Desculpem por começar com uma citação, mas é uma citação importante:

“(…) políticas orientadas para o crescimento não eram mais apoiadas por uma alta poupança doméstica como no meio dos anos 70. (…) a poupança doméstica como proporção do PIB, que tinha sido em média de 24,4% entre 1970 e 1973 e de 24,2% entre 1974 e 1978, caiu para 18,1% em 1979 e para 16,4% em 1982. Resumindo: a poupança externa, antes usada financiar investimento adicional, estava agora sendo usada para promover o aumento do consumo” Simonsen, M.H., Brazil: international trade and economic growth, página 22, Editora FGV 1986, tradução minha.

Esse trecho foi escrito por Simonsen em um artigo sobre como nossa economia afundou nos anos 70 e 80. Me lembrei dele hoje cedo, lendo uma análise praticamente igual, feita por Affonso Celso Pastore, sobre a economia do Brasil hoje. Até os números são parecidos.

Pastore analisa a relação entre poupança e investimento e lembra que a entrada líquida de importados (importações menos exportações) é financiada por entrada de capital de fora, quer dizer: se a gente importa mais do que exporta, usa a poupança dos outros países. Essa poupança vem para o Brasil como empréstimo e como investimento e paga nosso saldo de importações.

Essas importações a mais podem ser de máquinas, equipamentos e afins (investimento) ou podem ser só para consumirmos. A análise que Pastore faz das séries de dados mais recentes mostra que o que financiamos é, cada vez mais, consumo. Nenhuma surpresa, afinal, as políticas do governo são para estimular consumo.

A conta é um pouco mais complicada, porque é preciso descontar os pagamentos por serviços, juros, e remessas de moradores de outros países. É o saldo depois dessa conta que está no vermelho: é a conta corrente. É ela que é financiada pela poupança externa.

De qualquer forma, consumo e investimento são despesas. Eles competem como usos possíveis para os recursos que temos. A política de estímulo ao consumo de hoje tira, então, recursos dos investimentos. Ter um déficit com o exterior quando se usa essa poupança externa para investir – e gerar recursos para pagar a conta – é diferente de ter déficit externo para consumir – e ficar devendo.

O pior é pensar que estamos repetindo o erro, que já fizemos isso antes, que vamos continuar investindo pouco porque, apesar dos anúncios histriônicos, a política pública não favorece o investimento: pelo contrário, faz com que se consuma em vez de investir.

Pior ainda é pensar, como afirma Pastore, que o governo não vai tentar mudar essa política. No curto prazo, uma mudança teria custo, seria preciso reduzir o consumo, reduzir a sensação geral de bem estar que temos quando vivemos (sem nos dar conta)  acima dos nossos recursos. Com as eleições a pouco mais de um ano e meio de distância, o governo não vai fazer o ajuste.

Quer dizer: insistiremos na política errada, mesmo sabendo disso, e colheremos resultados ruins no longo prazo (baixo crescimento + demanda alta = inflação).

É estranho acompanhar a implantação de uma política cujo obituário já foi escrito. Ainda mais estranho quando pensamos que esse obituário já aparece em um texto dos anos 80.

Hora de pôr as barbas de molho.

Hora de pôr as barbas de molho.

Mesmo.

Mesmo.

Independentemente da escola de economia preferia pelo barbudo.

Independentemente da escola de economia preferida ou da afiliação partidária do barbudo.

O título do UOL cairia bem numa matéria do Piauí Herald: “Renault Sandero e Logan têm segurança reforçada na linha 2013”. Isso porque só como piada é possível levar a sério a exaltação à inclusão de air bags frontais e freios ABS como itens de série dos dois modelos. A matéria até tenta ser sincera, no segundo parágrafo, ao lembrar que os equipamentos serão obrigatórios em todo veículo novo a partir de 2014. Mas não sem antes dizer, logo no início, que os carros terão “recheio mais generoso na linha 2013/2013″.

Generoso mesmo é o tratamento que a imprensa em geral, e a especializada com mais empenho, dá à indústria automobilística.

Uma das regras não escritas das redações – destacar o Custo Brasil e ocultar o Lucro Brasil ao abordar os altos preços dos automóveis no país – já foi exposta pela insistência dos fatos. Mas outra, talvez mais grave por envolver segurança, permanece bem cuidada por jornalistas ciosos, capazes de produzir títulos como o do UOL.

Dizer que os dois modelos “têm segurança reforçada na linha 2013” equivale a afirmar que a indústria automobilística vai cumprir a lei – o que, embora se revele de certa forma inusitado, não parece ser exatamente o intuito da matéria.

No quesito segurança, talvez fosse de maior interesse jornalístico mencionar que os air bags frontais (para motorista e carona) passaram a ser exigidos nos Estados Unidos na década de 1980 e se tornaram obrigatórios em todos os veículos produzidos por lá em 1998, ou seja, há 15 anos. E que, na Europa, embora não haja imposição legal direta, todos os veículos novos têm air bags.

Aqui, depois de anos de lobby da indústria, a obrigação só passou em 2009, com a Lei 11.910, mesmo assim mediante um paciente calendário de implantação que só termina em 2014, instituído pela Resolução 311 do Contran. Nos termos da Resolução 312, o prazo é o mesmo para o sistema de frenagem ABS, obrigatório na Europa desde 2007.

Se esses dados não forem suficientes para evidenciar a preocupação da indústria automobilística nacional (e do governo) com a segurança dos carros vendidos no país, basta reparar na lista dos zero quilômetro mais vendidos nos últimos anos, em que se destaca um curioso espécime chamado Classic. Este fenômeno de longevidade, já vendido como Corsa Sedan e Corsa Classic, usa o mesmo projeto básico do Corsa… lançado em 1994.

Quanto valeria uma matéria?

Futurologia fácil

março 22, 2013

A incerteza sobre o futuro tem sido a principal explicação para o baixo investimento e para a lentidão da economia.

Mas a incerteza está diminuindo – e já é possível traçar um quadro mais nítido sobre como será 2014. Já dá até para ter uma ideia do que será 2015.

E eles serão ruins, muito ruins.

Se a incerteza deixa um resto de esperança, o improviso de políticas erradas acaba até com isso.

É sempre difícil prever o futuro. Milhares de coisas e pessoas interagem dos jeitos mais diferentes para chegar a resultados realmente imprevisíveis.

Mas não é tão difícil assim prever que, se fizermos tudo errado, as coisas não vão acabar bem.

Cortar imposto e aumentar o gasto público estimula a demanda, aumenta a inflação: é o que os economistas chamam de política fiscal expansionista.

Manter os juros reais mais baixos da história do país estimula a inflação – em economês: política monetária expansionista.

Aumentar a oferta de crédito via bancos públicos aumenta a inflação – em economês: mais política monetária.

Tentar segurar aumentos de preço com jeitinhos (tipo adiar aumentos de tarifa de ônibus e isentar a produtores de alimentos do PIS) não afeta a inflação. Em economês: é um delírio completo.

A conclusão de que a inflação vai subir não é nenhum primor de futurologia: é só a consequência natural de fazer tudo errado.

Com inflação em alta em ano eleitoral e um governo que gosta de improvisar, podemos esperar um 2014 com várias respostas erradas aos problemas – do tipo que têm efeitos colaterais bizarros.

Em suma: passamos da incerteza para a certeza da crise. Se tivessem mudado o ministro na época em que a Economist pediu, podíamos, pelo menos, ter continuado com a incerteza…

Excesso de maquiagem?

Excesso de maquiagem?

Cortar impostos dos produtos da cesta básica é uma boa ideia. Mas fazer isso quando a demanda está aquecida (consumo crescendo) e a oferta não acompanha é desperdiçar as boas intenções.

O saldo de cortar imposto em época de demanda forte é dar mais dinheiro para os produtores – que vão embolsar o imposto e manter os preços em alta. Se o objetivo do governo era conter a disparada da inflação, a data do corte de impostos foi mal escolhida.

Sim, o governo está reagindo ao anúncio do IPCA – que foi de 0,6% em um fevereiro com carnaval (poucos dias úteis). O governo, para não subir juros ou deixar o dólar cair, apelou para um corte de impostos que beira o contraproducente – em termos de redução de preços.

Ao mesmo tempo, Dilma, Mantega e seus amigos dão mais um empurrão para cima na inflação. Cortar imposto é política fiscal, é quase como aumentar o gasto público. Sim, porque o governo corta sua receita sem cortar seus gastos, quer dizer, aumenta o déficit público (o que estimula a demanda, que pressiona os preços – para cima).

A impressão, para variar, é que a equipe econômica do governo simplesmente não tem um plano. Eles reagem a cada anúncio da inflação, a cada crescimento abaixo do esperado na economia. Sem necessariamente muita coerência entre as reações…

Doces - sem isenção de PIS e Cofins (pelo menos por enquanto).

Doces – sem isenção de PIS e Cofins (pelo menos por enquanto).

“Se o PIB é um retrato do Brasil, o mercado de trabalho é um bom retrato do brasileiro. A conclusão é que os brasileiros estão melhor que o Brasil”.

Não. A frase acima não é do general Médici. A dele é “O Brasil vai bem, mas os brasileiros vão mal”. A frase acima é do atual presidente do IPEA, Marcelo Neri.

Neri – que parece ter herdado da presidente Dilma o gosto pelos anos 70 – produziu a frase pelo mesmo motivo de Médici: para pôr panos quentes depois da divulgação de um resultado ruim. No caso de Médici, o resultado ruim eram os dados da PNAD, que deixavam claro que os brasileiros não viviam bem. No caso de Neri, a frase tenta pôr panos quentes sobre os dados do PIB, divulgados na última sexta-feira.

Se a frase do general-presidente não fazia o menor sentido, a do presidente do IPEA não é muito melhor. Se os brasileiros vão mal, o Brasil não vai bem. Se a economia quase não cresce, o crescimento dos salários e do emprego – apontado por Neri – terá muita dificuldade em se sustentar.

O problema é que os salários não têm como crescer mais que a geração de renda da economia (PIB) por muito tempo. Quando isso acontece, a parte da renda que fica com as empresas depois de pagar os salários diminui e elas começam a pensar dez vezes antes de investir (como está acontecendo agora). Com pouco investimento, a produção não cresce. Com mais salários a demanda sobre. O efeito combinado dessas duas coisas (menos oferta e mais demanda) é nossa velha conhecida: a inflação, que também vem dando sinais de alta.

Fazer slogans é divertido. “Os brasileiros estão melhor que o Brasil” parece um bom slogan. Mas o IPEA paga bem a uma grande quantidade de economistas para produzirem análise econômica, não slogans publicitários.

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