Até o dia 8 de agosto, vai estar de graça, no site da amazon, o livro que inscrevi no Prêmio Kindle de Literatura.

O site não permite que os livros sejam anunciados de graça por mais de cinco dias (de 4/8 a 8/8). Depois disso, então, o livro passará a custar R$ 1,99.

O livro conta a história de três estudantes de economia – do dia do trote na faculdade até os empregos no mercado.

A personagem mais curiosa é Patrícia, que, vendo os projetos assustadores da consultoria onde trabalha e as coincidências estranhas que acontecem à sua volta, se convence de que seu chefe é o diabo em pessoa.

Tentei implicar democraticamente com todas as escolas de pensamento econômico. Mas a parte mais divertida do texto é a do chefe diabólico que, pragmático, não parece seguir escola nenhuma.

O livro pode ser baixado para kindle, ipad e afins (e também lido na tela do computador) a partir da página neste link.

Feito em casa.

Por que ler os clássicos

dezembro 17, 2014

Clássicos são livros que mudam até o que foi escrito antes deles.

Depois de ler um clássico – se for mesmo um clássico – você não vai conseguir ver com os mesmos olhos o que foi escrito antes.

Isso vale para literatura, mas vale mais ainda para as ciências e para coisas mais  ou menos científicas, como Economia.

Pensei nisso esta semana vendo um vídeo do analista de risco Nassim Taleb e do psicólogo Daniel Kahneman. Sempre achei Taleb um bom analista, mas coube a Kahneman, Nobel de Economia e especialista em escolhas e preferências, lembrar a Taleb que ele, Taleb, é um conservador – e que o que propõe é interessante para quem já tem uma boa conta bancária (mas inviável para a maior parte da população).

Esse comentário – rápido e discreto, no meio de um vídeo de mais de uma hora – me soou duro e certeiro. Mas soou assim graças a um outro teórico, Thomas Piketty, que mapeou a concentração de patrimônio e mostrou que a maior parte da população não tem nenhum: tem saldo zero na poupança ou até dívida, nem sonha em ter ações ou imóveis.

Para esses leitores descapitalizados, as recomendações de Taleb são bem menos aproveitáveis.

Os livros de Taleb, escritos antes, se tornaram menos interessantes depois da publicação de O Capital no Século XXI – desde já, um clássico.

piketty

Dois clássicos e um

bom livro.

bom livro.

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Piketty incendiário

julho 5, 2014

Uma das coisas estranhas em ler Capital no Século XXI é ver como a maior parte das resenhas sobre o livro foi escrita por gente que não o leu.

Eu sei: os prazos da imprensa são curtos e – tirando notas, referências bibliográficas etc. – o livro tem 577 páginas.

Resumindo: Thomas Piketty, o autor, se defende antecipadamente de todas as críticas que li ao seu livro – em resenhas tupiniquins e estrangeiras. Ele sabia quem seriam os seus críticos e que tipo de críticas iriam tentar fazer.

Mas, muito melhor do que isso: ele escreveu que temos um problema bizarro de concentração do patrimônio: com os 10% mais ricos nos EUA, por exemplo, sendo donos de 70% do capital do país (imóveis, ações, empresas, títulos de dívida, terras, patentes etc.). Pior: o 1% mais rico é dono de 35% capital total do país.

Na Suécia, famosa pelo igualitarismo, os 10% do topo têm 50% dos ativos e o 1% mais rico, 20%. Longe da imagem de igualitarismo.

No Brasil… No Brasil não dá para saber. A Receita Federal não permite que as  pessoas atualizem o valor de seus bens no Imposto de Renda. Ela obriga todos a manter o valor de compra dos ativos na declaração – para cobrar imposto em cima da diferença entre o valor de compra e o de venda, quer dizer: para cobrar imposto sobre a inflação.

O resultado é que, para o Brasil, não dá para fazer a conta, muito menos para fazer como Piketty e ver a evolução da concentração do capital ao longo do tempo (ela aumentou muito desde os anos 80, nos países em que há dados).

Mais: a partir das extensas bases de dados fiscais de Piketty, dá para explicar por que a concentração de patrimônio aumenta (é porque a rentabilidade do capital é maior que o crescimento da economia) e propor maneiras de evitar que a concentração aumente ainda mais.

O futuro sem correções de rumo que podemos ter pela frente é parecido com o passado. É como o período pré-Primeira Guerra Mundial, quando o capital era ainda mais concentrado que hoje. Era um tempo em que o mérito contava pouco e o único jeito de ter uma vida “confortável” era ser herdeiro.

Como o capital crescia sozinho (rendia entre 4% e 5% ao ano, em média, enquanto a renda dos países crescia muito menos do que isso), quem já tinha capital ganhava cada vez mais e quem não tinha ficava com uma parte cada vez menor do bolo.

E estamos voltando para lá, para o mundo dos rentistas. A relação entre patrimônio e renda está voltando ao nível pré-Primeira Guerra e a concentração desse patrimônio no topo da pirâmide, também.

O curioso é ver como o ataque de Piketty ao 1% do topo (que tem que pagar mais imposto!) passou bem pelas críticas de lobistas dos mais diversos coloridos ideológicos.

Ultra-ortodoxos como Kenneth Rogoff não conseguiram achar erros conceituais ou desmentir o que a belas bases de dados de Piketty mostram.

Um editor do Financial Times tentou, só para ser lindamente desmontado por uma  réplica de Piketty.

Marxistas mumificados se levantaram dos sarcófagos para criticar Piketty (para quem Marx fez perguntas certas, mas encontrou respostas erradas) e não conseguiram: simplesmente não fizeram mais do que balbuciar que gostam mais de Marx (problema deles).

Em suma: mal atacado pela esquerda e pela direita, Piketty segue como o autor do melhor livro de economia do século (até agora).

É bom ver que a economia pode ser útil, que pode ser mais do que modelos pouco aplicáveis e hipóteses impossíveis de testar (tipo expectativas racionais e outras besteiras que ensinam na faculdade).

O animador no livro de Piketty é ver que a economia pode ajudar a tornar o mundo menos nebuloso, que serve para destacar o que tem importância e que mecanismos produzem, por exemplo, a nossa crescente concentração de renda e patrimônio. O animador – para um economista – é ver que os economistas não precisam trabalhar em bancos e consultorias (Working for the few, como já disse uma ONG que trabalha com combate a pobreza). Há mais na economia do que isso.

Lobista conservador pensa em como criticar "Capital no século XXI".

Lobista conservador pensa em como criticar Capital no século XXI.

O diabo em Moscou

abril 17, 2012

Devia ter escrito isso há mais tempo. Há algumas semanas, doente, achei na estante uma edição americana de Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov. No livro – escrito em Moscou no auge do stalinismo – o diabo, em pessoa, visita a cidade.

Não é fácil ser o diabo em um país oficialmente ateu. Seus assistentes têm, de tempos em tempos, que explicar a seus interlocutores que não vão prendê-los, que não são da polícia secreta.

Mas não foi por isso que achei que valia a pena resenhar um clássico russo no meio de posts sobre economia a atualidades.  É porque o livro é uma espécie de experiência religiosa, até para os céticos. Bulgakov nem se deu ao trabalho de tentar faze-lo passar pela censura. Sabia que seria obra póstuma. Sem problema: “os manuscritos não queimam”, diz o diabo, já quase no fim do livro.

No primeiro capítulo, “Não fale com estranhos”, o diabo aparece e interrompe uma conversa entre um escritor com cara de esfomeado e seu editor – que encomenda um verso sobre a não existência de Cristo. – Nunca existiu. É uma colagem de mitos de várias origens – garante o editor.

O sujeito estranho que se mete na conversa – por acha-la interessante – dá um passo além de Dostoievski:  – mas se deus não existe, então quem está no controle?

– O homem, responde o editor.

O diabo, que afinal de contas é o diabo, descreve então a sequência de coincidências que vai fazer com que o editor seja decaptado por um bonde em alguns instantes.

Se não dá para saber se você vai estar vivo para jantar, você controla o quê?

O editor, crente que está falando com um louco, vai atrás de um telefone para chamar o órgão estatal encarregado dos loucos. Antes que termine de atravessar a rua, uma mulher sem querer derrama o óleo que está carregando, o editor escorrega e vai praticamente sendo arrastado para os trilhos…

Mas isso não dá ainda uma boa ideia do livro. O diabo quase não fala na história, Cristo, outro personagem, menos ainda. Mas quando falam, são deus e o diabo falando, como só os escritores de verdade sabem fazer.

Engraçado que boa parte das bruxarias e personagens míticos que enchem os cinemas desde Harry Potter já estavam lá. O diabo e sua entourage, deixariam Voldemort morrendo de medo. Cheio de referências escondidas (realmente fiquei com vontade de ler as notas no fim do livro), Mestre e Margarida tem ainda personagens simpáticos como Behemoth – bem humorado gato falante capaz, literalmente, de arrancar cabeças. É ele quem ilustra a capa de quase todas as edições do livro.

O livro enterra o stalinismo para sempre. A Rússia dos anos 30 é descrita com uma ironia tão seca que sobra pouca coisa. Das disputas para ocupar apartamentos – controlados por administrações locais corruptas – às regalias para escritores pró-regime, pouca coisa escapa.

Bulgakov, o escritor perseguido que não conseguia fazer suas peças serem encenadas e seus livros publicados, no fim, vence, mesmo depois de morto. Quem leu o livro sabe que, para ele, esse é um bom final.