A carta do povo

novembro 28, 2010

Quando o Jornal Nacional encerra a edição com uma carta de “uma moradora da Vila Cruzeiro” agradecendo aos “nossos guerreiros, nossos heróis, que vieram nos libertar”, a provar que o recurso da força tem o aplauso também dos excluídos, dá para saber que a violência no Rio de Janeiro não vai acabar tão cedo.

Crer que autoridade é solução para criminalidade é como acreditar que congelamento de preço acaba com inflação; que operação tapa-buraco melhora infra-estrutura de transportes; que aprovação automática evita analfabetismo funcional.

É como engolir a carta de “uma das milhares de pessoas que transitam entre tiros pelas ruas do Complexo do Alemão” como uma demonstração de que os grandes veículos de comunicação estão ansiosos por ouvir a voz – e os interesses – da miséria que subsiste no país.

Não se trata de demonizar a mídia, de relativizar a violência, de culpar as elites ou de repetir qualquer outro lugar-comum usado para ridicularizar toda tentativa de se mostrar o óbvio: que o Rio de Janeiro e o Brasil não têm só um problema de violência.

Exclusão, desigualdade, preconceito, segregação, corrupção, impunidade, injustiça, ignorância, covardia – como todo mundo “já cansou de ouvir” – não nascem da violência física. O nexo, se existe, é justamente outro.

Talvez, se a moradora da Vila Cruzeiro mandar uma carta, o Jornal Nacional um dia também fale desse assunto.

Enquanto isso, ficamos com nossa programação normal.

O problema, como se vê, é só a violência.

Sinais de crise

novembro 25, 2010

É sempre chato dizer, em retrospecto, que em 2007 os sinais da crise já estavam lá. Mas estavam. A foto aí embaixo é de novembro daquele ano. Ela foi tirada em Dublin, numa rua menos movimentada do centro. Para dar um ar mais dramático para a cena, deixo junto o link para a trilha sonora apropriada – So cold in Ireland, com direito a efeitos de voz fantasmagóricos de Dolores O’Riordan.

O anúncio dos últimos dias

Além da peça no cartaz, os preços de tudo assustavam e os cartazes de “aluga-se” – em janelas de prédios de escritório – já indicavam que a bolha imobiliária estava começando a murchar.

Foi em Dublin que comprei a sacolinha plástica mais cara da minha vida, para embalar as garrafas de água mineral que comprei num mercado. Não era ecologicamente correto, era fixar preços em um nível irreal.

Como a moeda lá é o euro – e agora eles vão encarar cortes de salário e demissões – vale a pena olhar para os índices de preço, para ver quanto chegam perto da deflação.

(Fui procurar nos quadros da Economist o índice de preços ao consumidor da Irlanda, mas eles não o publicam: publicam o IPCA da Suécia, o de Cinagapura, o da Bélgica, mas não o da Irlanda. Os ingleses da revista, por alguma razão, não põem na tabela os indicadores do país vizinho. Na matéria da semana passada sobre a crise irlandesa, eles também não falam de índices de preço, falam  só do prêmio de risco.)

PS. No site da Economist há a versão completa dos indicadores. E, sim, os preços cairam na Irlanda este ano, – 1,1% no acumulado de 2010. Os números estão no pé da página do site, na parte de “Dados não fornecidos na versão impressa”. Os dados de Portugal também estão na parte desprestigiada da tabela.

Quando o que se acha que vai acontecer começa a ficar muito parecido com o que se quer que aconteça é porque nossa previsão de futuro está errada. Alguns dos melhores economistas do país achavam que Henrique Meirelles ia continuar na presidência do BC no próximo governo. Achava porque… porque isso seria bom.

Mas esperar que o mesmo governo que confirmou Guido Mantega para a Fazenda mantivesse o presidente do BC porque isso seria bom para a economia já cai na categoria do que os anglófonos chamam de wishful thinking, já é mais torcida que previsão.

A previsão – agora que Meireles não vai mesmo ficar – é de alta da inflação. Se o futuro governo não garante a autonomia do Banco Central e nomeia para a Fazenda um defensor de subsídios, gastos altos e juros baixos, a única coisa a esperar – para desgraça geral – é a volta do dragão (e o aumento da dívida pública e a queda na produtividade da economia).

Da série "primeiras medidas do novo governo": demitir o amansador de dragões.

Sapo

novembro 19, 2010

“Agora, com Cristina, acho que as coisas vão mudar.”

Ouvi essa frase de uma funcionária do Indec, o IBGE argentino, pouco depois da eleição de Cristina Kirshner para suceder seu marido na presidência. Na época, achei um delírio. Era preciso ter muita vontade de acreditar para achar que Cristina mudaria a política de maquiagem de dados adotada no governo que ela continuaria.

Na Argentina, pelo jeito, tudo é possível. O que acho estranho é a mesma coisa acontecer com o Brasil.

Bons analistas discutiram por algum tempo a chance de Dilma indicar um nome razoável para o Ministério da Fazenda, alguém capaz de mudar a política de maquiagem do superavit primário e de descontrole fiscal adotada por Guio Mantega nos últimos dois anos.

Bom, Dilma convidou Mantega para continuar no cargo e já começa a discussão sobre a autonomia do Banco Central para fixar os juros num nível que mantenha a inflação sob controle. Mantega – é bom lembrar – está entre os que, mesmo fazendo parte do governo, reclamava das taxas de juros fixadas pelo BC.

Um dos bons professores que tive na faculdade costumava explicar como boa parte dos investidores perde seu dinheiro no mercado de ações. Eles são como um sapo. Atirado sobre uma panela de água fervendo, o sapo sequer encosta na água: ele se contorce, esquiva, estica mais as patas e passa longe da fervura.  Nunca fiz a experiência, mas confio na metáfora do professor.

Bom, o problema é quando se põe o sapo na panela com a água fria e se acende um fogo bem fraco em baixo. A água vai ficando quentinha, o sapo relaxa, pensa no mar do nordeste e aproveita o bom banho quente. Depois, a água começa a ficar um pouco desconfortável – mas não muito – e, quando se dá conta, o sapo já não consegue sair de lá.

A má política fiscal do governo Lula começou com a desculpa de que era uma política contra-cíclica para combater a crise, em 2009. A crise no Brasil passou: a expectativa é de qua a economia cresça mais de 7% este ano. Mas o déficit nas contas do governo continua aumentando. Essa política segue (impune) porque há um grande fluxo de dinheiro externo vindo para o Brasil por conta da crise nos EUA e na Europa.

É esse fluxo de dinheiro que permite que o governo faça lambanças sem sentir as consequências no curto prazo.

Mas a conta sempre chega – e poucos vão ter perna para sair da panela quando ela chegar.

Uma das coisas para ficar de olho é a inflação. Outra, o crescimento da dívida bruta do pais. A terceira, mais difícil de medir, é a queda da produtividade da economia. Ela é um dos efeitos de se pegar centenas de bilhões de reais emprestados no mercado e repassar, via BNDES, a empresas amigas.

Essas políticas foram defendidas – com entusiasmo – pelo atual ministro da Fazenda. É bastante improvável que mudem se ele continuar no cargo.

(Já posso imaginar Mantega, em um Momento Zagalo, gritando para a esplanada: “Ha, ha, ha! Vão ter que me engolir!”)

Governo Dilma: já começando a nos cozinhar.

Quando a multidão sabe mais

novembro 13, 2010

Pode acontecer com qualquer um, mas acontece mais com escritores celebrados e economistas que ganharam o prêmio Nobel: depois de acertar várias vezes, o sujeito começa a ficar confiante e a questionar pouco as próprias idéias. O resultado são textos como este, de Paul Krugman, em que ele – no fundo – quer ensinar às multidões como se comportar.

Segundo Kugman, “o fato é, simplesmente, que há um excesso na oferta mundial de poupança, coisa que está prejudicando muito os trabalhadores. A conduta responsável seria fazer algo a respeito desta situação”. Para ele, o problema da crise é que pessoas e empresas estão poupando demais. O governo então deveria estimular as famílias a consumir em vez de poupar. Isso estimularia a produção e reanimaria a economia.

Mas o problema é exatamente o contrário (como é bom discordar de um ganhador no Nobel!) o problema – especialmente nos EUA – é que, há muito tempo, as pessoas estão poupando de menos. A poupança das famílias chegou a ser negativa em alguns anos. Confiando em preços inflados para imóveis e ações, os americanos passaram os últimos anos consumindo mais do que sua renda permite. Quando a bolha estourou, eles viram que eram mais pobres do que pensavam. Aos poucos, eles estão voltando a poupar, para garantir suas aposentadorias, o pagamento da faculdade dos filhos ou o que mais pretendam fazer no futuro.

Dizer que eles estão errados é, pelo menos, arrogante. Dizer que devem ser estimulados a consumir é, no máximo, uma recomendação de curto prazo – para suavizar o efeito da mudança de ambiente de consumo desenfreado para consumo normal. O nível de consumo que os EUA tiveram no governo Bush não era sustentável. Qualquer família com financiamento imobiliário e dívida no cartão de crédito pode te dizer isso.

Para a economia se ajustar, eles vão ter que passar por uma espécie de purgatório econômico, um período em que as dívidas das famílias vão sendo pagas, os ex-funcionários da construção civil e do mercado financeiro vão aprendendo outros trabalhos e o governo vai investindo em obras que aumentem a eficiência da economia.

Investimento também é demanda, ajuda a aquecer a economia. A diferença é que ele gera renda no futuro. O que as famílias dos EUA querem é trocar renda hoje por renda no futuro – esse é o objetivo de poupar. Se houver investimento, elas conseguirão fazer isso. Se o governo ficar só pensando em estimular o consumo no curtíssimo prazo, a economia continuará patinado, eles continuarão tentando convencer a multidão de que ela está errada quando, pelo menos nesse caso, ela está com toda a razão.

A consultoria Patinhas recomenda: "Poupem mais!"