A ilha da Dra. Dilma

janeiro 23, 2013

É consenso entre os economistas (lobistas excluídos) que a crise dos anos 80 foi efeito das políticas temerárias do governo Geisel. Geisel deixou a inflação acelerar e não quis o ônus de fazer um ajuste que desacelerasse muito o crescimento. A ordem foi aumentar os empréstimos subsidiados do BNDES e criar novas estatais.

Dilma sempre copiou o governo Geisel. Mas a ânsia de imitar o erro chegou hoje ao grotesco. Acabei de ver na TV, em rede nacional, a presidente citar uma das mais malfadadas frases do general presidente. Segundo Dilma: “O Brasil avança sem retrocesso em um mundo cheio de dificuldades”.

Quem é um pouco mais velho (ou gosta de história recente) lembra do ditador dizendo na TV que “O Brasil é uma ilha de prosperidade num mar de turbulência”.

Ela está debochando do público? Está fazendo piada com as comparações entre ela mesma e o general dos anos 70? Ou foi do marqueteiro (redator do discurso) a piada sem graça?

Porque a política econômica é a mesma – e Dilma  jura que não vai mudar, diz que vai manter a política e o ministro da Fazenda.

O problema é que os efeitos das políticas temerárias não são imediatos. A inflação não dispara em um dia: ela vai se acumulando e crescendo até que – em algum momento – as pessoas se dão conta de que fugiu do controle.

Em seu discurso, Dilma chamou todos os opositores de pessimistas e prometeu o melhor dos mundo possíveis – embora esteja correndo na direção oposta. A impressão que dá é que realmente está isolada em uma ilha de prosperidade, no meio de Brasília. Perto dela,  assessores que ganham mais de R$ 30 mil por mês lhe dizem que está tudo sob controle. E ela acredita ou, pelo menos, se nega a demitir o pior deles – por mais previsões que erre.

Tudo tranquilo, no melhor dos mundos possíveis aqui em volta.

Tudo tranquilo, no melhor dos mundos possíveis aqui em volta.

FrancoFinn Kydland e Edward Prescot ganharam o Nobel de economia de 2004 por seus estudos sobre a consistência da política econômica ao longo do tempo. Resumindo muito, concluíram que a economia funciona melhor se o governo estabelecer regras claras e seguir essas regras. Funciona melhor do que se, a todo momento, o governo mudar as regras para colher benefícios de curto prazo.

“Regras são melhores do que políticas discricionárias” é mais ou menos o resumo das suas conclusões.

Encontrei um bom capítulo sobre a tese dos dois acadêmicos em As leis secretas da economia, novo livro do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco.

O livro, até onde eu li (estou quase no meio), é uma espécie de A arte da guerra para banqueiros centrais – e é escrito com uma dose bem medida de veneno e referências ao “saco de maldades”, que os repórteres gostavam de atribuir a Franco nos seus tempos de BC.

Ele é uma coletânea de observações sobre a economia brasileira, feitas pelo próprio Franco ou por  economistas como Pedro Malan e Mário Henrique Simonsen.

Uma das boas tiradas é o “Princípio da contraindução de Bacon”, formulado por Simonsen depois de ver vários planos econômicos heterodoxos darem errado.

Segundo o princípio, “uma experiência que dá errado várias vezes deve ser repetida até que dê certo”. Bacon, um dos  inventores do empirismo, acharia a ideia muito curiosa.

Guido Mantega e Dilma Rousseff (que agora assina como co-autora pessoal da política econômica) faltaram a aula sobre Kydland e Prescot quando estavam no mestrado. É por isso que mudam o IOF quase todo o mês, prorrogam isenções fiscais temporárias a cada três meses e intervém, a cada quatro, em uma atividade econômica diferente (petróleo, eletricidade, bancos…).

Sobre Francis Bacon, certamente leram pouco. Os heterodoxos brasileiros nunca foram muito adeptos da observação do mundo real como critério para formular e avaliar teorias.

Um amigo me enviou outro dia um bom artigo resumindo as idéias do profeta heterodoxo Hyman Minsky. Profeta ou não, Minsky é um pouco chato no original. Por isso, vale a pena ler resumos sobre ele. Para quem quiser, este, de L. Randall Wray, dá uma boa ideia do que o analista de depressões econômicas pensava.

O texto tem um trecho especialmente bom sobre os efeitos da redução da taxa de juros em tempos de crise:

“Para Minsky, a taxa de juros não seria uma grande força de estabilização: (…) reduzir as taxas durante um colapso não faria muito para encorajar o endividamento se as expectativas estivessem muito ruins [devasted]” (página6).

Aqui na terra dos papagaios, é difícil prever como os juros baixos vão afetar o investimento (e o crescimento da economia). O Banco Central faz suas projeções a partir de modelos econométricos, mas a econometria tem limites: alguns bastante curtos.

O problema é exatamente o discutido por Minsky: a relação entre juros e consumo, entre juros e investimento, enfim, entre juros e demanda, não é simétrica.

É mais fácil ver isso pensando no caso da renda. Uma pessoa que tem um aumento de salário rápidamente passa a consumir mais. Uma que tem uma redução, demora a mudar seu padrão de consumo. Antes de cortar a assinatura do jornal e a sobremesa do almoço, ela pode gastar parte de suas economias, ou parar de poupar (se antes conseguia economizar).

Mas modelar essas diferenças de efeito é complicado. A maior parte dos modelos econométricos trata um aumento de 1% em alguma variável como tendo o mesmo efeito (mas na direção contrária) de uma redução de 1%.

Não temos um histórico muito bom de reduções de juros aos níveis atuais (simplesmente nunca aconteceu, pelo menos não desde que o Brasil passou a ter dados disponíveis para análises econométricas). As previsões, então, ficam mais difíceis.

Com mais dificuldade para enxergar o que vem por aí, governo e BC deviam ficar mais cautelosos – e não mais histriônicos – deviam esperar para ver (e não sair mudando IPIs, IOFs e outros). Deviam diminuir sua exposição aos efeitos de erros de previsão.

Mas a aceleração da inflação nos últimos meses – com queda nos juros e comunicados obscurantistas do Banco Central (ele não admite nem que está travando o câmbio), dão a impressão de que o governo quer pisar do acelerador – mesmo levando em conta a chance de abismo no fim da curva.

Areia na beira d'água em Armação dos Búzios: analise como conseguir.

Areia na beira d’água em Armação dos Búzios (RJ): analise como conseguir.