado a fazer minuciosa inspeção em cada nota que recebe no dia-a-dia.

É mais ou menos como se eu pusesse uma tranca na porta da minha casa, um ladrão tentasse arrombá-la e você fosse obrigado a pagar o conserto. Parece não fazer o menor sentido. E não faz mesmo.