Depois de dias praticando lançamento de decreto – sua especialidade – o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, resolveu promover sua proposta para as Olimpíadas do Rio: a inclusão da briga de rua como esporte olímpico.

“O importante é tomar a iniciativa e partir para cima.”

Depois de confessar no rádio ter agredido um músico, Paes foi informado de que poderia ser indiciado por lesão corporal. Formado em direto (embora nunca tenha feito a prova da OAB), Paes pareceu não se lembrar de que o crime tem pena de reclusão e que condenações em segunda instância – agora – impedem candidaturas (Lei da Ficha Limpa).

Para o prefeito, xingar autoridade é que devia ser delito (e bater em músico, esporte olímpico).

“Eu sei do que estou falando, fui secretário de Esportes antes de ser prefeito, fui eu quem fez a reforma anterior do Maracanã”, teria lembrado o prefeito. Paes gastou R$ 500 milhões do dinheiro público na reforma que preparou o estádio para ser reformado de novo, menos de 10 anos depois (agora por R$ 1 bilhão).

A lembrança fez muitos torcedores darem razão ao músico que xingou o prefeito. Eles agora esperam que a briga de rua seja mesmo incorporada ao calendário olímpico e que o prefeito a dispute – sem a ajuda de seus seguranças.

Samurai japonês que estava no restaurante onde o prefeito socou o músico. "Bate muito mal. É um fanfarrão."

Samurai japonês que estava no restaurante onde o prefeito socou o músico: “Bate muito mal. É um fanfarrão.”

Ministros sorriem para as câmaras e dão declarações para a imprensa: são políticos querendo se promover. No dia-a-dia dos ministérios, quem manda são os secretários executivos. Por isso é um pouco assustador que, de uma hora para outra, quatro deles peçam para sair. E não são secretários de segunda linha: pediram para sair os secretários da Casa Civil, da Fazenda, da Indústria e Comércio e das Comunicações.

Dois disseram que querem fazer doutorado. Um – que já tem doutorado – volta para a UFRJ e outro, Dilma disse que vai alocar em algum outro canto do governo (mas no Ministério da Industria e Comércio, responsável, entre outros órgãos, pelo BNDES, ele não quer mais ficar).

Quando li a notícia lembrei de W.B. Yeats, poeta nacional da Irlanda. Em um verso sobre o fim do mundo, Yeats lançou uma de suas frases mais famosas: The best lack all conviction, while the worst / Are full of passionate intensity.

Numa tradução groseira: Os melhores não tem nenhuma convicção enquanto os piores são cheios de intensidade passional.

Ok, é um pouco dramático mas, depois que a presidente declarou que “pela reeleição a gente faz o diabo”, muita coisa estranha começou a acontecer no governo. E quem está perto – mas discorda -, no máximo, pede as contas.

O ideal, inclusive, é pedir o boné com descrição. Afinal, ninguém quer brigar com um governo que está pronto para “fazer o diabo”.

O contraste de Yeats está aí. Os defensores da reeleição-a-qualquer-preço pedem cadeia de rádio de TV para dizer – com toda a convicção – as maiores abobrinhas. Os executivos mais responsáveis – que vêem que a coisa não está bem – discretamente pedem o boné.

Não parece um cenário promissor.

Detalhe da Porta do Inferno, de A. Rodin.

Detalhe da Porta do Inferno, de A. Rodin.