Transporte Caracu

abril 30, 2009

As chibatadas de Madureira trouxeram à pauta da imprensa, pela enésima vez, a questão do transporte público no Rio de Janeiro. O abuso dos seguranças da SuperVia ensejou, por decorrência lógica, uma análise da (falta de) qualidade do serviço de trens urbanos no estado. Análise como de hábito furada.

Hoje, todo o transporte público no Rio é operado por empresas privadas, detentoras de concessão. Além da Supervia, são responsáveis pela mobilidade do cidadão fluminense Opportrans, Barcas S/A e uma infinidade de empresas de ônibus. Nem São Paulo é assim.

De tempos em tempos, a imprensa acorda para questões como a superlotação, a falta de capilaridade do sistema, a inconstância do serviço, as tarifas e, pasmem, até a violência física no trato com o usuário do serviço. Serviço público. E começa, para usar uma expressão na moda, a “testar hipóteses”.

Falta fiscalização? Falta planejamento? Falta vergonha na cara? As perguntas são sempre iguais, e as respostas, por alguma razão que foge à compreensão, sempre vagas. Mais: considera-se natural que, a despeito da privatização dos lucros, o Estado continue injetando dinheiro na forma de compra de equipamentos ou de subsídios. (Alguém aí falou em socialização dos prejuízos?)

O que mais espanta, porém, é o desinteresse pela comparação com as grandes cidades dos países ricos, recurso tão usado em outras pautas. Como é o transporte público em Nova York? E em Paris? E em Madri? Em tempos de internet e Google, para não falar de correspondentes e colaboradores espalhados pelo mundo, deve ser difícil fazer a checagem.

Pois é assim: em Nova York, todo o transporte é operado pela Metropolitan Transit Authority (MTA), corporação pública; em Paris, pela Régie Autonome des Transports Parisiens (RATP), empresa pública; e em Madri, pelo Consorcio Regional de Transportes de Madrid (CRTM), formado majoritariamente por empresas públicas.

E por que essas cidades (e muitas outras) mantêm o transporte público na esfera estatal? Porque transporte público eficiente e universal é deficitário. Vejam que a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Aqui, o transporte público, embora privatizado, também é deficitário (para o Estado). Mas é uma m… iríade de problemas.

Não sei se a imprensa não fala disso porque é cega ou porque não vê.

O apocalipse é hoje!

abril 27, 2009

Sinopse de filme surreal do tipo “o apocalipse é hoje”

Uma grande crise leva à falência os maiores bancos de Estados Unidos, Inglaterra, Suíça etc. As pessoas começam a juntar dinheiro, antecipando uma temporada de caos econômico. Os preços de tudo começam a cair. Políticos e participantes do BBB aparecem na TV dando declarações evasivas sobre a crise. Os primeiros liberam trilhões de dólares para socorrer bancos e empresas (que não param de demitir funcionários). Os segundos dizem que, se ganharem um milhão de reais, não precisarão se preocupar com isso.

Para completar, grandes chuvas, tufões e terremotos italianos começam a dar a impressão de que alguma coisa está errada com o clima – e não só com ele.

Uma nova praga, conhecida como gripe porca, ameaça se espalhar pelo mundo e políticos populistas dão declarações bombásticas sobre doença – enquanto posam para fotos fingindo que se esforçam para contê-la.

Uma seita de profetas do apocalipse começa a pregar que todos devem cavar grandes abrigos para se proteger da crise (sem explicar como o cavar abrigos vai adiantar alguma coisa). Uma seita concorrente anuncia na TV que a solução é mudar de planeta (e recomenda Plutão).

Um terceiro grupo, os Adoradores da curva do sino, diz que o fim do mundo é altamente improvável (pois não há nenhum registro de que algo assim já tenha acontecido).

As chuvas aumentam e mais dois bancos vão à falência. 

As seitas começam a crescer – só não crescem mais por causa da gripe porca – e a idéia de cavar abrigos para se proteger começa a parecer uma boa alternativa.

 

Peste - Museu de antropologia (fechado até o fim da epidemia) - Cidade do México

Peste - Museu de antropologia (fechado até o fim da epidemia) - Cidade do México

O canto do cisne

abril 24, 2009

A crise americana é uma mistura de bolha, desequilíbrio macroeconômico e lambança financeira.

A bolha – que todo mundo sabia que estava para estourar – era a dos preços dos imóveis. O desequilíbrio, também conhecido, já tinha apelido há anos. Os jornais o chamavam de  “déficits gêmeos”. Era a junção do déficit nas contas do governo americano com o déficit nas contas externas dos EUA.

Os déficits gêmeos indicavam que as coisas não podiam ficar como estavam por muito tempo. E, quanto mais demorasse para começar o ajuste, mais forte ele teria que ser.

A surpresa da crise foi a lambança financeira, a quebradeira dos bancos. Até o ex-presidente do FED Alan Greenspan confessou que estava surpreso com a situação dos bancos (que ele deveria ter fiscalizado).

O que aconteceu com os bancos americanos só pode ser explicado por uma mistura de conspiração, risco moral e arrogância.

A conspiração apareceu nos últimos meses antes da crise, quando os bancos já sabiam que estavam quebrados mas ficavam quietos, se fingindo de vivos. O então presidente do Citibank se descuidou em uma entrevista e disse “we are still dancing”, quando lhe perguntaram como estava a saúde financeira do banco.

O risco moral (moral hazard) explica boa parte do caos bancário. Presidentes e diretores dos grandes bancos americanos ficaram milionários enquanto seus bancos navegavam para o abismo. Eles tomaram decisões que aumentavam o lucro no curto prazo (garantindo seus bônus de fim de ano) e aumentavam os riscos para o longo prazo (quando talvez já nem trabalhassem mais no banco).

A terceira parte da lambança bancária também é  interessante. Além de temerários em algumas decisões, analistas de risco de grandes bancos americanos foram incrivelmente arrogantes. Eles confiaram absurdamente na própria capacidade de estimar riscos e se expuseram a esses riscos sem provisões de recursos para o caso de alguma coisa sair errada. Tiveram tanta confiança em seus modelinhos que não se preocuparam em fazer qualquer tipo de seguro ou aplicação na outra ponta para o caso de o cenário mudar.

Uma boa análise do lado financeiro da crise está neste link para um debate com Daniel Kahneman (psicólogo que ganhou o Nobel de economia) e Nassim Taleb, autor do livro The black swan – the impact of the highly improbable.

Os primeiros oito minutos do vídeo são só apresentação dos debatedores e do ciclo de palestras. A parte boa começa em 8min00.

Pato/Cisne negro da crise

Pato/Cisne negro da crise

Ladeira a baixo

abril 24, 2009

Em 2000, no dia do tombo da Nasdaq, eu estava em frente a um terminal da Bloombeg, traduzindo notinhas para uma agência de notícias brasileira. Esse era o meu trabalho na época.

As primeiras notas sobre a crise tinham apenas o tamanho da queda (maior a cada nota) no índice da bolsa americana. Depois começamos a tentar entender o que estava acontecendo.

O repórter que me substituía em frente ao terminal chegou e me despedi dizendo que ia voltar para casa – se ainda houvesse casa.

Era estranho ver o tom de apocalipse nas notícias internacionais e não conseguir imaginar como aquilo poderia ter algum efeito sobre a vida dos mortais comuns aqui no Brasil.

E acabou não tendo. Foi a tal crise em V. As ações caíram, as ações subiram e todos viveram felizes até a crise seguinte.

Oito anos depois veio a crise seguinte. Ela veio mais de vagar: está crescendo há quase um ano. E não é em V.

Nessa crise, dá pra ver o que significa a queda na riqueza, o que acontece quando alguns milhões de pessoas descobrem que são menos ricas do que pensavam (elas passam a comprar menos). E dá pra ver como isso afeta a vida de agricultores no interior da África (o preço do que eles vendem cai).

A outra crise afetou pouco o consumo. A atual veio de uma bolha no preço dos imóveis (com imóveis comprados com empréstimos e a responsabilidade pelos empréstimos repassada a bancos mal administrados). O nó é maior e mais complicado.

Mas isso não é novidade. A notícia ruim da semana é que as previsões para o futuro continuam piorando. A última projeção do FMI foi bem abaixo das anteriores.

E a outra notícia ruim é que os políticos daqui – notadamente o presidente – reclamaram da previsão, em vez de assumir que a crise ainda vai longe.

Portal da crise - Museu D'Orsay

Portal da crise - Museu D'Orsay

Nada é menos confiável do que previsão de economista. Algumas cartomantes têm históricos melhores.

A Goldman Sachs, por exemplo, previu, há pouco mais de um ano, que o barril de petróleo poderia chegar a US$ 200. Feita a previsão, os preços começaram a cair e estão hoje em torno de US$ 50.

Esses erros de previsão têm efeitos colaterais curiosos. Graças a esse do petróleo, podemos ver Hugo Chaves mais manso, agora que o seu principal produto de exportação vale muito menos do que esperava.

Mas, se a previsão em si não vale muita coisa, a explicação sobre como foi feita talvez seja mais ou menos útil.

As taxas de câmbio, por exemplo, devem mudar. O dólar deve cair mais.

Por quê? Porque, apesar da crise, os EUA continuam com um déficit comercial respeitável (US$ 797,1 bilhões entre fevereiro de 2008 e janeiro de 2009), quer dizer, eles continuam importando mais do que exportam. Com isso, jogam mais dólares no mercado externo (quando importam) do que tiram de volta (quando exportam). A grande oferta de dólares contribui para derrubar seu preço, sua cotação em outras moedas.

A conta corrente – que inclui, além do comércio, a renda enviada e recebida de outros países – teve um rombo de US$ 673,3 bilhões em 12 meses, ou 3,3% do PIB americano. E os juros – de 0,5% ao ano – também não são muito atraentes para quem pensa em investir em títulos do governo americano.

Até agora quem fechava a conta externa dos EUA eram os investimentos estrangeiros (de China e Japão, principalmente), mas eles devem diminuir.

Mas duas coisas complicam as contas: a primeira é que União Européia e Reino Unido também têm déficits em conta corrente (1,0% e 1,7% do PIB respectivamente); a segunda é a valorização que o dólar teve desde o começo da crise  – o que, à primeira vista, não faz muito sentido.

Mas, olhando com mais calma, podemos imaginar que a valorização do dólar teve mais a ver com investidores vendendo o que tinham  (aqui, na Europa e na Inglaterra) para tapar rombos financeiros nos EUA.

Passado esse primeiro efeito, voltamos às tendências de longo prazo, quer dizer, à tendência de que o dólar caia em relação a outras moedas (ao real, inclusive).

Melhor para quem viaja e compra muamba, pior para quem investe nos Estados Unidos (ou exporta para lá).

Meditações sobre o câmbio

Zhou Xiaochuan, presidente do BC chinês: "Deveríamos substituir o dólar por alguma coisa melhor."

A velha tese de que quem não estuda a História a repete (como farsa) está começando a ficar grotesca.

Eu sei: o que acontece no Estado do Rio não atrai a atenção de toda a América Latina. Mas valia a pena pesquisar os precendentes antes de desistir do almoço.

A chamada de capa do site do Globo resume bem a notícia:

“Evo Morales começa greve de fome para ter direito à reeleição”

Fome de poder - México - Museu de Antropologia - 2009

Fome de poder - México - Museu de Antropologia - 2009