– O senhor pretende desviar o dinheiro da prefeitura, pretende usar a verba de publicidade para financiar as suas próprias revistas ou as de seus amigos?

– Pretendo sim. A prefeitura agora vai pôr muitos anúncios na Caviar Lifestile, a revista mais cara do meu grupo, como o nome deixa claro.

Bom, a pergunta não foi assim – e a resposta, muito menos. Mas há alguns momentos em que é importante conhecer a definição clássica de hipocrisia: a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.

Explicando bem: mesmo que um político pretenda desviar dinheiro público para suas empresas ele tem que dizer, enfaticamente, que não vai fazer isso de jeito nenhum. É hipócrita, mas não fazer isso é ofender abertamente o público.

As respostas “não costumo comentar sob hipóteses” e “essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário” não são boas.

A pergunta da repórter foi:

Julia Duailibi: “O que o senhor acha de usar recursos da publicidade da prefeitura para investir em revisas do estilo da Caviar Lifestile? 

João Doria : “Nunca teve isso. Você quer dizer hipoteticamente?”

Duailibi:”Hipoteticamente: uma revista com o perfil da Caviar Lifestile, se batesse lá na porta da secretaria de comunicação e pedisse recursos para publicidade. O senhor acha que recursos públicos poderiam ser usados para esse tipo de publicação?”

Doria: “Julia, eu não costumo comentar sob hipóteses. Essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário.”

A repórter, vendo a derrapada do entrevistado, lhe deu outra chance:

Duailibi: “O senhor pode fazer um exercício intelectual, assim, pensando hipoteticamente…”

Doria: “Eu agradeço, mas fique com o seu exercício você mesma.”

Duailibi: “É de uma pessoa da plateia essa pergunta.”

Doria, virando-se para a plateia: “Também agradeço.”

Duailibi: “Uma boa pergunta.”

Doria, para a plateia: “Não precisa se apresentar mas guarde para você o exercício.”

A entrevista completa, em vídeo, está no site da revista Piaui. O trecho acima vai do segundo 55:11 ao 56:06.

Não acompanho de perto a política local de São Paulo. Nunca tinha visto uma entrevista longa com João Doria. Não tinha opinião formada sobre ele. Agora tenho.

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Pinguim piauiense na plateia se ofende com resposta de Doria.

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Luz (fraca) no fim?

Lembro de meus posts de 2011 sobre o recém empossado governo Dilma. Minha impressão, na época, era de que o maior problema da presidente era a incompreensão do que acontecia na economia: o problema era mais burrice que maldade.

A esperança – eu pensava na época – era o debate. Se os problemas da economia fossem discutidos de forma clara e aberta, talvez se pudesse pôr a política econômica na direção certa.

Bom, eu errei em apostar no debate como solução para mudar os rumos do governo Dilma. O debate nunca aconteceu: o governo não estava interessado em ouvir críticas (por mais construtivas pudessem ser).

Votando aos dias de hoje: Michel Temer parecia, até agora, menos arrogante que a antecessora (o que era motivo de esperança). Mas a reforma educacional por decreto (literalmente por decreto) começou a me convencer de que talvez, de novo, eu estivesse sendo muito otimista.

O teto para as despesas federais, apresentado com pouco debate, também não é um a boa notícia.

Sim, o orçamento está completamente estourado e é preciso fazer cortes significativos. Mas não se corta por decreto. Não funciona assim. Apesar do discurso de que “a saúde será preservada” a proposta continua sendo reduzir a despesa per capita do governo com saúde ao longo dos próximos 20 anos.

Corrigir os gastos com saúde só pela inflação (quando a população cresce) é diminuir o gasto por pessoa ao longo do tempo.

Na saúde, o item em que é menos difícil cortar é a prevenção (é menos difícil que cortar o atendimento das pessoas que esperam na fila e protestam contra a falta de médico). O problema é que é mais destrutivo. Nós vimos isso com os surtos de Zika e Chicungunha no início do ano.

Cortar gastos com saúde pode sair incrivelmente caro – e a despesa extra virá com o carimbo de despesa emergencial, com preço superfaturado e dispensa de licitação…

A solução – mais uma vez – é discutir a sério o corte antes de fazê-lo. É discutir ouvindo as propostas de quem critica (e não dando um desconto no primeiro ano para servir de manchete n’O Globo e reduzindo o gasto per capita nos outros 19 anos do pacote).

Se quiser ser melhor que a antecessora, Temer não apenas terá que fazer cortes – o que ela sempre se recusou a fazer – terá que conversar e ouvir os críticos. Meireles e companhia terão que ouvir os críticos. Eles são bons economistas mas não entendem nada de saúde pública: têm que ouvir para avaliar direito o potencial destrutivo do que estão propondo.

Arrogância e desconhecimento – Dilma já provou – podem ser mais destrutivos que más intenções.

Vale a pena tentar não repetir os erros da presidente cassada.

 

As portas estão fechadas

setembro 21, 2016

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Nas ciências sociais é muito comum que as conclusões venham antes das provas, que venham antes até do início do estudo.

O clássico nesse campo é Karl Marx, que escreveu um panfleto cheio de conclusões (O manifesto comunista) e depois passou anos redigindo três volumes para deduzir, garantir, dar certeza de que o futuro seria exatamente como o panfleto previa.

Marx não foi o único. Uma legião de lobistas defende, todos os dias, as idéias mais viesadas e mal fundamentadas que se pode imaginar. Assim como Marx – que, curiosamente, era financiado por um industrial alemão (Engels) – muitos deles recebem dinheiro de grandes empresas. Outros estão confortavelmente instalados em cargos vitalícios na academia. E boa parte afirma ser capaz de prever o futuro, ou, pelo menos, de entender como a economia funciona.

Marx não devia aparecer nas prateleiras de economia nas livrarias. Estaria melhor classificado em ciência política ou história da filosofia (mas, talvez, políticos e filósofos discordem…).

De qualquer forma, ele tem mais a ver com a defesa de grupos de interesse que com a tentativa de entender como a produção se organiza e como a renda circula pela sociedade.

A dificuldade em perceber isso e a herança estranha que é ter sido obrigado a ler Marx nos primeiros períodos de faculdade mantêm as velhas idéias do filósofo-profeta em circulação nas universidades de todos os cantos do mundo.

Elas são pouco eficazes, as ideias de Marx. Quando chegaram ao poder, os marxistas russos não sabiam o que fazer (Lênin escreveu um livro sobre isso….), mas as ideias se mantêm circulando apesar disso.

A queda do muro de Berlim, em 1989, devia te-las enterrado de vez, não só por mostrar que as pessoas estavam presas do lado de lá do muro (que queriam sair e não podiam), mas por mostrar que a profecia marxista sobre o futuro não tinha se realizado.

Marx era essencialmente um profeta. Seus textos afirmam poder dizer como o futuro seria. Era esse o seu diferencial. Os reformistas bem intencionados, ele chamava de utópicos. Ele não. Não estava propondo melhoras: estava prevendo o desenrolar inexorável da História.

Bom, o futuro é bem menos previsível do que ele imaginava – como qualquer empresário falido já teve o desprazer de descobrir.

A sobrevida das ideias do velho Marx tem dois efeitos colaterais desagradáveis (além de servir de desculpara para ditadores na Coréia do Norte e em ilhas obscuras): ela dá discurso a políticos populistas e atormenta estudantes que poderiam estudar outras coisas (mas fazem matérias obrigatórias com velhinhos dogmáticos).

Marx, se vivesse hoje, seria publicitário. Seu maior mérito foi criar bordões e frases de efeito eficientes: frases que convencem rápido, mesmo que sejam mal fundamentadas ou, no fundo, não digam nada, enfim: frases publicitárias.

Essa herança propagandista foi o que os partidos populistas souberam usar melhor. Nada muito contra. Eles têm todo o direito de alardear velhos e novos slogans com pouco conteúdo.

O que lamento é  o espaço que ocupam – que poderia ser ocupado, até pelas mesmas pessoas, com ideias que descrevessem a realidade de forma um pouco mais precisa.

Ninguém sabe exatamente como o mundo funciona. Mas já temos alguma ideia de como ele não funciona. Temos alguma ideia do que é um delírio e produz catástrofes sociais e do que parece ter alguma chance de dar certo.

O segundo efeito colateral – o efeito sobre os universitários quase indefesos – é seletivo. Para a maior parte deles, as leituras d’O Capital, são um estorvo e as matérias obrigatórias, rapidamente esquecidas. O efeito é só a perda de tempo, esforço e dinheiro. Mas, para uma pequena parte dos alunos (talvez os mais ingênuos ou os maliciosos com interesse em virar acadêmicos com a benção de seus professores), as aulas realmente afetam o que dizem e até o que pensam. É uma deformação que pode levar anos  para ser corrigida – se algum dia for.

Não acho que deviam proibir cursos populistas. Seria usar autoritarismo contra autoritarismo – e o autoritarismo nunca deve ser usado.

A solução é argumentar, conversar, pôr as ideias à prova.

É preciso ter paciência, pois enquanto discutimos, continuaremos vendo grandes delírios sendo cometidos e defendidos por gente que cresceu ouvindo “proletários uni-vos” em uma economia que é basicamente de serviços. Gente que cresceu em uma economia onde o tal proletariado é uma expressão antiga, que não descreve mais os funcionários de fábricas. Hoje, nas fábricas – contrariando as previsões de Marx sobre a piora nas condições de trabalho – há turnos e expediente bem definidos, férias, décimo terceiro e seguro desemprego.

Não é difícil imaginar uma dedicada estudante de primeiro período de Ciências Sociais, ou de História ou de Jornalismo perdendo horas para preparar um trabalho de dezenas de páginas sobre a “teoria do valor-trabalho” e acreditando que o valor do que ela escreve é dado pelo tempo que passa produzindo o texto: que o preço das coisas depende do número de horas usadas para produzi-las.

– Bom, se você encontrar alguém disposto a pagar o que quer que seja por esse texto… – rebateria um colega de turma menos ideológico.

A estudante ficaria triste por um minuto e, logo, começaria a pensar na injustiça do mundo e em como é difícil ter reconhecimento pelo esforço que fazemos.

Bom, é difícil mesmo. Mas isso não significa que suas 20 páginas descrevendo uma teoria antiga (e completamente errada) tenham algum valor.

A estudante – vamos chama-la de Célia – vai se juntar a outros colegas no Centro Acadêmico da faculdade. Mas logo vai perceber que a principal função do Centro Acadêmico é organizar festas (pois há muita demanda por festas na faculdade).

As festas ajudam a financiar viagens para encontros nacionais de estudantes – que também são festas, mas com gente de mais lugares.

Desiludida com o movimento estudantil, Célia vai procurar o partido político que acha mais simpático. Vamos chama-lo de Partido do Sol para Todos.

Mas logo ela vai perceber que o Partido do Sol não segue os preceitos do velho Marx, não acredita na vinda inexorável do comunismo (pois essa hipótese já foi refutada pelos fatos). O que os solares fazem é propor políticas (boas ou ruins) que acham que vão melhorar a vida das pessoas. Na prática, eles não são muito diferentes de um partido social-democrata.

Mas, quando ela diz isso a um representante do partido, sua reação é violenta:

– Não é verdade! Nós não somos como eles, não nos misturamos como eles!

Célia se espanta por o Partido do Sol votar quase sempre com o Partido dos Oligarcas Locais mas odiar o Partido Social Democrata (com quem o Partido da Ogra Defenestrada, aliado do Partido do Sol, disputa espaço em São Paulo).

Enjoada, e achando que tudo aquilo não passa de uma disputa por cargos e verbas, Célia deixa o partido solar e tenta se concentrar apenas em seu curso de jornalismo na UERJ.

Depois de alguns anos de estágio em jornais que se dizem liberais – mas fazem seus funcionários virarem noites nas sextas-feiras para fechar a edição de domingo – ela consegue um emprego na TV Planeta, canal conservador que paga salários um pouco mais altos que a média (e promete bons salários para quem chegar a cargos de chefia).

Em quatro ou cinco anos de TV Planeta, Célia já terá feito a transição de marxista radical para conservadora assustada.

Ela agora vai ter medo da violência urbana – que noticiou nos primeiros três anos como repórter de TV – vai defender a o aumento do número de policiais nas ruas e condenar os “baderneiros” que fazem protestos pedindo melhores serviços públicos.

A transição de uma ideologia simples para o medo de mudanças simples (o conservadorismo) é fácil porque, em geral, é feita sem muitas discussões: é como uma conversão religiosa, uma mudança de credo.

De um dogmatismo a outro, dá para ir sem passar pela liberdade de opinião ou pela defesa do direito dos outros de defenderem suas opiniões erradas.

Se o marxismo desemboca em regimes totalitários, o conservadorismo extremo faz a mesma coisa, pois nada como um pouco de repressão para impedir mudanças indesejadas e “manter as pessoas nos seus lugares”.

O que me assusta nisso tudo é a falta de debate, o excesso de convicção de conservadores assustados (e agressivos) e ideólogos empedernidos (e desatualizados).

Não há liberais. Não há ninguém que se proponha a discutir e a ouvir. Os que posam como liberais quase sempre são conservadores disfarçados, envergonhados por defender a manutenção de uma situação tão ruim…

Os conservadores em países pobres têm esse dilema: conservar “isso que está aí”? Mas eles, em geral, estão satisfeitos desse jeito e têm medo de ficar pior se as coisas mudarem.

Podiam discutir melhor o que mudar em vez de comemorarem a repressão a protestos de rua.

A impressão geral é de que falta debate, falta disposição das pessoas para admitir que podem estar erradas, que podem aprender alguma coisa ouvindo o que as outras pessoas pensam.

Vamos afundar por conta de uma mistura destrutiva de burrice e arrogância ideológica (antes, arrogância à Dilma, agora a arrogância de ministros nomeados para pilhar recursos sem ter que discutir projetos com ninguém. Discutir para quê?).

É curioso que se tomem decisões erradas porque todos acham que estão certos (até os corruptos, até os lobistas em pele de ideólogos…).

 

Ministros nomeados por qualquer motivo que não adotar boas políticas para suas áreas tomarão decisões destrutivas. A boa política (para educação, saúde ou mesmo para a pesca) não surge como um subproduto involuntário a partir da busca esbaforida por outros objetivos.

O problema é que o governo federal já admite que seus ministros não foram nomeados por conta do que pensam ou da política que propõem para cada pasta: foram nomeados para conseguir votos no Congresso. Não se deve então esperar que administrem suas pastas pensando no acesso da população a boas escolas e hospitais. Eles administrarão para dar aos congressistas alguma espécie de contrapartida por seu apoio ao governo.

Às vezes, a perspectiva de ter uma gestão curta em um ministério com muitos recursos pode induzir o ocupante do cargo a pedir contrapartidas muito altas de fornecedores (entregues diretamente aos congressistas), como indica esta nota d’O Globo sobre o ministro da Saúde Ricardo Barros.

Desse jeito, o governo Temer vai ter base parlamentar. Só não terá gestão executiva (e poderá ser ainda mais corrupto que o anterior).

Preferia que o Executivo se preocupasse em gerir a máquina administrativa em vez de apenas conseguir “apoios” do Legislativo. Depois de aprovar a reforma da Previdência (que tem mesmo que ser aprovada), espero que revejam algumas dessas concessões de ministérios (e que o estrago feito até lá não seja grande demais…).

Mas estou sendo otimista – e o que se viu até agora não devia inspirar otimismo.

Concessões “porteira fechada” desse tipo podem ser muito destrutivas. Um ministério não é um capitania imperial para ser concedido a quem quer que seja.

Em troca dos votos do PP, de Ricardo Barros, vão destruir o sistema público de saúde? Vão aumentar o custo dos seus insumos e, assim, diminuir sua capacidade de atender pacientes? Dilma fez isso (e defendia na TV o superfaturado Farmácia Popular) mas, pela grita dos fornecedores, Barros parece estar indo com muita sede ao pote…

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Primo do Pato amarelo: já instalado na Esplanada dos Ministérios.

O Globo x Temer

agosto 28, 2016

Na matéria de capa da edição de hoje de O Globo, uma fonte (identificada apenas como “auxiliar de Temer”) diz que, aprovado o impeachment de Dilma, o governo apresentará uma pauta que inclui “PPPs (parcerias público privadas) para esgotos, penitenciárias, hospitais e creches, comprando vagas para as crianças.”

Um turista desavisado que lesse a matéria poderia achar que o jornal é dirigido por petistas e que eles apostam em uma última tentativa de manter Dima no poder – assustando os senadores para que votem contra Temer no julgamento do impeachment esta semana.

Além do timing horrível para esse tipo de manchete (que não traz novos apoios e afasta parte dos que se tem), o conteúdo do texto assusta. Concessões de serviços públicos para empresas de saúde estão tendo que ser revistas no Rio de Janeiro. Aqui, o Ministério Público investiga se os contratos com hospitais e UPAs administrados por empresas privadas foram feitos a preços razoáveis. O próprio governo estadual admite que terá que rever alguns desses contratos pois, pelo preço com que foram feitos, é difícil mantê-los.

A crítica às UPAs não é à qualidade dos serviços: é ao custo com que é oferecido. E, justo na hora em que se fala em cortar custos, alguém (não ficou claro quem) aparece com a bandeira da privatização da saúde.

Países liberais como a Inglaterra têm sistemas de saúde basicamente públicos. Há motivos para isso. Nos anos 60, o Nobel de economia Kenneth Arrow já escrevia artigos sobre como a saúde é uma área diferente onde as leis da oferta e da procura não funcionam do mesmo modo como em um mercado de sabão em pó, por exemplo.

Na saúde privada, quem escolhe o produto ou tratamento (médico) não é quem o consome (paciente) e também não é quem o paga (plano de saúde). Isso cria incentivos distorcidos na hora de escolher que remédio comprar ou que tratamento receber. Ninguém mais compara custos e benefícios porque os custos são do plano, ou do paciente (considerando também o sofrimento como custo) e o médico pode receber pressão do hospital onde trabalha para pedir mais exames ou mais avaliações. Enfim, há décadas se sabe que a expressão “oferta e demanda” não resolve os problemas na área de saúde.

No caso das creches é pior ainda. O que a frase na matéria dá a entender é que o governo quer ressuscitar uma velha ideia de Milton Friedman. Para Friedman, o governo poderia privatizar as escolas e oferecer vouchers para os pais com um valor fixo que eles usariam para pagar ou complementar o pagamento de mensalidades. Quem tivesse mais dinheiro, obviamente, usaria o voucher só como complemento.

A ideia é tão ruim que nem os EUA, terra de Friedman, a adotaram. O maior problema (de novo) é que ela deixa de lado os custos. A proposta de Friedman parte do preconceito de que a escola pública é ruim e propõe troca-la por escolas privadas (sem perguntar quanto custaria isso ou se seria realmente eficiente). Mais uma vez: nos EUA, onde a ideia surgiu, o ensino básico é praticamente todo público.

Sobre presídios privados, os EUA os implantaram – e estão revendo o programa para reduzir aos poucos sua participação no total de presídios. Não foi a solução que eles esperavam (como a própria matéria d‘O Globo deixa claro).

Por último, a fonte oculta d’O Globo usou uma expressão que sempre me dá calafrios: Parceria Público-Privada. Um ex-presidente do Banco Central da Índia, o ultra-ortodoxo professor Raghuram Rajan, escreveu um livro em que  aponta como esse tipo de coisa serve só para transferir dinheiro público para o setor privado. Pelo que me lembro do livro, ele deixa claro que a produção pode ser feita no setor público ou em empresas privadas. Modelos híbridos dão problema, fragilizam o sistema e ajudam a montar grandes crises como a de 2008, que ele analisa no livro.

Espero que a matéria de capa tenha sido só mais um balão de ensaio de lobistas tentando plantar seus projetos no meio da agenda do governo. Como projeto político, essas ideias não têm apoio de muita gente. E como agenda econômica, elas são simplesmente inviáveis (não há mais o que transferir para concessionários amigos: o dinheiro acabou).

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Um pequeno bode na sala?

 

 

Huxley em Olímpia

agosto 7, 2016

“É como se seus nomes fossem escrito em água”. A frase é de Aldous Huxley, não me lembro se do Contraponto ou do Folhas inúteis. Nos últimos dias, ela me vem à cabeça o tempo todo.

Sempre que vejo um atleta chorando ou dando pulos de alegria olímpica, na TV, penso em Huxley.

Alguém certamente já disse que é perigoso acreditar na própria propaganda. Mas estamos fazendo isso (eu mesmo não sou exceção). Estamos extasiados com imagens meio hipnóticas de gente correndo e pulando, de fogos de artifício e de cantores conhecidos.

Mas isso vai passar. A suave narcose olímpica vai durar um mês. Depois, vamos ficar com listas de nomes escritos em placares digitais (o que é quase o mesmo que escreve-los na água) e os mesmos problemas que tínhamos antes (e talvez mais alguns).

Difícil não pensar que os bilhões gastos em propaganda e entretenimento não pudessem ter um uso mais duradouro. Difícil não pensar nas dívidas que o governo assume para bancar os jogos.

Já ouvi de um governista que, sem os jogos, não teriam esticado o metrô até a Barra.

Nada contra o metrô, muito pelo contrário. Mas, se o critério para alocação de verba for esse (tem para evento, não tem para atender a população), estamos perdidos desde já.

A olimpíada vai criar boas externalidades: vai juntar as pessoas e talvez até esfriar os ânimos. Mas não se pode analisar nada olhando só para os benefícios. O mesmo recurso, usado em outras áreas, não seria mais proveitoso para a população? Se tivessem gastado em coisas básicas como saúde e educação, o resultado não seria melhor?

Não é uma crítica inútil. Por hora, vamos continuar hipnotizados diante da TV. Mas, no futuro, por favor, vamos tentar criar alguma coisa melhor do que emoções rápidas que não deixam traço.

 

PS.: O texto de Huxley é do Folhas inúteis. É o terceiro parágrafo neste link.

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Para o brejo?

A partir do dia 27 deste mês, quem estampar placas com palavras como “ouro”, “vitória” ou mesmo “Rio”, no Rio de Janeiro pode ser preso por até 1 ano segundo uma lei especial criada para atender ao Comitê Olímpico Internacional publicada há dois meses.

Para usar essas e outras 759 expressões registradas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, só pagando patrocínio ao COI.

Os detalhes estão na matéria neste link.

Não dá nem vontade de ver os jogos na TV. A vitória, o ouro e mesmo a cidade (já ficou claro) são do comitê de Genebra.

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Difícil de engolir.

 

A lei de Contra-Say

junho 19, 2016

Um dos argumentos teóricos favoritos dos autores da política econômica do governo Dilma pode ser chamado, sem muita controvérsia, de Lei de Contra-Say.

A Lei de Say original, proposta pelo economista francês Jean Baptise Say no século XIX, dizia, resumidamente, que a oferta cria sua própria demanda. Quer dizer: ao produzir, as pessoas geravam a renda que seria usada para comprar o que foi produzido.

A Grande Depressão, nos anos 30, enterrou a Lei de Say. Havia produção mas, com a demanda fraca, ela encalhava em pilhas de estoques.

A produção não gera necessariamente demanda pelo que foi produzido. Isso é mais ou menos consenso entre os economistas hoje. Em períodos conturbados, pessoas e empresas podem preferir guardar uma parte maior de sua renda – em vez de consumi-la ou de investir em produção. Em situações de crise de demanda (como nos anos 30), vale a pena que o governo incentive a demanda. Até aqui, tudo bem.

Mas os teóricos do governo Dilma deram um passo além: para eles, a demanda gerava sua própria oferta – em uma versão invertida da Lei de Say. Bastaria estimular a demanda e surgiria produção para atendê-la.

Em depressões econômicas, com fábricas fechadas e desemprego em massa, o estímulo à demanda pode sim levar a uma retomada na oferta (pois o conhecimento específico, a estrutura física e os trabalhadores já estão lá prontos para voltar a produzir). Em períodos normais, estímulos fortes à demanda levam apenas a aumentos de preços – como se pode ler em qualquer manual de macroeconomia.

Negando o manual, os teóricos do governo transformaram a população do país em cobaia involuntária de uma experiência fadada ao  fracasso. É claro que a inflação subiu. É claro que empresas e donos de ativos, vendo aquela política temerária ser implantada, não só não investiram como tentaram colher ganhos de curto prazo subindo preços.

Tudo isso era previsível. A única coisa surpreendente é que um governo com ambições  políticas de longo prazo tenha comprado o discurso de lobistas com um horizonte de tempo curto. O surpreendente é que o governo tenha acreditado na cascata acadêmica da Lei de Contra-Say.

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Contra-Say: A solução é construir pirâmides, esfinges e obras olímpicas.

Há empresas esvaziando seus estoques. A queda na produção de bens parece ter sido maior que a queda no consumo desses bens, quer dizer: há sinais de que haverá compradores se as fábricas aumentarem a produção.

O gráfico abaixo mostra a variação de estoques (acumulada a cada 4 trimestres para não ter sazonalidade) e a variação nominal do PIB de 4 trimestres sobre os 4 trimestres imediatamente anteriores.

Além de mostrar que há uma correlação razoável entre as duas variáveis, ele mostra também que a variação de estoques tem sido negativa, quer dizer: aparentemente há mais demanda que oferta no mercado de bens (os serviços são outra história).

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Com estoques caindo, as empresas, em algum momento, poderão se movimentar para repô-los (ou não vão conseguir atender à demanda).

A boa correlação entre as duas séries me fez tentar projetar a variação de estoques a partir da série do PIB. O resultado é a linha cinza no gráfico. Ela também é uma boa notícia: indica que os estoques estão caindo mais rápido do que se pode projetar a partir da variação nominal da renda (a variação do PIB nominal).

Com estoques caindo rápido, há estímulo para que a produção de bens volte a crescer logo.

É, pelo menos, alguma luz lá pelo meio do túnel…

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PS.: Sobre o gráfico acima, usei diferenças em reais para o PIB em vez de taxas de crescimento em percentual. Na série do PIB, os valores em milhões de reais correntes de cada período foram divididos por 10 (para a linha não ficar muito longe da linha da variação de estoques, facilitando a comparação).

A projeção em cinza foi feita com uma regressão simples, de mínimos quadrados.

Os dados originais estão na planilha de “Valores correntes”, no site do IBGE, neste link.

Saúde x Pato amarelo

junho 17, 2016

– Não há despesa órfã no Brasil.

Ouvi essa frase do então ministro Pedro Malan em um seminário no BNDES, em 2002. Malan sabia o que estava dizendo. Segundo ele, quando tentava cortar qualquer gasto, surgiam logo os pais, padrinhos e afins da despesa para defendê-la como a um filho querido.

Cotar é difícil. Alguns cortes, paradoxalmente, aumentam a despesa e não devem ser feitos. Cortar gastos no combate a mosquitos claramente aumenta a despesa (ou as mortes por doenças ligadas a eles). Cortar merenda escolar também não é recomendável.

Sim, há onde cortar. O governo aluga uma infinidade de andares e prédios e salas e é dono de outras tantas – vazias ou sub-utilizadas. A gestão de patrimônio do governo federal é temerária, há muito tempo.

Mas cortar esses gastos dá trabalho (embora não dependa de votos no Congresso). Da saúde não vão conseguir cortar muito. O Brasil gastam menos de 4% do PIB com saúde pública: é muito menos que a média da OECD (e a média da OECD, em % do PIB, é calculada como percentual de PIBs per capita bem maiores que o nosso). O gasto com educação pública é de 4,4% do PIB: pouco também. Não recomendo cortar.

Além de saúde e educação, o governo gasta 10,8% do PIB com o resto da administração pública, aí incluídos Legislativo, Judiciário, Defesa e segurança pública. Dá para cortar alguns gastos, mas não para espremer tudo que o governo quer/precisa.

Mas como passamos desses cerca de 20% do PIB para um gasto bem acima da carga tributária – de 33% do PIB? Faltou somar as transferências. Só com a previdência gastamos cerca de 15% do PIB (bem mais que toda a despesa com saúde e educação juntas). Com os juros da dívida gastamos mais que com saúde pública…

Mas os juros também não caem por decreto (e, com o crescimento da dívida pública, o total de gasto com juros cresce proporcionalmente…).

Bom, o fato é que, comparado ao de outros países,  o gasto com serviços públicos não é dos maiores aqui. As transferências são hoje tão grandes ou maiores que as despesas com serviços.

Para equilibrar receitas e despesas, o governo quer reduzir transferências como as aposentadorias. Isso não se faz de um dia para o outro. Mas vai ser feito, em alguma medida.

Há espaço também para aumentar alguns impostos. A alíquota mais alta do Imposto de Renda no Brasil é bem mais baixa que sua equivalente em quase todo o mundo civilizado. Ela pode ser aumentada. E se a Federação das Indústrias de São Paulo vier dizer que não quer pagar o pato, sinto, mas estamos no fundo do poço, entre outros motivos, por conta das políticas que a FIESP defendeu (como a redução populista da conta de luz, o protecionismo alfandegário amantegado e a redução forçada dos juros em 2012). Além disso, é muito razoável que as empresas mais ricas do país arquem com parte do ajuste.

O que não pode é aparecer no jornal defendendo que o pato seja pago pelos usuários do SUS. Para grande parte da população – a que depende da saúde pública – o calote na dívida federal e o inferno inflacionário são preferíveis à falta de hospitais no curto prazo.

Para quem se recente da falta de qualificação da mão de obra e da baixa produtividade do Brasil, cortar na educação também não é uma alternativa.

O que fazer então? Mudar os critérios para aposentadoria, melhorar a gestão do patrimônio federal, cortar isenções tributárias como as da Lei Rouanet  e melhorar a administração onde for possível.

(E, claro, mandar o resto da conta para a FIESP. Eles merecem pagar o pato.)

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– Não se preocupem: a verba da grande pirâmide não será cortada!

Pequenas expectativas

junho 8, 2016

Somos adaptativos: quando chove, achamos que vai continuar chovendo. Quando faz sol, nossa impressão é que haverá sol no dia seguinte. Na maior parte dos casos, dá certo: acertamos a previsão. Talvez por isso – por um processo de seleção natural de animais/pessoas adaptativos – esse jeito de formular expectativas seja tão natural para nós.

Talvez por isso, em épocas prósperas, todos esperem por prosperidade eterna e, em épocas de crise, a sensação seja de que o poço não tem fundo.

Mas a decadência econômica alguma hora vai acabar. Não dá para dizer bem quando, mas dá para dizer que vai. A máxima de que nada dura para sempre se aplica às crises. A crise vai acabar também porque os prejuízos que causa estão começando a empurrar empresários, políticos e organizações de todos os tipos a fazer mudanças (às vezes até mudanças que envolvam perdas de curto prazo).

A sensação continua sendo de crise sem luz no fim do túnel. Já houve crises que duraram décadas e desembocaram em regimes totalitários. Houve também crises curtas que ajudaram a despejar governantes totalitários. Cada crise tem seus traços específicos. Por isso – expectativas adaptativas à parte – não dá para ter muita ideia de quando a atual vai acabar (mesmo sabendo que, alguma hora, vai).

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“A crise já acabou?”

Na votação do impeachment na Câmara, os deputados de partidos aliados (PC do B e PSOL) deram um show à parte com seus discursos inflamados “contra o golpe”. Era estranho vê-los se expor desse jeito em nome de uma causa perdida (e incrivelmente impopular).

Não custa lembrar: Dilma já tinha índices de rejeição que deixariam até Collor constrangido.

Então por quê? Por que o desgaste para a própria imagem? Por que o PSOL, que tentou por alguns anos se apresentar como “oposição de esquerda”, defendeu Dilma com mais estardalhaço que o partido dela?

Esta semana, vimos um bloco bastante compacto de atores e cantores fazer a mesma coisa: se expor ao vexame de defender a rainha de copas, a destruidora da economia, em nome de… em nome de que mesmo?

Não parece haver chance de Dilma voltar ao poder. Mas os petistas ainda podem ter um ou outro voto na eleição para vereador. Então é realmente estranho o jeito como o partido parece arregimentar seus anexos para pular no abismo da rejeição pública.

Não entendo o que alguém ganha transformando Caetano Veloso em um lobista da burocracia de um Ministério da Cultura ressuscitado. Não entendo por que, um Jean Wyllys, que tinha uma boa plataforma política e um bom eleitorado, se expõe a perder o apoio de todas as pessoas que votaram nele e que têm alguma noção de economia.

Os antigos governistas parecem perdidos, ou desesperados.

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Aristocracia decadente?

 

Com um cocar branco, cantando de graça entre os pilotis do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, Caetano Veloso se transformou em uma versão musical de Leonardo Picciani – ex-líder do PMDB na Câmara dos deputados e hoje ministro dos Esportes.

Caetano fez com Michel Temer, o mesmo que Picciani fez com Dilma Rousseff: exigiu dele  um ministério. Não era para ele pessoalmente: era para o grupinho de que faz parte.

Ser o PMDB do PMDB é uma coisa estranha. Mas se, em algum momento, Caetano perceber que se transformou nisso, vai, provavelmente fazer uma piada e fingir que não notou. Afinal, ele é hoje uma pessoa que exige espaço na burocracia oficial: ele é o PMDB do PMDB (e é melhor não admitir uma coisa dessas).

Temer, como bom articulador político, cedeu e recriou o Ministério da Cultura: um custo baixo para tirar o discurso da oposição musical.

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PMDB, Honoré Daumier.

Ainda estou esperando para ver como será o governo Temer. Mas me espantou ver a defesa enfática (e involuntária) do novo governo feita por atores, cantores e compositores.

Não, eles não mudaram de lado. Caetano e cia continuam oficialmente contra. Mas, se a pior coisa que têm para reclamar é que Temer transformou o Ministério da Cultura em secretaria, então as coisas não podem estar tão mal.

O Brasil sempre foi um país cheio de problemas, com saúde pública ruim, educação pública idem, corrupção, concentração de renda etc.. Se agora os artistas se unem para denunciar uma mudança burocrática em um mistério quase sem verba, é porque o resto deve estar indo bem (ou porque eles não têm ideia do que estão fazendo).

L' adieu, Camille Claudel esculpida por Auguste Rodin após sua separação.

L’ adieu, Camille Claudel esculpida por Auguste Rodin após sua separação.

 

 

O fechamento da Fazenda

abril 24, 2016

Várias matérias de jornal compraram o “shutdown” anunciado pelo Ministério da Fazenda para pressionar o Congresso.

Se recusando mais uma vez a cortar ministérios e cargos comissionados, o Ministério ameaça com uma espécie de greve patronal caso o Congresso cumpra seu papel e impeça o governo de aumentar ainda mais o rombo no orçamento.

Senhores, façam os cortes e recolham o pires: o Congresso não vai autorizar rombos extras agora.

O novo governo – se o Senado aprovar a abertura do processo de impeachment – vai cortar despesas. A alternativa é ver a dívida pública explodir em um prazo muito curto.

Só se espera que o governo Temer tenha algum critério para fazer os cortes. O governo (federal, estadual e municipal) gasta 3,4% do PIB com saúde, 4,4% com educação, e 10,8% com o restante da máquina administrativa (sem contar transferências como aposentadorias a pensões).

Os gastos com saúde e educação são reconhecidamente baixos: ficam perto do fim da fila nas comparações internacionais. Mas na administração, na burocracia brasiliense e na grande conta de transferências (INSS, pensões, subsídios etc…) há espaço para cortes. Nelson Barbosa e cia já deviam ter feito alguns deles.

Vamos ver o que fará o novo governo.

Quanto ao shutdown, é uma expressão importada do governo dos Estados Unidos. La, quando o governo federal estoura o orçamento, os funcionários são mandados de volta para casa (sem salários).

Não é assim que funciona aqui. A lei brasileira não prevê isso.

Não vai ter shutdown. O que vai ter, provavelmente, vai ser impeachment e corte no orçamento. 

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Vaca sagrada – Ministério da Fazenda, 2016.

É difícil ser conservador em um país ineficiente, com desigualdades respeitáveis e com barreiras antigas para estudar e produzir. É difícil ser conservador quando se acha que as coisas não estão bem. Ainda assim, sempre houve conservadores: latifundiários, integrantes da Fiesp, herdeiros, sempre houve alguém satisfeito e disposto a lutar pela manutenção do satatus quo.

O curioso da crise atual é que, com inflação alta, depressão econômica, desemprego crescente e total falta de perspectiva para a economia, é ainda mais difícil ser conservador, é ainda mais difícil defender a manutenção do status quo. Mas, no meio do caos, surgem novos conservadores.

Eles defendem a manutenção do governo que criou a política econômica atual, defendem o uso da ultra-fisiologia para manter a presidente no cargo (embora haja prova de crimes em suas gestões). Em suma, eles defendem, com veemência, o status quo.

Alguns fazem isso pelo mesmo motivo que os velhos herdeiros faziam: porque se beneficiam diretamente dessa gestão. Alguns recebem financiamentos chancelados pelo Ministério da Cultura, outros têm empresas contratadas por este governo – e ainda têm contas a receber.

Os mais curiosos são os que só seguem a manada, os que repetem que defendem a legalidade (não dizem que defendem a presidente). Mas o que eles querem é conservar o governo, independentemente de legalidade ou de decadência econômica. Eles lutam para manter uma situação que implica em crise e decadência para milhões de pessoas. E fazem isso porque seguem a publicidade oficial transmitida até via Facebook.

PT e cia não têm um projeto econômico para implantar. Não dá nem para dizer que “enfiam as mãos na lama” por uma boa causa, como tentou argumentar um ator conhecido ainda nos tempos de Lula I. Eles querem apenas manter “tudo isso que está aí” (como diria um Ciro Gomes de outros tempos).

Contra eles, que venham todos os insatisfeitos, os que não aguentam mais a má gestão da economia, os que se revoltam com o atraso dos salários, os que se assustam com a má alocação de verbas, os que torcem o nariz para a soberba presidencial.

Contra eles, que venha a maioria.

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Pato egípcio que faraós conservadores obrigavam a população a pagar.

 

A crise da economia brasileira não tem a ver só com queda de arrecadação, tem a ver também com despesas crescentes. O governo Dilma falhou por não reconhecer isso. E, sem reconhecer o problema, não há como trata-lo.

A dúvida agora é se o governo Temer (cada vez mais provável) vai tentar resolver problemas como o do defict da previdência. Se não resolver, sofrerá, até 2018, o mesmo desgaste enfrentado pelo governo Dilma.

A situação das contas públicas chegou a um ponto em que não é possível postergar ajustes – embora Dilma ainda tente posterga-los. Até 2008, ainda havia algum controle sobre a relação entre a dívida pública e o PIB. Mas, depois da crise de 2008/2009, o governo abandonou a contenção de gastos em nome de políticas de incentivo à demanda. Hoje, o Estado gasta crescentemente mais do que arrecada (e se endivida a taxas altas). Será preciso ajustar novamente a despesa à receita.

Parte do ajuste será via inflação (não corrigindo os salários dos funcionários públicos, por exemplo), parte terá que ser contenção do crescimento de itens como a previdência social.

O curioso é que, embora arrecade cerca de 34% do PIB em impostos (e gaste mais de 40%) o governo consome menos de 20% do PIB com a prestação de serviços públicos. O resto são transferências, são itens como juros, previdência e programas sociais (que crescem automaticamente, puxados pela dívida pública e pela demografia).

Algum ajuste virá, nem que seja um involuntário, com calotes e alta da inflação. Será melhor se o governo conseguir entregar um ajuste organizado, um ajuste intencional e bem planejado.

Nas últimas décadas tivemos ajustes de diferentes tipos: tivemos o Plano Real (que adotou a máxima do equilíbrio fiscal para conter a inflação), tivemos os ajustes dos anos 80 (que, sem a parte fiscal, foram paliativos e ineficientes) e tivemos o Plano Collor (um confisco temporário que deixou sequelas até hoje em muitos antigos poupadores).

Se servir como estímulo para os formuladores da política econômica de Temer, vale a pena lembrar que o efeito político desses ajustes foi o seguinte: o Plano Real elegeu um presidente, os ajustes do governo Sarney tiraram do PMDB a chance de se firmar como amplamente majoritário após o fim da ditadura. O Plano Collor levou ao impeachment de seu autor.

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Crise econômica. México, museu de antropologia.

MASSOLIT tupiniquim

março 29, 2016

É difícil não repetir a História como farsa. E é engraçado ver a esquerda fazer isso (mesmo quando a História é assustadora).

Nos anos 30, na União Soviética, o favorecimento aos artistas pró-regime era tão ostensivo que um escritor de oposição (Mikhail Bulgakov) não resistiu a registra-lo em livro. E assim, contrabandeada para fora da Russia e publicada postumamente, chegou ao ocidente a história da  MASSOLIT a (fictícia) associação literária de Moscou.

Seus integrantes, governistas ou dispostos a escrever por encomenda, viviam em um condomínio de luxo só para escritores e jantavam no excelente, exclusivíssimo  (e subsidiado) restaurante da associação literária.

Para qualquer governo preocupado com auto-promoção, pouca coisa é melhor do que cultivar escritores pró-regime. Mas arte pró-regime é que nem jornalismo pró-regime: é um armazém de secos e molhados (como disse Millor). Nem o pintor do rei da Espanha (Francisco de Goya) pintava decentemente quando tinha que retratar nobres sorridentes nos jardins do palácio. O Goya bom é o Goya velho e surdo: o Goya amargurado dos últimos quadros.

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Melhor que financiamento via Lei Rouanet e patrocínio do Banco do Brasil, só há uma coisa: compra direta de serviços. E aí, de novo, a história tem casos clássicos que a esquerda faz força para esquecer. O mais famoso é o de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, contratado por Frederico III, rei da Prússia, para fundamentar a doutrina de que o o Estado é tudo e o indivíduo, muito pouco.

Depois do período napoleônico, não dava mais para dizer que o rei era rei por vontade de deus. Tinha que haver uma filosofia para justificar a concentração de poder nas mãos do rei. E, para criar essa filosofia, Frederico III contou com um funcionário contratado: Hegel.

Os detalhes sórdidos do caso são descritos pelo também filósofo Karl Popper, no excelente A sociedade aberta e seus inimigos. A descrição da MASSOLIT está em Mestre e Margarida (incrivelmente mal traduzido para o português). E a possibilidade de encontrar filósofos governistas hoje está à disposição de qualquer um que leia jornal.

Um filósofo pró-governo não é muito melhor do que um artista pró-governo. As pessoas de quem se espera crítica (serve até critica construtiva) não deviam ficar elogiando os poderosos. É constrangedor. Me sinto envergonhado por eles.

Mas vai ser ainda mais constrangedor (e mais engraçado) se eles forem elogiar Michel Temer daqui a alguns meses, quando o governo Dilma terminar (o que parece cada vez mais provável).

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Goya, em sua melhor fase.

O governo e a defesa Lindt

março 26, 2016

Véspera de páscoa no Botafogo Praia Shopping: uma fila de consumidores espera para pagar seus ovos de chocolate Lindt na loja da marca no terceiro piso. Pergunto à vendedora da loja em frente:

– É a primeira vez que eles têm fila?

– Não – ela responde, como se a fila para comprar chocolates de luxo importados fosse uma coisa normal.

Quatro pisos abaixo, no subsolo, onde ficam as Lojas Americanas, centenas de ovos continuavam pendurados em estruturas de madeira e plástico montadas especialmente para a páscoa.

Os ovos das Lojas Americanas estavam caros (mas nem de longe tinham preços de Lindt). Alguns custavam mais de R$ 30. Um ovo Lacta de 230 gramas custava R$ 17,90, com desconto de 10% sobre o preço riscado na etiqueta: R$ 19,90.

Uma barra de chocolate do mesmo tipo, na mesma loja, saia por R$ 5,90 (barra de 150 gramas).

Os ovos das Americanas vão encalhar. Com uma boa quantidade de caixas registadoras funcionando, a loja estava sem fila. Um piso acima, na Cacau Brasil, o estoque já estava todo vendido, as vitrines tinham pouca coisa a mostra.

Os chocolates de grife foram disputados. Os mais baratos não: estavam caros para o público a quem se destinavam.

É um exemplo de caricatura, eu sei, uma amostra pequena e viesada, mas ajuda a entender porque o governo ainda tem defensores na classe média alta. Para muita gente, não existe crise: o PIB caindo 4% e a inflação de mais de 11% no ano passado não as incomodam de verdade, não afetam suas rotinas.

Para os comedores de Lindt, o país não está em crise. Por isso, alguns deles não se sentem constrangidos em defender o status quo atual.

Isso vai mudar. Não por causa dos comedores de ovo Lacta, ou das pessoas que nem pensam em ovo de chocolate: vai mudar porque os comedores de Lindt do PMDB entenderam que a situação é insustentável, que é melhor mudar de barco antes que o governo se aproxime ainda mais do calote na dívida pública (da qual muitos comedores de Lindt são credores).

Mas, que o PMDB queira mudar de lado, era fácil prever. O que entendi hoje é por que uma parte da classe média alta não muda: ela continua comprando ovos de chocolate Lindt, mesmo que eles sejam obtidos graças à contratações via Lei Rouanet ou a contratos associados a empréstimos subsidiados do BNDES (há também os que simplesmente acreditam na propaganda política, sem ganhar nada com isso. São os piores esses últimos, mesmo que comam Lindt).

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O atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, anunciou esta semana que o governo deve ter um déficit de quase R$ 100 bilhões este ano, sem contar as despesas com juros.

Como ainda estamos em março – e, este ano, o governo tem revisto as projeções de déficit para mais a cada mês – é difícil prever onde a conta vai parar.

Mantendo esse ritmo de crescimento, a dívida pode se tornar maior que o PIB já em 2019.

Uma dívida maior quer dizer mais despesas com juros sobre a dívida. Uma dívida de quase 100% do PIB – com taxas de juros brasileiras – simplesmente não é sustentável. Ela pode levar ao calote ou à monetização da dívida (hiperinflação).

Mas o pior não é ver o governo chutar o balde do endividamento, é ver o ministro da Fazenda dizer que faz isso de propósito, para “reaquecer a economia”.

O Brasil tem um regime de câmbio flutuante. Com câmbio flutuante, os gastos do governo têm pouca capacidade de estimular a demanda. Com câmbio flutuante, quem estimula a demanda (para gerar crescimento ou inflação) é a taxa de juros: é a política monetária.

Ou o ministro da Fazenda esqueceu o básico de macroeconomia ou está sendo pouco sincero em até em suas declarações mais estranhas.

A economia não está parada por falta de déficits públicos, está parada porque empresas e famílias não querem correr riscos ou assumir compromissos em um ambiente instável como o atual.

O aumento da dívida pública em ritmo insustentável contribui para aumentar os riscos e frear ainda mais o investimento privado.

O gasto a mais, anunciado por Barbosa, vai produzir mais dívida e mais gasto com juros, vai ter o efeito oposto do anunciado.

Se o ministro for esperar a volta do crescimento da economia para cortar gastos, vai esperar para sempre (ou até ser defenestrado).

Lagarto sorridente

Dragão da crise.