Saúde x Pato amarelo

junho 17, 2016

– Não há despesa órfã no Brasil.

Ouvi essa frase do então ministro Pedro Malan em um seminário no BNDES, em 2002. Malan sabia o que estava dizendo. Segundo ele, quando tentava cortar qualquer gasto, surgiam logo os pais, padrinhos e afins da despesa para defendê-la como a um filho querido.

Cotar é difícil. Alguns cortes, paradoxalmente, aumentam a despesa e não devem ser feitos. Cortar gastos no combate a mosquitos claramente aumenta a despesa (ou as mortes por doenças ligadas a eles). Cortar merenda escolar também não é recomendável.

Sim, há onde cortar. O governo aluga uma infinidade de andares e prédios e salas e é dono de outras tantas – vazias ou sub-utilizadas. A gestão de patrimônio do governo federal é temerária, há muito tempo.

Mas cortar esses gastos dá trabalho (embora não dependa de votos no Congresso). Da saúde não vão conseguir cortar muito. O Brasil gastam menos de 4% do PIB com saúde pública: é muito menos que a média da OECD (e a média da OECD, em % do PIB, é calculada como percentual de PIBs per capita bem maiores que o nosso). O gasto com educação pública é de 4,4% do PIB: pouco também. Não recomendo cortar.

Além de saúde e educação, o governo gasta 10,8% do PIB com o resto da administração pública, aí incluídos Legislativo, Judiciário, Defesa e segurança pública. Dá para cortar alguns gastos, mas não para espremer tudo que o governo quer/precisa.

Mas como passamos desses cerca de 20% do PIB para um gasto bem acima da carga tributária – de 33% do PIB? Faltou somar as transferências. Só com a previdência gastamos cerca de 15% do PIB (bem mais que toda a despesa com saúde e educação juntas). Com os juros da dívida gastamos mais que com saúde pública…

Mas os juros também não caem por decreto (e, com o crescimento da dívida pública, o total de gasto com juros cresce proporcionalmente…).

Bom, o fato é que, comparado ao de outros países,  o gasto com serviços públicos não é dos maiores aqui. As transferências são hoje tão grandes ou maiores que as despesas com serviços.

Para equilibrar receitas e despesas, o governo quer reduzir transferências como as aposentadorias. Isso não se faz de um dia para o outro. Mas vai ser feito, em alguma medida.

Há espaço também para aumentar alguns impostos. A alíquota mais alta do Imposto de Renda no Brasil é bem mais baixa que sua equivalente em quase todo o mundo civilizado. Ela pode ser aumentada. E se a Federação das Indústrias de São Paulo vier dizer que não quer pagar o pato, sinto, mas estamos no fundo do poço, entre outros motivos, por conta das políticas que a FIESP defendeu (como a redução populista da conta de luz, o protecionismo alfandegário amantegado e a redução forçada dos juros em 2012). Além disso, é muito razoável que as empresas mais ricas do país arquem com parte do ajuste.

O que não pode é aparecer no jornal defendendo que o pato seja pago pelos usuários do SUS. Para grande parte da população – a que depende da saúde pública – o calote na dívida federal e o inferno inflacionário são preferíveis à falta de hospitais no curto prazo.

Para quem se recente da falta de qualificação da mão de obra e da baixa produtividade do Brasil, cortar na educação também não é uma alternativa.

O que fazer então? Mudar os critérios para aposentadoria, melhorar a gestão do patrimônio federal, cortar isenções tributárias como as da Lei Rouanet  e melhorar a administração onde for possível.

(E, claro, mandar o resto da conta para a FIESP. Eles merecem pagar o pato.)

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– Não se preocupem: a verba da grande pirâmide não será cortada!

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Pequenas expectativas

junho 8, 2016

Somos adaptativos: quando chove, achamos que vai continuar chovendo. Quando faz sol, nossa impressão é que haverá sol no dia seguinte. Na maior parte dos casos, dá certo: acertamos a previsão. Talvez por isso – por um processo de seleção natural de animais/pessoas adaptativos – esse jeito de formular expectativas seja tão natural para nós.

Talvez por isso, em épocas prósperas, todos esperem por prosperidade eterna e, em épocas de crise, a sensação seja de que o poço não tem fundo.

Mas a decadência econômica alguma hora vai acabar. Não dá para dizer bem quando, mas dá para dizer que vai. A máxima de que nada dura para sempre se aplica às crises. A crise vai acabar também porque os prejuízos que causa estão começando a empurrar empresários, políticos e organizações de todos os tipos a fazer mudanças (às vezes até mudanças que envolvam perdas de curto prazo).

A sensação continua sendo de crise sem luz no fim do túnel. Já houve crises que duraram décadas e desembocaram em regimes totalitários. Houve também crises curtas que ajudaram a despejar governantes totalitários. Cada crise tem seus traços específicos. Por isso – expectativas adaptativas à parte – não dá para ter muita ideia de quando a atual vai acabar (mesmo sabendo que, alguma hora, vai).

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“A crise já acabou?”

Na votação do impeachment na Câmara, os deputados de partidos aliados (PC do B e PSOL) deram um show à parte com seus discursos inflamados “contra o golpe”. Era estranho vê-los se expor desse jeito em nome de uma causa perdida (e incrivelmente impopular).

Não custa lembrar: Dilma já tinha índices de rejeição que deixariam até Collor constrangido.

Então por quê? Por que o desgaste para a própria imagem? Por que o PSOL, que tentou por alguns anos se apresentar como “oposição de esquerda”, defendeu Dilma com mais estardalhaço que o partido dela?

Esta semana, vimos um bloco bastante compacto de atores e cantores fazer a mesma coisa: se expor ao vexame de defender a rainha de copas, a destruidora da economia, em nome de… em nome de que mesmo?

Não parece haver chance de Dilma voltar ao poder. Mas os petistas ainda podem ter um ou outro voto na eleição para vereador. Então é realmente estranho o jeito como o partido parece arregimentar seus anexos para pular no abismo da rejeição pública.

Não entendo o que alguém ganha transformando Caetano Veloso em um lobista da burocracia de um Ministério da Cultura ressuscitado. Não entendo por que, um Jean Wyllys, que tinha uma boa plataforma política e um bom eleitorado, se expõe a perder o apoio de todas as pessoas que votaram nele e que têm alguma noção de economia.

Os antigos governistas parecem perdidos, ou desesperados.

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Aristocracia decadente?

 

Com um cocar branco, cantando de graça entre os pilotis do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, Caetano Veloso se transformou em uma versão musical de Leonardo Picciani – ex-líder do PMDB na Câmara dos deputados e hoje ministro dos Esportes.

Caetano fez com Michel Temer, o mesmo que Picciani fez com Dilma Rousseff: exigiu dele  um ministério. Não era para ele pessoalmente: era para o grupinho de que faz parte.

Ser o PMDB do PMDB é uma coisa estranha. Mas se, em algum momento, Caetano perceber que se transformou nisso, vai, provavelmente fazer uma piada e fingir que não notou. Afinal, ele é hoje uma pessoa que exige espaço na burocracia oficial: ele é o PMDB do PMDB (e é melhor não admitir uma coisa dessas).

Temer, como bom articulador político, cedeu e recriou o Ministério da Cultura: um custo baixo para tirar o discurso da oposição musical.

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PMDB, Honoré Daumier.

Ainda estou esperando para ver como será o governo Temer. Mas me espantou ver a defesa enfática (e involuntária) do novo governo feita por atores, cantores e compositores.

Não, eles não mudaram de lado. Caetano e cia continuam oficialmente contra. Mas, se a pior coisa que têm para reclamar é que Temer transformou o Ministério da Cultura em secretaria, então as coisas não podem estar tão mal.

O Brasil sempre foi um país cheio de problemas, com saúde pública ruim, educação pública idem, corrupção, concentração de renda etc.. Se agora os artistas se unem para denunciar uma mudança burocrática em um mistério quase sem verba, é porque o resto deve estar indo bem (ou porque eles não têm ideia do que estão fazendo).

L' adieu, Camille Claudel esculpida por Auguste Rodin após sua separação.

L’ adieu, Camille Claudel esculpida por Auguste Rodin após sua separação.

 

 

O fechamento da Fazenda

abril 24, 2016

Várias matérias de jornal compraram o “shutdown” anunciado pelo Ministério da Fazenda para pressionar o Congresso.

Se recusando mais uma vez a cortar ministérios e cargos comissionados, o Ministério ameaça com uma espécie de greve patronal caso o Congresso cumpra seu papel e impeça o governo de aumentar ainda mais o rombo no orçamento.

Senhores, façam os cortes e recolham o pires: o Congresso não vai autorizar rombos extras agora.

O novo governo – se o Senado aprovar a abertura do processo de impeachment – vai cortar despesas. A alternativa é ver a dívida pública explodir em um prazo muito curto.

Só se espera que o governo Temer tenha algum critério para fazer os cortes. O governo (federal, estadual e municipal) gasta 3,4% do PIB com saúde, 4,4% com educação, e 10,8% com o restante da máquina administrativa (sem contar transferências como aposentadorias a pensões).

Os gastos com saúde e educação são reconhecidamente baixos: ficam perto do fim da fila nas comparações internacionais. Mas na administração, na burocracia brasiliense e na grande conta de transferências (INSS, pensões, subsídios etc…) há espaço para cortes. Nelson Barbosa e cia já deviam ter feito alguns deles.

Vamos ver o que fará o novo governo.

Quanto ao shutdown, é uma expressão importada do governo dos Estados Unidos. La, quando o governo federal estoura o orçamento, os funcionários são mandados de volta para casa (sem salários).

Não é assim que funciona aqui. A lei brasileira não prevê isso.

Não vai ter shutdown. O que vai ter, provavelmente, vai ser impeachment e corte no orçamento. 

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Vaca sagrada – Ministério da Fazenda, 2016.

É difícil ser conservador em um país ineficiente, com desigualdades respeitáveis e com barreiras antigas para estudar e produzir. É difícil ser conservador quando se acha que as coisas não estão bem. Ainda assim, sempre houve conservadores: latifundiários, integrantes da Fiesp, herdeiros, sempre houve alguém satisfeito e disposto a lutar pela manutenção do satatus quo.

O curioso da crise atual é que, com inflação alta, depressão econômica, desemprego crescente e total falta de perspectiva para a economia, é ainda mais difícil ser conservador, é ainda mais difícil defender a manutenção do status quo. Mas, no meio do caos, surgem novos conservadores.

Eles defendem a manutenção do governo que criou a política econômica atual, defendem o uso da ultra-fisiologia para manter a presidente no cargo (embora haja prova de crimes em suas gestões). Em suma, eles defendem, com veemência, o status quo.

Alguns fazem isso pelo mesmo motivo que os velhos herdeiros faziam: porque se beneficiam diretamente dessa gestão. Alguns recebem financiamentos chancelados pelo Ministério da Cultura, outros têm empresas contratadas por este governo – e ainda têm contas a receber.

Os mais curiosos são os que só seguem a manada, os que repetem que defendem a legalidade (não dizem que defendem a presidente). Mas o que eles querem é conservar o governo, independentemente de legalidade ou de decadência econômica. Eles lutam para manter uma situação que implica em crise e decadência para milhões de pessoas. E fazem isso porque seguem a publicidade oficial transmitida até via Facebook.

PT e cia não têm um projeto econômico para implantar. Não dá nem para dizer que “enfiam as mãos na lama” por uma boa causa, como tentou argumentar um ator conhecido ainda nos tempos de Lula I. Eles querem apenas manter “tudo isso que está aí” (como diria um Ciro Gomes de outros tempos).

Contra eles, que venham todos os insatisfeitos, os que não aguentam mais a má gestão da economia, os que se revoltam com o atraso dos salários, os que se assustam com a má alocação de verbas, os que torcem o nariz para a soberba presidencial.

Contra eles, que venha a maioria.

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Pato egípcio que faraós conservadores obrigavam a população a pagar.

 

A crise da economia brasileira não tem a ver só com queda de arrecadação, tem a ver também com despesas crescentes. O governo Dilma falhou por não reconhecer isso. E, sem reconhecer o problema, não há como trata-lo.

A dúvida agora é se o governo Temer (cada vez mais provável) vai tentar resolver problemas como o do defict da previdência. Se não resolver, sofrerá, até 2018, o mesmo desgaste enfrentado pelo governo Dilma.

A situação das contas públicas chegou a um ponto em que não é possível postergar ajustes – embora Dilma ainda tente posterga-los. Até 2008, ainda havia algum controle sobre a relação entre a dívida pública e o PIB. Mas, depois da crise de 2008/2009, o governo abandonou a contenção de gastos em nome de políticas de incentivo à demanda. Hoje, o Estado gasta crescentemente mais do que arrecada (e se endivida a taxas altas). Será preciso ajustar novamente a despesa à receita.

Parte do ajuste será via inflação (não corrigindo os salários dos funcionários públicos, por exemplo), parte terá que ser contenção do crescimento de itens como a previdência social.

O curioso é que, embora arrecade cerca de 34% do PIB em impostos (e gaste mais de 40%) o governo consome menos de 20% do PIB com a prestação de serviços públicos. O resto são transferências, são itens como juros, previdência e programas sociais (que crescem automaticamente, puxados pela dívida pública e pela demografia).

Algum ajuste virá, nem que seja um involuntário, com calotes e alta da inflação. Será melhor se o governo conseguir entregar um ajuste organizado, um ajuste intencional e bem planejado.

Nas últimas décadas tivemos ajustes de diferentes tipos: tivemos o Plano Real (que adotou a máxima do equilíbrio fiscal para conter a inflação), tivemos os ajustes dos anos 80 (que, sem a parte fiscal, foram paliativos e ineficientes) e tivemos o Plano Collor (um confisco temporário que deixou sequelas até hoje em muitos antigos poupadores).

Se servir como estímulo para os formuladores da política econômica de Temer, vale a pena lembrar que o efeito político desses ajustes foi o seguinte: o Plano Real elegeu um presidente, os ajustes do governo Sarney tiraram do PMDB a chance de se firmar como amplamente majoritário após o fim da ditadura. O Plano Collor levou ao impeachment de seu autor.

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Crise econômica. México, museu de antropologia.

MASSOLIT tupiniquim

março 29, 2016

É difícil não repetir a História como farsa. E é engraçado ver a esquerda fazer isso (mesmo quando a História é assustadora).

Nos anos 30, na União Soviética, o favorecimento aos artistas pró-regime era tão ostensivo que um escritor de oposição (Mikhail Bulgakov) não resistiu a registra-lo em livro. E assim, contrabandeada para fora da Russia e publicada postumamente, chegou ao ocidente a história da  MASSOLIT a (fictícia) associação literária de Moscou.

Seus integrantes, governistas ou dispostos a escrever por encomenda, viviam em um condomínio de luxo só para escritores e jantavam no excelente, exclusivíssimo  (e subsidiado) restaurante da associação literária.

Para qualquer governo preocupado com auto-promoção, pouca coisa é melhor do que cultivar escritores pró-regime. Mas arte pró-regime é que nem jornalismo pró-regime: é um armazém de secos e molhados (como disse Millor). Nem o pintor do rei da Espanha (Francisco de Goya) pintava decentemente quando tinha que retratar nobres sorridentes nos jardins do palácio. O Goya bom é o Goya velho e surdo: o Goya amargurado dos últimos quadros.

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Melhor que financiamento via Lei Rouanet e patrocínio do Banco do Brasil, só há uma coisa: compra direta de serviços. E aí, de novo, a história tem casos clássicos que a esquerda faz força para esquecer. O mais famoso é o de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, contratado por Frederico III, rei da Prússia, para fundamentar a doutrina de que o o Estado é tudo e o indivíduo, muito pouco.

Depois do período napoleônico, não dava mais para dizer que o rei era rei por vontade de deus. Tinha que haver uma filosofia para justificar a concentração de poder nas mãos do rei. E, para criar essa filosofia, Frederico III contou com um funcionário contratado: Hegel.

Os detalhes sórdidos do caso são descritos pelo também filósofo Karl Popper, no excelente A sociedade aberta e seus inimigos. A descrição da MASSOLIT está em Mestre e Margarida (incrivelmente mal traduzido para o português). E a possibilidade de encontrar filósofos governistas hoje está à disposição de qualquer um que leia jornal.

Um filósofo pró-governo não é muito melhor do que um artista pró-governo. As pessoas de quem se espera crítica (serve até critica construtiva) não deviam ficar elogiando os poderosos. É constrangedor. Me sinto envergonhado por eles.

Mas vai ser ainda mais constrangedor (e mais engraçado) se eles forem elogiar Michel Temer daqui a alguns meses, quando o governo Dilma terminar (o que parece cada vez mais provável).

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Goya, em sua melhor fase.

O governo e a defesa Lindt

março 26, 2016

Véspera de páscoa no Botafogo Praia Shopping: uma fila de consumidores espera para pagar seus ovos de chocolate Lindt na loja da marca no terceiro piso. Pergunto à vendedora da loja em frente:

– É a primeira vez que eles têm fila?

– Não – ela responde, como se a fila para comprar chocolates de luxo importados fosse uma coisa normal.

Quatro pisos abaixo, no subsolo, onde ficam as Lojas Americanas, centenas de ovos continuavam pendurados em estruturas de madeira e plástico montadas especialmente para a páscoa.

Os ovos das Lojas Americanas estavam caros (mas nem de longe tinham preços de Lindt). Alguns custavam mais de R$ 30. Um ovo Lacta de 230 gramas custava R$ 17,90, com desconto de 10% sobre o preço riscado na etiqueta: R$ 19,90.

Uma barra de chocolate do mesmo tipo, na mesma loja, saia por R$ 5,90 (barra de 150 gramas).

Os ovos das Americanas vão encalhar. Com uma boa quantidade de caixas registadoras funcionando, a loja estava sem fila. Um piso acima, na Cacau Brasil, o estoque já estava todo vendido, as vitrines tinham pouca coisa a mostra.

Os chocolates de grife foram disputados. Os mais baratos não: estavam caros para o público a quem se destinavam.

É um exemplo de caricatura, eu sei, uma amostra pequena e viesada, mas ajuda a entender porque o governo ainda tem defensores na classe média alta. Para muita gente, não existe crise: o PIB caindo 4% e a inflação de mais de 11% no ano passado não as incomodam de verdade, não afetam suas rotinas.

Para os comedores de Lindt, o país não está em crise. Por isso, alguns deles não se sentem constrangidos em defender o status quo atual.

Isso vai mudar. Não por causa dos comedores de ovo Lacta, ou das pessoas que nem pensam em ovo de chocolate: vai mudar porque os comedores de Lindt do PMDB entenderam que a situação é insustentável, que é melhor mudar de barco antes que o governo se aproxime ainda mais do calote na dívida pública (da qual muitos comedores de Lindt são credores).

Mas, que o PMDB queira mudar de lado, era fácil prever. O que entendi hoje é por que uma parte da classe média alta não muda: ela continua comprando ovos de chocolate Lindt, mesmo que eles sejam obtidos graças à contratações via Lei Rouanet ou a contratos associados a empréstimos subsidiados do BNDES (há também os que simplesmente acreditam na propaganda política, sem ganhar nada com isso. São os piores esses últimos, mesmo que comam Lindt).

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O atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, anunciou esta semana que o governo deve ter um déficit de quase R$ 100 bilhões este ano, sem contar as despesas com juros.

Como ainda estamos em março – e, este ano, o governo tem revisto as projeções de déficit para mais a cada mês – é difícil prever onde a conta vai parar.

Mantendo esse ritmo de crescimento, a dívida pode se tornar maior que o PIB já em 2019.

Uma dívida maior quer dizer mais despesas com juros sobre a dívida. Uma dívida de quase 100% do PIB – com taxas de juros brasileiras – simplesmente não é sustentável. Ela pode levar ao calote ou à monetização da dívida (hiperinflação).

Mas o pior não é ver o governo chutar o balde do endividamento, é ver o ministro da Fazenda dizer que faz isso de propósito, para “reaquecer a economia”.

O Brasil tem um regime de câmbio flutuante. Com câmbio flutuante, os gastos do governo têm pouca capacidade de estimular a demanda. Com câmbio flutuante, quem estimula a demanda (para gerar crescimento ou inflação) é a taxa de juros: é a política monetária.

Ou o ministro da Fazenda esqueceu o básico de macroeconomia ou está sendo pouco sincero em até em suas declarações mais estranhas.

A economia não está parada por falta de déficits públicos, está parada porque empresas e famílias não querem correr riscos ou assumir compromissos em um ambiente instável como o atual.

O aumento da dívida pública em ritmo insustentável contribui para aumentar os riscos e frear ainda mais o investimento privado.

O gasto a mais, anunciado por Barbosa, vai produzir mais dívida e mais gasto com juros, vai ter o efeito oposto do anunciado.

Se o ministro for esperar a volta do crescimento da economia para cortar gastos, vai esperar para sempre (ou até ser defenestrado).

Lagarto sorridente

Dragão da crise.

Quando o governo congelou os preços da gasolina, do diesel, da energia elétrica e do dólar, houve poucas reclamações do público.

Alguns congelamentos foram feitos com estardalhaço (como  o da energia, que teve anúncio da presidente em rede nacional), outros foram feitos de forma discreta, como o do câmbio, que foi segurado pelo Banco Central com vendas de títulos no mercado futuro.

Passada a eleição de 2014, foi preciso descongelar os preços. Como, além das famílias, as empresas também usam energia e combustível, como vários produtos são cotados em dólar ou diretamente importados, o efeito do descongelamento foi amplo.

Mas a parte mais complicada do processo veio depois. No Brasil, quase tudo, de tarifas públicas a aluguéis, é indexado. Quando a inflação sobe, todos querem repor a perda de poder aquisitivo reajustando seus preços de acordo com a inflação passada. Por isso, depois que a inflação sobe é difícil fazê-la cair novamente.

As ferramentas tradicionais para segura-la são as políticas fiscal (gastos do governo) e monetária (taxa de juros). E é nessa hora que dá para ver a maldade (ou a total incompetência) da gestão mantega no Ministério da Fazenda. O governo, até 2014, estimulou o consumo de todas as formas possíveis, “gastou por conta” de formas novas e em escalas inéditas. O resultado é que não pode mais aumentar suas despesas para estimular a economia. Na verdade o governo têm que conte-las para segurar a inflação. Mas conter despesa (fazer política fiscal) é difícil.

Com a economia em recessão, a arrecadação cai e o governo assume (mesmo sem querer) o papel de impulsionador da inflação. O problema é que a diferença entre o que o governo gasta e o que arrecada – o impulso fiscal, como o chamava Joaquim Levy – se amplia e se consolida. Quer dizer: hoje, com uma diferença de cerca de 10% do PIB entre suas receitas e despesas, o governo estimula, em vez de conter, a demanda: ele pede emprestado para gastar. Empurrando a demanda, o governo estimula a inflação.

Já não bastasse a inércia dos reajustes automáticos, ainda temos a política fiscal jogando contra. E, pior, temos um grupo de economistas no governo que acha que é melhor esperar a crise passar e a arrecadação crescer para, só aí, resolver o problema fiscal.

Do outro lado da mesa, economistas de fora do governo dizem que é melhor primeiro segurar a inflação para depois voltar a crescer.

É que segurar a inflação é difícil. Mesmo com uma recessão como não se via desde Collor, a inflação continua acima de 10% ao ano. Se não for contida, ela pode, sim, voltar ao padrão dos anos 80.

A inércia – o reajuste de passagens de ônibus e metrô, de contas de luz, gás, telefone e internet – mantém a inflação em 10%. E qualquer novo choque, como uma alta do câmbio, pode puxa-la para cima, para se estabelecer em um patamar ainda mais alto.

Por isso é preciso fazer política fiscal (cortar gasto público), conter logo o monstro antes que volte ao que era há 25 anos, nos tempos de Collor.

O curioso é que economistas heterodoxos reclamem do baixo crescimento da economia e peçam estímulos para o consumo. Se estimularmos o consumo agora, o dragão acordará para valer. É a recessão que o está segurando na caverna.

Um ajuste fiscal forte provocaria uma recessão ainda maior, no curto prazo, para depois – com os preços estabilizados – permitir a queda dos juros, a estabilidade do câmbio e a retomada da economia.

Mas “queda maior no curto prazo” é uma expressão abominada pelos heterodoxo-eleitoreiros. Eles a evitam, mesmo que, ao impedir uma queda de 5% no PIB, acabem ficando com várias de 4%…    

No fim, o ajuste de preços relativos será feito via inflação, corroendo a renda de quem não tem como reajustar o preço do que vende (os assalariados). A perda de renda real fará com que reduzam o consumo e, lentamente, isso conterá os reajustes de preços. Os beneficiários de concessões do governo continuarão com seus benefícios e reajustes de tarifas – e o ajuste da economia demorará vários anos, em vez de um ou dois.

O governo sabe disso. E prefere fazer assim.

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– Vai: descongela aí!

Merguho em espiral

março 4, 2016

Há alguns anos um amigo me mostrou um gráfico de ciclo econômico – quase igual a ilustração abaixo – em uma matéria do New York Times.

O eixo horizontal do gráfico tem o crescimento (ou queda) da economia em cada trimestre e o eixo vertical tem o desvio do crescimento em relação a uma tendência de longo prazo.

Quando a economia está caindo e ainda por cima está abaixo da tendência de longo prazo (no canto esquerdo do gráfico, embaixo), ela está em crise. Quando está abaixo da tendência, mas crescendo, está saindo da crise – e assim por diante:

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A matéria do Times mostrava que, na época, a economia dos Estados Unidos estava começando a sair da crise de 2008-2009.

Fazendo o gráfico com os dados do Brasil, divulgados ontem pelo IBGE, dá para ver que as coisas por aqui não estão bem. O gráfico abaixo tem os dados do crescimento do PIB a cada trimestre, na série com ajuste sazonal. Para definir o desvio em relação à tendência usei o crescimento médio dos 20 trimestres anteriores como tendência:

ciclo2009 PIB

O investimento parece ainda pior. Os números no eixo do gráfico são maiores (para mais e para menos):

ciclo2009 FBCF

Mas, desânimos à parte, os gráficos ajudam as mostrar que as economias têm mesmo ciclos – embora não dê para ter ideia de quando o nosso vai virar para cima.

Por último, o gráfico do consumo das famílias:

ciclo2009 CFF

A prisão do marqueteiro João Santana e a chance de que leve à cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff mostraram que os investidores estrangeiros, afinal, não são loucos por trazer dinheiro para cá.

É uma aposta arriscada, realmente especulativa. Uma aposta que depende da política e do Judiciário e não de analises macroeconômicas ou de mercado. Se depender só da análise macro, é melhor ficar longe daqui. Afinal, a falta de horizonte na economia já faz os analistas falarem em calote, hiperinflação e em outras criaturas que não vemos desde o governo Collor.

Mas, se o Tribunal Superior Eleitoral cassar a chapa Dilma/Temer e um novo governo for eleito este ano ou no próximo, quem trouxe dinheiro para o Brasil (apesar da falta de horizonte que temos hoje) vai ter feito um excelente negócio.

Com a melhora nas perspectivas da economia, o real pode se valorizar e as empresas compradas na bacia das almas também podem se valorizar (em reais).

Como há excesso de liquidez em muitos países (taxas de juros próximas ou até abaixo de zero), faz sentido pôr uma parte dos recursos em apostas arriscadas como empresas brasileiras (uma parte pequena do total). Apostar no Brasil é coisa para especuladores com aplicações muito diversificadas: para investidores de grande porte. Não é o tipo de aplicação em que se põe a poupança para a aposentadoria.

Hoje, a chance de a chapa Dilma/Temer ser cassada é, paradoxalmente, a única justificativa razoável para o dólar não disparar. Como o governo pode cair, ainda é possível ganhar dinheiro com investimentos de longo prazo no Brasil. E, se ainda há chance de ganhar dinheiro, os investidores não saem correndo do país (o que ajuda a manter o dólar em R$ 4 e evita que a inflação dispare).

Aparentemente, a gestão de Nelson Barbosa na economia só consegue se manter sem produzir uma corrida ao dólar porque pode acabar de repente.

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Especuladores de olhos azuis, atacados por Lula em 2009, evitam que o dólar chegue a R$ 5.

Já era quase meia noite quando o ministro saiu de sua sala. O carro com motorista o esperava na garagem. Ele seguiu tranquilo para casa, sem pensar muito em ajustes fiscais ou altas de preços.

Três quarteirões antes de chegar, a correia de transmissão arrebentou – fazendo o motor quebrar irremediavelmente.

O ministro saltou do carro e deixou seu motorista a espera do reboque. Foi a pé para casa.

Mas, no meio do caminho, viu um bode. Não: era uma cabra, uma cabra notívaga pastando em um terreno baldio.

Longe, um relógio bateu meia noite e Barbosa, o ministro, ouviu ao seu lado uma voz cavernosa dizer:

– Boa madrugada, ministro.

Era Nelson, ou melhor, o fantasma de Nelson Rodrigues.

Branco, quase transparente, Nelson não seria como os repórteres do Planalto. Com ele, o ministro teria que falar a verdade ou, pelo menos, teria que ser sincero.

Então, tendo como testemunha apenas a cabra vadia que comia a paisagem, começou a entrevista:

Nelson: Ministro, todos os analistas de bancos e consultorias dizem que o governo tem que fazer um ajuste nas despesas, tem que fazer a despesa caber na receita para o país voltar a crescer. O senhor vai fazer isso?

Barbosa: Não. Acho que os analistas estão errados. A economia está em crise e, enquanto durar a crise, vou deixar a despesa solta. Vamos ter déficit de mais de 10% do PIB este ano, contando as despesas com juros e as com salários e materiais.

N: Então a crise não vai passar?

B: Alguma hora ela passa. Aí a arrecadação vai voltar a crescer e equilibramos a receita e a despesa.

N: Mas, e se o senhor estiver errado e a dívida pública disparar antes de o país voltar a crescer? O país vai dar calote? Vai imprimir dinheiro para pagar as contas?

B: Eu não estou errado.

N: Mas, só por hipótese: e se as coisas não acontecerem como o senhor espera?

B: Sim, aí teremos que ligar a impressora e trazer a hiperinflação de volta para conseguir fechar as contas. Mas há muitos estágios antes de chegar a esse extremo. Há tempo de mudar o curso se eu achar que estamos na direção errada.

N: Quais estágios?

B: Há o do ajuste inflacionário. Já estamos um pouco nele. Há dois anos não damos reajuste aos servidores. Isso diminui nossa despesa em termos reais. Também cortamos a verba que pagava os serviços de limpeza terceirizados de universidades e vamos reduzir a verba da saúde (que é indexada à receita de impostos). Enfim, há uma redução de despesa também. Podemos aprofundar um pouco isso se precisar.

N: Então há um ajuste fiscal?

B: Não. Quando há déficit público isso quer dizer que o governo está empurrando a demanda para cima (em vez de  fazer o ajuste para segurar a inflação). Aqui no Brasil temos déficit público: acreditamos em animar a demanda com o caixa do governo.

N: Mas o senhor apareceu na TV dizendo que ia fazer o ajuste fiscal.

B: Isso é só para enrolar os ortodoxos. Não acredito em ajustes de longo prazo na oferta, acredito em ajustes de curto prazo na demanda: é isso que sei fazer. Acredito que temos que estimular a demanda (pois surgirá oferta para atende-la).

N: Há mais algum razão para não fazer o ajuste fiscal, além de suas opções religiosas?

B: Sim. Estamos em um ano eleitoral. Não posso cortar todas as obras do PAC. As construtoras ficariam furiosas. Não é assim que as coisas funcionam. E, vamos ser claros, não dá para fazer reforma na previdência em ano de eleição. Os deputados do PT que querem ser prefeitos me matariam (ou, pior, votariam contra no Congresso).

N: Então sua equipe está apenas empurrando a política econômica com a barriga?

B: Estamos dizendo que faremos o que nossos críticos acham necessário. Isso nos poupa de críticas mais duras e nos dá mais tempo para esperar que a crise passe. Você pode chamar isso de empurrar com a barriga se quiser.

N: Mas esses críticos dizem que a crise não vai passar se o governo não fizer o ajuste fiscal, que a ameaça de uma dívida pública explosiva é o que mais deixa os investidores com medo de investir.

B: É, eles dizem isso. Mas estão errados. Vamos insistir com os financiamentos do BNDES e com o estímulo ao consumo e a economia vai retomar o crescimento, mesmo que, para isso, a inflação tenha que subir mais um pouco.

N: A inflação não vai convergir para a meta?

B: Não. Não acredito em meta de inflação. O governo Dilma nunca tentou cumprir a meta, nem vai tentar. Acho inflação um problema secundário.

N: Mas a renda dos trabalhadores está encolhendo por causa dela.

B: Quando os nossos estímulos fizerem a economia se recuperar, a renda crescerá novamente.

N: Esses estímulos são os da tal Nova matriz, que o primeiro governo Dilma adotou?

B: Sim, a ideia é basicamente a mesma: juros subsidiados para alguns grupos de empresas, Banco Central sob controle e expansão fiscal.

N: Mas não foi isso que provocou essa crise?

B: Em parte. A queda do preço do minério de ferro e de alguns produtos agrícolas que o Brasil exporta também atrapalhou.

N: Por que o senhor acha que, dessa vez, vai funcionar?

B: Nós temos o apoio da presidente, temos recursos para implantar essa política e não temos muito apoio político para fazer diferente. Além disso, fazer diferente teria um custo político alto.

N: Manter a crise também tem um custo alto.

B: Acho que nossa Nova matriz rediviva vai funcionar. Ela é o projeto da minha vida! Se não funcionar, retomo meu antigo emprego na UFRJ e deixo algum desses ortodoxos tentar arrumar a bagunça em 2019.

E, dizendo isso, o ministro virou as costas para o entrevistador (e para a cabra, que também o observava) e foi atender o celular. Era a presidente.

– Não, presidenta – disse, com o rosto colado ao iPhone – não se preocupe: está tudo sob controle.

A cabra arreganhou os lábios em uma espécie de sorriso e Nelson sumiu no ar, voltando para o purgatório dos cronistas.

O ministro seguiu para casa, sem pensar muito em coisas como inflação e contenção de gastos.

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Lhama diurna – que não testemunhou a entrevista.

Dinheiro de fora, até quando?

fevereiro 16, 2016

Ainda há investimento estrangeiro direto suficiente no Brasil para compensar o envio líquido de juros de dividendos ao exterior e segurar a cotação do dólar em R$ 4. Mas não consigo entender por quê.

Quem são os investidores externos que põem dinheiro aqui? Que luz no fim do túnel eles conseguem ver que eu não consigo?

Alguém vai dizer que são os juros reais de até 7% pagos por alguns títulos do Tesouro. Mas basta uma leve sacudida do câmbio para engolir os 7% em menos de uma semana.

Ontem fiquei feliz em ler a avaliação de um gestor de fundo de investimento que também não entende esse otimismo do investidor externo (feliz porque não sou o único que não entende).

Ok, o Brasil está barato. Mas, se a economia depender da habilidade e do realismo da atual equipe econômica, os ativos ficarão ainda mais baratos, perderão ainda mais valor.

A conclusão que dá para tirar desse não entendimento é que, se os investidores externos começarem a pensar como os brasileiros, o dólar pode subir mais (e, com ele, a inflação).

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Investidores externos a caminho da Bovespa.

Nada contra a nova alíquota do imposto sobre sorvetes e chocolates: 5%. Mas, até recentemente, a assessoria de propaganda do governo conseguia impedi-lo de produzir manchetes tão antipáticas quanto essa.

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Chocolate: o calmante favorito dos atingidos por crises econômicas.

O arsenal da Fazenda

janeiro 31, 2016

No início do ano, o mercado reagiu com ceticismo aos discursos ortodoxos do novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Mas Barbosa ainda poderia usar medidas concretas para convencer empresários e investidores de que não adotaria o mesmo tipo de política que implementou no início do primeiro governo Dilma, quando era secretário de Política Econômica.

As medidas concretas, no entanto, foram na direção contrária.

Em menos de um mês, a nova gestão da Fazenda já tem um Banco Central completamente desmoralizado (o banco tinha recuperado parte de sua credibilidade no período de Joaquim Levy na Fazenda). A falta de credibilidade diminui o poder do BC para administrar expectativas e conter a inflação. A sinalização ruim indica que os gestores da política econômica não estão apavorados com a alta dos preços (e eles deveriam).

Esta semana, a Fazenda anunciou que despejará R$ 83 bilhões a juros baixos (TJLP) no mercado – o que também é inflacionário. Enquanto o Banco Central retira moeda da economia com os juros altos, a Fazenda a devolve com taxas mais baixas.

A heterodoxia é tanta que, entre as linhas de crédito do BNDES anunciadas, há uma para financiar capital de giro. Não dá nem para dizer que estão financiando investimento de longo prazo. Mais uma vez, o banco dará dinheiro a empresários a taxas de 6,25% ao ano (nominais) para que eles apliquem esse dinheiro a 14,25% (que é quando o governo paga quando pede emprestado). Mais uma vez, juros abaixo da inflação. Mais uma vez, a preferência por atender a demandas de curto prazo – em detrimento do controle da inflação no longo.

Se for por aí, o governo conseguirá – de novo – fazer os analistas de mercado parecerem otimistas ingênuos. As projeções de inflação para 2016 já estão acima de 7%. Mas, com mais medidas heterodoxas (e com a indexação generalizada que existe no Brasil), o governo pode conseguir resultados ainda piores.

Conseguiremos ter inflação acima do teto da meta e recessão (de novo), como em 2015.

É isso que o governo tem para oferecer? É essa a ortodoxia que prometeu?

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Enquanto a política monetária tenta enxugar a economia, os heterodoxos adotam o chfariz de liquidez.

Cidade de fachada

janeiro 24, 2016

No início do século XX, quando pôs abaixo centenas de casas para construiu “um boulevard com a mesma largura dos de Paris”, o então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, despejou milhares de pessoas. Para coroar sua obra, ele fez um concurso de fachadas, garantindo que a nova Avenida Central fosse vistosa.

Hoje, como no início do século passado, mosquitos assolam os habitantes da cidade – mas suas fachadas estão lindas. A prefeitura intima os moradores a pinta-las (e diminui impostos se pintarem com duas cores, destacando os arabescos do projeto original).

Lembrei de Pereira Passos ontem, andando pelas ruas do Rio e vendo as belas casas e prédios pintados e cheios de placas de “vendo” e “alugo”. São belas casas vazias, algumas com goteiras e mofo por dentro – mas (quase) todas devidamente pintadas por fora.

Das fachadas originais da Av. Rio Branco sobraram poucas. Da própria Rio Branco original sobrou pouco. Já remodelaram a rua para tirar os bondes e agora a estão quebrando de novo para reinstalar os bondes. As empreiteiras responsáveis pela obra agradecem.

É muito estranho passar pela Sete de Setembro e ver os trilhos do bonde antigo aparecendo no solo recém escavado. Depois de anos enferrujando sob o asfalto, eles serão finalmente arrancados, para dar lugar aos novos trilhos.

Os trilhos mudam, as fachadas são repintadas, as doenças transmitidas por mosquitos ressurgem, os despejos de moradores na Zona Oeste são rotina, a dificuldade em morar perto do trabalho a preços decentes persiste e os serviços públicos (principalmente a saúde pública) continuam lastimáveis.

Enquanto a grande preocupação do governo for a fachada, não se deve esperar nada muito diferente.

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Fachada em país rico – mais bonita que as daqui.

A arrogância e a ignorância têm um papel central na história das depressões econômicas. Quem mostra isso de um jeito muto claro é o economista Liaquat Ahamed, em seu livro Lords of finance – the bankers who broke the world.

No livro, Ahamed traça o perfil e acompanha as decisões dos presidentes dos bancos centrais de Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha de 1914 a 1944. Como aula de história do pensamento econômico, o livro é impressionante. O que ele deixa claro é que os presidentes dos maiores Bancos Centrais do mundo não tinham a mais vaga ideia do que estava acontecendo na economia e tomaram decisões capazes de transformar uma crise econômica na Grande Depressão.

Os economistas aprendem isso nas aulas de história, mas o livro – por ter uma pesquisa detalhada e ser muito bem escrito – ressuscita personagens como o pomposo Montagu Norman, presidente do Banco da Inglaterra na época. O ápice da arrogância misturada com desconhecimento ficou registrado na frase do Secretário do Tesouro dos EUA, Andrew Mellon. Mellon recomendou deixar os bancos e empresas quebrarem como solução para a crise:  “liquidate labor, liquidate stocks, liquidate farmers, liquidate real estate… it will purge the rottenness out of the system”. Mas o livro de Ahmad deixa claro que Mellon não estava sozinho: a falta de humildade para lidar com a crise era muito disseminada entre os governos e bancos centrais na época.

Naquele tempo, os economistas se consolavam dizendo que, no longo prazo, os preços de insumos e salários se ajustariam (cairiam) e isso estimularia a produção. No longo prazo, a economia voltaria a funcionar.

O economista inglês John Maynard Keynes – talvez o primeiro a entender o que aconteceu nos anos 30 – respondeu a isso com sua frase famosa: “No longo prazo, estaremos todos mortos”.

O problema é que a frase – no Brasil pelo menos – foi apropriada por lobistas, que a usam para defender políticas que produzem pequenos ganhos de curto prazo e tragédias em prazos um pouco maiores.

A inflação alta de hoje tem a ver com essa política de esquecer o longo prazo para não ter juros altos no curto. A crise fiscal tem a ver com a politica de gastar mais no curto prazo e torcer para ter aumento de arrecadação no longo. O baixo crescimento da economia tem a ver com a política de não fazer reformas estruturais no curto prazo – e torcer para a casa não cair no longo.

O longo prazo, segundo os manuais de macroeconomia, é quando todos os fatores de produção se ajustam. Em bom português: o prazo longo é aquele em que dá para construir fábricas, estradas e hidroelétricas, dá para a oferta se ajustar às mudanças na economia. No curto prazo, só a demanda muda.

Devia ser óbvio que não dá para administrar a economia olhando só para o curto prazo, só para a demanda.

Mesmo políticos que vivem em função do calendário eleitoral costumavam pensar nisso (e fazer ajustes no primeiro ano de governo, para tentar chegar melhor ao último).

Mas a arrogância das escolas econômicas ultra-curtoprazistas aqui do Brasil parece levar seus representantes a manter a cabeça no curto prazo até em início de governo.

O resultado será depressão econômica e – por que não? – depressão psicológica também.

Os autores da política, isolados em seus gabinetes, não sentirão os efeitos da crise. Muita gente não sente. Os bares do Leblon têm fila nos sábados a noite. A crise é desigual. Quem tem boas aplicações em títulos públicos não muda seu padrão de vida. Quem tem emprego, vê a renda real cair (por causa da inflação alta). E quem perde o emprego sofre com a falta de renda e de perspectiva.

A crise vai durar porque, para o governo atual, o longo prazo não existe.

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Para ler durante a crise.