Lembro até hoje de minha professora de História da sétima série dizendo: “Não se faz revolução a favor de nada. Revolução é sempre contra”. Ela era uma professora de História típica: mais para PC do B que para PT, do tipo que usaria o broche do partido se isso não fosse contra alguma norma da escola.

Lembrei dela lendo o caderno de política do jornal. PT e aliados têm dominado com tanta força o noticiário político que talvez a oposição já possa fazer o que o PT fazia quando era oposição: pode ser contra.

Em termos de propaganda política, esse é o melhor dos mundos. A oposição não precisa se comprometer com nada, ou propor qualquer coisa (o que sempre irrita quem discorda da proposta). Eles podem simplesmente bater no que o governo está fazendo.

E isso dá voto, o PT que o diga.

Se a inflação continuar acelerando, vai ser difícil para o governo manter o poder de compra de todas as bolsas de ajuda que mantem. A inflação, quando acelera, é mais rápida que o reajuste dos salários (e benefícios). Então, sim, há esperança para a oposição.

É por isso que Eduardo Campos e Marina Silva estão dando sinais de vida. Por isso que Aécio Neves parou de se fingir de morto. Eles só precisam começar a bater.

Ah, é por isso também que o governo está tão ansioso para ocupar ainda mais espaço e (com mais de um ano de antecedência) só pensa em eleições. O curioso é que o ímpeto eleitoral está atrapalhando. O esforço para manter a popularidade alta está impedindo que o governo adote medidas mais duras no curto prazo – que ajudariam a segurar a inflação até as eleições.

O pensador político - e suas orelhas.

O pensador político – e suas orelhas.

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Galinha pirata

abril 27, 2013

A galinha azul estava no alto da pilha. O camelô perto do Largo da Carioca estava desmontando a barraca e ela era uma das poucas coisas ainda não embrulhadas.

Galinhas pintadinhas são uma espécie de hit entre os menores de cinco anos. Duas semanas atrás, vi uma delas a venda por R$ 160 em um shopping de Botafogo.

Por um segundo pensei em comprar a versão pirata do camelô.

Sou um adepto do livre mercado, quer dizer: acho que o mercado tem alguns mecanismos de auto-correção que não devem ser desprezados.

Um deles é a pirataria.

Sempre que alguém abusa de um monopólio (cobra preços delirantes pelo uso de uma marca ou registro), surgem cópias piratas.

Para estimular a pirataria, então, pensei em comprar a galinha azul.

Mas não cheguei a perguntar o preço. O azul do pelo (tecido, não pelo, muito menos penas) era meio desbotado e o bico da galinha pirata tinha um ar realmente triste.

Não dou bonecos tristes para crianças.

Segui em frente, então.

Estamos em uma época estranha. Galinhas de pelúcia são vendidas por R$ 160 em shoppings, os jornais ignoram surtos de dengue, o governo diz que a alta da inflação é bobagem, o legislativo faz propostas para extinguir o STF e eu mesmo me entristeço porque a galinha falsa do camelô não está sorrindo.

Eu era menos sensível a essas coisas…

Pássaro de pedra egípcio, sem preço.

Pássaro de pedra egípcio, sem preço.

A criatura e seus amigos

abril 23, 2013

Quem nomeia um lobista para um ministério não pode ficar surpreso por ele transformar a pasta em um grande escritório de lobby. No começo, o lobista pode (e deve) ser discreto. Mas, depois de mais de sete anos no cargo, ele pode acabar perdendo o pudor.

Pensei nisso hoje vendo o ministro da Fazenda ao lado da representante da associação dos usineiros (produtores de cana, álcool e afins). O ministro anunciava os favores que faria ao setor: compras garantidas para aumentar a mistura de álcool na gasolina, isenções de imposto, mudança na estrutura de cobrança (agora mais simples) etc..

O saldo da entrevista é a certeza de que hoje, mais do que nunca, fazer lobby em Brasília é muito mais lucrativo do que investir em pesquisa ou comprar mais máquinas e equipamentos. Hoje, mais do que nunca, o Brasil é dos amigos do Rei, ou do ministro, ou do grupo político do ministro.

Mas eles não precisavam  deixar todo o resto de lado. Quer dizer: o que o governo chama de política econômica é simplesmente gerenciamento de lobby. As políticas de isenção específicas para montadoras, produtores de massas alimentícias e afins são só favores para amigos, não há nada de política econômica nisso.

A mudança nas regras para cobrança por energia elétrica foi resultado do lobby de grandes consumidores de energia, do lobby da indústria. Mesmo tendo sido vendida como medida para agradar o povão, seu objetivo era agradar alguns grandes consumidores (para quem a redução de preços foi maior até em termos percentuais).

Pequenos consumidores de energia já têm tarifas mais baratas, o efeito da redução sobre os que já pagavam tarifas sociais e tarifas para pequenos consumidores não vai afetar muito seu orçamento. Já para empresas com maquinário pesado ou processo intensivos em eletricidade (como produção de alumínio), o resultado do lobby foi maravilhoso: muito melhor do que investir em processos alternativos de geração de energia ou fazer qualquer outro tipo de investimento.

E assim seguimos, sem política econômica nenhuma, só atendendo a amigos. E assim a economia vai desacelerando e a inflação vai subindo. Como já disseram os ingleses da Economist, teria sido melhor trocar o ministro…

Escada a baixo, com toda a pompa.

Escada a baixo, com toda a pompa.

Repórteres pouco curiosos – que não fazem questão de entender as declarações que reproduzem – transformaram os cadernos de economia na parte mais chata do jornal.

Para recuperar a sinceridade desse tipo de notícia e deixa-la minimamente interessante, fizemos uma pagelança e trouxemos, do além, o fantasma de Nelson Rodrigues. Pedimos ao fantasma para entrevistar o ministro da Fazenda e ele concordou, com a condição de que fosse uma entrevista fictícia.

A entrevista então foi feita há meia-noite de ontem em um terreno baldio de propriedade do grupo EBX e teve como testemunha uma cabra vadia. O ministro concordou em responder de forma sincera a todas as perguntas e pediu apenas que a cabra testemunha fosse neo-novo-keynesiana e tivesse mestrado na Unicamp.

Fantasma de Nelson: A inflação está voltando?

Ministro: Já voltou. Nós estamos cortando impostos sobre a luz e outras coisas só para disfarçar, mas a oferta não cobre mais a demanda e isso quer dizer inflação acelerando.

FN: A culpa é do tomate?

M: Eu aprendi isso com o Delfim Netto: quando a inflação sobre, é melhor pôr a culpa em alguns produtos, dizer que ela não seria tão alta assim se não fosse por eles. Tirando os itens que subiram, a inflação parece sempre menor…

FN: É como a história do quiabo, na época da ditadura?

M: Sim. É isso mesmo. Preferimos dizer que é um problema pontual, embora 70% dos produtos do IPCA tenha aumentado.

FN: A economia também está crescendo pouco.

M: Dilma perguntou ao Delfim e ao [Luiz Gonzaga] Belluzzo o que fazer. Nesse caso, eles disseram que era melhor atirar no mensageiro: culpar o IBGE. Belluzzo disse para fingir que a economia vai bem e dizer que o IBGE não mede direito.

FN: Mas adianta ficar fingindo? A população não vai notar?

M: Até a eleição dá para fingir, depois, a inflação vai acelerar mais e a economia vai estar muito cheia de remendos, gargalos e travas. Mas o importante são as eleições. Como diz a presidenta, pelas eleições a gente faz o diabo.

FN: Mas, se vocês ganharem, a bomba vai explodir no seu colo, em 2015.

M: 2015 ainda está muito longe. Qualquer coisa depois das eleições está muito longe.

FN: Vocês não vão fazer nada para segurar a inflação e estabilizar a economia?

M: Só o que não tirar voto. A presidenta já disse: nós não acreditamos em medidas que afetem a popularidade no curto prazo. Esse tipo de política econômica está ultrapassado.

FN: Então vai ser o caos?

M: Não, o caos não. As pessoas vão perder renda por causa da inflação. E o crescimento baixo não vai ajudar. Mas isso não é o fim do mundo: já aconteceu antes e achamos que é um preço baixo a pagar pela reeleição.

FN: Até porque não são vocês que pagam…

M: Exatamente.

FN: Há alguma diferença entre o que vocês estão fazendo hoje e o que o Delfim fazia na época da inflação?

M: Não. É a mesma coisa. Por isso que a gente se consulta tando com ele. Nós até contratamos uns consultores para escrever artigos na imprensa com “justificativas teóricas” para a nossa política. É bem engraçado ver o tipo de malabarismo que eles fazem. Mas, na prática, eles fazem a mesma coisa que alguns acadêmicos fizeram nos anos 80 para justificar as políticas do Geisel.

FN: Então esses artigos dizendo que está tudo sob controle, que é só esperar que a inflação diminui sozinha…

M: Quem mais escreve essas coisas é um economista nosso que tem uma coluna no Estadão. Outro que escreve é da consultoria do Luciano Coutinho, nosso amigo… Pensamos em chamar gente de fora, mas preferimos ficar com gente em que a gente confia, manter como uma espécie de trabalho interno. Convidei a cabra que está testemunhando a entrevista mas, como boa cabra neo-novo keynesiana, ela não é muito articulada.

Depois da entrevista, o ministro admitiu que ficou espantado por a imprensa reproduzir sua declaração de que daria um Nobel para quem acertasse as previsões que ele errou.

Depois da entrevista, o ministro admitiu que ficou espantado por a imprensa reproduzir sua declaração de que daria um Nobel para quem acertasse as previsões que ele errou.

O jogo do pato

abril 8, 2013

Inflação é alta generalizada de preços. É quando, como agora, mais de 70% dos produtos que compõem o índice de preços ao consumidor têm aumento.

Quando isso acontece, as pessoas passam a não querer só aumentar o preço do que vendem: elas querem aumentar mais do que os outros estão aumentado. Quem se lembra do começo dos anos 90 sabe disso.

E a pressão por aumentos acima da média aparece até em setores com preços controlados, como o dos planos de saúde.

O Valor de hoje publicou uma bela peça de lobby divulgada pela assessoria de imprensa dos planos de saúde. A matéria, se fosse honesta, teoria o seguinte título: Planos pressionam por aumento 10 pontos percentuais acima de inflação. Como era uma peça de lobby, seu título era: “Custo dispara e desequilibra balanço”.

O texto relata como empresas do porte da Unimed Rio e da Bradesco Saúde estão sofrendo com aumentos em seus custos e tenta mostrar como elas devem repassar esses custos para seus clientes:

“Dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) mostram que os custos médicos nessa categoria [individual] de plano de saúde aumentaram 16,4% no acumulado de 12 meses encerrado em junho do ano passado (…)”

A matéria não diz o que é o IESS, e o site do IESS também não diz o que ele é, nem quem o financia. Mas a mas a matéria diz que: “Em relação aos planos de saúde individuais (cerca de 10 milhões no país), o reajuste ainda não foi definido pela agência reguladora, o que deve acontecer até o próximo mês. Mas ao que tudo indica o aumento deve ser expressivo.”

Matéria oportuna, sem dúvida.

Na corrida por reajustes acima da inflação, quem é mais lento fica para trás. Se você tem plano de saúde, prepare o bolso. Afinal, as seguradoras estão alardeando aumentos de custo e a agência do governo que teoricamente protege o consumidor do oligopólio dos planos foi – nos últimos anos – incrivelmente bondosa (com os planos) e concedeu reajustes bem acima da inflação.

Em alguns setores com preços regulados, os aumentos autorizados pelo governo são iguais à inflação passada menos uma estimativa de ganho de eficiência (capacidade das empresas de reduzir seus custos). Com os planos de saúde é o contrário. A hipótese do regulador é que eles ficarão mais e mais ineficientes, até consumirem toda a renda dos beneficiários (o que com aumentos sempre acima da inflação e com um horizonte de tempo suficientemente longo é matematicamente garantido).

Galinha pintadinha de R$ 159,00. Inflação para todas as idades.

Galinha pintadinha de R$ 159,90: inflação para todas as idades.

O longo prazo

abril 4, 2013

Quando os analistas de bancos e consultorias econômicas começam a se preocupar mais em prever as próximas medidas do governo do que em projetar cenários para a inflação e o crescimento da economia é porque a vaca já atolou: é hora de mudar tudo ou de apostar na decadência da economia.

O governo, por princípio, deveria aumentar a segurança do sistema, ele devia ser a parte mais estável e previsível da economia. Quando não é, o nível de instabilidade começa a subir gradualmente e fica cada vez mais difícil fazer projeções sobre o futuro.

A história se complica ainda mais quando se pensa nos motivos do governo para adotar medidas erráticas e arbitrárias (e não adotar as que o manual de macroeconomia recomenda). E esses motivos não são bons.

A preferência pelo curto prazo – explícita nos anúncios do governo, nos últimos meses – tem como contrapartida um grande desleixo pelo longo prazo, pelos efeitos de longo prazo dessas mesmas políticas.

O resultado disso – uma mistura de inflação em alta com crescimento baixo – é que, no longo prazo, ficaremos todos pobres.

Por mais que cause desconforto no curto prazo, às vezes, é preciso mudar.

Por mais que cause desconforto no curto prazo, às vezes, é preciso mudar.