Jornalismo profissional

fevereiro 23, 2014

Quando se soube da morte do cinegrafista Santiago Andrade, uma luz se acendeu em algumas redações do país. Era a oportunidade de transformar um ato imbecil numa borracha capaz de apagar tudo o que se tinha feito de mau jornalismo na cobertura da onda de protestos populares iniciada em junho de 2013. Não eram, afinal, os chefes que impunham editorializações fantásticas; eram as bestas-feras radicais, agora devidamente individualizadas, que exigiam uma resposta à altura em nome da democracia.

Daí aos editoriais com linhas argumentativas tortuosas e até um chapéu, no Globo, que classificava o lançamento do rojão como “atentado à liberdade de imprensa” foi só um duplo twist carpado lógico. Com a análise do discurso hoje reduzida ao dualismo dos blogs petralhas e da imprensa golpista, Bonner pôde aparecer consternado na TV para denunciar “algo mais que a pura irracionalidade” e garantir aos milhões de Homers da audiência que “o jornalismo profissional vai estar lá sem tomar posição a favor de lado nenhum“.

Então, com o jornalismo profissional devidamente intimado a proteger a sociedade, resolveram fazer outro protesto neste sábado, em São Paulo. E o habitual roteiro de confronto e quebra quebra acabou com… cinco jornalistas presos e três agredidos.

Pela polícia.

No início da noite, nas páginas principais dos três maiores jornais do país, não havia menção a jornalistas feridos ou detidos. Nas edições impressas deste domingo, só o Estadão considerou a manifestação, atuação da polícia inclusa, relevante o suficiente para alçá-lo à manchete. A Folha e o Globo – aquele que, em editorial publicado há dez dias, expunha os “inimigos da democracia” – deram chamadas de capa, para dizer o mínimo, discretas.

Tudo, assim, muito profissional.

jornais

É um pouco estranho ver os mal-treinados funcionários da CET-Rio gritarem com os pedestres para que saiam logo da faixa de pedestres. Vi a cena agora há pouco. Fui um dos corridos da faixa:

“O sinal está aberto!!!!”, gritou o sujeito de colete ao lado do meu ouvido.

“É a faixa de pedestres!!!”, devia ter gritado de volta.

Os sinais com tempo insuficiente para os pedestres passarem são só um dos muitos “ajustes” feitos pela prefeitura para tentar diminuir os engarrafamentos causados… pela prefeitura.

O gasto de tempo – e esforço – dos cariocas para tentar chegar ao trabalho (e voltar para casa) não entrou na conta do tal Porto Maravilha.

Acho que quase nada entrou. Como o atual prefeito não se cansa de repetir: é um projeto privado. E é isso mesmo: milhões de pessoas estão sendo prejudicadas para que um grupo de empreiteiras possa fazer mais um grande lançamento imobiliário: o Porto Maravilha.

Vários prédios comerciais novos serão vendidos (não serão baratos) em uma área que a prefeitura está revitalizando para tornar mais cara. O benefício, é claro, é dos donos de terrenos, construtoras, incorporadoras e imobiliárias.

Se alguém de fora quiser usufruir dessa beleza sem Elevado da Perimetral na frente, que pague o preço de um escritório em área recém-urbanizada.

Quem fica engarrafado hoje no Rio tem a sensação de que a cidade está se tornando inviável. Mas o pior é pensar que ela está ficando assim por conta de decretos da prefeitura – e que os beneficiários dos decretos…

Canary Warf, Londres, tudo que o porto maravilha não vai ser (e construído sem atormentar o trânsito inglês).

Canary Wharf, Londres, tudo que o porto maravilha não vai ser (construído sem  dar nó no trânsito inglês).

O carioca desidratado 2

fevereiro 16, 2014

Os habitantes do Rio de Janeiro se sentem cada dia mais desamparados. O prefeito da cidade demole as vias expressas e diz – como se não tivesse nada a ver com a história – que a cidade vai ficar intransitável. A sensação de violência (assaltos etc.) aumenta e o secretário de segurança aparece dizendo que quer proibir o uso de máscaras (no Carnaval). A ideia é reprimir qualquer coisa com caráter político. Para os crimes de sempre (que nunca contaram com máscaras) fica tudo como sempre.

Com o Carnaval, mais ruas serão fechadas – além da Avenida Rio Branco (proibida a partir de amanhã para os carros de passeio, por ordem do prefeito).

O carioca também não tem mais jornais (bom, ainda há O Dia). A imprensa – que já foi um dos orgulhos da cidade – praticamente não existe mais. Vemos só propaganda anti-protestos, pendurada todos os dias nas bancas de jornal.

Como se não faltasse mais nada, falta pasto para nós, pobres eleitores cariocas. A falta de chuva secou o mato e a grama da cidade e não temos mais nem a alternativa de pastar. É grave a crise.

Aterro do Flamengo: cartão postal amarelado.

Aterro do Flamengo: cartão postal amarelado.

Uma democracia é um regime em que é possível mudar o grupo no poder sem revoluções ou golpes de estado. Países em que o mesmo partido fica décadas no poder não devem ser chamados de democracia.

Quando não há alternância, isso não quer dizer que o governo é bom, quer dizer que o sistema degenerou. Quando não há alternância, é porque os gastos do governo com propaganda cresceram, porque os acordos com caciques locais foram reforçados com dinheiro público, porque as nomeações políticas foram ampliadas e toda (ou boa parte da) máquina pública trabalha para manter o governante no poder.

Nesses casos, a quantidade de políticos em funções técnicas aumenta – e esse é um dos piores efeitos do vale-tudo-para-ficar-no-palácio. Em geral, quanto maior a distância até o político mais próximo, melhor um órgão público funciona. Ou, visto pelo outro lado: quanto maior a ingerência política sobre um órgão técnico, pior a alocação de recursos, pior a qualidade das decisões e maior a revolta e o desânimo dos seus funcionários.

O uso da administração pública pelo governo (pelo grupo que está no poder) para ficar no poder piora a qualidade dos serviços públicos. E isso não tem cor partidária. As pessoas estão tão cansadas de Geraldo Alckmin quanto de Dilma Rousseff. Os dois deviam ser mandados para casa na próxima eleição.

Dilma é um caso clássico de político se impondo aos técnicos (aos gritos). O setor de energia – que ela comanda, em um cargo ou outro, há mais de 11 anos – é um dos que mais sofreu intervenções políticas na era PT. O resultado? Queda na produção de petróleo, importação de combustível acima do preço de venda da Petrobrás e mudança de regras no setor elétrico (e no de petróleo), com risco crescente de falta de energia.

Alckmin, que começou como herdeiro auto-declarado de Mário Covas, hoje lembra mais um Fleury FIlho (que defendia a atuação da polícia no massacre do Carandiru). Ver Alckmin na TV é esperar por um convicto “eu prendo e arrebento” à João Batista – e isso não tem como ser bom.

Ficar tempo demais no poder é ruim para o próprio governante. O poder corrompe das formas mais estranhas.

Sem alternância no poder não há democracia. Que venha logo a alternância, então.

Versailles, o palácio favorito de Sérgio Cabral.

Versailles, o palácio favorito de Sérgio Cabral.

Pequenos protestos 2

fevereiro 6, 2014

A mascara de Guy Fawkes não está mais na vitrine da Saraiva, no Edifício Avenida Central. Alguém deve ter comprado a revistinha cara (R$ 79,21) que vinha com o V de Vingança anexo.

Mas o responsável pela vitrine não bobeou. Agora, quem passa por lá pode ver uma boa edição de Walden e Desobediência Civil, os dois clássicos de Henry David Thoreau em um volume só, na vitrine.

E, melhor, se a mascara com revistinha era cara, o clássico anarquista americano – no original em inglês – sai por R$ 24,90: até um professor de inglês de escola estadual pode comprar.

O pequeno protesto é duas vezes bom: além de lembrar que simplesmente não fazer o que o Estado manda é uma das formas mais eficientes de revolta, a vitrine ainda nos lembra que livro brasileiro é caro e que comprar o importado ajuda a enfraquecer o oligopólio das editoras tupiniquins.

Mas, sim, é só para quem fala inglês.

Se o perfil dos manifestantes for mesmo o de estudantes de faculdade – como o prefeito do Rio aposta – a Saraiva pode ter mirado bem dessa vez.

PS.: Para quem não está no Rio: ao anunciar o aumento das passagens de ônibus para o próximo dia 8, o prefeito estendeu a gratuidade dos aposentados para os estudantes de faculdade – achando que assim ia estancar as revoltas e protestos contra o aumento. Ideia tosca: os universitários lêem Thoreau. Eu mesmo só não vou lá comprar uma cópia porque já tenho uma.

Thoreau, com leitores  desde 1854.

Thoreau, com leitores desde 1854.

Como cooptar a polícia

fevereiro 1, 2014

A manchete do jornal O Dia de hoje é clara:

PMs e bombeiros têm aumento acima de 10%

Nada contra pagar salários melhores para a polícia mas, depois da avara negociação com os professores estaduais, dar um aumento duas vezes maior que a inflação do período para 112 mil policiais ativos e inativos, agentes penitenciários e bombeiros soa um pouco estranho.

O aumento foi anunciado pessoalmente pelo governador Sergio Cabral durante uma cerimônia de formatura de inspetores da polícia civil, ano passado – e confirmado ontem pela secretaria de planejamento do Estado do Rio de Janeiro.

A impressão que fica em quem está de fora é que, com o protesto contra o aumento (de quase 10%) das passagens de ônibus marcado para o próximo dia 13, o governador quer garantir o apoio (entusiasmado) da polícia na repressão aos manifestantes.

O aumento só sairá no contracheque em março, mas os policiais já sabem que o governador Cabral lhes deu aumento acima da inflação e vão bater com mais força em quem o xingar – principalmente se for um professor estadual com reajuste baixo.

Depois do desconto no IPVA para empresas de ônibus e do aumento preventivo para os militares do estado, as prioridades – e os métodos – do governo ficaram ainda mais claros.

Policiais espanhóis - bem pagos - prendem a Hello Kitty por criticar o governo.

Policiais espanhóis – bem pagos – prendem a Hello Kitty por criticar o governo.