Economia da saúde

abril 29, 2017

A gestão atual do Ministério da Saúde entrará para a História por sua criatividade sem limites.

Hoje pude ver de perto essa inovação curiosa que é a campanha de vacinação sem vacinas.

É simples: você chega ao posto de saúde e descobre que as vacinas acabaram antes das oito horas da manhã, logo que o posto abriu.

– É para febre amarela? Tem que chegar às 7h – me disse uma mãe de criança com o filho no colo. – Em Botafogo também já acabou.

Segui com minha filha para a Cinelândia, onde eu mesmo tomei a vacina há alguns anos. Lá, o segurança do posto de vacinação foi ainda mais claro:

– A gente só recebe 20 doses por dia. O melhor é agendar a aplicação.

Mas não era uma campanha de vacinação? Agendar no meio de uma campanha?

O verão já acabou e anda há tempo até os mosquitos voltarem a ser um dos grandes terrores cariocas. Mas mandar as pessoas aos postos de saúde sem ter vacinas para aplicar não parece o exemplo de gestão que o atual ministro prometeu quando recebeu o Ministério Saúde em troca dos votos da bancada do PP no Congresso…

Injeção? Vacina? Programa de saúde pública? Só pagando, na clínica particular. Vai um plano de saúde popular sem cobertura de internação também?

Sair do Rio de Janeiro ajuda a pôr a cidade em perspectiva. Em outros lugares, há bons imóveis anunciados por R$ 150 mil. Na Zonal Sul do Rio, eles custam quase um milhão.

Com os aluguéis é a mesma coisa: muito mais altos no Rio.

Os preços dos serviços privados são mais altos e a prestação de serviços públicos está mais decadente no Rio. Os funcionários do Estado estão com os salários atrasados, as unidades de pronto atendimento de saúde estão com seus contratos (caros) precisando de revisão e a universidade do estado só não fechou as portas porque professores e alunos toparam trabalhar em condições ruins para universidade não fechar de vez.

Ficou caro e ruim viver no Rio. O Estado vai passar as próximas décadas pagando dívidas como a do metrô (assumida para pagar quase R$ 10 bilhões à Odebrecht e Associados). O município também tem dívidas olímpicas a pagar…

Que empresa com alguma capacidade de escolha abriria filiais ou novos negócios nessa  cidade cara e pouco funcional?

A alta de preços e a destruição dos serviços públicos,  então, sinalizam baixo crescimento à frete. E, com ele, virão menos trabalho, menos impostos, menos serviços públicos e uma espiral de decadência.

A saúde pública é um dos maiores exemplos. O atendimento básico – que deveria ser municipal – é feito pelo Estado, em unidades privadas terceirizadas contratadas sem licitação a preços, no mínimo, discutíveis (essas são as UPAs).

Por falta de caixa, o governo cortou os repasses a algumas UPAs, que cortaram o atendimento aos doentes. Há quem defenda que as UPAs deviam mesmo ser fechadas, mas antes é preciso saber o que pôr no  lugar.

Que empresa ou família vai querer se instalar em um lugar em que a saúde pública  é assim, os planos de saúde são caros e a rede hospitalar privada está sobrecarregada?

Sair do Rio é, cada vez mais, a opção para recém formados, aposentados e qualquer um que tenha uma oferta de trabalho ou fonte de renda fora de lá. É o que escuto cada vez mais, das pessoas mais diferentes.

E, de fato, a vida é mais tranquila fora do Rio. Fora de lá, não é preciso ouvir um governador que atrasa salários dizer que quer expandir o metrô até o Recreio dos Bandeirantes.

Se as coisas continuarem desse jeito, os que não forem expulsos da cidade pela crise econômica serão expulsos pelos insultos de Pezão e Associados.

urubu

Urubu em Jurerê: fugindo do Rio de Janeiro.