O arsenal da Fazenda

janeiro 31, 2016

No início do ano, o mercado reagiu com ceticismo aos discursos ortodoxos do novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Mas Barbosa ainda poderia usar medidas concretas para convencer empresários e investidores de que não adotaria o mesmo tipo de política que implementou no início do primeiro governo Dilma, quando era secretário de Política Econômica.

As medidas concretas, no entanto, foram na direção contrária.

Em menos de um mês, a nova gestão da Fazenda já tem um Banco Central completamente desmoralizado (o banco tinha recuperado parte de sua credibilidade no período de Joaquim Levy na Fazenda). A falta de credibilidade diminui o poder do BC para administrar expectativas e conter a inflação. A sinalização ruim indica que os gestores da política econômica não estão apavorados com a alta dos preços (e eles deveriam).

Esta semana, a Fazenda anunciou que despejará R$ 83 bilhões a juros baixos (TJLP) no mercado – o que também é inflacionário. Enquanto o Banco Central retira moeda da economia com os juros altos, a Fazenda a devolve com taxas mais baixas.

A heterodoxia é tanta que, entre as linhas de crédito do BNDES anunciadas, há uma para financiar capital de giro. Não dá nem para dizer que estão financiando investimento de longo prazo. Mais uma vez, o banco dará dinheiro a empresários a taxas de 6,25% ao ano (nominais) para que eles apliquem esse dinheiro a 14,25% (que é quando o governo paga quando pede emprestado). Mais uma vez, juros abaixo da inflação. Mais uma vez, a preferência por atender a demandas de curto prazo – em detrimento do controle da inflação no longo.

Se for por aí, o governo conseguirá – de novo – fazer os analistas de mercado parecerem otimistas ingênuos. As projeções de inflação para 2016 já estão acima de 7%. Mas, com mais medidas heterodoxas (e com a indexação generalizada que existe no Brasil), o governo pode conseguir resultados ainda piores.

Conseguiremos ter inflação acima do teto da meta e recessão (de novo), como em 2015.

É isso que o governo tem para oferecer? É essa a ortodoxia que prometeu?

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Enquanto a política monetária tenta enxugar a economia, os heterodoxos adotam o chfariz de liquidez.

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Cidade de fachada

janeiro 24, 2016

No início do século XX, quando pôs abaixo centenas de casas para construiu “um boulevard com a mesma largura dos de Paris”, o então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, despejou milhares de pessoas. Para coroar sua obra, ele fez um concurso de fachadas, garantindo que a nova Avenida Central fosse vistosa.

Hoje, como no início do século passado, mosquitos assolam os habitantes da cidade – mas suas fachadas estão lindas. A prefeitura intima os moradores a pinta-las (e diminui impostos se pintarem com duas cores, destacando os arabescos do projeto original).

Lembrei de Pereira Passos ontem, andando pelas ruas do Rio e vendo as belas casas e prédios pintados e cheios de placas de “vendo” e “alugo”. São belas casas vazias, algumas com goteiras e mofo por dentro – mas (quase) todas devidamente pintadas por fora.

Das fachadas originais da Av. Rio Branco sobraram poucas. Da própria Rio Branco original sobrou pouco. Já remodelaram a rua para tirar os bondes e agora a estão quebrando de novo para reinstalar os bondes. As empreiteiras responsáveis pela obra agradecem.

É muito estranho passar pela Sete de Setembro e ver os trilhos do bonde antigo aparecendo no solo recém escavado. Depois de anos enferrujando sob o asfalto, eles serão finalmente arrancados, para dar lugar aos novos trilhos.

Os trilhos mudam, as fachadas são repintadas, as doenças transmitidas por mosquitos ressurgem, os despejos de moradores na Zona Oeste são rotina, a dificuldade em morar perto do trabalho a preços decentes persiste e os serviços públicos (principalmente a saúde pública) continuam lastimáveis.

Enquanto a grande preocupação do governo for a fachada, não se deve esperar nada muito diferente.

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Fachada em país rico – mais bonita que as daqui.

A arrogância e a ignorância têm um papel central na história das depressões econômicas. Quem mostra isso de um jeito muto claro é o economista Liaquat Ahamed, em seu livro Lords of finance – the bankers who broke the world.

No livro, Ahamed traça o perfil e acompanha as decisões dos presidentes dos bancos centrais de Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha de 1914 a 1944. Como aula de história do pensamento econômico, o livro é impressionante. O que ele deixa claro é que os presidentes dos maiores Bancos Centrais do mundo não tinham a mais vaga ideia do que estava acontecendo na economia e tomaram decisões capazes de transformar uma crise econômica na Grande Depressão.

Os economistas aprendem isso nas aulas de história, mas o livro – por ter uma pesquisa detalhada e ser muito bem escrito – ressuscita personagens como o pomposo Montagu Norman, presidente do Banco da Inglaterra na época. O ápice da arrogância misturada com desconhecimento ficou registrado na frase do Secretário do Tesouro dos EUA, Andrew Mellon. Mellon recomendou deixar os bancos e empresas quebrarem como solução para a crise:  “liquidate labor, liquidate stocks, liquidate farmers, liquidate real estate… it will purge the rottenness out of the system”. Mas o livro de Ahmad deixa claro que Mellon não estava sozinho: a falta de humildade para lidar com a crise era muito disseminada entre os governos e bancos centrais na época.

Naquele tempo, os economistas se consolavam dizendo que, no longo prazo, os preços de insumos e salários se ajustariam (cairiam) e isso estimularia a produção. No longo prazo, a economia voltaria a funcionar.

O economista inglês John Maynard Keynes – talvez o primeiro a entender o que aconteceu nos anos 30 – respondeu a isso com sua frase famosa: “No longo prazo, estaremos todos mortos”.

O problema é que a frase – no Brasil pelo menos – foi apropriada por lobistas, que a usam para defender políticas que produzem pequenos ganhos de curto prazo e tragédias em prazos um pouco maiores.

A inflação alta de hoje tem a ver com essa política de esquecer o longo prazo para não ter juros altos no curto. A crise fiscal tem a ver com a politica de gastar mais no curto prazo e torcer para ter aumento de arrecadação no longo. O baixo crescimento da economia tem a ver com a política de não fazer reformas estruturais no curto prazo – e torcer para a casa não cair no longo.

O longo prazo, segundo os manuais de macroeconomia, é quando todos os fatores de produção se ajustam. Em bom português: o prazo longo é aquele em que dá para construir fábricas, estradas e hidroelétricas, dá para a oferta se ajustar às mudanças na economia. No curto prazo, só a demanda muda.

Devia ser óbvio que não dá para administrar a economia olhando só para o curto prazo, só para a demanda.

Mesmo políticos que vivem em função do calendário eleitoral costumavam pensar nisso (e fazer ajustes no primeiro ano de governo, para tentar chegar melhor ao último).

Mas a arrogância das escolas econômicas ultra-curtoprazistas aqui do Brasil parece levar seus representantes a manter a cabeça no curto prazo até em início de governo.

O resultado será depressão econômica e – por que não? – depressão psicológica também.

Os autores da política, isolados em seus gabinetes, não sentirão os efeitos da crise. Muita gente não sente. Os bares do Leblon têm fila nos sábados a noite. A crise é desigual. Quem tem boas aplicações em títulos públicos não muda seu padrão de vida. Quem tem emprego, vê a renda real cair (por causa da inflação alta). E quem perde o emprego sofre com a falta de renda e de perspectiva.

A crise vai durar porque, para o governo atual, o longo prazo não existe.

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Para ler durante a crise.

Desde 2011, quando assumiu seu primeiro mandato, a presidente Rousseff foi bem sucedida em pelo menos uma coisa: enganar analistas de mercado.

Todos os meses, analistas de bancos e consultorias enviam suas projeções sobre inflação, PIB e outros indicadores para o Banco Central – que as reúne em um relatório chamado Focus.

Para a inflação e o PIB, pelo menos, (não vi os outros) as previsões foram revisadas para pior em todos os anos. Quer dizer: ou o mercado foi sistematicamente otimista em suas previsões inciais (um erro para qualquer analista com algum amor próprio), ou Dilma os enganou com novas surpresas negativas a cada mês.

Olhando para as medidas adotadas pelo governo nos últimos cinco anos – e para seus resultados – dá para ver que a segunda hipótese é a mais provável: os analistas não conseguiram acompanhar o ritmo de piora na gestão federal na hora de fazer suas projeções. Eles esperavam, a cada ano ou a cada mês, uma gestão macroeconômica tão ruim quanto a do ano anterior, mas foram surpreendidos por uma pior ainda.

A média das previsões para 2016, indicada pelo relatório Focus mais recente, é de alta  7% para a inflação e de queda de quase 3% para o PIB. Até o fim do ano, descobriremos se os analistas ajustaram suas expectativas corretamente desta vez ou se o governo Dilma foi, mais uma vez, capaz de surpreende-los para pior.

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Analista: “Não apostem dinheiro de verdade nas minhas projeções!”.

 

De alguns meses para cá, passei a detestar a definição de leveza de Milan Kundera, que aparece logo no início da Insustentável leveza do ser. No livro, o descompromisso do personagem principal, sua leveza, permite que ele sobreviva a uma ditadura opressiva sem ser esmagado pelas decisões do governo. O mundo é leve: é melhor não se preocupar.

Mas, no Brasil de hoje, acontece o contrário: os governantes são leves. Eles andam despreocupados, alocando no fundo partidário verba que podia ir para o combate à Zica. Na prática, matam gente para ter mais recursos para a propagada eleitoral. E isso, sem angústia, sem sentimento de culpa. O mundo é leve: é melhor não se preocupar.

O ministro da Saúde dá declarações em tom leve à imprensa, dizendo que é melhor as mulheres contraírem Zica antes da idade fértil, para se imunizarem antes da gravidez (sofrimentos, riscos e efeitos desconhecidos da doença à parte). O mesmo ministro diz que, se conseguirem produzir uma vacina, ela não será para todos (imagine gastar dinheiro público com vacinas!), será para grupos de risco. Quer dizer: em vez de política pública para erradicar a doença – como deve ser feito – ele optaria por um paliativo, que mantém para sempre a doença em circulação. Afinal, o mundo é leve e é melhor não se preocupar.

Essa capacidade de não olhar para os efeitos das próprias decisões é um primor de autonomia psicológica. É preciso ser muito duro (ou muito cego) para tomar decisões desse tipo e não fazer um harakiri depois. Ou então é preciso acreditar que o mundo é leve, que é melhor não se preocupar.

O ministro – trancado em um gabinete em Brasília – se sente a salvo do vírus (e de tantas outras doenças para as quais falta atendimento médico no país). Seus colegas, barganhando verbas de campanha, também se sentem a salvo (contanto que tenham verba para se reeleger). Ninguém se preocupa muito. O mundo é leve. Pelo menos para eles.

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Mais leve que uma pluma.

Zé Colmeia, o urso de desenho animado, está voando em seu planador-roubador-de-cestas-de-pique-nique para salvar o parque. É a primeira vez que voa e a namorada do guarda Belo grita para ele: “Não lute contra o vento Zé Colmeia!”.

É estranho tirar recomendações de administração de um filme de Zé Colmeia. Mas, hoje, é o melhor que posso fazer.

Para lutar contra o vento é preciso ter um bom projeto e ser grande, tipo ser o governo federal. Para quem é pessoa física ou empresa pequena, vale a recomendação da namorada do guarda.

Quem foi contra o vento na velha União Soviética, ou mesmo nos tempos de inflação alta no Brasil, morreu ou faliu muito rapidamente.

Mas, se isso vale para os pequenos, não vale para o governo. Do governo se espera alguma capacidade de influenciar os ventos (nem que seja só os monetários, fiscais ou, vá lá, as expectativas de quem está em volta).

Quando o governo segue o vento (e o vento é ruim), ele deixa de fazer as coisas difíceis (tipo reformas fiscais e administrativas) e cede a todo tipo de pressão.

Acho que continuaremos vendo isso por muitos meses: um governo fraco que se ajusta via inflação (porque esse é o jeito mais fácil para ele).

Os gastos públicos não serão cortados, serão erodidos pela falta de reajuste dos servidores. Os serviços vão piorar pelo corte de terceirizados e da verba de manutenção. A insegurança vai crescer – tanto a econômica (desemprego, não renovação de contratos, queda de renda) quanto a física (mais roubos e assaltos).

E o governo, diante de tudo isso, seguirá a recomendação da namorada do guarda Belo: irá para onde os ventos o levarem.

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Cacto decorativo – e espinhento.

Patrimônio, riqueza, ativos, chame como quiser. Eles estão a venda. Basta andar pelo centro de qualquer grande cidade do país para ver as placas de “vendo” nas lojas fechadas, basta andar nos bairros residenciais e ver as placas nos apartamentos.

Em cidades de veraneio, o surto de “vendo” e “alugo” nos portões das casas é ainda maior.

Ações, cotas de empresas e afins despencaram de preço. O índice de bolsa de São Paulo caiu mais de 13% em 2015. Se descontarmos a inflação, dá mais de 23% de queda. Isso depois de já ter caído em 2014.

Quer dizer: os donos de casas, lojas e participações em empresas estão vendendo o que podem.

E há quem possa comprar. As aplicações em títulos públicos pós-fixados e indexados ao câmbio não perderam valor (esses últimos realmente ganharam). Ao mesmo tempo, para quem é de fora do país, a alta do dólar aqui fez tudo ficar bem mais barato.

Mas, por que as pessoas não vendem seus títulos públicos e compram os apartamentos anunciados? Por que os estrangeiros não vêm aqui atrás de todas essas ações com preços tão mais baixos.

Por vários motivos. O primeiro é que esses ativos (casas, lojas, fábricas) são usados para produzir – e produzir aqui é difícil. O segundo é que deixar o dinheiro em renda fixa (aqui ou no exterior) é muito mais seguro do que comprar ações da Vale ou da Petrobrás. O terceiro é que, em épocas de crise, é bom ter ativos com liquidez, como títulos de dívida do governo, que não são difíceis de vender se você precisar de dinheiro rápido. O quarto é que não há perspectiva de que a crise econômica vá passar tão cedo, então, por muito tempo a oferta de ativos vai crescer mais que a demanda – e seu preço vai continuar em queda.

Sim, se os donos de apartamentos tivessem expectativas racionais (do tipo que o economista Robert Lucas até hoje acha que tem) eles diminuiriam o preço dos imóveis a venda até equilibrar o mercado imobiliário novamente.

Mas isso não vai acontecer. As expectativas se adaptam lentamente às mudanças da economia.

A queda de preços, então, será lenta (e longa).

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Imóveis deteriorados, Cidade baixa, Salvador – sem preço.