Gestão e indigestão

maio 22, 2009

Imagine um grupo de empresas (A, B, C e D) pertencentes ao mesmo controlador. Agora imagine que A paga um salário de R$ 6.000 a um engenheiro. Aí vem a empresa B e oferece R$ 7.000 ao engenheiro de sua co-irmã A. Depois aparece C com uma proposta irrecusável de R$ 8.000 ao sortudo profissional. E, para completar, D cobre todas as ofertas, levando o engenheiro por R$ 10.000.

Conseguiu imaginar? Nem eu.

No entanto, o nobre senador Marco Maciel não só conseguiu, como viu um grande mérito numa dinâmica se não igual no mínimo muito parecida. Ao justificar o voto favorável a reajuste para os servidores do Tribunal de Contas da União (TCU), o parlamentar alegou que a medida visa a “evitar a evasão de técnicos altamente qualificados, resultante de diferenças e defasagens salariais hoje existentes”.

Evasão para onde? Supostamente para o próprio serviço público federal.

“A possibilidade de impedir a evasão desses funcionários vincula-se à concessão de remunerações mais compatíveis com o exercício dos respectivos cargos”, insistiu Maciel.

Reconhece-se, assim, não apenas que existe uma autoconcorrência no serviço público, com órgãos disputando os servidores mais qualificados, como se vê nisso um traço de certa forma positivo.

Mais: sugere-se, nas entrelinhas, que alguns órgãos precisam de servidores mais qualificados que outros, muito embora não se diga, por conveniência, quais se posicionam de um lado e de outro ou por quê.

Aqui, o senador Maciel e o TCU são apenas os exemplos mais recentes de fenômeno que acontece há anos e que permanece inexplicado, à margem até do debate na imprensa, tão desinteressada em se opor aos servidores públicos quanto a maior parte da classe política.

Já dizia, nos idos de 1995, o famigerado Luiz Carlos Bresser-Pereira, em seu Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado:

No Brasil não há nada parecido com um sistema universal e padronizado de remuneração de servidores, do tipo existente nos países desenvolvidos, onde a administração pública burocrática alcançou pleno desenvolvimento. Ou melhor, existe o Plano de Cargos e Carreiras – PCC, que poderia preencher esse papel, mas que na verdade é apenas a situação da qual todos querem sair para integrarem carreiras específicas que, graças a seu sistema de gratificações especiais, acabam sendo razoavelmente remuneradas. No geral, o que existe é um sistema de remunerações extremamente distorcido, em que algumas carreiras, especialmente as jurídicas e, em segundo plano, as econômicas, são bem remuneradas, em função de gratificações que visariam premiar desempenho, enquanto que os demais cargos, especialmente os de nível superior do PCC, são mal pagos.

Evidentemente, Bresser foi apenas um membro da frente neoliberal que comandou o país por oito anos, promovendo uma ampla e irrestrita desvalorização do serviço público, não é mesmo? O curioso é que, até hoje, o sujeito que escreveu o diagnóstico acima, além de abominável inimigo do servidor, seja referência na maioria dos concursos que abordam o tema da gestão pública.

Talvez isso explique muita coisa. Ou não.

Metade da história

maio 5, 2009

 

Em seu texto mais recente para o Times, Kruman resolveu alertar para os perigos da queda de salários nos EUA. Listou a redução de salários no próprioTimes e na Chrysler e comentou o que pode acontecer se houver uma queda generalizada de salários nos EUA. 
O primeiro problema é que não vai haver uma queda generalizada de salários nos EUA. Reduzir salários nominais é bem complicado, exige negociação com empregados em uma quantidade gigantesca de empresas. Para ser generalizada, a redução tem que acontecer em toda parte. Se não for assim, o que haverá será uma  mudança no valor relativo dos salários. Setores como o de medicamentos – que comemoram a gripe suina – dificilmente vão engolir uma redução de salários. 
A redução então permite que os salários relativos se ajustem. Alguns setores, com a crise, vão ficar relativamente melhor do que outros. Os salários devem refletir isso para atrair pessoas dos setores que estão pior para os que estão melhor. 
Isso pode acontecer com a queda de salários em alguns setores da economia ou com inflação e aumentos de salário só nos outros setores. A alternativa sem inflação parece menos dolorosa. 
O segundo problema no texto de Krugman é que ele prevê um cenário de estagnação e deflação causado por uma queda de salários. Ele lembra o caso do Japão, onde os salários cairam durante a crise (sem deixar claro que a queda foi efeito e não causa da crise). Bom, faltou lembrar a Argentina do começo da década. Quando os argentinos travaram o valor do peso (1 peso = 1 dolar) os economistas concordaram que o único jeito de eles voltarem a ter competitividade internacional e corrigirem seu déficit no comércio externo era reduzir os salários. 
Eles não fizeram isso. Preferiram desvalorizar a moeda e dar um calote na dívida (que estava quase toda em dólares). 
Para os americanos também, reduzir os salários vai ajudar a reequilibrar as contas externas, vai fazer os produtos nacionais ficarem mais baratos no exterior e vai diminuir as importações – já que  renda do trabalho vai cair. A alternativa, como no caso argentino, é desvalorizar mais o dólar. 
Por fim, Krugman parece muito preocupado com uma possível deflação nos EUA. Mas com taxa de juros a zero e o governo gastando trilhões em pacotes de socorro e estímulo econômico, não dá para dizer com essa convição toda que os preços dos bens de consumo vão despencar. Há até o risco de que haja inflação alta daqui a uns dois ou três anos. 
Mas Krugman, ao lado de Kenneth Rogoff, Gregory Mankiw e outros acadêmicos ilustres, parece não dar muita bola para o nosso velho dragão.  

Quando uma história pode ser vista de vários pontos de vista, mostrar um só é, no mínimo, tendencioso. Mas foi isso que fez Paul Krugman, Nobel de economia deste ano, em sua coluna no New York Times

Kruman resolveu alertar para os perigos da queda de salários nos EUA. Listou a redução de salários no próprio Times e na Chrysler e comentou o que pode acontecer se houver uma queda generalizada de salários nos EUA. 

 O primeiro problema é que não vai haver uma queda generalizada de salários nos EUA. Reduzir salários nominais é bem complicado, exige negociação com empregados em uma quantidade gigantesca de empresas. O que provavelmente acontecerá será uma  mudança no valor relativo dos salários. Setores como o de medicamentos – que comemoram a gripe suina – dificilmente vão engolir uma redução de salários. 

A redução então permite que os salários relativos se ajustem. Alguns setores, com a crise, vão ficar relativamente melhor do que outros. Os salários devem refletir isso para atrair pessoas dos setores que estão pior para os que estão melhor. 

Isso pode acontecer com a queda de salários em alguns setores da economia ou com inflação e aumentos de salário só nos outros setores. A alternativa sem inflação parece menos dolorosa. 

O segundo problema no texto de Krugman é que ele prevê um cenário de estagnação e deflação reforçado por uma queda de salários. Ele lembra o caso do Japão, onde os salários cairam durante a crise. Bom, faltou lembrar a Argentina do começo da década. Quando os argentinos travaram o valor do peso (1 peso = 1 dolar) os economistas concordaram que o único jeito de eles voltarem a ter competitividade internacional e corrigirem seu déficit no comércio externo era reduzir os salários. 

Eles não fizeram isso. Preferiram desvalorizar a moeda e dar um calote na dívida (que estava quase toda em dólares). 

Para os americanos também, reduzir os salários vai ajudar a reequilibrar as contas externas, vai fazer os produtos nacionais ficarem mais baratos no exterior e vai diminuir as importações – já que  renda do trabalho vai cair. A alternativa, como no caso argentino, é desvalorizar mais o dólar. 

Por fim, Krugman parece muito preocupado com uma possível deflação nos EUA. Mas com taxa de juros a zero e o governo gastando trilhões em pacotes de socorro e estímulo econômico, não dá para dizer com essa convição toda que os preços dos bens de consumo vão despencar. Há até o risco de que haja inflação alta daqui a dois ou três anos. 

Mas Krugman, ao lado de Kenneth Rogoff, Gregory Mankiw e outros acadêmicos ilustres, parece não dar muita bola para o nosso velho dragão.

 

Camile Claudel após a redução de salário - Museu Rodin

Camile Claudel após a redução de salário - Museu Rodin