A pobreza dos consultores

novembro 30, 2014

É estranho ver economistas “liberais” cometendo o mesmo erro que Karl Marx cometeu no século retrasado. Vi isso hoje na TV. O maior erro de Marx – segundo o filósofo Karl Popper – foi ser historicista: achar que o futuro estava determinado, que era previsível e seguia – inexoravelmente – em uma certa direção.

Há muito de imponderável e de decisão individual na criação do futuro. Nada está garantido.

Mas hoje, na Globo News, o analista e consultor Raul Velloso garantiu: está tudo bem, a presidente Dilma escolheu bons ministros e escolheu, não por vontade, mas porque a situação da economia a obriga a isso.

– Mas nossos vizinhos tinham situações econômicas ruins e escolheram errado assim mesmo – rebateu o apresentador do programa.

– Nossas instituições são melhores – defendeu Velloso, com apoio do cientista político sentado ao seu lado.

Eu sei: parece pouco, mas isso é o horror em termos de análise política. E como hoje a economia depende imensamente de decisões políticas, é o horror para a análise econômica.

O primeiro horror é o mecanicismo histórico: na situação X o governo só pode reagir da forma Y. Sinto, mas não é tão simples. Gostei da nomeação de Joaquim Levy, mas ela não era garantida pelo contexto histórico ou como quer que se queira chamar a situação da economia hoje.

Segundo: o argumento da qualidade institucional era usado, antes das eleições, como sinalização de que, diante da crise, a oposição seria eleita. Não aconteceu. Mesmo com insatisfação popular explícita nas ruas, não houve mudança – e isso teve a ver com a forma como as campanhas eleitorais podem ser feitas aqui, com nossas regras institucionais.

Terceiro: a previsão do futuro vem dentro da mesma lógica mecanicista: Dilma não tinha como fazer diferente e não terá como mudar. Isso – acho que posso até garantir – nem Dilma sabe. O futuro é desconhecido – até para quem nomeia ministros. Achar que a presidente vai continuar emparedada até o final do mandato é como achar que Lula iria “sangrar até as eleições e perde-las”, como vaticinou FHC durante o mensalão.

Ou nossos supostos analistas liberais não conseguem ir além da torcida e do historicismo mais simplório ou estamos ouvindo os analistas liberais errados. Com muita frequência, tenho a impressão de que a maior parte de nossos “liberais” não passa de um grupo de conservadores disfarçados. E eles estão felizes com o sinal recente de que vamos voltar a ter política econômica.

Mas é importante não confundir desejo com análise (como lembrava Stuart Mill) nem profecia com consultoria – como tantos consultores gostam de fazer (e tanta gente gosta de ouvir).

Análise econômica não serve para trazer consolo aos ansiosos: não é uma psicanálise de segunda classe. Os analistas deviam estar apontando para os riscos (que sempre vão existir, embora mudem de tipo ao longo do tempo), não comemorando. Analista que comemora é como jornal que elogia o governo: não serve para muita coisa.

Profecias mecanicistas - coisas do tempo de Marx (ou não).

Profecias mecanicistas – coisas do tempo de Marx (ou não).

Khair contra Dilma

novembro 25, 2014

Fui procurar na internet a pena por não cumprir a lei orçamentária – o que o governo federal fez este ano.

Nos jornais, em várias matérias, li coisas como “o governo quer mudar a Lei de Diretrizes Orçamentárias sob pena de descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal”. Mas descumprir a lei não é uma pena. A pena deve ser algo como multa ou prisão.

Na internet, achei longos textos em juridiquês que davam voltas sem chegar à pena propriamente dita. Até que achei este – de um analista do Ministério da Fazenda (da secretaria de Arno Agustin) que, no site da Casa Civil de Aloísio Mercadante, cita o economista heterodoxo-desenvolvimentista Amir Khair para produzir o resumo abaixo:


Alguns exemplos de transgressões à LRF e suas punições penais

Transgressão Punição
Contratação irregular de op. de crédito – reclusão de 1 a 2 anos
Alienação de bens sem autorização – perda de cargo, reclusão
Descumprir o orçamento aprovado – cassação de mandato
Não reduzir despesas com pessoal – multa de 30% dos vencimentos
 Liquidação de aros fora dos prazos legais – perda de cargo, inabilitação

Quer dizer: segundo eles, descumprir o orçamento – como o governo federal fez este ano – pode levar à perda de mandato.

Começo a entender desespero do governo.

Quase entendo as ameaças de espancamento feitas pelo senador Romero Jucá (PT-RR) contra os colegas que não queriam votar em seu projeto de mudança da lei.

Jucá, o relator da proposta, quer rever a lei orçamentária para impedir que a presidente da República responda por improbidade administrativa. Para conseguir, o senador está disposto até a “aplicar dois palmos de porrada” em quem disser que ele está cometendo algum abuso.

"Mudar a lei depois de cometer o crime? Há jurisprudência?"

“Mudar a lei depois de cometer o crime? Há jurisprudência?”

A partir desta segunda-feira, o Banco Central vai pôr mais uma gambiarra na política econômica. O BC vai passar a rolar – todos os dias – até US$ 700 milhões em contratos de swap cambial (já explico o que é isso). O programa de intervenções se junta a outro que já vende diariamente US$ 200 milhões em swaps – e deve continuar fazendo isso pelo menos até o fim do ano. Ao todo, há US$ 110 bilhões em contratos desse tipo entre o BC e o mercado (bancos, empresas e investidores).

Para quem acompanha a economia, a notícia é mais assustadora que os escândalos da Petrobrás. Swap é um contrato de troca de rentabilidade. O BC usa esse contrato como uma espécie de seguro para quem quer comprar dólar. O contrato garante a rentabilidade do dólar a quem o compra – mas não afeta as reservas de dólares do Banco Central. É, na prática, um jeito de o BC vender dólar operando só em reais.

Por que isso é assustador?

Primeiro porque, se o dólar subir, o BC perde. Com US$ 110 bi em swap cambial, cada 1% de alta do dólar é o equivalente (em reais) a US$ 1,1 bi a menos nos cofres do BC.

Segundo (e mais importante): isso é assustador porque é jogar fora a política econômica, é aumentar a contradição lógica no que o BC faz, tornando mais alto o custo e pífio o benefício da política monetária.

Todo aluno de Macroeconomia 1 aprende que, com câmbio flutuante, a política fiscal é quase ineficiente e é a política monetária (os juros) quem tem o poder de frear a demanda e segurar a inflação. A política monetária faz isso por vários caminhos. Mas um deles é via câmbio. Quando os juros sobem, o país se torna mais atraente a investimentos de fora, o dinheiro entra, os investidores compram reais, o câmbio cai, o preço dos importados cai junto e ajuda a segurar a inflação. Há outros efeitos da alta dos juros (para segurar a demanda), mas esse ajuda a ter ideia de poque o câmbio fixo anula a política monetária.

Em regimes de câmbio fixo, é a política fiscal (gastos do governo) o instrumento de controle da demanda. É cortando gasto – ou aumentando impostos – que o governo segura a demanda e controla a inflação.

O governo daqui, hoje, evita usar os juros para segurar a demanda.  Para o dólar não subir, segura a cotação com uma gambiarra (os swaps). E, ao mesmo tempo que torna o câmbio mais rígido, aumenta o gasto público, faz política fiscal expansionista. O resultado é claro: inflação.

Em vez de o câmbio ajudar a puxar a inflação para baixo (como um dos efeitos da alta dos juros), ele é artificialmente controlado. O governo trata um sintoma em vez de cuidar das causas.

Isso é muito inconsistente e dificilmente se manterá no longo prazo. Por quê? Porque ao intervir para manter o dólar artificialmente baixo, o BC estimula as importações e desestimula as exportações – aumenta a demanda por dólar e a pressão por sua alta. Os dados da balança comercial já confirmam isso.

Ao não subir os juros, o BC estimula a saída de investidores (que também compram dólares e aumentam a pressão por sua alta).  Por mais reservas que tenha, o BC não pode manter essa inconsistência lógica por um muito tempo. Ele terá que subir juros e terá que deixar o câmbio flutuar mais livremente.

Mas, enquanto não faz isso, o BC dá a saída para quem quer tirar seu dinheiro do país sem prejuízo – garantindo um dólar barato para os investidores que quiserem ir embora.

O BC assume, em contratos de swap, a diferença entre o dólar hoje e o dólar de quando o investidor quiser sair: assume o prejuízo com a desvalorização do real. E, se não subir os juros, o prejuízo vai ser grande.

Talvez, mesmo subindo os juros, o BC perca bastante. Até lá, ele reforça a potência de uma política fiscal que tem o sinal oposto ao da política monetária: põe lenha na fogueira que os juros deviam apagar.

O swap cambial, na escala em que é usado, é um dos paliativos que o governo adota para  conviver com os desequilíbrios que se recusa a corrigir – e os paliativos têm seus próprios efeitos colaterais… É como tomar remédio para febre, banhos frios e analgésicos fortes (e, ao mesmo tempo, se recusar a tratar sua causa da doença).

Detalhe de parede em Cambridge, onde a política de controle da demanda foi inventada.  No longo prazo...

Detalhe de parede em Cambridge, na Inglaterra, onde a política de controle da demanda foi inventada. No longo prazo…