Ninguém sabe ao certo o que é neoliberalismo. Mas o presidente da Bolivia, Evo Morales, deu ontem uma pista (matéria completa no meio da página do link). Segundo Evo, seu próprio governo mantinha um “subsídio neoliberal” aos combustíveis. O fim do subsídio provocou um aumento de 73% no preço da gasolina. O diesel subiu 83% e o querosene de aviação 99%.

Os preços estavam congelados há seis anos e o subsídio que os mantinha assim consumia cerca de 2% do PIB da Bolívia todos os anos.

Diante dos protestos, greves e afins provocados pelo aumento (que afetará os preços  de produtos que dependem de transporte, como os alimentos) Evo teve de explicar o por quê da decisão. Ela foi o “fim de um subsídio neoliberal que causava corrupção e perdas para o país.”

Tenho muita curiosidade em estudar essas políticas de congelamento e subsídio neoliberais.

Com apoio de economistas estrangeiros, Evo talvez passe a falar mais da teoria por trás dessas políticas. Ontem, ele anunciou que vai importar economistas paraguaios para ajudá-lo em sua política de preços para os combustíveis.

Na Venezuela os combustíveis também são fortemente subsidiados. Se Chaves algum dia cortar o subsídio, também vai chama-lo de neoliberal?

Evo: Liberando os preços para combater o neoliberalismo.

Por fim, o Brasil também tem histórias clássicas de aumento de combustível. Uma das mais bem contadas aconteceu no começo do governo Jânio Quadros. Jucelino, feliz e sorridente, deixou o câmbio completamente desquilibrado no fim de seu governo. Seu sucessor, Jânio, teve que arrumar a casa. Mas mudar o câmbio significava aumentar o preço dos combustíveis – na época em grande parte importados.

Sem problema. Jânio foi para os microfones e defendeu sua política dizendo que o que queria era acabar com as regalias da Esso e da Shell. O povão engoliu.

A versão mais bem contada da história está nas memórias do liberalíssimo Roberto Campos, assessor de Jânio, que sabia que o aumento não tinha nada a ver com as empresas de petróleo. Era só um ajuste no câmbio.

Campos relata suas conversas com os taxistas que o levavam de um lado para o outro – e que sofreram com o aumento de preços. Eles não deixaram de apoiar Jânio depois do aumento. “Se for para acabar com a boa vida da Esso e da Shell”, lhe disse um deles, “vale a pena”.

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A rede social, o filme do Facebook, lembra um pouco Tropa de elite 1. Não, o filme não é nem de longe tão bom quanto o policial de José Padilha, mas tem uma coisa em comum: psicopatas, de um modo geral, vão achar que o vilão do filme é o herói.

É bom ver isso de novo no cinema: ver filmes que podem ser vistos de mais de um ponto de vista – mesmo que, nesse caso, o segundo ponto de vista seja o de um sujeito ambicioso e sem escrúpulos, disposto a qualquer coisa para manter o ego inflado (via bolso cheio).

A pessoa mais sensata do filme é a ex-namorada do inventor do Facebook, que – toda vez que aparece em cena – diz a ele que é um cretino desgraçado.

Mas é preocupante ver o desgraçado na capa da Time como personalidade do ano. É meio como ver o capitão Nascimento na capa da Veja como herói nacional.

Também é preocupante ver que as idéias que fizeram o sucesso do Facebook são as de um cretino que espera que o público seja tão cretino quanto ele. O site tinha que ser exclusivo, com acesso só para convidados (porque as pessoas querem esse “exclusivo”), tinha que falar da vida privada de conhecidos (mostrando quem era comprometido e quem estava disponível), tinha que matar essa vontade se expor (que alguém já chamou de evasão de privacidade), enfim, tinha que ajudar estudantes universitários americanos a satisfazer seus instintos básicos.

Se o ideal de vida dos americanos for: estude muito, pise na cabeça de todo mundo que você conhece, invente alguma coisa na internet, chame atenção e fique rico, acho que a crise lá ainda vai durar – por mais que eles formem bons analistas de sistemas…

O capitão Nascimento de "A rede social".

Esbarrei hoje em uma grande comemoração da UNE. Só não tropecei – literalmente – na comemoração porque um segurança contratado me desviou do caminho. “Tem que ir por fora”, ele disse, apontando para o outro lado da rua.

Eu estava na Praia do Flamengo, em frente à futura sede da UNE. Depois de desviar de dois carros com parabólicas e ver o outdoor, os balões coloridos e toda a parafernalha montada para a comemoração, comecei a pensar no que significam os mais de R$ 30 milhões transferidos pelo governo federal à União Nacional dos Estudantes (com promessa de mais no ano que vem).

A UNE é uma dessas associações de classe criadas na Era Vargas. Hoje, ela serve principalmente para emitir carteirinhas de estudante e para abrigar a UJS a União da Juventude Socialista.

Há décadas, a UJS – braço infanto-juvenil do PC do B – é quem manda na UNE. Como o PC do B é aliado do PT, a UNE simplesmente ficou quieta durante o governo Lula. Recebeu verbas e não fez barulho, nem uma passeatinha. Eles não falam sobre o PISA ou sobre os outros indicadores de qualidade da educação no país. Isso é bobagem. O que a UNE tem a ver com educação?

Tudo isso é só para dizer que não vejo nenhum motivo para construir um prédio para a UNE. Deviam vender o terreno e usar o dinheiro para contratar professor, comprar remédio para hospital público, contratar policial para UPP, qualquer coisa que atenda as necessidades mal atendidas da população. Mas – em vez de vender o terreno – vão enterrar mais dinheiro público nele.

A UNE não é governo, não é administração pública. Isso quer dizer que as obras serão contratadas sem os critérios que a administração pública tem que seguir. Mas, mesmo que o prédio fique pronto, mesmo que fique pronto sem nenhum escândalo contábil, mesmo que seja melhor administrado que a antiga sede da UNE (caindo aos pedaços na Rua do Catete), para que isso vai servir?  Vai servir para que eles tenham mais infraestrutura para organizar suas campanhas contra tudo que eu considero boa política pública (contra privatizar estatal, contra cortar gasto público…).

Quer dizer, é dinheiro público entregue a um grupo que faz campanha política. Não há nenhuma lei contra isso? Isso passou pelo Congresso? Ainda dá para vetar (ou adiar eternamente) o depósito do dinheiro?  Por que só saiu na TV depois que o dinheiro foi liberado? Não era agora que o governo ia apertar o cinto para poder baixar os juros? Se for desse jeito, vão ter que soltar verba para o gasto corrente, porque dar dinheiro para a UNE e vetar contratação de professor é muito descaramento (adeus ajuste fiscal).

Breve, no Flamengo, a maior central de emissão de carteirinhas de estudante do país (e talvez do mundo!).

Promessas e realizações

dezembro 16, 2010

Retirada de entulho, Rua Marquês de Abrantes, Rio de Janeiro.

“Não existe despesa órfã no Brasil. Toda despesa tem pai, mãe, tios, padrinhos… É só pensar em cortar que já começa a gritaria.”

Ouvi essa frase do então ministro da Fazenda Pedro Malan. Foi em 2002, em uma palestra no BNDES, durante a comemoração dos 50 anos do banco.

Depois de mais de oito anos entre Banco Central e Fazenda, Malan sabia do que estava falando.

Agora, um ministro da fazenda conhecido por defender o aumento de gastos aparece na TV dizendo que 2011 vai ser um ano de austeridade, de corte de gastos. Esqueceram de avisar a ele que as despesas têm família?

Mas bastaria conter os gastos, não deixa-los crescer, para que o déficit anual do governo começasse a cair – já que as receitas têm crescido.

Não esperem por isso. Mesmo que Manteiga queira conter os gastos – o que vai contra seu discurso de até um mês atrás – é improvável que consiga. O seu salário (o dele) subiu 149% ontem. O Congresso teve a cara de pau de dizer que ainda não calculou o aumento de despesas projetado para o ano que vem por conta do aumento de salários na casa. A conta só sai depois que o assunto sumir das manchetes de jornal.

Foi um mal começo, que tem chances de ser seguido por um mal meio – e por um final que deixe a desejar.

O que nos resta é ficar de olho no IPCA e esperar que o novo presidente do BC faça o que é pago para fazer. Não é o melhor dos mundos, mas é melhor que o inferno inflacionário.

Até tu economist?

Os ingleses da The economist estão tentando convencer seus leitores de que o preço dos imóveis nos EUA está bastante razoável. Um bom gráfico devia mostrar como estão os preços em relação à sua média histórica. Um mal gráfico, como esse aí embaixo, só confunde, dá até a impressão de que os preços são comparáveis aos dos anos 90. Cascata! Plotaram o aumento dos preços a cada ano e não o aumento acumulado.

Se plotassem o acumulado, daria para comparar os preços de hoje com os de qualquer ponto da série. Do jeito que está, só dá para ver qual foi o aumento em cada ano.

Se os editores da revista quisessem realmente mostrar como estão as coisas, apresentariam a série acumulada e, ao lado dela, o CPI, o índice de preços ao consumidor dos EUA. Aí sim daria para ver como os imóveis subiram mais que os preços médios da economia e como, do meio de 2006 para cá, praticamente só caíram.

Se fossem sinceros, ainda diriam que – com desemprego alto e perspectiva de baixo crescimento da economia para os próximos anos – a tendência dos imóveis não vai ser de alta…

Como enrolar o público com um gráfico (sem necessariamente mentir).

O  gráfico é ainda mais maldoso porque parece crescimento acumulado: como os aumentos de preço eram maiores a cada ano, a cara do gráfico é de crescimento acumulado mas, como dizem as letrinhas cinza embaixo do título, não é isso que está lá.

A parte inclinada para baixo, mas acima de zero, indica aumento de preços – e não queda – apenas crescimento menor que os 15% ao ano do período anterior. A subida, a partir do meio de 2008, não é subida, é queda menor: ainda é variação menor que zero a cada ano.

As letrinhas cinza garantem que eles não vão ser processados por mentir mas, por favor, não me digam que essa cascata saiu assim por distração…

A matéria original – que ficou dois dias no alto da página de abertura, no site da revista – está neste link.