Uma desembargadora do Tribunal de Justiça de Santa Catarina foi flagrada, na semana passada, proferindo uma variante de uma das mais ultrajantes frases que se firmaram na tradição brasileira. Numa discussão com PMs que tentavam recolher o carro de seu filho numa blitz, a magistrada questionou, em alto e bom som: “O senhor sabe quem eu sou?”

O que se seguiu, especialmente após a divulgação do episódio (e de um vídeo) na imprensa, foi a habitual guerra de versões. Os PMs afirmaram que a desembargadora havia tentado dar uma “carteirada”; a desembargadora, por defesa indireta da Associação dos Magistrados Catarinenses (AMC), garantiu ter sido tratada de maneira ríspida pelos PMs.

Tudo isso segue um roteiro para lá de manjado.

Interessante mesmo é a “nota de esclarecimento” emitida pela AMC. Além de buscar explicar os fatos, com a versão da desembargadora, o texto inclui a seguinte preciosidade:

O que houve, repise-se, foi a exigência, por parte da desembargadora Rejane Andersen, de respeito a sua condição de magistrada e cidadã.

A mensagem é sutil, porém de uma clareza cristalina. Para a AMC, a desembargadora, numa situação trivial e sem qualquer relação com sua atuação no tribunal, merecia respeito como magistrada.

Afinal, como todos sabem, existem os cidadãos que são apenas cidadãos e os cidadãos que receberam esse toque divino da magistratura.

A maior parte dos economistas concorda: a década perdida foi efeito da política econômica do general Geisel – na segunda metade dos anos 70. A economia parou de crescer nos anos 80 porque, nos anos 70, durante a crise do petróleo, Geisel deu um passo maior do que as pernas.

Mas o mais curioso, para quem gosta de política, é pensar em por que ele fez isso. Na prática, Geisel deixou o dragão inflacionário sem controle (juros baixos), aumentou o gasto público (e a dívida pública) e pôs dinheiro em um monte de novas estatais onde os investidores privados jamais se arriscariam (parte delas acabou quebrando). Mas por quê?

Bom, porque as ditaduras são assim. Para se manter no poder, o ditador precisa de apoio do Exército. E, se o Exército estiver dividido, como estava durante o governo Geisel, o ditador tem que mostrar serviço para garantir o apoio da metade que não vai muito com sua cara.

No caso de Geisel, mostrar serviço era não deixar a economia desacelerar demais. E, para isso, valia a pena se endividar, imprimir moeda e investir em coisas que rendiam pouco. Era uma escolha entre crescimento menor logo ou crescimento maior depois. Para se firmar no poder, Geisel ficou com a primeira opção.

Por que, então, o “modelo Geisel” é defendido hoje como alternativa de política para o Brasil? Por que é defendido por uma candidata que aderiu à guerrilha contra o governo que adotou essa política?

As novas estatais, os aportes do governo à usina de Belo Monte e outros similares são destaques do discurso de Dilma. A inflação solta (juros baixos) ainda aparece só nas declarações de Mantega e da Fiesp.

Mas hoje não há justificativa para trocar crescimento sustentável no futuro por mais crescimento no curto prazo. Então, de novo: por quê?

Não sei, mas tenho uma teoria conspiratória. E ela tem a ver com o “a maior parte dos economistas” no começo deste texto.  Sim, porque existe uma pequena minoria no bando que se desdobra para defender as políticas de Geisel. Parte dela está instalada em Campinas, na universidade estadual de lá. Outra parte está a poucos metros daqui, no Instituto de Economia da UFRJ.

A defesa “teórica” de Geisel começou 25 anos atrás, com um pequeno livro chamado A economia brasileira em marcha forçada, escrito em parte por um ex-aluno da Unicamp, na época, professor da UFRJ.

O texto admite que, de acordo com os manuais de economia, o que Geisel fez devia ter travado o crescimento nos anos seguintes. “No entanto”, afirma, ” a economia cresce”. E cresceu, em 1984 e 1985, quando o livro foi editado. Em 1986 ela deu seu último suspiro, com o início do Plano Cruzado. Depois, estagnou por 10 anos.

Mas o livro ajudou a agrupar o lobby em torno das políticas à Geisel. Além de travar o crescimento, essas políticas incluíam distribuir empréstimos a juros negativos (menores que a inflação) a empresários e alimentavam o discurso de muitos políticos.

Então é isso? É só para agradar uma ala da academia e dar empréstimo barato aos amigos?

Não. Não é essa a teoria conspiratória. Ela é pior do que isso (e também mais provável).

Keynes, o inventor da macroeconomia, achava que não eram os interesses que governavam o mundo: eram as idéias. Uma de suas boas frases é a que diz que as idéias dos economistas são muito poderosas, mesmo quando estão erradas.

Acho que esse caso ilustra bem a frase. O lobby acadêmico de Campinas e da UFRJ acabou realmente convencendo alguns políticos, ministros e afins de que Geisel estava certo.

A defesa das políticas à Geisel, se for isso mesmo, não está sendo feita por maldade ou por interesse, mas por burrice.

Se for isso mesmo, há esperança. Burrice tem cura. Mas vai ser preciso promover debates e fazer barulho, vai ser preciso pôr os geiselianos para explicar suas teorias (e se defender das contradições). E é bem provável que isso não aconteça, que não haja debate nem defesa de nada.

Afinal, economia é um tema que dá pouca audiência. E o sujeito que devia atacar as idéias à Geisel – o candidato da oposição – parece meio simpático a elas.

Critério de segurança

abril 7, 2010

No início de 2008, teve alguma repercussão a divulgação, pela Folha de S. Paulo, de gastos de R$ 55 mil, num período de dez meses, feitos com cartão corporativo por um dos seguranças de Lurian Lula da Silva, filha do presidente da República. Destino do dinheiro: lojas de autopeças e de material de construção, supermercados, livrarias, posto de combustível.

A “revelação”, à época, em meio ao pseudoescândalo dos cartões corporativos, mostrou-se de baixíssimo nível, pois insinuava, nas entrelinhas da preocupação com o correto uso dos recursos públicos, uma desnecessidade da trupe de dez agentes encarregada da segurança de Lurian e dos netos de Lula. Esvaziado o balão de ensaio, porém, prevaleceu a obviedade de que, eventuais gastos abusivos à parte, é justificável proteger a família do presidente – no Brasil, Nauru ou Seychelles.

Tudo isso para dizer que, na noite da sexta-feira passada, o apartamento de Lurian em Florianópolis foi invadido por supostos ladrões, e a turma do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) não viu nem ouviu nada. Detalhe: a filha do presidente estava em casa.

Desta vez, contudo, a grande imprensa não achou muita graça. A Folha e o Globo, por exemplo, relegaram o tema a cantos modestos de suas editorias nacionais. Aparentemente, um serviço de segurança presidencial que não consegue evitar uma simples invasão de residência não atende os critérios de relevância jornalística que orientam a cobertura dos jornalões.

Agora, se o ladrão tiver usado cartão corporativo…